quarta-feira, 1 de março de 2017

A quaresma e o desafio de ser cristão

A quaresma e o desafio de ser cristão

Após os relatos das curas que Jesus de Nazaré realizou (Mt 8,1-17), há um trecho que fala de algumas exigências da vocação para seguir Jesus. Antes de comentar sobre essas é necessário afirmar que os milagres do Nazareno são sinais da presença do Reino/Império de Deus, quer dizer, a ação libertadora divina, realizada por Jesus, o Nazareno, para o ser humano viver a vida em plenitude já aqui na terra. Dito isso, passamos para Mt 8, 8,18-22 que fala de duas exigências radicais do seguimento de Jesus. Ser cristão, não é apenas realizar umas práticas religiosas e fazer ‘caridade’. O texto examinado aqui aponta para duas implicações incomuns e até assustadoras. O primeiro refere ao pedido de um doutor da Lei que aspira seguir a Jesus. O Nazareno avisa-lhe: embora até as criaturas como raposas tenham tocas e os pássaros do céu seus ninhos, ‘o filho do homem’ nem tem onde repousar sua cabeça. O segundo reporta as palavras que Jesus dirige a um dos seus que quer priorizar uma necessidade familiar. Surpreendente, na fala de Jesus, mesmo os laços familiares não podem ser acima da causa do Reino!

Agora passamos para a segunda série das narrativas dos milagres começa em Mt 8,23 e vai até 9,8. O primeiro milagre é o de acalmar a tempestade no mar (Mt 8,23-27). Aqui é necessário recordar, que, de acordo com a mentalidade daquele tempo, o mar era o lugar donde se originavam as forças caóticas e os poderes promotores do mal. Isto ajuda muito para interpretar melhor este sinal (cf. também Dn 7; Ap 13). Jesus, com sua palavra controla o mar com todos os seus poderes maléficos. No momento, a fé dos discípulos é fraca, visto que eles ainda estão com medo, ou seja, continuam dominados por estas mesmas forças que Jesus vem submeter. Seguir Jesus é um confronto tempestuoso com poderes cósmicos, políticos, sociais, econômicos e religiosos. O barco pode ser considerado um retrato da comunidade de discípulos (a igreja) ameaçada por um mundo malvado, mas confortada pela presença de Jesus.

O próximo relato é da libertação dos endemoninhados de Gadara (Mt 8,28-34). O profeta Jesus está numa terra estrangeira. Os dois endemoninhados que vão ao seu encontro carregam, de forma profunda, muitos efeitos e formas de dominação pelas políticas imperiais romanas. A intervenção libertadora de Jesus envia os poderes malignos para o fundo do mar. Aqui é conveniente lembrar-se do destino do exército egípcio que perseguia os hebreus, liderados por Moisés (cf. Ex 14,15-31). Contudo, é impressionante, a reação da população de Gadara que implora Jesus que se retirasse do seu território. Estão tão acostumados com a dominação que se incomodam com a presença de alguém com ideias libertadoras, como Jesus de Nazaré, no meio deles.

O capítulo nono começa contando a chegada de Jesus a sua cidade. (Mt 9,1-8). Levaram um paralitico deitado na maca a ele. Vendo a fé deles, o Nazareno curou-o. É de admirar que ele perdoasse os pecados do doente primeiro, nulificando um mito de época: a doença é castigo de Deus pelos pecados! Percebendo a presença de contestadores da sua ação, Jesus afirma a autoridade cedida aos seres humanos por Deus a anunciar o perdão dos pecados. O acontecido foi um afronto aos guardiões de ‘bons costumes’, os fariseus. De um lado, a reação dos populares ao que Jesus fez, foi gratidão e a glorificação de Deus por ter dado tal poder aos mortais. De outro lado não faltou medo nas mesmas pessoas, pois os detentores de poder e os guardiões de ‘bons costumes’ são impiedosos com aqueles que têm a audácia de modificar, ou pior ainda, invalidar as ‘tradições sagradas’.

Em seguida nós temos mais um momento de compreensão do discipulado (Mt 9,9-17). É uma feliz coincidência que essas reflexões estão sendo feitas no tempo de quaresma. Ser cristão quebra todos os tabus e fetiches tradicionais para que manifestasse o homem novo e o mundo novo em que se viva o amor gratuito de Deus de maneira concreta. Esta vida é uma festa, embora não seja ininterrupta. Abordaremos as questões que o texto levanta na próxima.


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