A quaresma e o desafio de ser
cristão
Após
os relatos das curas que Jesus de Nazaré realizou (Mt 8,1-17), há um trecho que
fala de algumas exigências da vocação para seguir Jesus. Antes de comentar
sobre essas é necessário afirmar que os milagres do Nazareno são sinais da
presença do Reino/Império de Deus, quer dizer, a ação libertadora divina,
realizada por Jesus, o Nazareno, para o ser humano viver a vida em plenitude já
aqui na terra. Dito isso, passamos para Mt 8, 8,18-22 que fala de duas exigências
radicais do seguimento de Jesus. Ser cristão, não é apenas realizar umas
práticas religiosas e fazer ‘caridade’. O texto examinado aqui aponta para duas
implicações incomuns e até assustadoras. O primeiro refere ao pedido de um
doutor da Lei que aspira seguir a Jesus. O Nazareno avisa-lhe: embora até as
criaturas como raposas tenham tocas e os pássaros do céu seus ninhos, ‘o filho
do homem’ nem tem onde repousar sua cabeça. O segundo reporta as palavras que
Jesus dirige a um dos seus que quer priorizar uma necessidade familiar. Surpreendente,
na fala de Jesus, mesmo os laços familiares não podem ser acima da causa do
Reino!
Agora
passamos para a segunda série das narrativas dos milagres começa em Mt 8,23 e
vai até 9,8. O primeiro milagre é o de acalmar a tempestade no mar (Mt
8,23-27). Aqui é necessário recordar, que, de acordo com a mentalidade daquele
tempo, o mar era o lugar donde se originavam as forças caóticas e os poderes
promotores do mal. Isto ajuda muito para interpretar melhor este sinal (cf. também
Dn 7; Ap 13). Jesus, com sua palavra controla o
mar com todos os seus poderes maléficos. No momento, a fé dos discípulos é
fraca, visto que eles ainda estão com medo, ou seja, continuam dominados por
estas mesmas forças que Jesus vem submeter. Seguir Jesus é um confronto
tempestuoso com poderes cósmicos, políticos, sociais, econômicos e religiosos.
O barco pode ser considerado um retrato da comunidade de discípulos (a igreja)
ameaçada por um mundo malvado, mas confortada pela presença de Jesus.
O
próximo relato é da libertação dos endemoninhados de Gadara (Mt 8,28-34). O
profeta Jesus está numa terra estrangeira. Os dois endemoninhados que vão ao
seu encontro carregam, de forma profunda, muitos efeitos e formas de dominação pelas
políticas imperiais romanas. A intervenção libertadora de Jesus envia os
poderes malignos para o fundo do mar. Aqui é conveniente lembrar-se do destino
do exército egípcio que perseguia os hebreus, liderados por Moisés (cf. Ex
14,15-31). Contudo, é impressionante, a reação da população de Gadara que
implora Jesus que se retirasse do seu território. Estão tão acostumados com a
dominação que se incomodam com a presença de alguém com ideias libertadoras,
como Jesus de Nazaré, no meio deles.
O
capítulo nono começa contando a chegada de Jesus a sua cidade. (Mt 9,1-8).
Levaram um paralitico deitado na maca a ele. Vendo a fé deles, o Nazareno curou-o.
É de admirar que ele perdoasse os pecados do doente primeiro, nulificando um
mito de época: a doença é castigo de Deus pelos pecados! Percebendo a presença
de contestadores da sua ação, Jesus afirma a autoridade cedida aos seres
humanos por Deus a anunciar o perdão dos pecados. O acontecido foi um afronto
aos guardiões de ‘bons costumes’, os fariseus. De um lado, a reação dos
populares ao que Jesus fez, foi gratidão e a glorificação de Deus por ter dado
tal poder aos mortais. De outro lado não faltou medo nas mesmas pessoas, pois
os detentores de poder e os guardiões de ‘bons costumes’ são impiedosos com
aqueles que têm a audácia de modificar, ou pior ainda, invalidar as ‘tradições
sagradas’.
Em
seguida nós temos mais um momento de compreensão do discipulado (Mt 9,9-17). É
uma feliz coincidência que essas reflexões estão sendo feitas no tempo de
quaresma. Ser cristão quebra todos os tabus e fetiches tradicionais para que manifestasse
o homem novo e o mundo novo em que se viva o amor gratuito de Deus de maneira
concreta. Esta vida é uma festa, embora não seja ininterrupta. Abordaremos as
questões que o texto levanta na próxima.

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