quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020 0 comentários

O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (3)


O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (3)
Está na hora de examinar o discurso escatológico nos outros evangelhos sinóticos. No texto de capítulo 24 do Evangelho de Mateus nós temos todo o conteúdo que encontramos em Marcos, com uma elaboração mais ampla. Dá para sentir neste texto até uma tensão maior que existe entre Jesus e seus adversários, os detentores de poder. Já no capítulo 21 de Mateus, bem antes do texto que fala do fim dos tempos, há um discurso implacável de Jesus contra a hipocrisia religiosa das elites (Mt 21,1-12). Os sete “ais” contra os escribas e fariseus que exerciam controle despótico da vida religiosa do povo judeu (Mt 23,13-36) não deixa ninguém dúvidar quanto ao que Jesus sentia a respeito dos seus adversários.
No capítulo 25 de Mateus, que vem depois do texto de discurso escatológico (cap.24), há duas parábolas que elaboram e enfatizam a necessidade de estar vigilantes para poder entrar no Reino de Deus. A parábola das dez virgens (vv.1-13) e a parábola dos talentos (vv.14-30) necessitam de “hermenêutica de suspeita” para descobrir sua mensagem para nós hoje. À primeira vista não aparece o significado mais profundo que o Nazareno comunica.
Neste capítulo há ainda uma terceira parábola que elabora detalhadamente o julgamento das nações (vv.31-46). O notável no juízo final é a importância da decisão humana baseada nos valores do Reino para poder entrar neste Reino, preparado para todos os povos, desde a criação do mundo.
Passando mais adiante para o Evangelho de Lucas, é no seu capítulo 21 que encontramos o discurso escatológico. Aqui há um acréscimo, um fato que tinha exacerbado a tensão entre Jesus e as elites hierosolimitanos. Jesus demoliu a imagem popular que se tinha, entre as elites principalmente, de o Messias ser o “filho de Davi” (Lc 20,41-47). Efetivamente o Nazareno deixou a identidade de Messias como um enigma. O texto de Lucas, em seguida, tem a condenação contra a hipocrisia religiosa, menos detalhada do que no evangelho de Mateus, mas nem por isso menos severo.
O discurso escatológico começa com Jesus elogiando a generosidade da pobre viúva, vítima do sistema (cf. Lc 20,47). São os mesmos elementos que encontramos em Marcos e Mateus, que compõem a fala de Nazareno sobre “o fim dos tempos”: a destruição do templo; tentativas para enganar pelos falsos profetas e messias, perseguição, rumores de guerras, traições, revoluções e fenômenos naturais fora de comum. O importante no meio de tudo isso é ficar sobreaviso, persistir e atravessar estes momentos dando testemunho. A destruição de Jerusalém e a vinda do Filho do Homem, são sinais que apontam para a libertação, a instauração do Reino de Deus. E a práxis de Jesus de Nazaré, contada nos evangelhos, não deixa dúvida alguma sobre este Reino, que é uma maneira radicalmente nova de organizar a sociedade humana. Para Lucas também, aprender a lição da figueira e orar e vigiar sempre para que as preocupações de vida como a riqueza e a busca de poder não desviem os discípulos do seu caminho. Percebemos que vigilância permanente é a atitude requerida do discípulo missionário cidadão de hoje.
Aqui surge uma pergunta: o que é que estes textos têm a ver com os nossos dias? Será que eles contêm alguma mensagem relevante para os cristãos de hoje? Não é difícil notar a semelhança dos nossos tempos com a época de Jesus e, as expectativas que marcavam os povos daqueles tempos. O nosso mundo hoje passa por um momento de, o que pode ser caracterizado como “dores de parto”. Ideologias, políticas e doutrinas tradicionais estão sendo reexaminadas em nossos dias, já que elas não correspondem mais aos anseios do coração humano. Há uma polarização visível diante do avanço brutal do neoliberalismo. Elementos como Vladimir Putin, Donald J. Trump, Xi Jiping, Narendra Modi, Jair Bolsonaro e seus similares, no poder, são catalisadores de todo um processo histórico em percurso hoje.
Na atualidade, mercadores de sentimentos religiosos, que enganam os crédulos e desatentos, não faltam. Quanto a “a abominação de desolação” (Mc 13,14) resta pouca dúvida quanto à sua identidade hoje: o consumo desenfreado e a adoração de deus “lucro”. Vemos que aqueles que permanecem firmes na sua fé em Deus revelado na pessoa de Jesus de Nazaré, um Deus Libertador, são contundidos por empreendimentos bilionários usando técnicas mais atualizadas do marketing e bullying. Um exemplo disso é a campanha que Steve Bannon, que foi o coordenador da campanha eleitoral que levou Donald J. Trump a presidência dos EUA, encabeça contra o Papa Francisco, caracterizando-o “comunista”, numa tentativa de subjugar a Igreja Católica aos interesses econômicos nefastos imperialistas dos EUA.
Não faz muito tempo, apareceram painéis ao ar livre, nas diversas localidades de Campo Grande-MS, desafiando o Arcebispo pronunciar sobre a supostamente “condenada teologia de Libertação”. É necessário, duvidar que esta faz parte da campanha para dominar e subjugar a todos ao deus de “ganância sem limites” do neoliberalismo neocolonial? Uma coisa ficou bem clara: os patrocinadores destes painéis: “nós os católicos”, sem dúvida uma fachada enganosa. Estes sofrem aparentemente de grande carência de formação e informação. Evidenciou-se simples desconhecimento da mensagem bíblica; em segundo lugar, não sabem que até agora ninguém condenou a Teologia de Libertação; em terceiro lugar, a ostensiva ignorância do significado da práxis de Jesus de Nazaré – o crucificado e Ressuscitado; pior ainda estes “nós os católicos” não tem noção nenhuma da doutrina social da Igreja Católica.
Além de tudo isso, mesmo dentro da Igreja católica há perplexidade, pois a facção que trabalhou para anular a abertura que a iluminação do Espírito Santo instaurou na Igreja eurocêntrica está sendo contestada por forças mais alinhadas com a abertura que o Concílio Vaticano II trouxe para ela, neste momento que tem marcas de “dores de parto”. Isto só reforça a relevância do verbo grego blepéte (=ficar atento, sobreaviso) usado quatro vezes no capítulo treze de Mc (13,5.9.23.33). É a capacidade de ler os sinais dos tempos e se posicionar no lado do Reino de Deus, o necessário hoje mais do que nunca!
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020 0 comentários

O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (2)



O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (2)


Para iniciar comentar sobre o texto do capítulo 13, o discurso escatológico no Evangelho de Marcos, é necessário primeiro, voltar ao capítulo anterior momentaneamente, para sentir a tensão palpável que existia entre Jesus e seus inimigos mortais, as autoridades judaicas como o pano de fundo dos pronunciamentos do Nazareno no capítulo 13.

As críticas severas que Jesus fez ao comportamento hipócrita das autoridades constituídas (Mc 12,38-40) que com suas práticas “devorava as viúvas” (Mc 12,41-44), e a parábola que Jesus conta dos agricultores assassinos (Mc 12,1-12) de um lado, e as contestações que essas autoridades fazem contra o anunciador do Reino de Deus pelos seus ensinamentos (cf. Mc 11,15-19; Mt 21,23-27); junto com as tentativas, por ora frustradas, para eliminar fisicamente o Nazareno (cf. Lc 20,1-47; Jo 7,30.32; 8,32; 11,50-57) nos dão uma ideia desta tensão fatal.

Entrementes, não dá para esquecer daquele mestre da lei, que, na opinião do próprio Jesus, “não está longe do Reino de Deus” (cf. Mc 12,28-34). E este capítulo doze do Evangelho de Mateus termina com o elogio que Jesus de Nazaré faz à generosidade da viúva que depositou apenas duas moedinhas, “tudo o eu tinha para viver”, enquanto os ricos depositavam ostensivamente, até somas vultosas (Mc 12,41-44).

Nas traduções modernas da Bíblia, divide-se o longo texto de 37 versículos do capítulo treze de Marcos em trechos pequenos, legendando-os, para auxiliar o leitor captar melhor a mensagem desta composição complexa. Os elementos que constituem sua totalidade são: a destruição do Templo; perseguições; a grande tribulação; a lição da figueira e a insistência sobre a necessidade de vigiar sempre. O imperativo do verbo grego Blépoo (=olhar, perceber, ficar atento) é empregado quatro vezes neste capítulo (Mc 13,5.9.23.33) para enfatizar a importância de ficar sobreaviso.

Aqui é preciso lembrar-se de que há um fator histórico importante que agravou a hostilidade dos judeus contra os cristãos: a não participação destes na defesa da cidade de Jerusalém sitiada pelo exército imperial romano no ano 70.
Voltando-se para o texto de capítulo 13 do Evangelho de Marcos: ao sair de templo, Jesus enaltece o óbolo de viúva aos seus discípulos, deslumbrados pela a magnificência do Templo.  A seu espanto, Jesus afirma que todo aquele esplendor será destruído completamente. Uma vez que chegaram ao monte das oliveiras um grupo de quatro deles fez questão de interpelar Jesus sobre o momento em que este desastre terrível aconteceria.

Em reposta, Jesus não localiza com precisão o momento, mas na sua característica maneira de ensinar através de metáforas, os acautelou para que ninguém os enganasse. Isto porque aparecerão falsos profetas e impostores, rumores sobre guerras e revoluções se espalharem e haverá fenômenos naturais de proporções extraordinárias, e muitos ficarão enganados. No entanto, ainda não é o fim, é apenas o começo.

Jesus aconselha aos seus redobrarem a atenção, pois eles mesmos serão denunciados, torturados e perseguidos por sua causa, a causa do Reino de Deus. A causa do Reino de Deus é, anunciar a possibilidade de um mundo alternativo ao da tradicional. E qual é o mundo alternativo? É um mundo baseado não na ganância que acumula por si só tudo o que for possível deixando os muitos na miséria. É um mundo baseado na solidariedade, fraternidade no igualitarismo e na partilha. Esta possibilidade se comprova nos milagres de multiplicação dos pães. É urgente é anunciar essa boa notícia (Evangelho) a todas as nações mesmo confrontando o poder do capital, que combate energicamente essa nova ideologia que ameaça seus “lucros”, e gera confusão e desalento.

A agitação, assim gerada, é como o início das “dores de parto” nas palavras de Jesus, o profeta de Nazaré. Neste momento, de acordo com ele, até as próprias famílias vão experimentar divisão no seu seio por causa do Reino de Deus. Vão entregar às autoridades todos aqueles que propõem mudanças que ameaçam o sistema vigente que privilegia as elites. Ao ser entregue às autoridades, deve o discípulo preocupar-se com sua defesa? Não. É o próprio Espírito Santo que vai fazer a defesa. O importante para o discípulo é perseverar firmes “até o fim”.

Nos vv. 14-27 se fala da grande tribulação. O início desta é o elevar da “abominação da desolação” aonde essa não deveria estar. O que temos nos vv.14-20, é provavelmente o que os cristãos fizeram para salvar suas vidas durante o cerco de Jerusalém pelos romanos. No que eles fizeram, foram motivados pela sua consciência da sua missão de anunciar a Boa Nova de Jesus com urgência, “antes do fim dos tempos” e a convicção de que a realização do plano salvífico de Deus para a humanidade não era mais o monopólio da nação judaica.

Há diversas instruções de ordem prática para salvar as vidas; além disso, há menção das dificuldades encontradas no processo de fuga por alguns grupos específicos e, finalmente, se exalta a necessidade de oração pedindo o auxílio do Senhor nestes momentos críticos.

Outra vez, temos referência a salvadores falsos até milagreiros oportunistas, que explorarão a dor do povo e lucrarão enormemente de desgraça alheia. A exortação é de ficar sobreaviso, permanecer firmes e não desviar do caminho do Reino. Há também uma referência à figura de Filho do Homem, que, vindo na sua glória, reunirá seus eleitos dos quatro ventos.

Em seguida nos vv. 28-31 ensina-se uma lição da figueira. É mais uma advertência sobre “ler os sinais dos tempos”. Está em percurso mudança radical e urgente (“esta geração não passará”) e essa mudança é definitiva. Há incertezas e perplexidades que marcam o momento; de novo, a instrução é para ficar atentos, igual aqueles servos a quem o homem que viajou, deixando sua casa e deu autoridade; cabe a eles aguardarem sua chegada de volta, vigilantes.
Pe. Kurian



sábado, 1 de fevereiro de 2020 0 comentários

O Nazareno fala do fim dos tempos (1)


Jesus de Nazaré – a Boa Nova para o século 21 (39)
O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (1)

Jesus de Nazaré atuou num mundo marcado por expectativas extraordinárias. O império romano que substituiu os anteriores estava introduzindo uma mudança qualitativa no exercício do imperialismo. Algo parecido está acontecendo na atualidade. O imperialismo dos EUA que tem a seu serviço tecnologias e técnicas nunca antes vista estão sendo usadas para recolonizar e ‘re-escravizar’ os povos com muito mais eficácia e sofisticação do que os romanos, atrás das fachadas de globalização e neoliberalismo.

É neste contexto que examinamos os primeiros doze capítulos do Evangelho de Marcos com o intuito de conhecermos melhor a pessoa de Jesus de Nazaré. E agora passamos a estudar um capítulo especial que, por assim dizer, faz a ponte entre a narrativa de práxis de Jesus e a narrativa do seu fim inglorioso pelas mãos de “autoridades constituídas”. Cristãos acreditam, desde sempre, que no Nazareno se plenifica definitivamente o plano salvífico de Deus para a humanidade. Este plano teria sido revelado progressivamente na história de Israel. Usamos essa chave hermenêutica para: (1) analisarmos os textos que falam dos milagres que o profeta itinerante realizou; (2) estudarmos suas parábolas que explicam o significado de Reino de Deus; e (3) finalmente perscrutarmos suas interpretações das leis e costumes tradicionais do seu povo. Isso tudo evidenciou a instauração do Reino de Deus, que é uma radical novidade na história humana, que ele anunciava. Nós vimos que os evangelistas também deixaram registrado as reações diversificadas que a práxis do rabino Jesus deu origem nas camadas diversas da sociedade palestinense do seu tempo.

Agora, para passarmos a examinar o capítulo 13 do Evangelho de Marcos, conhecido como o discurso escatológico: é conveniente elucidar sobre “o discurso escatológico” para melhor compreender o texto de capítulo 13 de Marcos. Escatologia é a disciplina que trata das coisas que devem acontecer no fim dos tempos, ou melhor: o discurso sobre o destino final do homem e do mundo; este pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto apocalíptico. Apareceu aqui outra expressão: “contexto apocalíptico”, que pede um esclarecimento maior. Apocalipse, uma palavra que vem da língua grega que significa “revelação”; ao longo de tempo, este termo passou-se a designar os relatos escritos dessas revelações, que constituem um gênero literário bíblico (literatura apocalíptica). Vale notar que, principalmente nos momentos de mudanças fundamentais, assim como no momento que vivemos no início do século 21, o ser humano fica ansioso sobre o futuro. A literatura apocalíptica discorre sobre essa ansiosa busca sobre o futuro do ser humano.

Considerando que os textos dos evangelhos chegaram a sua redação final pelo menos quarenta anos depois da morte e ressurreição de Jesus, não é de estranhar ao encontrar as experiencias das comunidades primitivas, na forma de profecias “in vaticínio” na boca de Jesus. “In vaticínio”, quer dizer, colocar as experiencias que as comunidades primitivas tinham passado, como previsões, na boca de Jesus. A história registra que as comunidades dos seguidores de Jesus que surgiram depois da morte e ressurreição do Nazareno foram perseguidas pelos romanos e os próprios judeus, assim como Jesus de Nazaré foi atormentado no seu tempo. É necessário mencionar que já no texto do capítulo 13 encontramos os elementos constitutivos da perseguição dos cristãos de todos os tempos. Outra observação é que, foi no primeiro século d.C. que o império romano extinguiu a nação judaica e esta seria reconstituída somente na segunda metade do século 20.


 
;