Vocação
cristã e a vida de Jeremias.
A
vocação profética para anunciar às nações tudo o que Deus quer
(Jr 1,1.4.-10) faz Jeremias sentir-se pequeno. Mas a consciência
humana da sua humilde condição não é obstáculo para Deus. Diante
dos protestos do profeta, Deus estende a mão, toca-lhe a boca e
coloca suas palavras na sua boca; constituiu-lhe profeta sobre povos
e reinos com poder para extirpar e destruir, devastar e derrubar,
construir e plantar. Neste episódio Deus se mostra como alguém
muito magoado pelo abandono do caminho da Aliança pelo povo e a
idolatria praticada pelo povo (Jr 1,16). O Senhor pede de Jeremias
obediência, disponibilidade e plena confiança, pois o arauto da
mensagem de Deus tem o dever de percorrer o caminho antes dos outros.
Ao mesmo tempo o Senhor promete fazer-lhe como uma “cidade
fortificada”, uma “coluna de ferro” e uma “muralha de bronze”
(Jr 1,17-19).
Os
oráculos de condenação que Jeremias foi incumbido a pronunciar
fundam-se na infidelidade do povo à Aliança com Javé causando
perversão religiosa e injustiça social. As palavras do profeta são
fortes acusações contra o povo que abandonou a fonte de água viva
para cavar cisternas furadas no seu lugar (Jr 2,1-3.7-8.12-13)! Deus,
através do profeta, chama o povo a uma conversão; promete-lhe
pastores segundo seu coração, já que os atuais esqueceram da
Aliança e levou o povo a perversidades. Condicionada pela conversão,
isto é, a volta à Aliança o profeta anuncia também a restauração
de Jerusalém como o centro de reunião de todos os povos (Jr
3,14-17).
Jeremias
condena a fé fetichista no templo e suas cerimonias hipócritas;
todavia o necessário é fazer valer a justiça e não cometer
fraudes contra os mais fracos e necessitados: órfãos, viúvas e
estrangeiros, e não derramar sangue inocente. Nem preces nem
peregrinações serviriam para nada se forem utilizadas para mascarar
hipocrisia. “Acaso, esta casa (o Templo) em que meu nome é
invocado, tornou-se a vossos olhos uma caverna de ladrões”? Para
explicar melhor o que acontece com os que se separam de Deus o
profeta realiza uma ação simbólica: ele comprou um cinto de linha,
usou-o por um tempo e depois o deixou mergulhado nas águas do rio
Eufrates onde ele apodreceu (Jr 13,1-11). Em seguida Jeremias exibiu
o cinto estragado fazendo saber a todos: “Assim farei apodrecer a
grande soberba de Judá e Jerusalém”!
Em
face das calamidades da seca que devastava o país e os rumores de
guerra iminente Jeremias intercede pelo seu povo; mas, ele se sente
solitário, como se fosse preso entre a súplica e a ira ardente do
Javé: “Lembra-te, Senhor, não quebres a tua aliança conosco”
(Jr14,17-22). O profeta se sente solitário, pois poucos aderem a
suas ideias. Acontece que diante das calamidades, há quem fique
indiferente; há quem se agarre a Deus; há quem duvide de sua
existência ou opine de que Ele nos ame, caso exista. Outros chegam a
se perguntar se Deus não se compraz em nos ver sofrer. Jeremias que
tinha acolhido a palavra de Deus com alegria, agora, movido pela
indignação que seu ofício profético gerou, está sozinho e
solitário. É uma experiência de vida insuportável e por isso
apela a Deus. Em sua resposta o Senhor lhe pede conversão contínua
e promete que o profeta será “uma muralha de bronze fortificada”
(Jr 15,10.16-21). Jeremias exprime dramaticamente o conflito interior
de quem desempenha uma missão, combatida
e rejeitada pelos
beneficiários e pelas próprias dúvidas que tal situação gera.
Ele chega a compreender que só a confiança incondicional é a
resposta verdadeira. (A continuar).

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