segunda-feira, 29 de agosto de 2016 0 comentários

Vocação cristã e a vida de Jeremias

Vocação cristã e a vida de Jeremias.


A vocação profética para anunciar às nações tudo o que Deus quer (Jr 1,1.4.-10) faz Jeremias sentir-se pequeno. Mas a consciência humana da sua humilde condição não é obstáculo para Deus. Diante dos protestos do profeta, Deus estende a mão, toca-lhe a boca e coloca suas palavras na sua boca; constituiu-lhe profeta sobre povos e reinos com poder para extirpar e destruir, devastar e derrubar, construir e plantar. Neste episódio Deus se mostra como alguém muito magoado pelo abandono do caminho da Aliança pelo povo e a idolatria praticada pelo povo (Jr 1,16). O Senhor pede de Jeremias obediência, disponibilidade e plena confiança, pois o arauto da mensagem de Deus tem o dever de percorrer o caminho antes dos outros. Ao mesmo tempo o Senhor promete fazer-lhe como uma “cidade fortificada”, uma “coluna de ferro” e uma “muralha de bronze” (Jr 1,17-19).
Os oráculos de condenação que Jeremias foi incumbido a pronunciar fundam-se na infidelidade do povo à Aliança com Javé causando perversão religiosa e injustiça social. As palavras do profeta são fortes acusações contra o povo que abandonou a fonte de água viva para cavar cisternas furadas no seu lugar (Jr 2,1-3.7-8.12-13)! Deus, através do profeta, chama o povo a uma conversão; promete-lhe pastores segundo seu coração, já que os atuais esqueceram da Aliança e levou o povo a perversidades. Condicionada pela conversão, isto é, a volta à Aliança o profeta anuncia também a restauração de Jerusalém como o centro de reunião de todos os povos (Jr 3,14-17).
Jeremias condena a fé fetichista no templo e suas cerimonias hipócritas; todavia o necessário é fazer valer a justiça e não cometer fraudes contra os mais fracos e necessitados: órfãos, viúvas e estrangeiros, e não derramar sangue inocente. Nem preces nem peregrinações serviriam para nada se forem utilizadas para mascarar hipocrisia. “Acaso, esta casa (o Templo) em que meu nome é invocado, tornou-se a vossos olhos uma caverna de ladrões”? Para explicar melhor o que acontece com os que se separam de Deus o profeta realiza uma ação simbólica: ele comprou um cinto de linha, usou-o por um tempo e depois o deixou mergulhado nas águas do rio Eufrates onde ele apodreceu (Jr 13,1-11). Em seguida Jeremias exibiu o cinto estragado fazendo saber a todos: “Assim farei apodrecer a grande soberba de Judá e Jerusalém”!
Em face das calamidades da seca que devastava o país e os rumores de guerra iminente Jeremias intercede pelo seu povo; mas, ele se sente solitário, como se fosse preso entre a súplica e a ira ardente do Javé: “Lembra-te, Senhor, não quebres a tua aliança conosco” (Jr14,17-22). O profeta se sente solitário, pois poucos aderem a suas ideias. Acontece que diante das calamidades, há quem fique indiferente; há quem se agarre a Deus; há quem duvide de sua existência ou opine de que Ele nos ame, caso exista. Outros chegam a se perguntar se Deus não se compraz em nos ver sofrer. Jeremias que tinha acolhido a palavra de Deus com alegria, agora, movido pela indignação que seu ofício profético gerou, está sozinho e solitário. É uma experiência de vida insuportável e por isso apela a Deus. Em sua resposta o Senhor lhe pede conversão contínua e promete que o profeta será “uma muralha de bronze fortificada” (Jr 15,10.16-21). Jeremias exprime dramaticamente o conflito interior de quem desempenha uma missão, combatida e rejeitada pelos beneficiários e pelas próprias dúvidas que tal situação gera. Ele chega a compreender que só a confiança incondicional é a resposta verdadeira. (A continuar).


quinta-feira, 25 de agosto de 2016 0 comentários

Jeremias, o servo sofredor.

Jeremias, o servo sofredor.

As “confissões” do Profeta Jeremias nos revelam uma figura extraordinária que representa de antemão Jesus de Nazaré no AT. Sua fidelidade à vocação profética fez com que ele não conseguisse levar a vida igual à dos seus concidadãos. Ele se sente compelido a proferir oráculos contrariados e contestados a toda hora; por causa desses ele se torna objeto de zombaria e é hostilizado. É verdade que ele sobreviveu atentados contra sua vida, pois tinha amigos entre os poderosos do país. No entanto, isto não tira-lhe o sofrimento humano que qualquer pessoa na sua situação, em qualquer época, de qualquer nação, passaria.

Como todos os profetas do AT fizeram, Jeremias condenou a infidelidade da nação à Aliança, o que resultou em ritualismo vazio e sincretismos que desvirtuaram a liturgia Javista. A idolatria consequente deu lugar para injustiças sociais abomináveis aos olhos de Javé, o Deus da Aliança. Durante os quarenta anos que Jeremias profetizou a Palestina era cobiçada pelos poderes imperiais (Assíria, Egito e Babilônia) que batalhavam para estabelecer sua supremacia na região. Jeremias teve a sagacidade para identificar a Babilônia como o vencedor. Ele favoreceu submissão ao Nabucodonosor e interpretou essa como castigo de Javé pela infidelidade da nação à Aliança. Entretanto as facções e os (numerosos) falsos profetas fizeram tudo para afogar ou até mesmo apagar a voz de Jeremias. O rei Joaquim era o que menos simpatizou com Jeremias, pois o rei era partidário da facção que apostou no Egito na peleja contra Babilônia. No livro de Jeremias as “confissões” encontram-se entre os oráculos proferidos, principalmente, durante o reino de Joaquim.

Jeremias, o verdadeiro profeta, fez questão fazer sua mensagem ouvida, mesmo quando estava impedido a anunciá-la pessoalmente. Ele manda Baruc registrar seus oráculos num pergaminho (Jr 36,4). Este foi lido ao publico no templo (Jr 36,10); houve uma segunda leitura do mesmo para o benefício da cúpula do governo (Jr 36,15). Impressionados, eles organizaram uma leitura na presença do rei, mas antes, tomaram providências para que o profeta e seu secretário se escondessem da ira real vindoura. Um oficial fez a leitura na presença do rei (Jr 36,21). Na medida que a leitura progredia, o rei foi cortando o rolo em pedaços e jogando-os no fogo, não obstante os protestos de alguns dos seus cortesãos (Jr 36,25). Em seguida mandou prender Jeremias e Baruc, mas ficou sem sucesso. Mais tarde o profeta mandou seu secretário escrever outro rolo que recebeu até acréscimos (Jr 36,32). Nós já mencionamos como os oráculos de Jeremias, junto com suas ações simbólicas e detalhes biográficos (inclusive as “confissões”) foram lembrados pelos exilados em Babilônia, Egito e pelos que permaneceram a Palestina.

No livro do Profeta Isaías há quatro “cantos do servo sofredor” (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9.10-11; 52,13-53,12) nos quais largamente se espelham a vida sofrida de Jeremias. Estão entre os primeiros textos do AT que interpretaram o escândalo da crucificação de Jesus de Nazaré e deram origem a fé na ressurreição. Será interessante observar como a memória dos sofrimentos de alguns dos nossos perseguidos na vida pública hoje poderá servir como a força motora da retomada de progresso social, uma vez que o retrocesso que invade a sociedade brasileira no momento perder seu vigor. Nós vamos analisar, em seguida, a seleção dos textos do livro do Profeta Jeremias lida na liturgia para captar a mensagem central do profeta.





terça-feira, 16 de agosto de 2016 0 comentários

Vocação - um desafio contextualizado (2)

Vocação – um desafio contextualizado (2)


A primeira das “confissões” do Profeta Jeremias (Jr 11,18-12,6) fala da perseguição que começou com a campanha de vilificação contra ele pelos seus parentes de conterrâneos e que tornou-se em ameaça de morte. Este profeta incômodo favoreceu a centralização do culto em Jerusalém durante a reforma do rei Josias (640-609 a.C). Entretanto ele condenou inequivocamente a fé fetichista do seu povo e a falsa segurança baseada nos rituais realizadas no templo (cf. Jr 7 e 26). Jeremias levanta a pergunta, feita frequentemente no tempo de exílio, e que desde então se repete, sobre o colossal problema da retribuição: “Por que prosperam os perversos e os traidores vivem na paz? (Jr 12,1b). Deus não propõe uma solução, mas exige que o profeta mantenha sua fé e coragem no meio dos seus sofrimentos.
Jeremias passa por uma crise de vocação (Jr 15,10-21). É estranho seu destino – o de ter nascido profeta só para anunciar o que agrava a culpa e precipitar a desgraça do seu povo e sua nação. Se Deus não faz caso de sua intercessão, vale a pena ser profeta? Seus oráculos são ameaças repeti­das, que não dão lugar ao consolo, antes, lhes provocam an­tipatia e hostilidade. Seu fascínio pela palavra do Senhor privou-o de uma vida igual à dos outros (Jr 15,16-18). Na sua aflição o profeta chega a reclamar de Deus o “arroio enganador”, como que retorcendo a imagem de Deus. Mas, o Senhor responde reiterando suas exigências. A solidariedade do profeta com o povo não pode consistir em afastar-se de Deus junto com o povo; Jeremias tem que voltar para Deus arrastando o povo de volta. Deus renova a promessa feita na ocasião do seu chamado profético, assim preparando o profeta para a crise tremenda que se aproxima.
Os adversários de Jeremias insistem no rápido cumpri­mento das ameaças que ele anunciava! O profeta esclarece que ele mesmo não pediu desgraças, pelo contrário, ele pede cura e salvação a Deus (Jr 17,14-18). “Tu sabes o que meus lábios pronunciam, tu o tens diante de ti”, disse Jeremias (Jr 17,16b). Mesmo no sofrimento imenso sua fé e sua confiança não se abalam (cf. Jr. 17,17-18). Os inimigos planejam calar sua voz profética (Jr 18,18-23); Jeremias não ia fazer fal­ta, pois havia muitos outros (mercenários mais ‘prudentes’ até!) para realizar as funções sacerdotais e proféticas. Eles consideram sua língua importuna! O profeta chega a pedir a morte dos seus adversários! Se Deus prometeu estar do lado do profeta, Ele terá que enfrentar seus inimigos. A neutralidade da parte de Deus será cumplicidade! O juiz não pode alegar ignorância, visto que já “conhece o plano homicida” dos seus inimigos (Jr 18,23).
Jeremias reclama amargamente contra o Senhor que o “se­duziu” (Jr 20,7-18). Ele sentia-se obrigado a anunciar vio­lência e destruição, enquanto todo mundo queria ouvir outro tipo de mensagem. Para Jeremias a palavra de Deus se tinha tornado o motivo de zombaria constante a qual ele era sujei­tado. Por mais que ele tentava evitar tais pronunciamentos, sentia-se dominado por uma força irresistível que lhe fazia continuar anunciar desastres, caso a nação e seus governan­tes não voltassem à Aliança com Javé. Seus inimigos o espiavam para apanhá-lo em algum tropeço para se vingar dele. Mesmo nessa situação Jeremias louva o Senhor por livrar o pobre do poder dos perversos (cf. Jr 20,11-13). Ao mesmo tempo ele chega a praguejar contra seu próprio nascimento, depois da disputa com Fassur, o sacerdote (cf. 20,1-6)!






quarta-feira, 10 de agosto de 2016 0 comentários

Vocação - um desafio contextualizado (1)

Vocação – um desafio contextualizado (1)

No período pós-Vat 2 a Igreja católica no Brasil guarda o mês de agosto como o mês vocacional. Atividades diversas e momentos especiais promovem reflexões e celebrações das formas tradicionais de organização das vocações; elas surgiram como respostas aos desafios históricos em seu tempo. Os eventos expressam também a abertura às novas formas de resposta que o Espírito criador continua gerando nos fiéis em cada época. Nesta ocasião nós oferecemos um exame da experiência da vida do Profeta Jeremias como alguém que recebeu um chamado específico de Deus. Essa reflexão faz parte da nossa tentativa de contribuir, por menor que seja tal contribuição, à resposta cristã ao assalto que o império (hoje o capitalismo patrimonial pós-moderno) realiza neste momento para aniquilar os últimos redutos de resistência contra sua dominação em nosso país. Os profetas bíblicos ainda são lembrados hoje pela sua luta contra imperialismo e por ter chamado seu povo de volta para o “caminho de Deus”. Apesar da distância no tempo, há muita semelhança entre  nosso tempo e os dos profetas.

Jeremias foi chamado ainda jovem (cf. Jr 1,6), e instituído profeta sobre as nações: “para arrancar e arrasar, para demolir e destruir, para construir e plantar” (Jr 1, 10). Fiel a sua vocação ele permaneceu firme como “uma cidade fortificada, uma coluna de ferro” (Jr 1,18) para promover uma ideologia, a da Aliança com Senhor Deus, que a elite e os poderosos do seu tempo combatiam energicamente. Sua ideologia referia à organização social, econômica e religiosa baseada em partilha, solidariedade, fraternidade e não no poder de ganância e a capacidade de acumular. De fato, a monarquia tinha se mostrado amplamente incapaz de ser fiel a essa noção fundante da nação judaica em ambos os países: Israel e Judá.

A Palestina passou por um período de grave instabilidade política e militar entre o final do século 7 e o início do século 6 antes de Cristo, durante a contenta entre Assíria, Egito e Babilônia para determinar a dominação imperialista da região. Nós já falamos dos cinco reis de Judá neste período que procuravam preservar a autonomia da sua nação aliando-se a um ou outro das potências. No entanto, Jeremias, pregava a volta para os caminhos de Aliança com Deus para salvar a nação, como tinham feito também os outros profetas. No seu ver os desastres vindouros seriam o castigo de Deu por ter esquecido a justiça da Aliança. Ele tinha a percepção clara de que a Babilônia ia triunfar na peleja e a submissão a Nabucodonosor como o meio de evitar um desastre nacional.

Jeremias profetizou numa nação profundamente dividida. Um grupo liderado por falsos profetas promovia a ilusão de que o Templo e seus ritos garantiriam a segurança da nação. Um segundo grupo acreditava fanaticamente na força das armas e queria resistir militarmente à invasão de qualquer uma das potências. O terceiro grupo egípcio-filo se posicionou contra os babilônios. Entretanto todos eles tinham se esquecido da confiança nacional no Deus de Aliança. De fato Jerusalém e seu templo foram arrasados no chão e o povo foi exilado em Babilônia (586 a.C). O quase meio século em que Jeremias profetizou, ele passou por sofrimentos incalculáveis dos quais temos alguns indícios leves no livro de Jeremias. São 5 perícopes entre os capítulos 10 a 20 do livro de Jeremias (Jr 11,18-12,6; 15,10-21; 17,14-18; 18,18-23) que vamos examinar na segunda parte da nossa reflexão.


 
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