terça-feira, 24 de março de 2020 0 comentários

Santo Mártir Oscar Romero (1917-1980)


Santo Mártir Oscar Romero (1917-1980)

Hoje faz quarenta anos que assassinaram Santo Oscar Romero.

O cenário do martírio de dom Oscar Amulfo Romero y Goldámez (1917-1980) foi o mundo pós-colonial no qual o imperialismo de direita (EUA) guerreou contra o imperialismo de esquerda (antiga União Soviética). A América Latina, considerada área exclusiva da influência estadunidense (Monroe, 1823), ficou presa nessa luta. Organizações inspiradas na revolução bolchevista começaram a atuar em diversos países contra a versão latino-americana do feudalismo que ocultamente mantinha o colonialismo. Para neutralizar os movimentos revolucionários, os EUA estabeleceram a “Escola das Américas” no Panamá (1946) e treinaram suas forças mercenárias. A União Soviética conseguiu se estabelecer em Cuba e na Nicarágua, rompendo o monopólio do continente. Em resposta, os EUA promoveram golpes militares, começando no Brasil. Os governos fantoches assim instituídos suspenderam os direitos humanos, baseando-se em uma doutrina perversa de “segurança nacional” para manter a ordem tradicional com inaceitável crueldade. Os guerrilheiros responderam com desumanidade comparável..

Foi nessas águas turvas que um passo decisivo da inculturação da fé cristã foi dado na América Latina. A realidade socioeconômica favoreceu a recepção ao Concílio Vaticano 2º, em uma releitura do livro de Êxodo a partir da condição do povo na escravidão disfarçada. Houve uma errada identificação do ânimo assim gerado com a revolução promovida pelos soviéticos. Agentes de pastoral foram caçados e eliminados como se fossem guerrilheiros. Mártir Romero, o arcebispo de San Salvador, está entre os inúmeros outros do fratricídio impiedoso salvadorenho dessa época. Foi assassinado enquanto presidia a Eucaristia no dia 24 de março de 1980. Este bom pastor foi beatificado no dia 23 de maio de 2015. Os 35 anos que passaram desde seu assassínio incentivaram uma reflexão sobre a vocação profética cristã e vai dar início ao processo de “conversão pastoral” da Igreja para o mundo “globalizado”.

El Salvador, um pequeno país de 7 milhões de habitantes, de tamanho menor que o nosso Estado de Sergipe, fica entre a Guatemala, Honduras e o Oceano Pacífico na América Central. No início do século passado era produtor de café, mas a crise financeira dos anos 1930 começou a acirrar tensões entre o latifúndio (2% que ficava com toda a terra e 95% da riqueza do país) e a população camponesa. O que passava por governo servia aos interesses das elites, geralmente. A animosidade culminou na “La Matanza” (1932), na qual pelo menos 50 mil trabalhadores do campo foram mortos, pois eles se organizaram e reivindicaram seus direitos à terra e à vida digna. A guerra entre El Salvador e Honduras (1969) produziu um novo agravante social: a volta de 300 mil salvadorenhos de Honduras, agora como refugiados. Os esquadrões da morte intensificaram suas atividades nefastas. A crise de petróleo de 1973 foi, como se fosse, a faísca que encetou a conflagração. Para conseguir paz no campo, houve tentativa hesitante de reforma agrária, que os latifundiários conseguiram fracassar. As eleições fraudadas de 1977 deram origem a protestos populares que o governo reprimiu com mão de ferro. Simultaneamente, os esquadrões da morte da direita eliminaram sindicalistas e todos os outros simpatizantes dos camponeses. Eis o cenário tumultuado em que mártir Oscar Romero testemunhou sua fé seguindo os passos de Jesus de Nazaré.

A beatificação do Oscar Romero (23.05.2015) é uma ocasião para analisar sua vida e obra. Aqui apresentamos uma breve descrição biográfica sua, pois já falamos da situação social, econômica e política do El Salvador para melhor apreciar o desafio pastoral que ele enfrentou ao assumir como Arcebispo de San Salvador em 1977.Oscar Romero nasceu na Ciudad Barrios em 1917, e entrou no seminário em 1931. Teve de interromper os estudos para ajudar sua família, mas em pouco tempo retomou os estudos e foi enviado para Roma, onde em 1942 terminou os estudos e recebeu a ordenação presbiteral. Na volta para El Salvador, passou os próximos 24 anos desenvolvendo um trabalho pastoral em Anamorós e San Miguel, e em 1966 foi eleito secretário da Conferência Episcopal Salvadorenha. Dom Romero foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador em 1970, onde permaneceu durante quatro anos.

Ele não conseguiu se identificar com a atualização da linha pastoral de acordo com as propostas do Vat 2 e a Conferência de Medellín, que o arcebispo Luis Chávez y González efetuava, o que deixou transparecer sua tendência conservadora. A sua transferência como bispo da Diocese de Santiago de Maria aconteceu em 1974. O governo salvadorenho e os esquadrões da morte da direita reprimiam todas as organizações dos camponeses na sua luta contra guerrilheiros bolchevistas. Em 1975, quando a “Guardia Nacional” assassinou cinco camponeses, dom Romero celebrou a missa do corpo presente; evitou denunciar o crime publicamente, mas escreveu uma carta dura ao presidente do país. Para a surpresa da ala progressista da igreja de San Salvador, Romero foi nomeado Arcebispo de El Salvador em 1977. Entretanto, sua “conversão” não demorou muito. No dia 12 do março, o padre Rutílio Grande, um jesuíta comprometido com o povo no espírito evangélico, foi assassinado, e o arcebispo se posicionou publicamente no lado dos indefesos que estavam sendo massacrados.

Durante os próximos dois anos, ele se destacou pelo seu favorecimento da defesa da vida em uma situação muito complicada, na qual, paixões ideológicas sacrificavam vidas humanas em um fratricídio sem sentido, como se essas não valessem nada. Em outubro de 1979 houve um golpe militar, e uma junta que incluía também civis tomou poder. Os EUA, que promoveram o golpe, forneceram armas e treinamento aos salvadorenhos para assegurar que não se repetiria uma Nicarágua, onde os revolucionários tinham tomado o poder, em El Salvador. Na carnificina que se seguiu, muitos, inclusive presbíteros e inúmeros agentes de pastoral, foram mortos. A guerrilha respondeu com execuções sumárias e destruição das estruturas do país. O arcebispo Romero pediu aos EUA a não mais fornecer armas para este conflito fratricida, e apelou às forças armadas salvadorenhas para não matarem seus próprios irmãos.

Logo, no dia 24 de março, dom Oscar Romero foi baleado quando presidia a celebração eucarística, e faleceu logo. No seu funeral, uma multidão estimada em 130.000 pessoas se reuniu. Houve protestos, e naquela ocasião mais 42 pessoas morreram. Dias depois, o mandante do crime, o major do Exército e fundador de um esquadrão da morte da direita Roberto D’Aubuisson, foi preso com matérias incriminantes em sua posse, mas logo foi solto sem que ninguém fosse denunciado ou julgado pelo crime de assassinato do dom Romero até hoje. A guerra civil que se deslanchou em seguida, durou 12 anos, a custo de mais 75 mil vidas salvadorenhas! O martírio do dom Oscar Romero (2) A sua transferência como bispo da Diocese de Santiago de Maria aconteceu em 1974

Mártir Oscar Romero foi nomeado arcebispo de San Salvador na época de substituição das figuras proféticas como Evaristo Arns, Aloisio Lorscheider, Helder Câmara e outros, por possuir dons
diferentes. Ao assumir o Arcebispado, ele percebeu que tinha de agir para que a verdade não fosse mais uma vítima do conflito fratricida que seu país vivia. Romero assumiu ser a voz dos sem voz por meio das suas homilias (suas homilias transmitidas por rádio foram ouvidas por 75% da população) e reportagens no jornal diocesano. Seu jornalismo reconheceu o seu ponto de vista e não enganou o público com reportagens tendenciosas atrás de uma fachada de “objetividade”. O arcebispo editorializou frequentemente sobre: 1) o direito de o povo se organizar para lutar pelos seus direitos (o regime e os militares viam em qualquer organização dos operários ou camponeses a guerrilha bolchevista); 2) a necessidade da reforma agrária (nos anos 1970, 2% da população ainda era dona de 60% das terras em El Salvador); 3) o fim da violência (levantamento feito depois do cessar fogo mediado por ONU em 1992 constatou que 85% das atrocidades foram cometidos pelos militares e os seus esquadrões da morte).

O profeta Romero promoveu a causa dos pobres sabendo que as consequências não serão diferentes do que sofriam os próprios pobres. Recusou a proteção especial que o governo lhe ofereceu. Sem se curvar diante do poder opressor, noticiou os acontecimentos da perspectiva dos pobres. Suas denúncias incluíam a absolutização da riqueza como mal radical; a riqueza e prosperidade privada
como absoluto intocável; o servilismo dos militares à oligarquia do dinheiro e a sua impunidade; a corrupção da Justiça a serviço dos poderosos contra os pobres; e a intervenção imperialista dos EUA. Seu trabalho desmascarou a mentira dos meios da comunicação social a serviço dos poderosos. Ele não deixou de criticar a atitude imobilista e intransigente de muitos cristãos.

A direita condenou-lhe como “comunista”, o que alguns de seus colegas no episcopado
salvadorenho também fizeram. Jimmy Carter (EUA) solicitou a assistência do Vaticano para calar esta voz profética. Mas, na sua vida e morte, Oscar Romero evidenciou que são os pobres e oprimidos que sinalizam o caminho da igreja no mundo de hoje. Foi a sua escolha. É o seu grande ensinamento, pois ele mesmo submeteu- -se a injustiça, exploração e repressão que seu povo
passava. As instalações do jornal diocesano foram incendiadas, e a emissora da rádio foi bombardeada. Que ele foi assassinado sobre o altar é significativo: a igreja que nascia do Vat 2 foi atingida por incomodar o sistema iníquo reinante. Para Romero, a igreja não pode ser reduzida ao âmbito cultual nem pode ser uma organização em que tudo vem de cima para baixo, como nos tempos da cristandade. A força da igreja reside na palavra de Deus transparente, sempre viva e eficaz no meio do povo. Ele falou de Deus, julgou a história de seu tempo à luz da Palavra, como fizeram os profetas. A parábola do bom samaritano (Lc 10,3-37) era seu modelo de ação. Ser solidário com os pobres não é ser “comunista” no sentido de ser revolucionário bolchevista. Sua doutrina baseia-se em Am 2,6; 3,10; 4,1; e Is 5,8. “Estes textos lidos na liturgia não são sobre um passado distante, mas referem-se às realidades hodiernas, cuja crueldade nos confunde e nos choca diariamente”, disse Romero ao aceitar o título de “Doutor Honoris Causa” na Universidade de Louvaina (Bélgica) no dia 2 de fevereiro de 1980.

O Papa Francisco proclamou santos duas das figuras mais importantes da Igreja Católica no século XX: o Papa Paulo VI, cujo pontificado foi de 1963 a 1978, e Oscar Romero, arcebispo de El Salvador assassinado em 1980. Os dois foram canonizados no domingo (14 de outubro de 2018) em uma grande cerimônia na Praça de São Pedro, no Vaticano.






sábado, 21 de março de 2020 0 comentários

O fim inglorioso do Nazareno – Uns preparativos

Jesus de Nazaré – a Boa Nova para o século 21 (40)
2. O fim inglorioso do Nazareno – Uns preparativos


1. Logo depois de falar do complô para matar Jesus, o Evangelho de Marcos nos apresenta o episódio de unção de Jesus em Betânia (Mc 14,3-9). Jesus está à mesa na casa de Simão, o leproso. Durante a refeição uma mulher (anônima) irrompe a sala do banquete com um frasco de perfume caro e o derrama na cabeça do Nazareno. Sua ação causa indignação entre “alguns” dos que estavam presentes, pelo que consideram um imperdoável desperdício. Na sua opinião o perfume poderia ter sido vendido por um preço alto e o dinheiro aplicado no cuidado dos necessitados. Entretanto, Jesus defende o gesto da mulher, interpretando sua ação como antecipação dos preparativos do seu sepultamento. O Nazareno também denuncia a hipocrisia, evidente nessa preocupação demasiada com os pobres. Os pobres sempre estiveram e estarão presentes no mundo e nunca faltou recursos necessários para cuidar do bem-estar deles. Só é que os critérios humanos de distribuição dos bens materiais sempre manteve uma porção considerável da humanidade em condições de miséria. Jesus também prediz que o gesto profético da mulher será lembrado em todos os lugares onde a Boa Nova do Reino for proclamada.

O texto que fala da unção em Betânia, em Mateus, também está posicionado logo depois do que fala do complô para matar Jesus. Os detalhes são os mesmos do texto de Marcos, com um detalhe diferente: a indignação causada pelo “desperdício” de perfume caríssimo é entre “os discípulos”.

O Evangelho de Lucas não fala da unção. Logo depois de falar do complô para matar Jesus, Judas Iscariotes foi apresentar sua proposta de entregar Jesus aos chefes dos sacerdotes e os chefes da guarda e combinar a maneira de fazê-lo. Estes ofereceram dinheiro pelo seu serviço e a partir daquele momento ele procurava o momento oportuno para entregar Jesus, sem que o povo perceba. O autor faz questão de resumir tudo o que motivou Iscariotes agir dessa maneira na frase: “Satanás entrou em Judas” (Lc 22, 3-6).
Os detalhes da unção em Betânia em João (Jo 12,1-8) têm muitos detalhes a mais que nos ajudam a sentirmos a dramaticidade do momento. Ofereceram Jesus um jantar em Betânia; Marta servia, e Lázaro, aquele que Jesus tinha ressuscitado, estava à mesa com Jesus. É Maria que unge os pés do Nazareno com o perfume precioso. Quem fica irado com o “desperdício” é Judas Iscariotes, aquele que trairia Jesus. O autor faz questão de comentar que Judas não era amante dos pobres, porém tomava para si o que era depositado na bolsa comum, pois era ladrão. A reação de Jesus aqui é a mesma como nos outros evangelhos.

2. Na sequência, nós temos notícias nos evangelhos de Marcos e Mateus do pacto que Judas Iscariotes, um dos doze, foi fazer com as elites. Ele se dirigiu aos sumos sacerdotes com a proposta de entregar Jesus. Estes ficaram alegres de ter seu auxílio na execução do plano de matar o Nazareno. Ofereceram-lhe dinheiro. A partir deste momento Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus.

É impressionante, as autoridades judaicas agora podem contar com a colaboração que precisavam para acabar com o rabino de Galileia que os incomodava tanto. Tal colaboração vem de alguém do grupo íntimo do próprio Nazareno. O projeto de eliminar o profeta galileu itinerante que se arrastava até agora recebe o estímulo que precisava! Aqui vale notar que o gesto da solidariedade da mulher que ungiu Jesus não tem preço, enquanto o preço da colaboração de Judas Iscariotes é trinta moedas de prata; ele se deixa vender por dinheiro.

3. Os evangelhos sinóticos apresentam nesta conjuntura os preparativos para a celebração de ceia pascal de Jesus de Nazaré e seus discípulos. De fato, seus discípulos perguntam sobre onde e como organizar a ceia pascal. Ele envia dois deles a um homem da cidade, sem citar seu nome, porém indicando sinais para identificá-lo. Os discípulos foram, reconheceram-no, o seguiram até a sua casa e perguntarem sobre o local onde Jesus Nazareno e seus discípulos comeriam a ceia pascal. Eles prepararam tudo para Jesus e seus comerem a ceia pascal na sala superior que o homem os mostrara (Mc. 14,12-16). O Evangelho de Mateus tem os mesmos detalhes do texto de Mc sobre os preparativos para comer a ceia pascal (Mt. 26,17-19). A narrativa de Lucas não é diferente também.

4. Nós já estamos prontos para analisar os textos que falam da última ceia, uma refeição da qual se cultiva a memória desde então, vinte séculos atrás, pelas comunidades cristãs ainda hoje. Isto fica para o próximo.
Pe. Kurian
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020 0 comentários

O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (3)


O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (3)
Está na hora de examinar o discurso escatológico nos outros evangelhos sinóticos. No texto de capítulo 24 do Evangelho de Mateus nós temos todo o conteúdo que encontramos em Marcos, com uma elaboração mais ampla. Dá para sentir neste texto até uma tensão maior que existe entre Jesus e seus adversários, os detentores de poder. Já no capítulo 21 de Mateus, bem antes do texto que fala do fim dos tempos, há um discurso implacável de Jesus contra a hipocrisia religiosa das elites (Mt 21,1-12). Os sete “ais” contra os escribas e fariseus que exerciam controle despótico da vida religiosa do povo judeu (Mt 23,13-36) não deixa ninguém dúvidar quanto ao que Jesus sentia a respeito dos seus adversários.
No capítulo 25 de Mateus, que vem depois do texto de discurso escatológico (cap.24), há duas parábolas que elaboram e enfatizam a necessidade de estar vigilantes para poder entrar no Reino de Deus. A parábola das dez virgens (vv.1-13) e a parábola dos talentos (vv.14-30) necessitam de “hermenêutica de suspeita” para descobrir sua mensagem para nós hoje. À primeira vista não aparece o significado mais profundo que o Nazareno comunica.
Neste capítulo há ainda uma terceira parábola que elabora detalhadamente o julgamento das nações (vv.31-46). O notável no juízo final é a importância da decisão humana baseada nos valores do Reino para poder entrar neste Reino, preparado para todos os povos, desde a criação do mundo.
Passando mais adiante para o Evangelho de Lucas, é no seu capítulo 21 que encontramos o discurso escatológico. Aqui há um acréscimo, um fato que tinha exacerbado a tensão entre Jesus e as elites hierosolimitanos. Jesus demoliu a imagem popular que se tinha, entre as elites principalmente, de o Messias ser o “filho de Davi” (Lc 20,41-47). Efetivamente o Nazareno deixou a identidade de Messias como um enigma. O texto de Lucas, em seguida, tem a condenação contra a hipocrisia religiosa, menos detalhada do que no evangelho de Mateus, mas nem por isso menos severo.
O discurso escatológico começa com Jesus elogiando a generosidade da pobre viúva, vítima do sistema (cf. Lc 20,47). São os mesmos elementos que encontramos em Marcos e Mateus, que compõem a fala de Nazareno sobre “o fim dos tempos”: a destruição do templo; tentativas para enganar pelos falsos profetas e messias, perseguição, rumores de guerras, traições, revoluções e fenômenos naturais fora de comum. O importante no meio de tudo isso é ficar sobreaviso, persistir e atravessar estes momentos dando testemunho. A destruição de Jerusalém e a vinda do Filho do Homem, são sinais que apontam para a libertação, a instauração do Reino de Deus. E a práxis de Jesus de Nazaré, contada nos evangelhos, não deixa dúvida alguma sobre este Reino, que é uma maneira radicalmente nova de organizar a sociedade humana. Para Lucas também, aprender a lição da figueira e orar e vigiar sempre para que as preocupações de vida como a riqueza e a busca de poder não desviem os discípulos do seu caminho. Percebemos que vigilância permanente é a atitude requerida do discípulo missionário cidadão de hoje.
Aqui surge uma pergunta: o que é que estes textos têm a ver com os nossos dias? Será que eles contêm alguma mensagem relevante para os cristãos de hoje? Não é difícil notar a semelhança dos nossos tempos com a época de Jesus e, as expectativas que marcavam os povos daqueles tempos. O nosso mundo hoje passa por um momento de, o que pode ser caracterizado como “dores de parto”. Ideologias, políticas e doutrinas tradicionais estão sendo reexaminadas em nossos dias, já que elas não correspondem mais aos anseios do coração humano. Há uma polarização visível diante do avanço brutal do neoliberalismo. Elementos como Vladimir Putin, Donald J. Trump, Xi Jiping, Narendra Modi, Jair Bolsonaro e seus similares, no poder, são catalisadores de todo um processo histórico em percurso hoje.
Na atualidade, mercadores de sentimentos religiosos, que enganam os crédulos e desatentos, não faltam. Quanto a “a abominação de desolação” (Mc 13,14) resta pouca dúvida quanto à sua identidade hoje: o consumo desenfreado e a adoração de deus “lucro”. Vemos que aqueles que permanecem firmes na sua fé em Deus revelado na pessoa de Jesus de Nazaré, um Deus Libertador, são contundidos por empreendimentos bilionários usando técnicas mais atualizadas do marketing e bullying. Um exemplo disso é a campanha que Steve Bannon, que foi o coordenador da campanha eleitoral que levou Donald J. Trump a presidência dos EUA, encabeça contra o Papa Francisco, caracterizando-o “comunista”, numa tentativa de subjugar a Igreja Católica aos interesses econômicos nefastos imperialistas dos EUA.
Não faz muito tempo, apareceram painéis ao ar livre, nas diversas localidades de Campo Grande-MS, desafiando o Arcebispo pronunciar sobre a supostamente “condenada teologia de Libertação”. É necessário, duvidar que esta faz parte da campanha para dominar e subjugar a todos ao deus de “ganância sem limites” do neoliberalismo neocolonial? Uma coisa ficou bem clara: os patrocinadores destes painéis: “nós os católicos”, sem dúvida uma fachada enganosa. Estes sofrem aparentemente de grande carência de formação e informação. Evidenciou-se simples desconhecimento da mensagem bíblica; em segundo lugar, não sabem que até agora ninguém condenou a Teologia de Libertação; em terceiro lugar, a ostensiva ignorância do significado da práxis de Jesus de Nazaré – o crucificado e Ressuscitado; pior ainda estes “nós os católicos” não tem noção nenhuma da doutrina social da Igreja Católica.
Além de tudo isso, mesmo dentro da Igreja católica há perplexidade, pois a facção que trabalhou para anular a abertura que a iluminação do Espírito Santo instaurou na Igreja eurocêntrica está sendo contestada por forças mais alinhadas com a abertura que o Concílio Vaticano II trouxe para ela, neste momento que tem marcas de “dores de parto”. Isto só reforça a relevância do verbo grego blepéte (=ficar atento, sobreaviso) usado quatro vezes no capítulo treze de Mc (13,5.9.23.33). É a capacidade de ler os sinais dos tempos e se posicionar no lado do Reino de Deus, o necessário hoje mais do que nunca!
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020 0 comentários

O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (2)



O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (2)


Para iniciar comentar sobre o texto do capítulo 13, o discurso escatológico no Evangelho de Marcos, é necessário primeiro, voltar ao capítulo anterior momentaneamente, para sentir a tensão palpável que existia entre Jesus e seus inimigos mortais, as autoridades judaicas como o pano de fundo dos pronunciamentos do Nazareno no capítulo 13.

As críticas severas que Jesus fez ao comportamento hipócrita das autoridades constituídas (Mc 12,38-40) que com suas práticas “devorava as viúvas” (Mc 12,41-44), e a parábola que Jesus conta dos agricultores assassinos (Mc 12,1-12) de um lado, e as contestações que essas autoridades fazem contra o anunciador do Reino de Deus pelos seus ensinamentos (cf. Mc 11,15-19; Mt 21,23-27); junto com as tentativas, por ora frustradas, para eliminar fisicamente o Nazareno (cf. Lc 20,1-47; Jo 7,30.32; 8,32; 11,50-57) nos dão uma ideia desta tensão fatal.

Entrementes, não dá para esquecer daquele mestre da lei, que, na opinião do próprio Jesus, “não está longe do Reino de Deus” (cf. Mc 12,28-34). E este capítulo doze do Evangelho de Mateus termina com o elogio que Jesus de Nazaré faz à generosidade da viúva que depositou apenas duas moedinhas, “tudo o eu tinha para viver”, enquanto os ricos depositavam ostensivamente, até somas vultosas (Mc 12,41-44).

Nas traduções modernas da Bíblia, divide-se o longo texto de 37 versículos do capítulo treze de Marcos em trechos pequenos, legendando-os, para auxiliar o leitor captar melhor a mensagem desta composição complexa. Os elementos que constituem sua totalidade são: a destruição do Templo; perseguições; a grande tribulação; a lição da figueira e a insistência sobre a necessidade de vigiar sempre. O imperativo do verbo grego Blépoo (=olhar, perceber, ficar atento) é empregado quatro vezes neste capítulo (Mc 13,5.9.23.33) para enfatizar a importância de ficar sobreaviso.

Aqui é preciso lembrar-se de que há um fator histórico importante que agravou a hostilidade dos judeus contra os cristãos: a não participação destes na defesa da cidade de Jerusalém sitiada pelo exército imperial romano no ano 70.
Voltando-se para o texto de capítulo 13 do Evangelho de Marcos: ao sair de templo, Jesus enaltece o óbolo de viúva aos seus discípulos, deslumbrados pela a magnificência do Templo.  A seu espanto, Jesus afirma que todo aquele esplendor será destruído completamente. Uma vez que chegaram ao monte das oliveiras um grupo de quatro deles fez questão de interpelar Jesus sobre o momento em que este desastre terrível aconteceria.

Em reposta, Jesus não localiza com precisão o momento, mas na sua característica maneira de ensinar através de metáforas, os acautelou para que ninguém os enganasse. Isto porque aparecerão falsos profetas e impostores, rumores sobre guerras e revoluções se espalharem e haverá fenômenos naturais de proporções extraordinárias, e muitos ficarão enganados. No entanto, ainda não é o fim, é apenas o começo.

Jesus aconselha aos seus redobrarem a atenção, pois eles mesmos serão denunciados, torturados e perseguidos por sua causa, a causa do Reino de Deus. A causa do Reino de Deus é, anunciar a possibilidade de um mundo alternativo ao da tradicional. E qual é o mundo alternativo? É um mundo baseado não na ganância que acumula por si só tudo o que for possível deixando os muitos na miséria. É um mundo baseado na solidariedade, fraternidade no igualitarismo e na partilha. Esta possibilidade se comprova nos milagres de multiplicação dos pães. É urgente é anunciar essa boa notícia (Evangelho) a todas as nações mesmo confrontando o poder do capital, que combate energicamente essa nova ideologia que ameaça seus “lucros”, e gera confusão e desalento.

A agitação, assim gerada, é como o início das “dores de parto” nas palavras de Jesus, o profeta de Nazaré. Neste momento, de acordo com ele, até as próprias famílias vão experimentar divisão no seu seio por causa do Reino de Deus. Vão entregar às autoridades todos aqueles que propõem mudanças que ameaçam o sistema vigente que privilegia as elites. Ao ser entregue às autoridades, deve o discípulo preocupar-se com sua defesa? Não. É o próprio Espírito Santo que vai fazer a defesa. O importante para o discípulo é perseverar firmes “até o fim”.

Nos vv. 14-27 se fala da grande tribulação. O início desta é o elevar da “abominação da desolação” aonde essa não deveria estar. O que temos nos vv.14-20, é provavelmente o que os cristãos fizeram para salvar suas vidas durante o cerco de Jerusalém pelos romanos. No que eles fizeram, foram motivados pela sua consciência da sua missão de anunciar a Boa Nova de Jesus com urgência, “antes do fim dos tempos” e a convicção de que a realização do plano salvífico de Deus para a humanidade não era mais o monopólio da nação judaica.

Há diversas instruções de ordem prática para salvar as vidas; além disso, há menção das dificuldades encontradas no processo de fuga por alguns grupos específicos e, finalmente, se exalta a necessidade de oração pedindo o auxílio do Senhor nestes momentos críticos.

Outra vez, temos referência a salvadores falsos até milagreiros oportunistas, que explorarão a dor do povo e lucrarão enormemente de desgraça alheia. A exortação é de ficar sobreaviso, permanecer firmes e não desviar do caminho do Reino. Há também uma referência à figura de Filho do Homem, que, vindo na sua glória, reunirá seus eleitos dos quatro ventos.

Em seguida nos vv. 28-31 ensina-se uma lição da figueira. É mais uma advertência sobre “ler os sinais dos tempos”. Está em percurso mudança radical e urgente (“esta geração não passará”) e essa mudança é definitiva. Há incertezas e perplexidades que marcam o momento; de novo, a instrução é para ficar atentos, igual aqueles servos a quem o homem que viajou, deixando sua casa e deu autoridade; cabe a eles aguardarem sua chegada de volta, vigilantes.
Pe. Kurian



sábado, 1 de fevereiro de 2020 0 comentários

O Nazareno fala do fim dos tempos (1)


Jesus de Nazaré – a Boa Nova para o século 21 (39)
O Nazareno fala do fim dos tempos – O discurso escatológico nos evangelhos (1)

Jesus de Nazaré atuou num mundo marcado por expectativas extraordinárias. O império romano que substituiu os anteriores estava introduzindo uma mudança qualitativa no exercício do imperialismo. Algo parecido está acontecendo na atualidade. O imperialismo dos EUA que tem a seu serviço tecnologias e técnicas nunca antes vista estão sendo usadas para recolonizar e ‘re-escravizar’ os povos com muito mais eficácia e sofisticação do que os romanos, atrás das fachadas de globalização e neoliberalismo.

É neste contexto que examinamos os primeiros doze capítulos do Evangelho de Marcos com o intuito de conhecermos melhor a pessoa de Jesus de Nazaré. E agora passamos a estudar um capítulo especial que, por assim dizer, faz a ponte entre a narrativa de práxis de Jesus e a narrativa do seu fim inglorioso pelas mãos de “autoridades constituídas”. Cristãos acreditam, desde sempre, que no Nazareno se plenifica definitivamente o plano salvífico de Deus para a humanidade. Este plano teria sido revelado progressivamente na história de Israel. Usamos essa chave hermenêutica para: (1) analisarmos os textos que falam dos milagres que o profeta itinerante realizou; (2) estudarmos suas parábolas que explicam o significado de Reino de Deus; e (3) finalmente perscrutarmos suas interpretações das leis e costumes tradicionais do seu povo. Isso tudo evidenciou a instauração do Reino de Deus, que é uma radical novidade na história humana, que ele anunciava. Nós vimos que os evangelistas também deixaram registrado as reações diversificadas que a práxis do rabino Jesus deu origem nas camadas diversas da sociedade palestinense do seu tempo.

Agora, para passarmos a examinar o capítulo 13 do Evangelho de Marcos, conhecido como o discurso escatológico: é conveniente elucidar sobre “o discurso escatológico” para melhor compreender o texto de capítulo 13 de Marcos. Escatologia é a disciplina que trata das coisas que devem acontecer no fim dos tempos, ou melhor: o discurso sobre o destino final do homem e do mundo; este pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto apocalíptico. Apareceu aqui outra expressão: “contexto apocalíptico”, que pede um esclarecimento maior. Apocalipse, uma palavra que vem da língua grega que significa “revelação”; ao longo de tempo, este termo passou-se a designar os relatos escritos dessas revelações, que constituem um gênero literário bíblico (literatura apocalíptica). Vale notar que, principalmente nos momentos de mudanças fundamentais, assim como no momento que vivemos no início do século 21, o ser humano fica ansioso sobre o futuro. A literatura apocalíptica discorre sobre essa ansiosa busca sobre o futuro do ser humano.

Considerando que os textos dos evangelhos chegaram a sua redação final pelo menos quarenta anos depois da morte e ressurreição de Jesus, não é de estranhar ao encontrar as experiencias das comunidades primitivas, na forma de profecias “in vaticínio” na boca de Jesus. “In vaticínio”, quer dizer, colocar as experiencias que as comunidades primitivas tinham passado, como previsões, na boca de Jesus. A história registra que as comunidades dos seguidores de Jesus que surgiram depois da morte e ressurreição do Nazareno foram perseguidas pelos romanos e os próprios judeus, assim como Jesus de Nazaré foi atormentado no seu tempo. É necessário mencionar que já no texto do capítulo 13 encontramos os elementos constitutivos da perseguição dos cristãos de todos os tempos. Outra observação é que, foi no primeiro século d.C. que o império romano extinguiu a nação judaica e esta seria reconstituída somente na segunda metade do século 20.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019 0 comentários

O segundo anúcio da Paxão


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (32)
O segundo anúncio da Paixão

Entre a primeiro anúncio da Paixão (cf. Mc 8,34-38) e o segundo, (cf. Mc 9,30-37) todos os três evangelhos sinóticos falam da transfiguração (cf. Mc 9,2-13 e paralelos) e a cura de um epilético (cf. Mc 9,14-29 e paralelos). Para entender a relação destes dois episódios ao anúncio da Paixão é importante ter em mente a intenção teológica de cada um dos evangelistas. Que Jesus de Nazaré, aquele que foi condenado e executado na cruz como um criminoso pela “justiça” imperialista, era muito mais do que se pensava dele, é evidente em todos os sinóticos com todos os seus detalhes diferentes.

A “transfiguração” (Mc 9,2-13; Mt17,1-13; Lc 9,28-36) é uma construção teológica das comunidades primitivas, a construção que evidencia seu avanço na compreensão da pessoa do “crucificado e ressuscitado”. Refere a um aspecto extraordinário e misterioso da experiência incompreensível, que Pedro, Tiago e João, assim como também os outros, tiveram do seu mestre. Para entender a transfiguração: montanha alta, a brancura extrema das roupas, a presença da nuvem, a voz do céu, que aqui afirma da filiação divina do Nazareno, são elementos típicos que denotam, na linguagem bíblica, a teofania desde os tempos veterotestamentários. A presença de Moisés e Elias apontam para outro momento hermenêutico avançado: Jesus é aquele que plenifica o desígnio divino na história humana na tradição do próprio Moisés e do Elias, dois personagens que tiveram papéis importantes neste processo.

Este texto também menciona outra tentativa da parte de Pedro, que visa impor seus interesses e desviar o foco da missão de Jesus, ao oferecer construir três tendas a fim de prolongar a situação vantajosa e até muito agradável. Essa proposta “petrina” está bem na linha do que ele propôs a Jesus que se tinha afastado depois da cura da sua sogra e de realizar outros milagres em Cafarnaum: “Todos te procuram” (cf. Mc 1,29-39). Pedro fez sua proposta apesar de estar “com medo” (Mc 9,6) e é interessante notar a diferença dos detalhes da reação de Pedro e seus companheiros a transfiguração nos outros dois evangelhos. Para Mateus: “Ao ouvir isso (a voz do Pai), os discípulos caíram com o rosto por terra e ficaram com muito medo” (Mt 17,6); enquanto Lucas nos disse que “Pedro ainda falava, quando veio uma nuvem e os cobriu com sua sobra. Ao entrarem na nuvem, ficaram com medo” (Lc 9,32).

Ao descer da montanha Jesus pede aos seus não contarem a ninguém do que tinha acontecido até que “o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”. Eles assim fizeram, embora tivessem procurado entender melhor o que “ressuscitar dos mortos” significava. Há ainda uma conversa entre Jesus e seus três discípulos sobre o papel de Elias em relação a Jesus; essa resulta na afirmação em Mateus de que os discípulos chegaram a entender João Batista como o Elias que era esperado a voltar “para restaurar as coisas” (cf. Mt 17,10-13).

Passamos agora a examinar os textos que falam da cura do epilético. A narrativa em Marcos (9,14-29) é o maior do que a de Mateus ou Lucas. Da montanha Jesus volta para junto dos discípulos que se encontravam numa situação contenciosa, havia uma grande multidão e os doutores da Lei discutindo com eles. À sua pergunta sobre o motivo de tanta agitação, alguém da multidão reclamou de o insucesso deles expulsar o espírito mudo que atormentava seu filho.

O Nazareno se irrita com a incredulidade tão evidente naquela situação; pediu que trouxesse o menino a ele. Ao se aproximar o menino a Jesus o espírito maligno se exibiu violentamente, sacudindo sua vítima e jogando-o no chão. O pai do menino, além de responder as perguntas de Jesus sobre a duração desse caso a possessão, implorou a ajuda de Jesus, se ele pudesse. Jesus aproveita o momento para mostrar a necessidade da fé que torna tudo possível. Imediatamente o pai professou a sua fé: “Eu creio! Ajuda a minha falta de fé”.

Para muitos, o menino já estava morto, no entanto o texto, com detalhes típicos das curas que Jesus realiza, isto é - tomou-o pela mão, o levantou, e ele ficou de pé - reporta sua restauração a vida normal, apesar da confusão.

Mais tarde, quando Jesus entrou em casa, os discípulos queriam saber por que eles mesmos não foram capazes de expulsar o demônio. É que estavam preocupadíssimos com o alcance do seu próprio poder, muito menos com a adesão a Deus por meio de Jesus, que caminha para o confronto e da cruz!

É neste ambiente assombrado que Jesus faz o segundo anúncio da Paixão (cf. Mc 9,30-37; Mt 17,22-23; 18,1-5; Lc 9,43b-48). Jesus está atravessando a Galileia, sem que ninguém saiba do seu paradeiro. Ele ensina seus discípulos sobre seu fim trágico, de ser entregue aos seus adversários que o matarão “na forma da lei”. E, morto, ressuscitará depois de três dias. Os discípulos não entendiam o que isso queria dizer, e tinham medo de lhe perguntar.

Chegando em Cafarnaum Jesus perguntou-lhes sobre o que eles discutiam no caminho, porém ficaram calados, pois eles estavam discutindo sobre quem era o maior entre eles! Para enfatizar a necessidade deles se transformarem em “servidores” sem pretensões de grandeza, prestigio ou domínio para construir o Reino de Deus, Jesus acolheu uma criança carinhosamente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019 0 comentários

Jesus a caminho para Jerusalém


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (31)
Jesus a caminho para Jerusalém

O evangelho de Marcos é um documento programático. O leitor tem percebido que o autor nos conta das atividades de Jesus de Nazaré na primeira parte da sua obra e na segunda ele nos conta das consequências da sua práxis a fim de beneficiar a comunidade da fé, que inclui aqueles que seguiram o Nazareno desde o primeiro século até os nossos dias. Conhecer Jesus é importante; que este conhecimento leve a um compromisso com a causa de Jesus, isto é, a instauração do Reino de Deus num mundo que com muita facilidade o rejeita é mais importante ainda.

Vimos logo no início do Evangelho de Marcos um bloco de textos (Mc 1,40-3,6) estruturado para narrar alguns milagres, entre outros, que rabino Jesus realizou. Os beneficiários destes milagres ficaram maravilhados e louvavam a Deus pela força restauradora vindo do próprio Deus na pessoa do Nazareno. Ao mesmo tempo as elites poderosas, aliados dos imperialistas romanos, que fiscalizavam e criminalizavam qualquer movimento popular de libertação, decidiram matar Jesus e iniciaram articular um plano para realizar seu plano nefasto “na forma da lei”. Isto porque as implicações das transformações que a práxis de Jesus provocava ameaçavam seu status de privilegiados do sistema vigente.

Na segunda parte do seu Evangelho Marcos narra a subida de Jesus a Jerusalém numa técnica literária chamada de “inclusão”. Este seu deslocamento de Galileia a Jerusalém acontece entre as duas curas de cegos (cf. Mc 8,22-26 e 10,46-52). A primeira, a cura do cego de Betsaida, é um episódio peculiar a Marcos. O Evangelho não nos informa o nome do curado; ele é levado a Jesus pelos outros; Jesus o leva para longe, realiza alguns ritos e ele recupera sua vista gradativamente. Uma vez curado, Jesus despede-o com a injunção de não voltar para a situação anterior (“Não entre no vilarejo”), em que ele ficava sem enxergar.

 A segunda, a do cego de Jericó (Mc 10,46-52) tem detalhes diferentes. O cego tem nome (Bartimeu); ele mesmo percebe a presença de Jesus e pede socorro usando um dos títulos Cristológicos mais importantes: “Filho de Davi”. Os que estavam ao seu redor procuram calá-lo, diferente daqueles da cura do cego de Betsaida, que tinham intercedido por ele. Depois da sua cura, Bartimeu “seguiu a Jesus no caminho”. Vale lembrar que durante muito tempo os seguidores de Jesus eram conhecidos como aqueles que seguiam “O Caminho”, antes de receber o nome “cristãos” (cf. At 11,26).

Entre essas duas curas dos cegos nós temos três anúncios da sua paixão que Jesus de Nazaré faz (cf. Mc 8,30-38; 9,9,30-31; 10,32-34). Ironicamente, cada anúncio produz “cegueira” crescente nos discípulos quanto a caminho que Jesus de Nazaré propõe seguir na sua missão de instaurar o Reino de Deus, como veremos em breve ao analisar os textos (cf. Mc 8,32-33; 9,33-38; 10.35-45.

Para começar analisar os textos: o primeiro anúncio da paixão (Mc 8,34-38 cf. Mt 16,24-28; Lc 9,23-27) é precedido pela profissão da fé de Pedro (Mc 8,27-33; cf. Mt 16,13-23; Lc 9,18-22). Jesus está na região de Cesareia de Filipe, depois que ele advertiu seus discípulos para se protegerem do “fermento dos fariseus”. Ele pergunta aos seus que tinham voltado da sua missão aos vilarejos da Galileia, sobre o que se dizia no meio do povo a seu respeito. Eles reportaram que alguns consideravam o rabino de Nazaré João Batista ressuscitado (Herodes), Elias, Jeremias ou um dos profetas dos tempos antigos.

Aqui Jesus quer saber o que os seus próprios discípulos pensavam sobre sua identidade. Na boca de Pedro temos a profissão da fé das comunidades primitivas. Jesus elogia Pedro pela sua abertura à revelação divina. No Evangelho de Mateus percebemos uma virada eclesiológica, pois essa profissão da fé é o fundamento da comunidade que o Nazareno está formando (cf. Mt 16,17-19).

Jesus começa ensinar sobre o paradoxal caminho que ele tinha escolhido; o anúncio e a instauração do Reino de Deus não seguirão a rota que os empreendimentos dos poderosos deste mundo segue normalmente. Enquanto estes alcançam suas metas usando força maior para derrotar seus adversários e superar obstáculos no caminho, o “Filho do Homem” vai entregar sua vida em face de oposição brutal: perseguição, morte na cruz e ressurreição.

Pedro não se conforme com tal escolha tão inconvencional.  Inconformado, ele repreende Jesus. Na hora Jesus o censura pela sua falta de compreensão da radical novidade que Deus realiza na história humana na sua própria pessoa. É neste momento que o Nazareno faz o primeiro anúncio da sua paixão a multidão e a seus discípulos. O Reino de Deus concretiza-se neste mundo, quando tem que se nega, toma sua cruz, entrega sua vida por causa de Jesus e do Evangelho deste Reino.

 
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