sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017 0 comentários

O Reino dos Céus - uma escolha

O Reino dos Céus – uma escolha

O capítulo 7 do Evangelho de Mateus, na sua primeira parte (vv.1-12) encerra a interpretação cristã do decálogo e das leis e a segunda parte (vv.13-29) conclui o primeiro dos cinco ‘livros’ que o texto de Mateus capítulos 3-25 ‘contém’. As dificuldades da vida comunitária são os primeiros dois tópicos tratados, a saber, a questão de julgar os outros precipitadamente e a necessidade da prudência nas decisões tomadas e escolhas feitas no dia a dia.

Hoje temos grande número de dispositivos que divulgam nossas opiniões em toda parte o que pode viabilizar emitir juízes valorativos bem ponderados. Uma das decisões que causa perplexidade é determinar a quem expor suas pérolas, ou seja, o que você considera mais valioso em você mesmo.
Bem no final da interpretação cristã das regras, Jesus usa a imagem de um pai que atende com todo o esmero um pedido de seu filho, para revelar a atenção que o Deus Pai dá aos seus filhos que ele ama, de fato, com o carinho do pai e a ternura da mãe. E por fim, temos a regra de ouro que refere a reciprocidade das ações humanas no convívio diário. O conselho de fazer aos outros, o que desejais que os outros vos façam, é uma herança imemorial da humanidade.

Chegamos ao final da parte discursiva do anúncio do Reino dos céus (Mt 7,13-29). Há uma exortação que incentiva uma decisão. Em seguida, o texto apresenta uma alerta contra os falsos profetas. Bem dentro desta alerta nós temos uma explicitação de um aspecto importante da vida e as práticas religiosas. Entrar no reino dos céus refere a uma práxis, descobrir a vontade do Pai e se esforçar para executar esta vontade. De novo, é a escolha que você faz que determine sua inclusão ou exclusão, no reino. É notável que ressoe aqui no versículo 7,23 o eco do juízo final (cf. Mt 25,31-46).

Os últimos versículos (7,24-29) têm ressonâncias bíblicas muito profundas. Jesus contrasta os comportamentos diferentes dos seus ouvintes: aqueles que levam a sério suas palavras e agem conforme, e os outros que buscam a saída mais fácil, de fazer de conta de viver a vida nova do reino apenas recitando as fórmulas corretas! No momento de adversidades, quem se esforçou para construir sua casa sobre a rocha sobrevive, enquanto o outro se torna desastrado. Para elaborar a questão de ressonância veterotestamentária deste perícope é conveniente referir ao Sl 1, que fala dos dois caminhos abertos para o ser humano: o caminho que leva a vida e o caminho que leva a morte. Quem segue o caminho de Deus é igual à árvore plantada junto às águas vivificantes.

A boa nova que Jesus é sempre foi interpretado em diversas maneiras; já no tempo que o evangelho de Mateus chegava sua redação final, parcialidades e ideologias utilitaristas marcavam o cenário cristológico. Hoje nós vivemos numa situação em que a ‘religião’ cristã é usada para amparar até políticas escravizadoras. É neste contexto que temos que reler as advertências de Jesus contra os falsos profetas.

Os versículos finais (Mt 7,28-29) nos falam da multidão que admirava da ‘doutrina’ de Jesus. O rabino de Nazaré ensinava com autoridade própria, bem diferente dos fariseus e doutores da lei que se baseavam na anuência das opiniões dos outros. Isso causou espanto também, pois acena ao que viria a acontecer na vida do Nazareno em seguida. Para concluir: os capítulos 5-7 elaboram o programa do Reino dos céus nas bem aventuranças; num segundo momento idealizam a nova interpretação do decálogo e as leis para a vida do povo da nova aliança.

sábado, 4 de fevereiro de 2017 0 comentários

Buscai primeiro o Reino de Deus

Buscai primeiro o Reino de Deus Mt 6,33

O capítulo 6 faz parte do discurso sobre a promulgação do Reino dos Céus no Evangelho  Mateus. Nós já vimos que este discurso é uma interpretação cristã do decálogo e dos grandes mandamentos tradicionais dos judeus. Os assuntos tratados neste capítulo incluem a questão de esmola, a oração e o jejum (Mt 6,1-18). Em seguida (vv.19-24) se fala sobre o tesouro verdadeiro, o olho como a capacidade de ler os sinais dos tempos e examina a questão de servir a Deus ou ao Dinheiro (Mamon). E na parte final há uma exortação poética a viver abandonando-se a providência divina (Mt 6,25-34).

Praticar as boas obras, de acordo com a religião judaica, é o que torna o ser humano justo diante de Deus. Entre as boas obras as principais eram a esmola (vv.2-4), a oração (vv.5-6), e o jejum (vv.16-18). Mateus usa o epíteto ‘hipócrita’ para designar toda piedade falsa, afetada e ruidosa. Na opinião dos comentaristas da Bíblia de Jerusalém, aplica-se este termo especialmente a seita dos fariseus. Hoje referimos a todo ‘comportamento afetado’ como farisaísmo. Na questão de oração, Jesus ensina seus discípulos a maneira de orar com humildade, de coração mais que com os lábios, confiantes na bondade do Pai e insistentes até a importunidade.

O “Pai-nosso” na redação de Mateus (Mt 6,9-13) reflete a predileção do autor pelo número sete. Aqui é bom recordar: duas vezes set gerações na genealogia (1,17); sete bem aventuranças (5,3ss); sete parábolas (13,3ss); dever de perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes (18,22) e sete maldições dos fariseus (23,13ss). Comentaristas opinam que esta preocupação mateana com o número sete fez com que adições foram feitas a texto básico, do Pai-nosso encontrado em Lc 11,2-4.

Nos próximos versículos (Mt 6,19-24) temos a postura bem definida sobre a questão de uso dos bens materiais, condizente com os valores que o Reino dos céus promove. É uma tensão existente entre a comunidade dos seguidores de Jesus e o “mundo” em que essas são inseridas. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. Trabalhar só para acumular riquezas materiais, riquezas essas perecíveis e que podem ser roubadas, é contrastado com um tesouro maior, melhor, aqui referida como tesouro ajuntado no céu. Da fala sobre os olhos como a lâmpada do corpo (Mt 6,22-23) sabemos que existiam situações nas comunidades primitivas (como também as atuais) em que temos episódios como o de Ananias e Safira (cf. At 5,1-11). O casal procurou dar um jeitinho na questão de desapego aos bens materiais, mas não deu certo naquele momento. Aqui surge a pergunta: será que não se encontra este mesmo jeitinho nos movimentos ou nas comunidades que hoje ‘tomam’ o nome de Jesus?

A parte final deste capítulo (Mt 6,25-34) usa uma linguagem abeirando ao do poético para falar da possibilidade de viver abandonando-se à providência divina. A preocupação doentia com as necessidades básicas da vida, que destitui a alegria da vida da maioria da população mundial, não é uma característica do Reino, que Jesus instaura. O poeta de Nazaré fala disso tirando exemplos de própria natureza: 1) as aves do céu que nunca faltam sua comida; e 2) os lírios do campo que possui a beleza que nem Salomão, considerado o mais bem trajado no mundo bíblico, tinha! Sim, o discurso pode parecer muito idealista e fora da nossa realidade, pois nós nos organizamos de acordo com a lei da selva: o mais forte acumula tudo o que pode e domina os mais fracos. Entretanto, buscar o Reino primeiro, acima de tudo, é ir contra o neoliberalismo patrimonial que prevalece hoje!


 
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