Diante
de deus-Mercado
O
momento tragicômico que Brasil vive na era pós-golpe é mais bem
entendido com uma reflexão teológica. São as tensões de passagem
do capitalismo hegemônico do modelo desenvolvimentista para o modelo
neoliberal do mercado livre que o país experimenta. A idolatria do
dinheiro, concentração da riqueza, exclusão social e a crise
ambiental, que este sistema iníquo provoca, são fatos bem
reconhecidos; são muitos os preocupados com a gravidade da situação,
mas poucos aceitam mudanças para uma vida mais solidária e
fraternal.
A
ideologia capitalista que foi um sistema de ideias norteadoras de uma
classe social na segunda metade do século passado hoje passa a ser o
núcleo da cultura global em construção e seu ethos num mundo
globalizado. A modernidade baniu o mito cristão da esfera pública e
a pós-modernidade edifica o novo mito que se baseia na nova
cosmovisão a partir do mercado ‘livre’ divinizado, a versão
moderna do bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-35).
Ronald
Regan, Margaret Thatcher e outros impuseram políticas neoliberais ao
mundo usando instituições como FMI, Banco Mundial, “Consenso
Washington” e campanhas agressivas na mídia da comunicação para
divulgar o credo dessa nova religião. Teóricos como Ludwig van
Mises (1881-1973) anunciaram a ruptura do mito de progresso e
desenvolvimento. As pessoas não têm mais direito “natural”, na
nova dispensação, de ter acesso às condições da vida digna, ao
passo que todo programa social em nome de “justiça social/dívida
social”, transferindo dinheiro dos ricos para os pobres, é
“roubo”. Foi feita uma releitura do mito do pecado original, quer
dizer, pretender conhecer a complexidade do mercado e regular seu
funcionamento com ações governamentais é “pecado”, pois gera
“crise” no mercado!
Assim
a religião da pós-modernidade revela-se culpabilizante sem oferecer
nenhuma forma de perdão ou redenção. Anticapitalismo, segundo von
Mises, é a procura de bode expiatório dos fracassados por não
forem capazes de assumir, a sua própria culpa, uma vez que igualdade
perante a lei dá a você o poder de desafiar cada bilionário! Eis o
porquê da agressividade dos “anti-esquerda”, visto que os
governos intervencionistas tiram deles o que é por direito deles
para dá-lo aos pobres, os que não foram capazes de ganhar seu
próprio dinheiro.
Diante
disso o cristão identifica três urgências: defender o direito de
todos os seres humanos a uma vida digna; a desculpabilização dos
pobres da sua situação social; a retomada da noção da
responsabilidade de toda a sociedade perante a crise social e
ambiental. Já que a idolatria neoliberal mostrou sua capacidade de
fascinar seus seguidores e lhes oferecer um sentido de vida, é
preciso oferecer outra “narrativa mítica” em contraposição.
Dito
isso, a tarefa da teologia seria de discernir entre Deus e os ídolos
que exigem sacrifício e culpabilização dos pobres. A novidade da
mensagem cristã é introduzir na história o amor fraternal que
inclui a todos; sua afirmação central é que as vítimas são
inocentes, e nenhuma desculpa ou pretexto justifica a vitimação
deles. A afirmação “as vítimas são inocentes” é importante,
pois são os réus que têm sua inocência questionada, não as
vítimas. De fato os primeiros testemunhos da ressurreição de Jesus
declaram que, para Deus, Jesus era justo, inocente, ao contrário do
que pensaram o Templo e o Império!
A
um mundo que anuncia que não há alternativa ao sistema do mercado
livre, reafirmar o caráter profético do cristianismo é ter a
capacidade de oferecer uma outra “narrativa mítica” capaz de
desvelar e denunciar cosmovisões, símbolos e mitos opressivos do
Império atual!

- Follow Us on Twitter!
- "Join Us on Facebook!
- RSS
Contact