quarta-feira, 21 de dezembro de 2016 0 comentários

José assume a paternidade legal de Jesus

     José assume a paternidade legal de Jesus.
    
Depois de comentar sobre um aspecto incomum, isto é, a presença de quatro mulheres, além da Maria, na genealogia de Jesus de Nazaré, nós vamos analisar o relato que o Evangelho de Mateus tem na segunda parte do primeiro capítulo. Existe um consenso hoje que Mateus acrescentou o “Evangelho de infância”, isto é, capítulos 1 e 2, para fins apologéticos. Este acréscimo ao Evangelho é mais bem compreendido à luz do desenvolvimento da Cristologia, como vimos já. Quando os redatores finalizaram o texto de Mateus, já estavam presentes tendências gnósticos (docetismo) que ensinavam que o corpo de Cristo era apenas aparente, e que Jesus não nasceu de Maria. Diante disso a igreja precisava afirmar a realidade histórica de encarnação do Filho de Deus.

O relato de como aconteceu o nascimento de Jesus (Mt 1, 18-23) nos diz que Maria, a mãe de Jesus prometida em casamento a José, encontrou-se grávida antes que os dois começassem a cohabitar. O texto faz questão de declarar que a gravidez era por obra do Espírito Santo. José, seu esposo, era um homem “justo” e não quis expor sua noiva a destino comum nestes casos: morte por apedrejamento, se ele a denunciasse. Enquanto ele se firmava na sua decisão de divorciá-la secretamente, acontece uma intervenção divina.

Um anjo do Senhor lhe aparece em sonho com um comunicado importante: ele, filho de Davi, deve aceitar Maria como sua legítima esposa sem receio, pois o que nela foi gerado é por obra do Espírito Santo. Ademais, o filho que vai nascer de Maria deve receber o nome Jesus. Na tradição judaica o nome simboliza missão da pessoa. O nome Jesus é um variante de Josué (Yehoshua=Deus salva), o herói antigo que completou o Êxodo de Egito sob a liderança de Moisés, ao levar o povo entrar, finalmente, em Canaã, a terra prometida. A missão de Jesus é: “... salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).

Aqui é inserido o texto de Isaías 7,14 que interpreta o acontecido na vida de José e Maria à luz do AT, quer dizer, os dois estavam cumprindo a promessa antiga que Deus tinha feito pelo profeta. O texto original fala de um sinal, o nascimento de uma criança, que Deus dá ao rei Acaz de Judá, ameaçado de destruição pelos seus vizinhos Israel e Síria por ele recusar participar no seu esquema imperialista. A criança assim nascida receberia o nome Emanuel, que significa Deus conosco – mais um título de Jesus de Nazaré. Isaías assegura Acaz que os planos dos seus adversários fracassarão devido a fidelidade de Deus.

Desde já o esquema ‘promessa-cumprimento’ que marca fortemente o NT está em evidência. É possível identificar pelo menos 10 ocorrências deste, só em Mateus.     Jose, ao acordar, acolheu Maria sua esposa em sua casa, como o anjo tinha mandado. Ele não teve relações sexuais com ela até o dia em que ela deu a luz a seu filho. Uma vez que nasceu o filho José o chamou com o nome de Jesus, assim como ele tinha sido instruído no sonho pelo anjo do Senhor. Desta maneira José assume a paternidade legal de Jesus.

‘Sonho’ e ‘o anjo do Senhor’ – são linguagens no AT que referem à intervenção divina, quando a compreensão da realidade vai além da capacidade humana. José recebe uma revelação divina e com isso ele adquire uma nova perspectiva sobre a situação da sua vida. 

A reivindicação de que Jesus manifesta a presença de Deus é polêmica, visto que a presença de Deus em Jesus desafia a teologia imperial romana, que vê nos imperadores da dinastia Flávia os mediadores da presença dos deuses. Por fim, José, ao obedecer ao anjo e acolher Maria como sua esposa legítima realiza uma ação contra-cultural!


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O nascimento e a infância de Jesus

O nascimento e a infância de Jesus

São dois capítulos iniciais no Evangelho de Mateus que falam do nascimento e a infância de Jesus em apenas 48 ver-sículos. O autor começa contar a história de Jesus de Nazaré com sua genealogia que vai de Abraão até José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo (1,1-16). Logo no primeiro versículo ele nos informa que Jesus é o filho de Davi. 

Depois da genealogia ele apresenta um relatório que narra de como José chegou a assumir a paternidade legal de Jesus (1,18-25). Maria era comprometida em casamento com José, porém antes de começar a vida juntos, ela se achou grávida. José era um homem justo e não quis denunciar sua noiva e decidiu abandoná-la secretamente. Mas, houve uma intervenção divina e José a levou para sua casa como esposa. Quando nasceu a criança José deu o nome de Jesus a recém-nascido e assim se tornou o pai legal de Jesus.

Passando para o segundo capítulo: aqui temos a história da visita dos magos (2,1-12); em seguida as circunstâncias da fuga da família para o Egito e em seguida somos informados do massacre dos inocentes (2,13-18). O capítulo termina narrando como mais uma intervenção divina levou a família ir morar em Nazaré (2,19-23).

Aqui é necessário comentar sobre os textos desde o início para mostrar a intenção teológica do autor. O anúncio primitivo cristão era sobre a ressurreição de Jesus. Com tempo cresceu a curiosidade sobre o ressuscitado e nós temos as quatro narrativas da Paixão; mais tarde se contava do ministério de Jesus. Por fim Mateus e Lucas acrescentaram ‘os evangelhos da infância’. Hoje se refere a este processo da formação dos evangelhos com a expressão: “o percurso inverso no desenvolvimento cristológico”.

O primeiro capítulo começa com a genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Temos uma lista de setenta e duas gerações, bem organizada em três blocos de quatorze cada. Há quatro mulheres incluídas: Tamar, Raab, Rute e a mulher de Urias (Betsabéia), como se fosse a preparação para a quinta (Maria de Nazaré) da qual nasce Jesus chamado Cristo.

De acordo com os padrões bíblicos, sua presença na ge-nealogia é incomum! O que será que fez o autor incluí-las na lista dos antepassados do salvador? Uma primeira hipótese defendida por Jerônimo considera as quatro pecadoras; sua inclusão prenuncia para os leitores de Mateus o papel de Jesus como Salvador dos pecadores. A segunda, popularizada por Lutero enfatiza a origem das quatro: eram estrangeiras. A terceira que hoje tem muitos seguidores encontra dois elementos comuns nessas quatro mulheres do AT.


Elementos esses que as quatro mulheres partilham com a Maria: a) há algo de extraordinário ou irregular em sua união com seus parceiros, e mesmo nessa situação (escandalosa para os estranhos?) continuaram a linhagem abençoada do Messias; b) as mulheres demonstram iniciativa ou desempenharam um papel importante no plano de Deus, e, assim foram consideradas instrumentos da providência de Deus ou do Espírito Santo. 
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016 0 comentários

A cegueira - um paradoxo em nossos dias!

A cegueira – um paradoxo em nossos dias!

Em face de impossibilidade de obter a colaboração do que era cego de nascença para incriminar Jesus de Nazaré (cf. Jô 9,13-17) o supremo decidiu abrir outro leque de investigação para criminalizar a práxis de Jesus (Jo 9,18-23), pois era uma urgência para as elites.

Realizaram uma interpelação coercitiva dos pais do homem que era cego de nascença. Os pais garantiram que ele, a pessoa sendo investigada, era mesmo seu filho; é verdade que ele era cego de nascença, mas agora ele não é mais. No entanto, quanto a como ele recuperou sua vista ou quem lhe abriu os olhos, eles se declararam não cientes. Ademais, eram de opinião de que os investigadores mesmos deveriam demandar explicações do próprio sujeito, visto que ele já tinha a idade suficiente para fazer declarações em juízo.

De fato, foi medo que levou os pais do que era cego adotarem tal posição. Aqui o autor insere dois versículos para nos informar sobre a hostilidade que as comunidades do movimento Jesus enfrentavam naqueles tempos (Jo 9,22-23). ‘Expulsar da sinagoga/comunidade’ foi uma arma poderosa a disposição dos detentores do poder desde sempre. Dito isso, temos que notar que a ‘força tarefa’ que caçava Jesus de Nazaré se tinha dado de frente com um muro outra vez!

Mas, não desistiram! Convocaram o que era cego de nascença para depor outra vez. Presumindo serem donos do processo, e esperando conseguir ‘uma delação premiada’ as autoridades procuraram colocar as respostas na boca do respondente. No entanto, ele se esquiva do estratagema e recusa concordar com a afirmação condenatória: “é um pecador”, daquele que foi seu benfeitor (9,24) e testifica a sua cura em termos favoráveis, frustrando o esquema dos poderosos que perseguiam o Nazareno.

Recomeça o interrogatório sobre os detalhes do acontecido (Jo 9,26). Como ele já tinha respondido estas perguntas mais de uma vez, o que era cego ironiza destemidamente: “Por acaso quereis também tornar-vos seus discípulos?” A cúpula reagiu com violência, condenou-o, justificou-se com arrogância por serem discípulos de Moises. Alem disso, declararam que sabiam de onde Moisés vinha, mas quanto ao que mudou a condição do cego não sabiam da sua origem (cf. Jo 9, 28-30).

Outra oportunidade para quem recuperou a vista, contestar o uso de teologia para fins obscurantistas, apresentou-se (cf. Jo 9, 30-34). Ele desmascarou a hipocrisia religiosa-política opressora dos seus interrogadores. Por mais coerente fosse seu raciocínio teológico, ‘o supremo’ condenou seu autor como ‘pecador’ e se vingou expulsando-o da comunidade pela sua ousadia em questionar as bases do exercício de seu poder!

Chegamos o ponto alto da narrativa: Jesus, tendo notícias sobre aquele a quem ele libertou da sua cegueira de nascença, procurou o e o guiou passo a passo a uma profissão da fé. A cena encerra-se com o gesto de reconhecimento da parte do que foi curado, do Senhorio de Jesus de Nazaré.

Os últimos versículos do capítulo 9 são paradoxais: Então disse Jesus: “Para um discernimento é que vim a este mundo: para que os que não veem, vejam, e os que veem, tornem-se cegos”. Alguns fariseus, que se achavam com ele, ouviram isso lhe disseram: “Acaso também nós somos cegos?” Respondeu-lhes Jesus: “se fosseis cegos, não teríeis pecado; mas dizeis: ‘Nós vemos!’ Vosso pecado permanece” (Jo 9, 39-41).

Educação como conscientização da dignidade do cidadão é combatida vigorosamente pelos que procuram inserir seu povo na onda neocolonial e recolonizadora - paradoxo está no meio de nós ainda! 




quarta-feira, 30 de novembro de 2016 0 comentários

Curar no dia de sábado?

Curar no dia de sábado?

     Contextualizamos, na semana passada, a cura do cego de nascença à luz da hostilidade das elites contra Jesus de Nazaré que marca o Evangelho de João profundamente. Nos primeiros versículos do capítulo 9 o Nazareno desmistifica as crendices sobre o pecado e a doença do seu tempo e aponta para a transformação que ele mesmo iria realizar em breve. Os detalhes do acontecido têm sua importância, por isso analisemos o texto (cf. Jo 9,1-5).

     Para curar o cego de nascença Jesus cuspiu na terra, fez lama, aplicou-a sobre seus olhos e mandou-o para lavar-se na piscina de Siloé (9,6-7). Em hebraico a palavra Siloé significa o “Enviado”. Vale lembrar que a mesma palavra é um dos títulos caracteristicamente joaninos de Jesus (cf. Jo 4,34). O cego foi, lavou-se na piscina, e ficou curado.

     A mudança na situação da vida do que era cego despertou curiosidade enorme nos seus concidadãos. Pois ele não mendigava mais. Ele é o símbolo do povo que nunca tomou consciência de sua própria condição de oprimidos. Bem por isso não chega a conhecer o objetivo para o qual Deus criou o ser humano – a vida digna de sujeitos autônomos. Assim como fez Jesus, mostrar a possibilidade de outra vida, uma vida liberta das amarras de dependência, continua sendo a missão dos seguidores do profeta de Nazaré.

     Os jornais e tevês (seus equivalentes) daquele tempo promoveram um debate caloroso sobre o ‘milagre’. Os passos e as técnicas que promoveram tal mudança de um tradicionalmente dependente, para a condição de um cidadão independente, foram investigados minuciosamente. Percebeu-se no acontecido uma ameaça que abalaria os princípios e os ‘bons costumes’, as bases sobre as quais a ordem e o progresso eram definidos e mantidos. Numa série de entrevistas e depoimentos o ‘curado’ explicou os procedimentos que foram adotados, mas quanto à identidade daquele que causou essa revolução, ele se mostrou ignorante (Jo 9,6-12). Os formadores de opinião e os mantenedores da pureza dos costumes e tradições ficaram espantados. Algo novo, algo diferente e assustadora, estava produzindo transformação social! Os privilégios das elites tradicionais estavam em perigo.

     Então, os Bicudos e Janaínas daquele tempo foram contratados para redigirem uma denúncia com pareceres muito legais para impedir essa nova dinâmica social revolucionária. Constatou-se que a obra de recuperação da vista foi realizada num dia de sábado. No entanto para assegurar que estava tudo ‘certo’ na forma da lei, os fariseus interpelaram aquele que foi curado. Ele contou sua história: alguém colocou barro nos seus olhos, ele se lavou, e agora está enxergando.

    Não demorou, saiu a opinião oficial: aquele que efetuou tal mudança não pode vir de Deus, pois ele não guarda o sábado. No entanto, não houve unanimidade no supremo: havia um grupo significativo que dizia que um pecador não poderia realizar tais sinais. Numa tentativa de delação condenatória, interpelaram o que era cego outra vez. Só é que contrariando suas expectativas ele afirmou que quem fez isto é um profeta. A procura de transformar o fato em fraude não obteve o resultado desejado (Jo 9,13-17)!

     Os poderosos deste mundo não se dão por vencidos muito facilmente. O império trabalha incansavelmente para evitar que os cidadãos adquirissem a capacidade de ‘ver’! Nossa história recente de inquisição política evidencia o empenho redobrado do imperio neste respeito. O processo de incriminação de Jesus por trazer libertação à vida de um cego de nascença toma ainda outro rumo agora. Veremos...



quinta-feira, 24 de novembro de 2016 0 comentários

O cego de nascença (1)

O cego de nascença – Evangelho de João 9  (1)

O Evangelho de João é um documento altamente teológico. Ele ‘nasceu’ no final do 1º século nas comunidades perseguidas. A perseguição imperial das comunidades dos seguidores de Jesus de Nazaré evidencia a resistência do ser humano contra o Deus que caminha conosco. O texto deste livro tem sua maneira própria de provar essa tese. Ele oferece sete sinais para demonstrar a unicidade de Jesus de Nazaré como o revelador de Deus libertador, portador da salvação. É um texto denso; há camadas de significações. Também é visível o progresso na compreensão de cada sinal que no final provoca uma decisão a favor ou contra Jesus.

Nos ‘milagres’ da cura dos cegos narrados nos evangelhos sinóticos, vimos como aqueles que receberam sua vista de volta ‘seguiram Jesus no caminho’, enquanto os próprios discípulos tiveram dificuldades no seguimento. Não deram conta de entender as implicações do Reinado de Deus que se instaurava na práxis de Jesus. A cura do cego de nascença em João ocupa todo o capítulo 9 e elabora mais detalhadamente como ‘ver/enxergar’ causa mudanças. O texto também comprova: fazer os outros enxergar, isto é, conscientizar ou gerar criticidade no povo é muito perigoso.

Todo o Evangelho de João é permeado pela hostilidade que Jesus, o profeta de Nazaré, enfrenta nos detentores do poder e os fiscalizadores dos ‘bons costumes’. De fato, no capítulo oitavo, se conta a história da mulher flagrada em adultério e a contestação violenta que segue. As propostas do Nazareno, que vão além das ‘boas tradições’ do seu tempo, são resistidas com força. De fato últimos versículos do capítulo falam de uma tentativa de linchar Jesus, mas ele ‘ocultou-se’ e saiu do templo.
O capítulo décimo contém o discurso sobre o ‘bom pastor’. A imagem do ‘Pastor’ tem profundas ressonâncias para o povo judeu. O discurso de Jesus neste respeito causou divisão e confusão no meio de seus ouvintes. Enquanto os defensores do “status quo” acusavam Jesus de estar possuído por um diabo, os outros que tiveram o senso crítico rebateram tal acusação. Opinaram que a fala do profeta Jesus não são palavras de um endemoninhado, pois o demônio não acostuma “abrir os olhos” dos cegos!

Com essa introdução nós vamos passar para uma análise do capítulo 9, comentar e indicar algumas pistas para a aplicação da mensagem do capítulo para nossa realidade. Os seguidores de Jesus costumam ‘fazer memória’ das intervenções divinas no passado para poder discernir a presença deste mesmo Deus no seu presente. Vale lembrar que texto de João foi construído abrangendo muitos aspectos da vida da sociedade do tempo de Jesus; por exemplo, os versículos 1-5 referem à crença daquele tempo: a doença é resultado do pecado. O pecador era punido por Deus em diversas maneiras, inclusive a doença. Em vista disso é inserida aqui a pergunta dos discípulos: a cegueira foi causada pelo pecado do cego ou o dos seus pais?

Jesus, com sagacidade, explica que não foi por causa de pecado algum, nem da parte dele nem a dos seus pais que o homem nasceu cego. A sua condição é uma ocasião para se manifestar a obra de Deus. Em outras palavras, existe um plano de Deus que o ser humano ignora. Nos versículos 4 e 5 o Nazareno aponta para o sinal que ele iria realizar em breve. Alude a transformação que ele vai efetuar com as imagens da luz e da noite: luz, quer dizer, o dia que por sua vez simboliza a vida; a imagem da noite, que é escuridão que simboliza morte, a ausência da vida.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016 0 comentários

A procura de poder e a procura de libertação

A procura de poder e a procura de libertação:
 Os discípulos versus os cegos curados nos evangelhos.

            Indicamos os trechos que falam da ‘recuperação da vista’ dos cegos nos quatro evangelhos. Hoje a nossa intenção é refletir sobre a ‘ironia’ em Marcos como preparação para passar para o capítulo 9 de João que elabora a cura de cegueira e suas implicações políticas e religiosas. Queremos mostrar que ainda hoje a capacidade de ‘ver’, isto é, ter senso crítico é ressentido e vigorosamente combatido pelas elites, assim como faziam no tempo de Jesus de Nazaré. Em segundo lugar, a percepção dos que necessitam de cura (libertação) diferem muito a daqueles que querem manter-se no poder.

            Marcos tem dois episódios de cura de cegos. O primeiro é a de um cego em Betsaida (Mc 8,22-26). O acontecido marca o início da segunda etapa do ministério de Jesus. Após percorrer os povoados de Galileia anunciando a iminência da instauração do Reinado de Deus, Jesus “tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). Durante esta viagem acontecem os “três anúncios de paixão”. Logo depois do terceiro anúncio acontece a cura de Bartimeu, o cego de Jericó (Mc 10,46-52).

O mais notável no trecho de Marcos que começa no 8,22 e vai até 10,52 é a dificuldade crescente dos discípulos em entender o programa libertador de Jesus. Mas este trecho, a ‘inclusão’, tem no seu início e no fim ‘cegos’ reconhecendo a libertação que o Nazareno efetua na realidade humana. O contexto é sua pergunta aos discípulos sobre o que pensavam os galileenses sobre sua identidade. Entre as muitas respostas, é a confissão da fé do Pedro que recebe destaque: “Tu és o Messias” (Mc 8,31; Mt 16,16; Lc 9,20).

Mas, Jesus proibiu severamente a divulgação dessa identidade. Em seguida começa a ensiná-los abertamente sobre o sofrimento, a rejeição, a morte e a ressurreição – o caminho messiânico seu. No entanto, isto contraria a expectativa popular de um messias poderosos e vencedor que aniquila seus inimigos com força brutal. Por isso, Pedro o levou a parte e o repreendeu. Mas, por causa dos outros discípulos, Jesus censurou sua ideia messiânica convencional (cf. Mc 8,31-33; Mt 16,21-23).

O segundo anúncio de paixão ocorre num horizonte marcado por medo e briga de poder entre os discípulos (cf. Mc 9,34; Mt 18,1-5; Lc 9,45-48). Para entender o messianismo de Jesus é preciso mudar a ideia que se tem a respeito do poder e seu exercício. O desejo de poder que domina não serve a construção do Reinado de Deus.

Terceiro anuncio da paixão está após os textos que falam da opção preferencial pelos pobres (cf. Mc 10,13-16) e as exigências radicais do Reinado de Deus. De fato, naquele momento alguém que tinha a boa vontade, porém não a disposição de desapegar-se das suas riquezas se afasta de Jesus (Mc 10,17-22). Os discípulos, preocupados, perguntam sobre a recompensa, pois deixarem tudo e seguirem o profeta itinerante (Mc 10,23-31).

A situação está tensa e os discípulos estão ‘atrás’ de Jesus na sua subida para Jerusalém (Mc 10,32-33). O terceiro anúncio de paixão acontece agora. A conjuntura exacerbou. Os filhos de Zebedeu fizeram lobby para promover sua ascendência dentro da organização e os outros brigaram feio com Tiago e João (Mc 10,41).

Eis a ironia dos textos de cura dos cegos em Marcos; os discípulos não conseguem ir além das ambições convencionais, porém são ‘os cegos’ entendem que aquele rabino é mais do que alguém que levanta expectativas tradicionais. Seu pedido é que o ‘Filho de Davi’ restaure sua capacidade de ‘ver’ de novo. Recuperado sua vista, Bartimeu segue Jesus pelo ‘caminho’ (Mc 10,51).



quinta-feira, 10 de novembro de 2016 0 comentários

Aos cegos a recuperação da vista... (Lc 4,18)

Aos cegos a recuperação da vista... (Lc 4,18)

Dicionários elucidam o verbo ‘ver’ e o substantivo ‘vista’ para evidenciar as múltiplas dimensões desta atividade humana. No manifesto político de Jesus de Nazaré “recuperar a vista aos cegos” é um item importante (cf. Lc 4,18 e Is 61,1-2).

Todos os evangelhos contam da cura dos cegos (Mc 8,22-26; 10,46-52; Mt 9,27-31; Lc 18,35-43; Jo 9). Atualmente “a igreja em saída” está prestes a encerrar o ano de jubileu da misericórdia. Em resposta ao chamado do Papa Francisco, recentemente, as revistas teológicas começaram publicar artigos sobre a ‘Teologia da Libertação’. Esse patrimônio precioso da tradição cristã “vê” a realidade, analisa a mesma  à luz da palavra de Deus de maneira que os profetas faziam nos tempos monárquicos na história de Israel.

O livro de Êxodo nos conta como Deus viu a condição dos filhos de Israel (que gemiam sob o peso da escravidão) e a levou em consideração (cf. Ex 2,23-25). O que aconteceu em seguida é a história que se repete ao longo dos séculos. Ao fazer a leitura os sinais dos tempos, percebe-se que hoje os seguidores do Deus Mamon (riqueza acumulada e idolatrada) estão criando condições em que o mundo precisa de um novo “êxodo”. Procuramos oferecer algumas simples reflexões sobre os textos sobre a cura dos cegos, supracitados. Eventos recentes têm evidenciado as implicações da ‘mudança de época’ que vivemos. Começamos com os textos dos sinóticos.

Os Evangelhos de Marcos e Mateus têm dois episódios, cada um, da cura dos cegos. Autores comentam sobre a função simbólica da cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26). Ele não tem nome, sua cura é um processo lento que acontece em etapas. São os outros que o levam a Jesus rogando sua intervençãoem prol dele; ele mesmo é passivo. O rabino o leva para fora do povoado, o ambiente em que ele ficava cego. Uma vez que foi curado o Nazareno instrui-lhe para não voltar ao mesmo ambiente, que lhe mantinha em dependência. E ele não segue Jesus no caminho.

Com notável ironia o autor de Marcos narra a cura do Bartimeu em 10,46-52. Jesus está de saída de Jericó, a caminho para Jerusalém. A agitação gerada pela passagem da comitiva do Nazareno desperta curiosidade do cego, sentado a beira do caminho; ele se informou sobre o que acontecia. Sabendo que o renomado rabino passava por ali, ele começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!” Os incomodados com os gritos do excluído não conseguiram silenciá-lo, pelo contrário, seu clamor só aumentava. O profeta parou, mandou chamá-lo, e indagou-lhe do que precisava: “Mestre, eu quero ver de novo.” Seu pedido foi atendido; sua fé foi elogiada e ele seguiu Jesus no caminho.

As narrativas deste episódio em Mateus e Lucas têm semelhanças e diferenças. Em todos os três evangelhos sinóticos este “milagre” é registrado após o terceiro anúncio da paixão de Jesus. Mateus tem dois cegos, sem nome, a beira do caminho. Eles pedem: “Senhor, queremos que nossos olhos se abram.” Uma vez restituída a visão eles seguiram Jesus. Enquanto isso, Lucas tem um cego sem nome que pede: “Senhor, eu quero ver de novo.” Com sua capacidade de “ver” restaurada ele segue Jesus.

O impressionante em Marcos é que o texto da cura do cego sem nome de Betsaida (8,22-26) faz uma ‘inclusão’ com o texto da cura da cegueira de Bartimeu de Jericó (10,46-52). A inclusão é uma técnica línguistica muito usado na Bíblia que exemplifica o esquema – promessa e cumprimento. Continuaremos a nossa reflexão sobre estes textos e o de João.



quinta-feira, 3 de novembro de 2016 0 comentários

A salvação - uma realidade tênue

A salvação – uma realidade tênue

       O Evangelho de Lucas protagoniza os pobres e excluídos como herdeiros preferidos da salvação oferecida em Jesus de Nazaré. Entre os excluídos os publicanos recebem menção em seis capítulos do texto (Lc 3, 5, 7, 15, 18 e 19); são os favorecidos na práxis de Jesus. É na sua interação com este grupo que se revela a característica tênue da salvação que toda a humanidade almeja desde sempre.
Lc 5,1-11.27-32 fala do chamado dos primeiros discípulos. Entre eles está Levi/Mateus que Jesus chamou de seu local de trabalho, a coletoria dos impostos. Ele deixou tudo e seguiu o rabino itinerante. Para comemorar o evento ele deu um banquete. A presença de Jesus nessa festa, oferecida por um ‘pecador’, foi duramente criticada pelos fariseus, os guardiões das leis e dos bons costumes. Mas, o Nazareno rebate a crítica e mostra que sua missão é procurar todos aqueles que se encontravam nas periferias da vida. São eles que necessitam da salvação, pois os doentes precisam de médico, não aqueles que gozam de saúde perfeita.
       Diante da arrogância daqueles que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros, Jesus conta a parábola da oração do fariseu e a do publicano (Lc 18,9-14). O fariseu discursa para Deus a partir de seus méritos e bons costumes. No entanto o publicano fica longe, admite humildemente a sua situação de pecador e roga pela misericórdia de Deus. Contrariando a opinião comum que considerava justos aqueles que obedeciam as leis tradicionais e práticas piedosas meticulosamente e também excluía todos aqueles que não davam conta de observação perfeita das tradições, Rabino Jesus ousa afirmar que o ‘pecador publicano’ voltou para casa justificado e não o fariseu, o minucioso observador das tradições!
       A história de Zaqueu, um homem capaz de iniciativas fora de comum, é interessante (Lc 19,1-10). Ele desejava ardentemente ver o renomado Galileu que passava por ali.  Seus esforços neste empreendimento foram amplamente recompensados: o Nazareno foi hospedar-se em sua casa! Outra vez Jesus escandalizou os ‘puros’. Foi o momento de uma revelação importante: Jesus veio para salvar a todos. O publicano Zaqueu não pode ser excluído do abraço do Pai que abrange a todos.
       O discurso de Zaqueu na ocasião (Lc 19,8) evidência a implicação da conversão, a salvação. Ele propõe distribuir metade de seus bens aos pobres. Mais ainda, vai restituir quádruplo aos que foram defraudados. Essa restituição que o rico convertido propõe é difícil de executar! De fato, o Brasil vive o momento de furiosa aniquilação do programa governamental que procurava pagar a dívida social aos seus cidadãos oprimidos durante cinco séculos, desde a chegada dos colonizadores.
       Diante da perplexidade que o momento gera é necessário entender as imagens que Jesus usa para falar da natureza tênue do Reinado de Deus (Lc 13,18-21). A investida neocolonial visa estancar o agir político de uma parte considerável da população brasileira. Aqui é que o sentido do texto supracitado ilumina nossa história em construção. O Reino Jesus de Nazaré instaura é igual à semente de mostarda, uma planta sazonal que pode chegar até a servir às aves construírem seus ninhos. De novo, o Reino é como o fermento que leveda uma determinada medida de farinha; outra medida de farinha precisa de uma outra porção de fermento!
       É paradoxal - os projetos que visam implantar o Reino de Deus são pequenos e transitórios! O poder da riqueza acumulada e idolatrada pode reduz a nada o tênue rebento que é o Reinado de Deus?

         
quarta-feira, 26 de outubro de 2016 0 comentários

O “príncipe deste mundo” sua identidade e seu poder

O “príncipe deste mundo” sua identidade e seu poder

       Que as forças que molduram a história do Brasil hoje correspondem às mesmas que as linguagens da Bíblia nos revelam é algo que não cessa de fascinar-me. Em nossa série de reflexões sobre a força do mal presente na vida humana, assim como nos fala os sinóticos e o Evangelho de João, nós examinamos rapidamente os termos usados e a realidade a qual que cada conceito referia. Na última, nós vimos os termos que João tem em comum com os sinóticos e mencionamos a sua novidade: “o príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30; 16,11). Os escritos joaninos têm uma análise de conjuntura que não deixa em dúvida a identidade deste “príncipe”. Ficou fácil para nós identificarmos este poder e seus mercenários na história que fazemos hoje.
       A opressão romana (pax romana) e o poder das autoridades do sinédrio estavam massacrando as comunidades nas quais surgiram os escritos joaninos. Os poderes constituídos tradicionais odeiam Jesus e seus seguidores, pois estes desmascaram suas obras, que são más (Jo 7,7) é a nossa experiência hodierna! O mundo rejeita o Espírito de verdade (Jo 14,17). Enquanto a paz que Jesus doa é baseada na solidariedade, no serviço e na partilha, o império domina e escraviza para acumular riqueza (14,27; 16,33) gerando mais tribulações. Os imperialistas odeiam e perseguem Jesus e seus discípulos (Jo 15,18-20; 16,2). Do ponto de vista das comunidades joaninas o império e todo “mundo está sob o poder do maligno” (1Jo 5,19). Não importa esteja ele encarnado no judiciário ou nos partidos comprometidos com o esquema imperialista de recolonização (“A ponte para o futuro”). Pois, na prática libertadora dos seguidores de Jesus, estes veem seus privilégios e interesses ameaçados!
       A comunidade viu o “príncipe deste mundo” chegando na pessoa de traidor Judas, nos soldados e a polícia, destacados por sumos sacerdotes e fariseus para prender Jesus no jardim das oliveiras (Jo 18,2-3). Em relação a traidor, Rabino Jesus já tinha dito: “um de vós é um diabo” (Jo 6,70), uma vez que se comprometeu com o projeto homicida (cf Jo 8,44; 13,2.27; Lc 22,3). Traidor Judas era associada a caixa comum dos discípulos (Jo 13,29; 12,6) e na sua atitude João viu a ação do diabo, de satanás, o príncipe deste mundo, em estreita ligação com o desejo de ter, com a ganância de acumular. Isto nos lembra das tentações de Jesus nos sinóticos (Mc 1,12-13; Mt 4,1-11; Lc 4,1-13). Jesus resistiu. Traidor Judas deixou-se corromper.
       Os soldados romanos e os policiais do sinédrio são serviçais do príncipe deste mundo. De acordo com o texto que temos, Jesus de Nazaré foi para um jardim noutro lado da corrente do Cedron terminada sua ceia de despedida; o traidor tomou um pelotão de soldados e alguns guardas, cedidos pelos sumos sacerdotes e fariseus e dirigiu-se para lá com lanternas, tochas e armas (Jo 18,1-3). A conclusão das comunidades joaninas é: o príncipe deste mundo está por trás da tropa romana e dos guardas (Jo 18,3). Traidor Judas está de mãos dadas com o poder opressor.
       Surpreendente! Na sua releitura pós-pascal destes eventos deprimentes, a comunidade viu a vitória de Deus na aparente derrota da cruz! Em Jo 12,31-32 afirma: “...agora o príncipe deste mundo será lançado fora. E quando eu for levantado da terra atrairei todas as pessoas a mim”. Em João 14,30 afirma que “...ele não tem nenhum poder sobre mim”. Por fim, “...o príncipe deste mundo já está condenado” (Jo 16,11). Portanto, a vitória sobre a morte na cruz é sinal de que as forças diabólicas têm poder limitado e foram exorcizadas por Jesus de Nazaré crucificado e ressuscitado.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016 0 comentários

Jesus de Nazaré - o possuído no Evangelho de João...

Jesus de Nazaré - o possuído no Evangelho de João...


     O Evangelho de João tem vocábulos como demônio, satanás, diabo e maligno em comum com os evangelhos sinóticos na sua demonologia; a estes o autor acrescenta a expressão “o príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30; 16,11). Depois de falar sobre o que João tem a nos dizer sobre as forças demoníacas e como as mesmas agiram contra o próprio Jesus examinaremos a expressão o ‘príncipe deste mundo’.

     Na época em que o Evangelho de João foi redigido (antes do 100 d.C.) o poder imperial (romano) estava vigorosamente empenhado em aniquilar as comunidades cristãs. Essas ameaçavam os fundamentos do império, quer dizer, as políticas de: (1) dominação dos povos e (2) o acumulo de riqueza. É Jesus que é acusado de estar possesso por demônio. Seus acusadores são os romanos, autoridades do Sinédrio e o Grande Conselho dos Judeus – estes dois são mercenários do primeiro. O Nazareno não é considerado possesso por espíritos impuros ou doenças. De fato, João nem mesmo apresenta nenhum exorcismo. Ele é acusado de ser possesso por interpretar as Leis e as Escrituras de maneira diferente do tradicional; ele faz uma experiência com Deus diferente daquela que faziam as autoridades da sinagoga e do Templo, e finalmente, por ter uma prática libertadora.

     Tal interpretação e o agir libertador de Jesus de Nazaré ameaça a ordem estabelecida e garantida pelo sistema de Templo. O capítulo 7 de João ilustra este ponto. Na festa das tendas em Jerusalém, numa situação hostil e tensa, o Nazareno aparece e ensina a respeito da Lei e das Escrituras. Uns dizem que ele é bom, enquanto outros opinam que ele engana o povo (cf. Jo 7, 12-13).

     O termo “Judeus” no Evangelho de João refere às autoridades, e os outros que são contra o profeta de Nazaré, e não ao povo judeu em sua totalidade. Pressentindo o complô Jesus pergunta por que eles querem matar-lhe, e a resposta é: “Tu estás possuído por um demônio” (cf. Jo 12,19-20; 8,48-49; 8,52). Quando o Nazareno se apresenta como o Bom Pastor que vem para dar a vida digna para todos, há uma cisão: alguns o vêem como um possuído delirando, enquanto os outros perguntam como um endemoninhado poderia abrir os olhos de um cego (Jo 10,19-20; cap. 9).

     A caça feroz dos cristãos é o pano de fundo da redação dos escritos joaninos. Jesus foi acusado de ser possuído por demônio nos sinóticos (Mc 3,22; Mt 12,24; Lc 11,15). A finalidade desta campanha é de desacreditá-lo e neutralizar sua liderança. O Evangelho de João fala de uma campanha mais acirrada para a mesma finalidade. A atual criminalização repugnante de um programa político democrático no Brasil por elementos obcecados e ‘fora da lei’ de judiciário em conluio com a parte interesseira da imprensa é mais bem compreendida à luz da campanha contra o Nazareno e seus seguidores outrora.

     As cartas de João aprofundam o significado de ser filho de Deus e filho de diabo. O Filho de Deus veio para destruir as obras do diabo que é homicida, pai de mentira e ódio (cf. 1Jo 3,8-10.15). É importante notar que o autor caracteriza o pecado como: “não praticar a justiça” e “não amar o seu irmão”. Para vencer o diabólico espírito de mentira, Jesus nos entrega outro Espírito que vem do Pai (Jo 15,26; cf. 1 Jo 4,6). Ele permanece conosco e está em nós (Jo 14,16-17) e nos conduz à verdade plena (Jo 16,26). Ao receber este Espírito nós nos encarregamos a trabalhar pela concretização do “Reinado de Deus” na história humana (cf. Lc 4,18-19 e também Is 61,1-3).


sexta-feira, 14 de outubro de 2016 0 comentários

As forças malignas não são extraterrestres...

As forças malignas não são extraterrestres...

Hoje faremos uma reflexão para entender a realidade a qual apontam os muitos termos que NT usa para falar das forças malignas. Jesus, seus discípulos, as primeiras comunidades e os autores neotestamentários são todos inseridos no ambiente judaico, influenciado pela demonologia persa e grega. Entretanto fizeram sua própria leitura dentro desta cosmovisão.

Eles procuram esclarecer o significado da prática de Jesus em relação às forças do mal presente na vida dos seus conterrâneos. De um lado, essas forças seduzem o ser humano ao que escraviza. Até mesmo o Nazareno foi tentado. De outro lado, há uma relação entre as forças das trevas e a doença como mostra a cura da mulher curvada, em dia de sábado (Lc 13,10-17). Por fim comentaremos sobre como fetiches assumem poder diabólico ainda no século 21.
Os resumos magistrais nos evangelhos (Lc 4,1-13; Mt 4,1-11) evidenciam como Jesus foi tentado para abandonar o projeto de Deus. Diante da fome ele poderia aplicar uma solução mágica, individualista que independe de uma sociedade injusta. Porém ele escolha o caminho de solidariedade e da partilha (cf. Mc 6,30-34). O poder centralizador é a opção normal das figuras públicas desde sempre, mas na proposta do Nazareno o poder é participativo, é serviço, é lava-pés (Mc 10,41-45; Jo 13,1-11; Mt 27,42-43). Outra tentação refere à riqueza acumulada; no projeto de Jesus a riqueza tem sentido quando é partilhada com os pobres, quando serve a vida (Mc 10,17-22; Lc 19,1-10). A sedução do pecado do prestígio, da glória; ainda, usar os anjos de Deus (a religião) para chegar à fama, é praticamente irresistível. No entanto a proposta de Jesus, o projeto de Deus Pai, há glória quando todos têm dignidade, são cidadãos, irmãos e irmãs (Mc 3,33-35; Mt 23,8-12).

O episódio da cura mulher encurvada, em dia de sábado (Lc 13,10-17) é exemplo de como o espírito impuro inflige males físicos ou psíquicos às pessoas por ‘possessão’. O que acontece com a mulher possuída durante 18 anos merece análise. Aqui o projeto de Jesus enfrenta o espírito de uma instituição – a doutrina, a mentalidade que a sinagoga favorecia; essa que era incumbida da função de ensinar a lei e salvaguardar seu cumprimento. Duas vezes é citada a sinagoga (v.10.14) e uma vez seu chefe “indignado” com Jesus (v.14). Quatro vezes é lembrado o sábado quando era proibido realizar curas (vv. 10.14.15.16).

É significativo o número 18, pois na Bíblia os números falam (cf Ap 13,18). No Apocalipse o número é 666; aqui o número é 6+6+6 o que aponta para o cúmulo da imperfeição. O que é imperfeito? É a lei e todo o espírito de sua interpretação que escravizam e encurvam as pessoas. A sinagoga, seu chefe e demais adversários de Jesus (v.17) constituem a estrutura que aprisionava a mulher (v.16) e a entortava (v.11). Entretanto a lei foi instituída para promover a liberdade (Ex 20,2; Dt 5,6). Jesus liberta a mulher, exorciza a da mentalidade, a ideologia de uma instituição religiosa que prefere a mulher (=o ser humano) prostrada, calada.

Por fim, o dicionário Houaiss define fetiche como: “objeto a que se atribui poder supernatural ou mágico e a que se presta culto”. A humanidade vive um momento em que a riqueza acumulada virou fetiche. “Não podeis servir a Deus e à riqueza” (Mt 6,24; Lc 16,13) disse Jesus que reconheceu a presença do poder diabólico na riqueza idolatrada (MAMONA, em aramaico). A invasão do império neoliberal (“A Ponte para o futuro”) o retrocesso e recolonização subseqüentes no Brasil mostram o poder do fetiche que promove a traição, desrespeito à cidadania, manipulação e subversão dos processos jurídicos e legislativos que entortam o povo brasileiro e o deixam aprisionado.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016 0 comentários

As forças maléficas nos Evangelhos Sinóticos

As forças maléficas nos Evangelhos Sinóticos

Os Evangelhos Sinóticos (Mc, Mt e Lc) usam termos específicos para falar da presença dos poderes maléficos que atormentam a vida humana. Vamos enumerá-los: (1) SATANÁS (= adversário, inimigo, acusador, promotor (cf. Mc 4,15; Mt 12,26; Lc 11,18 etc.) é usado 36 vezes no NT; (2) DIABO (= o que joga através, atravessa o caminho, separa, divide, faz tropeçar e cair (Mt 4,1.5.8.11; Lc 4,2.3.5.13 etc.); (3) MALIGNO (= diabo e satanás Mt 5,37; Lc 7,21 etc.); (4) BEELZEBU (= divindade da cidade filisteia de Acaron (2Rs 1,2.3.6.16).

É importante notar que a tradição judaica satanizou Beelzebu, a divindade de outro povo e passou a considerá-la como satanás/diabo. Este nome aparece 7 vezes nos sinóticos (Mt 10,25; 12,24.27; Mc 3,22; Lc 11,15.18.19). As elites judaicas (Mc 3,22; Mt 10,25) acusam Jesus de expulsar os demônios em nome de Beelzebu, considerado o príncipe dos demônios naquela época. Foi uma estratégia de desacreditar o Nazareno, neutralizando sua popularidade para eliminar a ameaça que ele era para os detentores de poder. A campanha atual de um discurso moralista hipócrita sobre “corrupção” para anular um programa de governo que ameaçava os privilégios da elite brasileira é uma versão atualizada da mesma estratégia que foi usada contra Jesus de Nazaré.

Para continuar a nossa enumeração: (5) DRAGÃO é a imagem terrível para identificar satanás, o diabo ou a antiga serpente, conforme a interpretação de Sb 2,24 (Ap 12,9; 20,2). Notemos que as limitações humanas não alcançam o mistério da vida em toda sua profundidade, por isso para falar de Deus usamos imagens de nosso cotidiano. É comum transferir nossa experiência antropológica para a esfera divina. Imaginar Deus como Pai é um exemplo de como discursamos sobre Deus a partir da nossa experiência familiar. Da mesma maneira partimos da experiência dos impérios deste mundo para imaginar como seria o governo de Deus, com seus exércitos e serviçais celestes hierarquizados. Nós até passamos a opulência, a grandeza e o poder dos reinos deste mundo para a esfera divina, o que corre o perigo de reduzir o mistério do sagrado aos limites das possibilidades humanas ou até mesmo legitimar em nome de Deus a multifacetada dominação pelos poderosos.

A mesma vale também para o diabo. Os antigos imaginavam que o diabo teria seu reinado com servos, anjos etc. (cf. Mt 24,41; 2Cor 12,7; Jd 6, Ap 12,7.9). A comunidade do Apocalipse contrapõe o trono de Deus (Ap 1,4) e o do satanás encarnado nos imperadores divinizados (Ap 2,13). O confronto entre o trono de Deus e o das bestas que sentam em tronos bem concretos nos palácios império romano (Ap 13,2) é uma interpretação teológica da história humana.

(6) DEMÔNIO (Grego: DAIMONION) aparece 63 vezes no NT. Desde o tempo de Homero (séc. 7 a.C.) os demônios eram tidos como espíritos divinos intermediários entre as divindades e as pessoas. A palavra ‘demônio’ significa gênio, experto etc. É costume referir às pessoas geniais como verdadeiros demônios em suas respectivas artes. Entretanto em Israel o termo assumiu uma conotação somente negativa, como espírito mau contrário a Deus, atormentando as pessoas com males físicos e psíquicos, desgraças e sofrimentos. Ainda há outros termos como: (7) ESPÍRITO MUDO (Mc 9,17.25); (8) ESPÍRITO SURDO E MUDO (Mc 9,25); (9) ESPÍRITO DE DOENÇA (Lc 13,11); (10) ESPÍRITO IMPURO/IMUNDO (Mt 10,1); (11) O ESPÍRITO DE UM DEMÔNIO IMPURO (Lc 4,33) e (12) ESPÍRITO MALIGNO/MAU (Lc 7,21) para falar dos poderes maléficos que atormentam a vida humana.



quarta-feira, 28 de setembro de 2016 0 comentários

A demonologia do Antigo Testamento

A demonologia do Antigo Testamento

     Hoje nós vamos examinar a linguagem que o AT usa para falar do seu entendimento da presença do mal na realidade humana. A primeira observação é que o AT cultiva um dualismo moderado; quer dizer, tudo, inclusive o bem e o mal vêm de Deus. Nós já vimos uma intuição fundamental: “... os desígnios do coração humano são maus desde a sua infância” (Gn 8,21); porém essa é moderada por outra, de força igual: “Se aceitamos de Deus os bens, não devemos também aceitar os males?” (Jó 2,10). É importante notar que a tradição judaica foi influenciada pelos imperialistas persas, gregas e romanas até chegar o horizonte apocalíptico em que Jesus de Nazaré atuou.

     Na demonologia do AT há termos genéricos para designar demônios coletivos (os demônios do deserto, divindades de outros povos, divindades ligadas a morte, peste, doença, epidemias etc.) e nomes próprios para designar os demônios individuais (Azazel, Asmodeu, Beliya’al, Ba’al Zebub etc.). A serpente, o Leviatã e os serafins recebem menção especial. A serpente, com seu simbolismo muito diversificado nas mitologias, representa na Bíblia, a encarnação da ordem contrária a Deus. Leviatã representa o poder caótico das águas primordiais enquanto os serafins são criaturas celestiais a serviço de Javé (cf. Is 6,2.6).

     O Satanás: adversário, inimigo, acusador, promotor etc. tem sua origem nos tribunais. Como a Israel se formou a partir de vários grupos de diferentes culturas e lugares, assumiu os traços de satanás que cada povo cultivava, incorporando-os na sua demonologia progressivamente. No livro de Jó satanás está entre os filhos de Deus (Jó 1,6). Podemos ler em 1Cr 21,1 o satanás está a serviço de Deus como aquele que executa o mal. O livro de Eclesiástico apresenta satanás como adversário, o inimigo. O verbo “satanizar” é usado com significado de odiar, hostilizar ou acusar como lemos no Gn 27,41. Em resumo é possível dizer que o AT não conhece um poder do mal absoluto e contrário a Deus.

A religião dos persas (zoroastrismo) é baseada na guerra eterna entre Ahura Mazada (o bem, a luz, a verdade e a vida) e Angra Mayiniu (o mal, a mentira, as trevas, o caos e a morte). Judeus entraram em contato com o zoroastrismo depois que Ciro derrotou os Babilônios em 539 a.C. Os persas creditaram os males da vida a demônios maléficos. Ao lado desses havia demônios bons como querubins que guardavam palácios e templos etc. Estes passaram para o judaísmo e foram equiparados aos anjos protetores.

A opressão dos gregos a partir de 332 a.C. deu um novo impulso à demonologia judaica. O livro de Tobias (deste período) já fala em exorcismo. Expulsar os demônios ocupou um lugar importante na prática libertadora de Jesus, pois ele comungava com seu povo a crença na ação das forças destruidoras (demônios, satanás etc.). As ideias do Platão (429-377 a.C.) influenciaram a demonologia grega: há uma série de demônios entre o mundo das pessoas e o olimpo, o monte das divindades; a habitação natural dos demônios seria o ar; eles servem como intermediários entre o céu e a terra; entre eles têm os bons e os maus. Recorria-se à magia e à bruxaria para proteger se dos demônios malignos.

No período altamente conflitiva dos selêucidas (séc. 2 a.C.) os judeus passaram a interpretar a sua condição em linguagem teológica como uma grande batalha cósmica – é a cosmovisão apocalíptica judaica no tempo de Jesus. E por fim a crueldade romana contribuiu ainda mais para que os judeus vissem satanás e seus demônios agindo nas forças do reino do mal que vinha de Roma.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016 0 comentários

A presença do mal na história humana

A presença do mal na história humana


O momento que o Brasil vive nos chama a fazer uma reflexão sobre o enigma da presença do mal na história humana. A missão cristã tem por objetivo curar os doentes e expulsar os espíritos maus dos corações humanas, das instituições e das organizações, suas normas e leis. A prática libertadora de Jesus desmascarava pessoas e organizações que promoviam opressão. A mesma práxis hoje promove discernimento e a conscientização no povo oprimido.

Podemos falar da dualidade da vida e da sua infinidade das tonalidades. As tentações de Jesus (Lc 4,1-13) nos ajudam entender os dois caminhos do homem. O escriba que procurou saber quem era seu próximo (Lc 10,29) e Jesus que inverteu a questão (Lc 10,36) exemplifica as duas forças que dinamizam a condição humana.

Já na narrativa de Gn 2-3 o ser humano é colocado diante de dois caminhos. A harmonia conforme os desígnios do criador (cf. Gn 2) e o caminho do poder, da auto-suficiência, afastar-se do criador, ferindo animais, oprimindo a mulher, o camponês e a própria terra (cf. Gn 3), são os dois caminhos. A Bíblia continua a análise dessa experiência dialética da vida com as histórias de Caim e Abel (Gn 4,1-16), o aumento da vingança com o surgimento da cidade (Gn 4,17-24), o dilúvio (Gn 6-9), bem como a opressão globalizada no relato da cidade de Babel (Gn 11,1-9). No meio de tudo isso há um reconhecimento fundamental: “... os desígnios do coração humano são maus desde a sua infância” (Gn 8,21).

Jesus segue na linha da sabedoria do seu povo (cf. Mc 7,21-23), ao passo que ele identificou o espírito de mal presente nos poderes econômicos, políticos e religiosos. Paulo segue a mesma lógica (cf. Rm 7,21-23); esta também é a compreensão que a comunidade do Tiago tem (cf. Tg 1,13-15).
Fica claro que os males não acontecem por forças mágicas; atribuir nossas más ações a forças externas é não querer assumira nossa responsabilidade das nossas decisões e práticas. A procura de bodes expiatórios sempre foi grande. O NT expressa essa mesma experiência cotidiana com o mal em linguagem simbólica de noções como satanás, diabo e maligno, demônios, espírito imundo, etc. São figuras que personificam o mal que experimentamos na vida. Convém afirmar de novo que essa variedade de representações está sempre ligada a atores históricos muito concretos e não a forças abstratas.

Agora, uma das atividades marcantes do mal na atualidade é a lavagem cerebral, isto é, o trabalho empenhado da “imprensa” para fazer o povo pensar de acordo com a opinião publicada. Seu sucesso de criminalizar uma parte da população brasileira tem sido considerável, porém manipulação, vazamentos seletivos e mentira nem sempre se ocultam de todos. Jesus dizia que uma das principais características do diabo é mentira (Jo 8,40-44; cf. At 5,3; também Ap 12,9; 13,3-14; 20,8-10).

Outro elemento marcante do mal é a teologia da prosperidade promovida pelas igrejas. Essa doutrina, de fato, é a sedução de consumismo desenfreada disfarçada. Ensina-se que infelicidade na família, a pobreza, a doença, os vícios, a homoafetividade e o fracasso são frutos do poder do diabo. Propõe exorcismos e sessões de “descarrego” para se livrar de tudo isso sob a condição de sacrifícios monetários. Adesivos como “Este foi Deus que me deu” nos carros evidenciam o êxito de tal comércio. Em vez de desvendar as razões socioeconômicas que geram desemprego, violência, drogas e outros males e que estão por detrás de maioria das doenças e da pobreza, tal teologia acaba abençoando uma sociedade baseada na injustiça.


quarta-feira, 14 de setembro de 2016 0 comentários

O reino de Deus e o dinheiro dos super-ricos

O Reino de Deus e o dinheiro dos super-ricos


A revista semanal estadunidense National Catholic Reporter, na sua edição digital de 20 de julho de 2016 publicou a recensão do livro “Dark Money: the hidden history of the billionaires behind the rise of the radical right”, de autoria de Jane Mayer e publicado por Doubleday. Este livro estuda como o dinheiro dos super-ricos empoderou a extrema direita e subverteu processos políticos nos EUA. Atualmente, financiado pelos super-ricos, o Brasil e vários outros países vivem um processo de perversão dos governos para servir os interesses econômicos nefastos.
Em 2013 a Universidade Católica de América (CUA) recebeu uma doação de um milhão de dólares de Koch Brothers. Cinquenta intelectuais ligados às instituições educacionais católicas questionaram a conveniência de receber tal doação, num documento que apontava para a distância entre os ideais da Doutrina Social da Igreja e os dos grupos empresariais como Koch Brothers.
O livro de Mayer afirma que o medo que os cinquenta católicos expressaram é real, pois o dinheiro dos super-ricos tem financiado substituição dos governos legítimos (inclusive o golpe parlamentar no Brasil) além de implantar mercenarismo no Partido Republicano nos EUA. Os mesmos interesses financeiros bancam organizações de fachada como Revoltados online, MBL e muitas outras, aqui no Brasil.
Mayer mostra como as elites conservadoras estadunidenses remodelaram a “paisagem” política, econômica e cultural do país a seu favor, aplicando seu dinheiro nos processos políticos. Tal empreendimento enriqueceu-os ainda mais à custa da classe média pobre dos trabalhadores. É a continuação das associações como “John Birch Society” e similares do passado que procuravam preservar seus privilégios.
Sua estratégia procura influenciar os debates sobre políticas públicas com uso judicioso das vultosas somas de dinheiro a sua disposição. Instituíram “think tanks” como “Cato Institute” e cátedras nas universidades, financiando intelectuais para discursar a favor dos seus interesses econômicos. Foi isso que deu origem às dúvidas sobre a doação que CUA recebeu. O que CUA recebeu não foi nada em comparação ao que George Mason University e Ivy League Schools receberam para promover ideologias conservadoras. Vale lembrar que elementos de judiciário brasileiro que atuaram mais para preparar o golpe no Brasil foram adestrados em instituições estadunidenses como Harvard Law School.
Patrocinam projetos de lei que diminuíam impostos dos super-ricos e modificaram regulamentos das empresas para aumentar seus lucros, e diminuir os ganhos dos trabalhadores. Financia movimentos da base para popularizar suas ideias e campanha midiática com a rede de TV FOX à sua frente. (No Brasil Globo e similares são propriedades dos tais interesses). Noutra frente assaltaram as leis que proibiam a compra dos legisladores por empresas para possibilitar financiamento anônimo dos candidatos nas eleições. A autora cita o exemplo do estado de Pennsilvania onde os Democratas com 51% de votos conseguiram eleger apenas 5 representantes enquanto os Republicanos conseguiram 13, pois tinham modificado as demarcações dos distritos eleitorais!
As elites privatizaram, com seu dinheiro, não somente o Partido Republicano, mas também os governos federal e estaduais estadunidenses. Parece que vivemos um momento das trevas, mas a reeleição do Presidente Obama mostra que o poder do dinheiro não é tudo. Os empresários Koch Brothers e Sheldon Adelson tinham gasto U$ 657 milhões contra Obama para eleger Mitt Romney!
Pe. Kurian.




terça-feira, 6 de setembro de 2016 0 comentários

"Eis que mudarei a sorte das tendas de Jacó" (Jr 30,18)

Eis que mudarei a sorte das tendas de Jacó” (Jr 30,18)


O contexto dessa reflexão concludente sobre Profeta Jeremias é o céu carregado de nuvens escuros e sinais visíveis advertindo tempestades lá na frente. Justamente aqui descobriremos sua mensagem relevante ainda hoje, o anúncio de esperança, da reconstrução da nação esfarrapada baseando-se na Aliança com Javé. Começamos comentando o que restou dos textos lidos na liturgia que proclamam essa promessa divina.
O primeiro texto (Jr 18,1-6) fala de Jeremias observando o trabalho de oleiro que refaz as peças defeituosas para aperfeiçoá-las. É isso que Deus faz com seu povo, anunciou o profeta. Inconstantes e inconsequentes que sejamos, Deus está sempre em atividade para “nos refazer”. Assim como o barro nas mãos de oleiro, está a humanidade nas mãos de Deus.
Que a população junto com as autoridades constituídas nem quis saber dos desígnios de Deus e tinham continuado a violar a aliança era convidar tragédias. Por isso Jeremias contestou a fé fetichista prevalente e anunciou a destruição do templo (Jr 26,1-9). Aqui ele correu o perigo da morte, porém escapou com a vida por ter a proteção de Aicam, filho de Safã (Jr 26,11-16.24).
De fato, as palavras do profeta convida a nação a viver a essência da religião que contém os elementos determinantes de uma nova presença benévola de Javé entre seu povo. Jeremias justifica seu oráculo, pela razão de o Senhor ter lhe mandado a anunciar o castigo contra o povo e seu templo. Matar o profeta é fácil; mas, isso só aumentaria a culpabilidade. Todavia o corajoso discurso de Jeremias despertou grande indignação entre seus ouvintes e dos círculos proféticos e sacerdotais, mais afinados aos interesses promovidos pelo sistema vigente.
Quem recebeu realmente de Deus sua missão, continua fiel apesar de tudo; está pronto a anunciar até o que desagrada ao povo. E faz isto por amor, para levar à conversão; faz causa comum com o povo, pronto a responder com sua pessoa. Em Jr 28,1-17 lemos como Ananias, o falso profeta contesta os oráculos de Jeremias, prometendo liberdade e o regresso rápido do povo de Babilônia enquanto Jeremias profetiza exílio prolongado. Javé desmascara a mentira, pois Ananias morreu naquele mesmo ano como Jeremias tinha previsto. O verdadeiro profeta profere a palavra de ameaça ou de consolação, para a salvação, para reconduzir a Deus e não para dar “seguranças” alienadoras, para responsabilizar e não para impor silêncio às consciências.
Jeremias entende que Deus castiga não para aniquilar, mas para restaurar (Jr 30,1-2.12-15.18-22). A restauração será algo novo como uma criação, um relacionamento de intimidade nunca antes realizado entre Deus e o povo; será a nova Aliança: “Mudarei a sorte das tendas de Jacó”. É um oráculo de desventura (12-15) e uma profecia de libertação e de esperança (18-22). Intervenção de Javé, a presença na história do amor de Deus que é mais forte do que o pecado, conseguirá mudar a triste condição da comunidade de Israel em vida de verdadeiro culto, de alegria e prosperidade.
Eis a mensagem do Profeta Jeremias para o Brasil que aparentemente está repetindo o 1964 em sua história! O país que acabou de comemorar o dia da sua independência enfrenta desafios na realização plena da sua independência e no manter seu sistema democrático. No momento as forças de retrocesso e ditadura (atrás da fachada de ritos de democráticos) parecem ter conseguido se impôr, porém a volta do povo a Noval Aliança vai mudar a sorte das tendas...


segunda-feira, 29 de agosto de 2016 0 comentários

Vocação cristã e a vida de Jeremias

Vocação cristã e a vida de Jeremias.


A vocação profética para anunciar às nações tudo o que Deus quer (Jr 1,1.4.-10) faz Jeremias sentir-se pequeno. Mas a consciência humana da sua humilde condição não é obstáculo para Deus. Diante dos protestos do profeta, Deus estende a mão, toca-lhe a boca e coloca suas palavras na sua boca; constituiu-lhe profeta sobre povos e reinos com poder para extirpar e destruir, devastar e derrubar, construir e plantar. Neste episódio Deus se mostra como alguém muito magoado pelo abandono do caminho da Aliança pelo povo e a idolatria praticada pelo povo (Jr 1,16). O Senhor pede de Jeremias obediência, disponibilidade e plena confiança, pois o arauto da mensagem de Deus tem o dever de percorrer o caminho antes dos outros. Ao mesmo tempo o Senhor promete fazer-lhe como uma “cidade fortificada”, uma “coluna de ferro” e uma “muralha de bronze” (Jr 1,17-19).
Os oráculos de condenação que Jeremias foi incumbido a pronunciar fundam-se na infidelidade do povo à Aliança com Javé causando perversão religiosa e injustiça social. As palavras do profeta são fortes acusações contra o povo que abandonou a fonte de água viva para cavar cisternas furadas no seu lugar (Jr 2,1-3.7-8.12-13)! Deus, através do profeta, chama o povo a uma conversão; promete-lhe pastores segundo seu coração, já que os atuais esqueceram da Aliança e levou o povo a perversidades. Condicionada pela conversão, isto é, a volta à Aliança o profeta anuncia também a restauração de Jerusalém como o centro de reunião de todos os povos (Jr 3,14-17).
Jeremias condena a fé fetichista no templo e suas cerimonias hipócritas; todavia o necessário é fazer valer a justiça e não cometer fraudes contra os mais fracos e necessitados: órfãos, viúvas e estrangeiros, e não derramar sangue inocente. Nem preces nem peregrinações serviriam para nada se forem utilizadas para mascarar hipocrisia. “Acaso, esta casa (o Templo) em que meu nome é invocado, tornou-se a vossos olhos uma caverna de ladrões”? Para explicar melhor o que acontece com os que se separam de Deus o profeta realiza uma ação simbólica: ele comprou um cinto de linha, usou-o por um tempo e depois o deixou mergulhado nas águas do rio Eufrates onde ele apodreceu (Jr 13,1-11). Em seguida Jeremias exibiu o cinto estragado fazendo saber a todos: “Assim farei apodrecer a grande soberba de Judá e Jerusalém”!
Em face das calamidades da seca que devastava o país e os rumores de guerra iminente Jeremias intercede pelo seu povo; mas, ele se sente solitário, como se fosse preso entre a súplica e a ira ardente do Javé: “Lembra-te, Senhor, não quebres a tua aliança conosco” (Jr14,17-22). O profeta se sente solitário, pois poucos aderem a suas ideias. Acontece que diante das calamidades, há quem fique indiferente; há quem se agarre a Deus; há quem duvide de sua existência ou opine de que Ele nos ame, caso exista. Outros chegam a se perguntar se Deus não se compraz em nos ver sofrer. Jeremias que tinha acolhido a palavra de Deus com alegria, agora, movido pela indignação que seu ofício profético gerou, está sozinho e solitário. É uma experiência de vida insuportável e por isso apela a Deus. Em sua resposta o Senhor lhe pede conversão contínua e promete que o profeta será “uma muralha de bronze fortificada” (Jr 15,10.16-21). Jeremias exprime dramaticamente o conflito interior de quem desempenha uma missão, combatida e rejeitada pelos beneficiários e pelas próprias dúvidas que tal situação gera. Ele chega a compreender que só a confiança incondicional é a resposta verdadeira. (A continuar).


quinta-feira, 25 de agosto de 2016 0 comentários

Jeremias, o servo sofredor.

Jeremias, o servo sofredor.

As “confissões” do Profeta Jeremias nos revelam uma figura extraordinária que representa de antemão Jesus de Nazaré no AT. Sua fidelidade à vocação profética fez com que ele não conseguisse levar a vida igual à dos seus concidadãos. Ele se sente compelido a proferir oráculos contrariados e contestados a toda hora; por causa desses ele se torna objeto de zombaria e é hostilizado. É verdade que ele sobreviveu atentados contra sua vida, pois tinha amigos entre os poderosos do país. No entanto, isto não tira-lhe o sofrimento humano que qualquer pessoa na sua situação, em qualquer época, de qualquer nação, passaria.

Como todos os profetas do AT fizeram, Jeremias condenou a infidelidade da nação à Aliança, o que resultou em ritualismo vazio e sincretismos que desvirtuaram a liturgia Javista. A idolatria consequente deu lugar para injustiças sociais abomináveis aos olhos de Javé, o Deus da Aliança. Durante os quarenta anos que Jeremias profetizou a Palestina era cobiçada pelos poderes imperiais (Assíria, Egito e Babilônia) que batalhavam para estabelecer sua supremacia na região. Jeremias teve a sagacidade para identificar a Babilônia como o vencedor. Ele favoreceu submissão ao Nabucodonosor e interpretou essa como castigo de Javé pela infidelidade da nação à Aliança. Entretanto as facções e os (numerosos) falsos profetas fizeram tudo para afogar ou até mesmo apagar a voz de Jeremias. O rei Joaquim era o que menos simpatizou com Jeremias, pois o rei era partidário da facção que apostou no Egito na peleja contra Babilônia. No livro de Jeremias as “confissões” encontram-se entre os oráculos proferidos, principalmente, durante o reino de Joaquim.

Jeremias, o verdadeiro profeta, fez questão fazer sua mensagem ouvida, mesmo quando estava impedido a anunciá-la pessoalmente. Ele manda Baruc registrar seus oráculos num pergaminho (Jr 36,4). Este foi lido ao publico no templo (Jr 36,10); houve uma segunda leitura do mesmo para o benefício da cúpula do governo (Jr 36,15). Impressionados, eles organizaram uma leitura na presença do rei, mas antes, tomaram providências para que o profeta e seu secretário se escondessem da ira real vindoura. Um oficial fez a leitura na presença do rei (Jr 36,21). Na medida que a leitura progredia, o rei foi cortando o rolo em pedaços e jogando-os no fogo, não obstante os protestos de alguns dos seus cortesãos (Jr 36,25). Em seguida mandou prender Jeremias e Baruc, mas ficou sem sucesso. Mais tarde o profeta mandou seu secretário escrever outro rolo que recebeu até acréscimos (Jr 36,32). Nós já mencionamos como os oráculos de Jeremias, junto com suas ações simbólicas e detalhes biográficos (inclusive as “confissões”) foram lembrados pelos exilados em Babilônia, Egito e pelos que permaneceram a Palestina.

No livro do Profeta Isaías há quatro “cantos do servo sofredor” (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9.10-11; 52,13-53,12) nos quais largamente se espelham a vida sofrida de Jeremias. Estão entre os primeiros textos do AT que interpretaram o escândalo da crucificação de Jesus de Nazaré e deram origem a fé na ressurreição. Será interessante observar como a memória dos sofrimentos de alguns dos nossos perseguidos na vida pública hoje poderá servir como a força motora da retomada de progresso social, uma vez que o retrocesso que invade a sociedade brasileira no momento perder seu vigor. Nós vamos analisar, em seguida, a seleção dos textos do livro do Profeta Jeremias lida na liturgia para captar a mensagem central do profeta.





terça-feira, 16 de agosto de 2016 0 comentários

Vocação - um desafio contextualizado (2)

Vocação – um desafio contextualizado (2)


A primeira das “confissões” do Profeta Jeremias (Jr 11,18-12,6) fala da perseguição que começou com a campanha de vilificação contra ele pelos seus parentes de conterrâneos e que tornou-se em ameaça de morte. Este profeta incômodo favoreceu a centralização do culto em Jerusalém durante a reforma do rei Josias (640-609 a.C). Entretanto ele condenou inequivocamente a fé fetichista do seu povo e a falsa segurança baseada nos rituais realizadas no templo (cf. Jr 7 e 26). Jeremias levanta a pergunta, feita frequentemente no tempo de exílio, e que desde então se repete, sobre o colossal problema da retribuição: “Por que prosperam os perversos e os traidores vivem na paz? (Jr 12,1b). Deus não propõe uma solução, mas exige que o profeta mantenha sua fé e coragem no meio dos seus sofrimentos.
Jeremias passa por uma crise de vocação (Jr 15,10-21). É estranho seu destino – o de ter nascido profeta só para anunciar o que agrava a culpa e precipitar a desgraça do seu povo e sua nação. Se Deus não faz caso de sua intercessão, vale a pena ser profeta? Seus oráculos são ameaças repeti­das, que não dão lugar ao consolo, antes, lhes provocam an­tipatia e hostilidade. Seu fascínio pela palavra do Senhor privou-o de uma vida igual à dos outros (Jr 15,16-18). Na sua aflição o profeta chega a reclamar de Deus o “arroio enganador”, como que retorcendo a imagem de Deus. Mas, o Senhor responde reiterando suas exigências. A solidariedade do profeta com o povo não pode consistir em afastar-se de Deus junto com o povo; Jeremias tem que voltar para Deus arrastando o povo de volta. Deus renova a promessa feita na ocasião do seu chamado profético, assim preparando o profeta para a crise tremenda que se aproxima.
Os adversários de Jeremias insistem no rápido cumpri­mento das ameaças que ele anunciava! O profeta esclarece que ele mesmo não pediu desgraças, pelo contrário, ele pede cura e salvação a Deus (Jr 17,14-18). “Tu sabes o que meus lábios pronunciam, tu o tens diante de ti”, disse Jeremias (Jr 17,16b). Mesmo no sofrimento imenso sua fé e sua confiança não se abalam (cf. Jr. 17,17-18). Os inimigos planejam calar sua voz profética (Jr 18,18-23); Jeremias não ia fazer fal­ta, pois havia muitos outros (mercenários mais ‘prudentes’ até!) para realizar as funções sacerdotais e proféticas. Eles consideram sua língua importuna! O profeta chega a pedir a morte dos seus adversários! Se Deus prometeu estar do lado do profeta, Ele terá que enfrentar seus inimigos. A neutralidade da parte de Deus será cumplicidade! O juiz não pode alegar ignorância, visto que já “conhece o plano homicida” dos seus inimigos (Jr 18,23).
Jeremias reclama amargamente contra o Senhor que o “se­duziu” (Jr 20,7-18). Ele sentia-se obrigado a anunciar vio­lência e destruição, enquanto todo mundo queria ouvir outro tipo de mensagem. Para Jeremias a palavra de Deus se tinha tornado o motivo de zombaria constante a qual ele era sujei­tado. Por mais que ele tentava evitar tais pronunciamentos, sentia-se dominado por uma força irresistível que lhe fazia continuar anunciar desastres, caso a nação e seus governan­tes não voltassem à Aliança com Javé. Seus inimigos o espiavam para apanhá-lo em algum tropeço para se vingar dele. Mesmo nessa situação Jeremias louva o Senhor por livrar o pobre do poder dos perversos (cf. Jr 20,11-13). Ao mesmo tempo ele chega a praguejar contra seu próprio nascimento, depois da disputa com Fassur, o sacerdote (cf. 20,1-6)!






quarta-feira, 10 de agosto de 2016 0 comentários

Vocação - um desafio contextualizado (1)

Vocação – um desafio contextualizado (1)

No período pós-Vat 2 a Igreja católica no Brasil guarda o mês de agosto como o mês vocacional. Atividades diversas e momentos especiais promovem reflexões e celebrações das formas tradicionais de organização das vocações; elas surgiram como respostas aos desafios históricos em seu tempo. Os eventos expressam também a abertura às novas formas de resposta que o Espírito criador continua gerando nos fiéis em cada época. Nesta ocasião nós oferecemos um exame da experiência da vida do Profeta Jeremias como alguém que recebeu um chamado específico de Deus. Essa reflexão faz parte da nossa tentativa de contribuir, por menor que seja tal contribuição, à resposta cristã ao assalto que o império (hoje o capitalismo patrimonial pós-moderno) realiza neste momento para aniquilar os últimos redutos de resistência contra sua dominação em nosso país. Os profetas bíblicos ainda são lembrados hoje pela sua luta contra imperialismo e por ter chamado seu povo de volta para o “caminho de Deus”. Apesar da distância no tempo, há muita semelhança entre  nosso tempo e os dos profetas.

Jeremias foi chamado ainda jovem (cf. Jr 1,6), e instituído profeta sobre as nações: “para arrancar e arrasar, para demolir e destruir, para construir e plantar” (Jr 1, 10). Fiel a sua vocação ele permaneceu firme como “uma cidade fortificada, uma coluna de ferro” (Jr 1,18) para promover uma ideologia, a da Aliança com Senhor Deus, que a elite e os poderosos do seu tempo combatiam energicamente. Sua ideologia referia à organização social, econômica e religiosa baseada em partilha, solidariedade, fraternidade e não no poder de ganância e a capacidade de acumular. De fato, a monarquia tinha se mostrado amplamente incapaz de ser fiel a essa noção fundante da nação judaica em ambos os países: Israel e Judá.

A Palestina passou por um período de grave instabilidade política e militar entre o final do século 7 e o início do século 6 antes de Cristo, durante a contenta entre Assíria, Egito e Babilônia para determinar a dominação imperialista da região. Nós já falamos dos cinco reis de Judá neste período que procuravam preservar a autonomia da sua nação aliando-se a um ou outro das potências. No entanto, Jeremias, pregava a volta para os caminhos de Aliança com Deus para salvar a nação, como tinham feito também os outros profetas. No seu ver os desastres vindouros seriam o castigo de Deu por ter esquecido a justiça da Aliança. Ele tinha a percepção clara de que a Babilônia ia triunfar na peleja e a submissão a Nabucodonosor como o meio de evitar um desastre nacional.

Jeremias profetizou numa nação profundamente dividida. Um grupo liderado por falsos profetas promovia a ilusão de que o Templo e seus ritos garantiriam a segurança da nação. Um segundo grupo acreditava fanaticamente na força das armas e queria resistir militarmente à invasão de qualquer uma das potências. O terceiro grupo egípcio-filo se posicionou contra os babilônios. Entretanto todos eles tinham se esquecido da confiança nacional no Deus de Aliança. De fato Jerusalém e seu templo foram arrasados no chão e o povo foi exilado em Babilônia (586 a.C). O quase meio século em que Jeremias profetizou, ele passou por sofrimentos incalculáveis dos quais temos alguns indícios leves no livro de Jeremias. São 5 perícopes entre os capítulos 10 a 20 do livro de Jeremias (Jr 11,18-12,6; 15,10-21; 17,14-18; 18,18-23) que vamos examinar na segunda parte da nossa reflexão.


 
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