segunda-feira, 24 de dezembro de 2018 0 comentários

É necessário separar a Palavra de Deus das tradições humans

Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (27)

É necessário separar a Palavra de Deus das tradições humanas

Após fazer uma leitura dos milagres da multiplicação dos pães e de Jesus caminhar sobre as águas, com o intuito de considerá-los como componentes importantes da proposta igualitária do Reino de Deus em oposição ao capitalismo meritocrático neoliberal, nós vamos analisar como o profeta de Nazaré educa separar a Palavra de Deus das tradições humanas. Os textos em consideração estão em Mc 7,1-23 e em Mt 15,-20.

Jesus de Nazaré já se tornara uma celebridade. Entretanto as autoridades tinham decidido a mata-lo (cf. Mc 3,6), pois sua práxis que agradava tanto as camadas mais baixas da sociedade Palestinense ameaçava os fundamentos do sistema tradicional que assegurava os privilégios das elites. Por isso vigiavam-no assiduamente. O politicamente correto era eliminá-lo “na forma da lei” e a reação popular gerada seria calculável. Em vista disso os fariseus e seus doutores da Lei, insistentes no cumprimento assíduo das leis e a observação dos costumes tradicionais, acompanhavam este instaurador itinerante do Reino de Deus para fiscalizá-lo de mais perto.

Estes notaram que alguns discípulos de Jesus comia pão sem lavar as mãos, primeiro. Aqui é necessário dizer que o autor de Mc faz questão de explicar as leis da pureza em alguns detalhes (cf. Mc 7,3-4). As autoridades questionaram o próprio Jesus sobre essa omissão da parte dos seus discípulos, quer dizer, por que eles comiam pão sem observar os procedimentos da lei da pureza, como foram regulados pelos antigos.

A hipocrisia e a malícia atrás desse questionamento das elites poderosas não escapou a atenção de Jesus. Por isso ele citou Is 29,13 para condenar seu abandono do mandamento de Deus e o apego hipócrita à tradição dos homens. O Nazareno usa da sua prática, não incomum daqueles dias, de invalidar o quarto mandamento do decálogo: honrar seu pai e a sua mãe, e lucrar com isso. Lembrando-se de que é costume imemorial cuidar do pai e da mãe na sua velhice, porém quem quisesse nulificar o quarto mandamento, declararia o que poderia ser usado pela sua manutenção é “Corban”, isto é, oferta sagrada. Oferta sagrada vai para o templo. Neste jogo fariseu de substituir o mandamento de Deus por tradição humana, quem lucrava eram os componentes do sistema centrado no templo.

Depois disso Jesus dirige suas palavras à multidão sobre a questão das leis de pureza. O que entra no ser humano de fora não o faz impuro, mas o que sai dele é o que o torna impuro. Aqui se repete a advertência: “Quem tem ouvidos, ouça!” (Mc 7,16). De acordo com alguns estudiosos, esta poderia ter sido uma inserção posterior por algum copista (escriba que fez cópias do texto). Portanto essa admoestação que nós já encontramos em Mc 4,23 refere à consciência que as comunidades primitivas tinham da necessidade de ser comprometidos com a causa do Reino para poder seguir nas pegadas de Jesus.

Mais tarde os discípulos recebem maiores esclarecimentos sobre a parábola quando fizeram perguntas a Jesus. O texto de Marcos sinaliza aqui a superação nas comunidades cristãs dos regulamentos judaicos que proibiam certos alimentos (Mc 7,19). O texto de Mt conta dos discípulos que informaram Jesus que ele escandalizava os fariseus com as novidades que ele pregava. Neste momento Jesus os incentiva  separar-se dos fariseus, pois estes não serviam mais a causa do Reino (cf. Mt 15,12-14). De fato, no Evangelho se Mateus nós temos os sete “ais” contra os fariseus e letrados/escribas (cf. Mt 23,13-36). Nestes Jesus condena os líderes religiosos que modificam a religião em mecanismo de opressão e controle das pessoas, absolutizando o que é secundário e deixando de lado o que é essencial: a prática da justiça e da misericórdia. Pior ainda, em nome de sua religião, eles chegam a matar os enviados de Deus, como ajudarão a fazer com o próprio Jesus.

Voltando para o capítulo de 15 de Mateus, Pedro pede ainda maiores esclarecimentos sobre a parábola (cf. Mt 15,15). Jesus desaprova a manifesta resistência que até mesmo seus colaboradores mais próximos têm para consentir-se com as implicações da proximidade do Reino de Deus. Em seguida há uma lista do que vem do interior do ser humano e o torna impuro (cf. Mc 7,21-23; Mt 15,29-20). Essa lista mostra que as comunidades primitivas tinham a consciência das implicações morais da fé em Jesus na vida dos seus seguidores.

FELIZ NATAL E UM ABENÇOADO ANO NOVO 2019 AOS NOSSOS LEITORES!
domingo, 16 de dezembro de 2018 0 comentários

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (4)


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (26)
Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (4)

9. Agora, depois de examinar os seis textos que narram o milagre de multiplicação dos pães, nós estudaremos o episódio de Jesus caminhar sobre as águas. Ele vai ao encontro dos seus discípulos dos quais ele tinha se afastado no final do episódio da multiplicação. Estes textos se encontram em Mc 6,45-52; Mt 14,22-33; e Jo 6,16-21. É importante notar que há também outros narrativos que falam de Jesus e o mar: Jesus acalma a tempestade no mar (Mc 4,35-41; Mt 8,23-27; e Lc 8,22-25). Ainda há outros textos que falam de Jesus ensinando junto ao mar (Mc 4,1; e Mt 13,1-2).

Faremos algumas observações antes de começar analisar os textos que falam da segunda multiplicação; é notável que todas as narrativas da multiplicação dos pães nos contam que, no fim, quando todo mundo comeu e ficou satisfeito e as sobras foram recolhidas, há um distanciamento de Jesus dos seus discípulos como também da multidão, como indicamos acima. Na verdade o Evangelho de João nos informa especificamente que ao perceber que havia uma conspiração para fazer dele um rei, Jesus retirou-se a montanha. Os discípulos, por sua vez, foram de barco para outro lugar. A segunda observação é que há muitos textos que falam de Jesus e o mar da mesma maneira que há muitos outros textos que falam de Jesus em sua relação ao alimento. A terceira é que os estudos linguísticos contemporâneos nos permitem apreciar melhor a natureza da linguagem bíblica. À luz desta nova apreciação dos textos bíblicos é importante o envolvimento dos cristãos na política para que o Reino de Deus se torne uma realidade dentro da história humana neste início do terceiro milênio. É impressionante ver como a linguagem metafórica da Bíblia nos convoca a essa tarefa! 

10. Para comentar sobre os textos que falam de Jesus caminhar sobre o mar: Marcos e Mateus mencionam que Jesus obrigou os discípulos ir embora de barco para outro lugar, no final da multiplicação dos pães. Assim fizeram. Seu barco estava no mar agitado, estavam cansados de remar contra o vento, sem alcançar seu destino. Era uma noite escura e Jesus não estava mais com eles. De acordo com o texto de Marcos, Jesus, vendo isso, foi de madrugada ao seu encontro caminhando sobre as águas. Queria ultrapassá-los. Os discípulos vendo-o caminhar sobre as águas imaginaram que era um fantasma e gritaram aterrorizados. Outra vez, por sua própria iniciativa Jesus os assegura, ou melhor, revela sua identidade e pede lhes não terem medo. Ele subiu no barco e o vento se acalmou. De novo, Marcos faz questão de afirmar que eles ainda continuavam com medo, pois não tinham entendido nada a respeito dos pães porque o coração deles estava endurecido.

11. O texto de Mateus que relata o episódio de Jesus caminhar sobre as águas (cf. Mt 14,22-34), na sua primeira parte (vv.22-27), assemelha ao texto de Marcos. O autor adiciona na segunda parte, nos seus vv.28-34, um detalhe fascinante. Uma vez que os discípulos reconheceram Jesus, ainda distante do barco, Pedro tem um pedido especial. Ele quer ir até Jesus caminhando sobre o mar. Jesus o chamou para fazer sua experiência. Pedro saiu de barco e começou a andar em direção a Jesus. Tudo correu muito bem até que ele começou a sentir o vento forte e começou a afundar. Alarmado, Pedro gritou pedindo socorro a Jesus e este estendeu sua mão e o segurou, mas não sem repreendê-lo pela sua fraqueza da fé que gerou a dúvida. Assim que os dois subiram na barca o vento se acalmou. A reação dos discípulos ao acontecido foi de ajoelharem-se diante do Nazareno fazendo uma profissão da fé: “Tu és verdadeiramente Filho de Deus”, uma fórmula semelhante a que o centurião usou em Mc 15,39.

12. Referimos a muitos textos espalhados nos quatro evangelhos para estudar os dois milagres: o de multiplicação dos pães e o “caminhar sobre as águas” que Jesus de Nazaré realizou. Tradicionalmente estes milagres foram considerados provas da sua divindade e o consequente domínio sobre a natureza. No entanto o leitor percebeu que nós escolhemos tratar os dois milagres como um só bloco a fim de apontar para outra interpretação.

Vimos que no final do milagre da multiplicação dos pães é um momento de tensão, de distanciamento entre, de um lado, Jesus e seus discípulos, e de outro, Jesus da multidão. De acordo com os textos de Marcos de Mateus, Jesus obriga os discípulos irem para outro lugar, de barca. Entrementes o texto de João assinala que Jesus tinha percebido o plano para fazer dele um rei e por isso ele se distanciou de todos, foi para a montanha para rezar. Aqui, o notável é que o Nazareno se retira para rezar, isto é, estar em comunhão com seu Pai no mais um momento decisivo no seu ministério.

O reencontro de Jesus com seus discípulos é da sua iniciativa. Os discípulos estão no mar agitado, remando contra o vento e sem chegar a seu destino, numa noite escura. Jesus é visto por eles caminhando sobre as águas. A reação deles é gritar por medo, por ter visto um fantasma, algo que dá medo. Eles ainda não tinham chegado a reconhecer aquele que é capaz de caminhar sobre as águas, isto é, aquele que tem uma proposta alternativa de resolver os problemas dos humanos, de maneira igualitária, muito diferente da proposta meritocrática capitalista do império que controlava o mar!

É Jesus que revela sua identidade aos discípulos amendrados e tira seu medo. O texto de João menciona que “quiseram então receber Jesus na barca”. Quando ele subiu no barco o vento se acalmou e eles logo chegaram ao seu destino. O texto considerado mais primitivo, o de Marcos, afirma explicitamente: é que não tinham entendido nada a respeito dos pães, porque o coração deles estava endurecido.

Estes dois milagres têm um valor simbólico extraordinário, que se evidencia levando em consideração a natureza metafórica da linguagem bíblica. Na “multiplicação dos pães” dois métodos de organização sócio-político-econômica estão em jogo. O tradicional e mais comum critério de compra e venda que favorece aquele que tem (capitalismo) é substituído por outro que favorece a distribuição do que está disponível, de acordo com a necessidade de cada um. Nós sabemos como este igualitarismo sonhado continua sendo uma utopia ainda. Na retomada atual do Brasil pelas forças obscurantistas a serviço neoliberalismo neocolonialista, há um grande esforço para ofuscar a experiência de igualitarismo realizado no país nas últimas décadas; isto, num circo ridículo (mas efetivo) montado com componentes políticos-judiciais-midiáticos.

O susto que os discípulos levam ao ver Jesus caminhar sobre as águas refere à natureza assustadora do igualitarismo baseado nas necessidades de todos os seres humanos o que o Reino de Deus promove. É muito diferente do modo tradicional capitalista imperial meritocrática que exclui os menos dotados. Nos trechos neotestamentários que examinamos até agora, lemos sobre Jesus e sua relação com o “mar”: Jesus sente sobre o mar para ensinar (cf. Mc 4,1); Jesus acalma o mar agitado que amedronta os discípulos (cf. Mc 4,35-41); e a pesca milagrosa que deixa os discípulos espantados(cf. Lc 5,4-11; também Jo 21,1-14). Que é Jesus que sai ao encontro dos discípulos que estavam distantes dele, por ainda não tinham captado a pedagogia do Reino pela dureza do seu coração, aponta para a inciativa divina pela qual o ser humano aprende a responder só com dificuldade.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018 0 comentários

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (3)


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (26)
Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (3)

Acabamos de examinar os quatro textos que falam do milagre de multiplicação dos pães nos quatro evangelhos; agora restou-nos a fazer uma leitura dos dois textos nos evangelhos de Marcos e Mateus que reportam uma segunda multiplicação dos pães. Em seguida propomos tirar algumas conclusões oriundas dessa nossa leitura de todos esses textos para indicar pistas para uma compreensão das implicações políticas da nossa leitura dentro do horizonte da mudança das épocas que vivemos.

7. Os textos que narram a segunda multiplicação dos pães se encontram em Mc 8,1-10 e Mt 15,32-39. De acordo com o Evangelho de Marcos este segundo milagre se realiza no território pagão. Nestes dois textos não há nenhum detalhe novo que nós não vimos nas quatro narrativas examinadas até agora. Resumindo as narrativas: há uma situação de carência; Jesus, movido pela compaixão age para resolver a situação. Como nas narrativas anteriores, os discípulos são seus colaboradores no trabalho de constatar a inviabilidade de aplicar a solução comum capitalista comercial tradicional. Depois, a seu pedido, eles organizam o povo (a sentar-se em pequenos grupos) para distribuir o pão “eucaristizado”, de acordo com a necessidade de cada um, evitando que alguém acumule além do necessário. Todos comeram e ficaram satisfeitos. A sobra, uma quantia considerável, não é desperdiçada, mas é recolhida. Neste momento Jesus se afasta dos seus discípulos e da multidão.

8. Já no início do nosso exame deste bloco de textos sobre o milagre da multiplicação dos pães comentamos que este “milagre” refere à preocupação que Jesus de Nazaré tinha sobre o como suprir as necessidades básicas da população Palestinense, vítimas do capitalismo selvagem que o império romano impunha nessas terras impiedosamente através dos seus mercenários, os notáveis e os cidadãos de bem, locais.

Vale lembrar de que Jesus depois de ser batizado no Rio Jordão por João Batista foi tentado no deserto (cf. Mc 1,12-13). Os evangelhos de Mateus e Lucas têm alguns detalhes das tentações. A tentação de matar a fome, de qualquer maneira, é a primeira que o rabino de Nazaré enfrentou. Ele recusou desviar-se do foco da sua missão de instaurar o Reino de Deus, isto é, efetuar mudanças sociais e politicas radicais recorrendo a meros paliativos dentro do sistema vigente, como sugeria o tentador. O Nazareno recorreu às Sagradas Escrituras para sustentar sua posição.

Diante da necessidade de alimentar a multidão num lugar afastado Jesus e seus discípulos analisam as opções; o jeito capitalista comercial tradicional de comprar foi descartado como solução inviável; a alternativa do jeito fraterno, solidário e igualitário vai ser testada; para isso a reorganização social é necessária. Esta e atarefa da distribuição dos pães e peixes, após a realização do gesto eucarístico ficaram por conta dos discípulos. Entretanto, está claro  a necessidade da articulação das ideologias político-econômicas que se baseiam nos valores do Reino de Deus na realização deste projeto na história.

Das narrativas acima examinadas vimos que o critério usado na reorganização da multidão sentar-se em grupos pequenos foi: que cada um recebesse o que precisava e evitar os mais ágeis se apossasse de tudo, deixando os outros desprovidos. É muito contrário ao que está acontecendo em nosso mundo atual de abundância, submetido a crescente dominação dos gananciosos que energiza a onda neoliberal pós-colonial. As experiências “comunistas” e “socialistas”, tão bem criminalizadas na propaganda imperialista neoliberal, têm que ser avaliadas desta perspectiva e aperfeiçoadas com novas experiências ainda.

O gesto eucarístico que todos os seis textos aduzem aponta para a missão das comunidades que celebram a Eucaristia hoje de serem os agentes dessa transformação social gerando o modo fraterno, solidário e igualitário de usufruir os recursos abundantes da terra mãe à disposição da toda a humanidade.

Aqui vale lembrar-se das poucas experiências que as comunidades primitivas realizaram nessa direção registradas no Livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42-47; 4,32-35). Para a nossa surpresa logo em seguida aparece a história de Ananias e Zafira que fraudaram essa prática nova e revolucionária (cf. At 5,1-11)! Será que “o modo fraudulento” tem que continuar ser a regra? Não há possibilidade de mudar?

Embora as comunidades dos seguidores de Jesus de Nazaré tivessem sofrido modificações ao longo da sua longa história, para servir até como a religião imperial, experiências para pôr em prática o igualitarismo não faltaram em nenhum momento. Nós mesmos vivemos uma versão original dessa experiência do igualitarismo aqui no Brasil, nas últimas décadas. O aparato governamental tradicional serviu para gerar mobilidade social. É verdade que a elite, não só brasileira, mas globalizada, está aniquilando os fazedores, as lideranças dessa “revolução”, em operações jurídico-midiáticas fraudulentas bem montadas de criminalização com aparente sucesso, por enquanto!

Depois desse breve exame dos textos que narram o milagre de multiplicação dos pães e algumas reflexões práticas, nós vamos examinar o milagre reportado nos evangelhos em seguida: o de Jesus ir ao encontro dos seus discípulos caminhando sobre as águas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018 0 comentários

Fake Pope

FAKE POPE
As dores duma Igreja que passa de “sociedade perfeita” para ser o “Povo de Deus a Caminho”.

“Fake Pope” é um livro da autoria de dois jornalistas italianos: Nella Scavo e Roberto Beretta (SP, Paulus, 2018) que examinam as falsas notícias que circulam sobre o Papa Francisco, o personagem inusitado que apareceu na Cátedra de São Pedro na renúncia do Papa Bento XVI e continuamente gera ondas de perplexidade no mundo dos féis acostumados com doutrinas infalíveis e ritualismos tranquilizadores.

Nos 265 páginas deste livro os autores analisam 67 itens de notícias que circulam nos meios de comunicação contra este Bispo de Roma tão diferente. Francisco, vindo de fora de Europa, uma novidade após nove séculos, retoma o espírito de abertura do Vat II, desloca o euro centrismo da Igreja, não se comporta como um colosso infalível, mas como um ser humano igual aos outros, embora tenha uma missão especial: o de ser o Bispo de Roma. De fato, houve um movimento no período após a morte do Papa Paulo VI para levar a igreja de volta para “a cristandade eurocêntrica” que por sua vez, produziu a igreja de hoje, que nas palavras dos teólogos é uma de “teologia do pano e liturgia de fumaça” que o Papa argentino procura desmontar progressivamente.

Desde seus primeiros dias do ministério Petrino Papa Francisco vem incomodando uma boa parte dos católicos com sua chamada para ser “uma igreja em saída”. O novo Bispo de Roma realizou atos simbólicos condizentes a esta proposta sua com a decisão de hospedar-se com os outros na Casa Santa Maria em vez de residir no Palácio Apostólico. Ademais, ele não calça sapatilhas vermelhas, carrega sua bagagem de mão nas suas viagens, na cerimônia de lava-pés de quinta-feira santa incluiu muçulmanos e mulheres, deixando aborrecidos não poucos que zelam das tradições e bons costumes, os cidadãos de bem, de todos os continentes. Inicialmente houve um aumento fascinante na popularidade do Papa argentino. Mas quando apareceram documentos como “Laudato Si’” e “Amoris Laetitia” o mundo empresarial e as sentinelas das doutrinas tradicionais amarguram-se contra Francisco e não esconderam seus sentimentos, de fato efetivamente exercendo a liberdade da expressão que Papa Francisco introduziu na Igreja.

Os autores Nello Scavo e Roberto Beretta organizaram os 67 itens sobre Papa Francisco, que escolheram para sua análise, em onze grupos. O primeiro refere à atuação do Jorge Mario Bergoglio como superior dos Jesuítas na Argentina, assim como seu período de Arcebispo de Buenos Aires. Foi um período assombroso e sangrento na história do seu país; o tempo da ditadura militar desumano. Colaborador, traidor, associado dos comunistas são alguns epítetos favorecidos pelos que expressam sua hostilidade ao Arcebispo Emérito de Buenos Aires, agora o Papa. No entanto, os autores do “Fake Pope” elaboram, com esmero, textos sobre a empreitada do Bergoglio para atravessar as águas turvas durante a idade das trevas na história da sua terra natal e proteger vidas humanas ameaçadas com sucesso considerável.  

Da análise do passado “desaparecido” os autores passam para o processo que fez Begoglio passar a ser Francisco, considerado pelos seus adversários como algo que levou a igreja ter um Papa “Emérito” e outro Papa “Inválido”! Em seguida, os “Vatileaks” são vistos pelos nossos autores como “poderes fortes” ao assalto de Roma; entram agora na cenário contra Francisco os podre-ricos que se sentiram prejudicados pela postura ecológica do Francis; ele é acusado se ser o “maçom” perfeito através de uma manipulação técnica numerológica; ao admitir na “Amoris Laetitia” a necessidade de atualizar as articulações doutrinais sobre a família Francis foi sujeito até a uma “correctio filialis” (correção filial do pai errante pelos filhos) de um grupo obscurantista que incluía até Cardeais.

Em seguida o “Fake Pope” analisa os contraventos que o Pontífice encontrou em sua própria casa; estes referem às questões que vem de longe à espera da solução como a reforma da Cúria Romana, a tumultuosa situação gerada pelo escândalo de pedofilia e má gestão financeira; a contestação doutrinal no meio da realização do Sínodo sobre a Família; as “dúvidas” que este evento e o documento final levantaram na ala fundamentalista, e por fim algumas nomeações arriscadas que Francisco fez e lhe ganhou o epíteto de ditador. Em seguida, os autores avaliam as contestações dos atos simbólicos do Papa argentino na vida pessoal, suas práticas ecumênicas acaloradas demais, como também sua “tépida” defesa dos cristãos perseguidos, no ponto de vista dos seus censores.

Agora os autores passam a examinar as contestações e críticas do Papa Francisco quanto a seu interesse em examinar, à luz da evolução humana alcançada, a doutrina tradicional sobre questões como homo afetividade, gênero, assim chamados grupos “pro-life”, e LGBT. Sua abertura, baseando-se na dignidade da pessoa humana sobre estas questões é considerada pelos seus detratores como arquivamento dos “princípios inegociáveis”. Outra questão que deixa os cidadãos de bem e os guardiões da moral tradicional perplexos é a comunhão eucarística que eles consideram recompensa para os “perfeitos”! Agora vem as observações dos complotistas que veem grande perigo na tentativa do Francisco para transformar a igreja de “cristandade” numa “igreja em saída”. Há intelectuais, feministas e outros como também muitos entre os fiéis que não conseguem entendê-lo, pelo uso que ele faz das ciências humanas. Na verdade, seu chamado de ser “uma igreja em saída” pede o abandono de zonas de conforto tradicionais, algo dificílimo para quem já tem programado sua vida!

Percebe-se que Papa Francisco procura agradar a todos, mas cobra muito da sua comunidade, da Cúria, dos Bispos e presbíteros, e, de fato, muitos deles ficaram sem saber para onde “sair”. Os católicos praticantes, mesmo depois de 50 anos do Vat II, acostumado a uma leitura fundamentalista da Bíblia e vivendo mergulhados no momento atual de neo-devocionismo, que tem a autoridade como critério único não dão conta de administrar a perplexidade que a consciência da historicidade provoca. Na sua opinião Francisco está desmontando todo o pontificado romano, com seus hábitos de pedir bênção dos fiéis, carregar uma simples cruz de ferro em vez de ouro, usar sapatos simples, etc. Houve boatos de Francisco tentar influenciar as eleições presidenciais estadunidenses a favor do Trump, por ele supostamente estar contra aborto”!

Por fim, o que é pior ainda, o imperdoável, na vista dos “puristas”, é Papa Francisco libertar-se das pretensões da sua suposta infalibilidade e opinar “ex tempore” (espontaneamente) e admitir seus erros quando cometem alguns! Contudo, Nello Scavo e Roberto Beretta, os autores do “Fake Pope”, conseguiram retratar as dores duma “igreja em saída”, iluminada pelo Espírito Santo e está procurando saídas. Eles fazem isto pela sua maneira de examinar as críticas feitas ao estilo pastoral do Francisco, o Papa argentino, o Bispo de Roma, o Arcebispo Emérito do Buenos Aires.
 
;