segunda-feira, 24 de dezembro de 2018 0 comentários

É necessário separar a Palavra de Deus das tradições humans

Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (27)

É necessário separar a Palavra de Deus das tradições humanas

Após fazer uma leitura dos milagres da multiplicação dos pães e de Jesus caminhar sobre as águas, com o intuito de considerá-los como componentes importantes da proposta igualitária do Reino de Deus em oposição ao capitalismo meritocrático neoliberal, nós vamos analisar como o profeta de Nazaré educa separar a Palavra de Deus das tradições humanas. Os textos em consideração estão em Mc 7,1-23 e em Mt 15,-20.

Jesus de Nazaré já se tornara uma celebridade. Entretanto as autoridades tinham decidido a mata-lo (cf. Mc 3,6), pois sua práxis que agradava tanto as camadas mais baixas da sociedade Palestinense ameaçava os fundamentos do sistema tradicional que assegurava os privilégios das elites. Por isso vigiavam-no assiduamente. O politicamente correto era eliminá-lo “na forma da lei” e a reação popular gerada seria calculável. Em vista disso os fariseus e seus doutores da Lei, insistentes no cumprimento assíduo das leis e a observação dos costumes tradicionais, acompanhavam este instaurador itinerante do Reino de Deus para fiscalizá-lo de mais perto.

Estes notaram que alguns discípulos de Jesus comia pão sem lavar as mãos, primeiro. Aqui é necessário dizer que o autor de Mc faz questão de explicar as leis da pureza em alguns detalhes (cf. Mc 7,3-4). As autoridades questionaram o próprio Jesus sobre essa omissão da parte dos seus discípulos, quer dizer, por que eles comiam pão sem observar os procedimentos da lei da pureza, como foram regulados pelos antigos.

A hipocrisia e a malícia atrás desse questionamento das elites poderosas não escapou a atenção de Jesus. Por isso ele citou Is 29,13 para condenar seu abandono do mandamento de Deus e o apego hipócrita à tradição dos homens. O Nazareno usa da sua prática, não incomum daqueles dias, de invalidar o quarto mandamento do decálogo: honrar seu pai e a sua mãe, e lucrar com isso. Lembrando-se de que é costume imemorial cuidar do pai e da mãe na sua velhice, porém quem quisesse nulificar o quarto mandamento, declararia o que poderia ser usado pela sua manutenção é “Corban”, isto é, oferta sagrada. Oferta sagrada vai para o templo. Neste jogo fariseu de substituir o mandamento de Deus por tradição humana, quem lucrava eram os componentes do sistema centrado no templo.

Depois disso Jesus dirige suas palavras à multidão sobre a questão das leis de pureza. O que entra no ser humano de fora não o faz impuro, mas o que sai dele é o que o torna impuro. Aqui se repete a advertência: “Quem tem ouvidos, ouça!” (Mc 7,16). De acordo com alguns estudiosos, esta poderia ter sido uma inserção posterior por algum copista (escriba que fez cópias do texto). Portanto essa admoestação que nós já encontramos em Mc 4,23 refere à consciência que as comunidades primitivas tinham da necessidade de ser comprometidos com a causa do Reino para poder seguir nas pegadas de Jesus.

Mais tarde os discípulos recebem maiores esclarecimentos sobre a parábola quando fizeram perguntas a Jesus. O texto de Marcos sinaliza aqui a superação nas comunidades cristãs dos regulamentos judaicos que proibiam certos alimentos (Mc 7,19). O texto de Mt conta dos discípulos que informaram Jesus que ele escandalizava os fariseus com as novidades que ele pregava. Neste momento Jesus os incentiva  separar-se dos fariseus, pois estes não serviam mais a causa do Reino (cf. Mt 15,12-14). De fato, no Evangelho se Mateus nós temos os sete “ais” contra os fariseus e letrados/escribas (cf. Mt 23,13-36). Nestes Jesus condena os líderes religiosos que modificam a religião em mecanismo de opressão e controle das pessoas, absolutizando o que é secundário e deixando de lado o que é essencial: a prática da justiça e da misericórdia. Pior ainda, em nome de sua religião, eles chegam a matar os enviados de Deus, como ajudarão a fazer com o próprio Jesus.

Voltando para o capítulo de 15 de Mateus, Pedro pede ainda maiores esclarecimentos sobre a parábola (cf. Mt 15,15). Jesus desaprova a manifesta resistência que até mesmo seus colaboradores mais próximos têm para consentir-se com as implicações da proximidade do Reino de Deus. Em seguida há uma lista do que vem do interior do ser humano e o torna impuro (cf. Mc 7,21-23; Mt 15,29-20). Essa lista mostra que as comunidades primitivas tinham a consciência das implicações morais da fé em Jesus na vida dos seus seguidores.

FELIZ NATAL E UM ABENÇOADO ANO NOVO 2019 AOS NOSSOS LEITORES!
domingo, 16 de dezembro de 2018 0 comentários

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (4)


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (26)
Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (4)

9. Agora, depois de examinar os seis textos que narram o milagre de multiplicação dos pães, nós estudaremos o episódio de Jesus caminhar sobre as águas. Ele vai ao encontro dos seus discípulos dos quais ele tinha se afastado no final do episódio da multiplicação. Estes textos se encontram em Mc 6,45-52; Mt 14,22-33; e Jo 6,16-21. É importante notar que há também outros narrativos que falam de Jesus e o mar: Jesus acalma a tempestade no mar (Mc 4,35-41; Mt 8,23-27; e Lc 8,22-25). Ainda há outros textos que falam de Jesus ensinando junto ao mar (Mc 4,1; e Mt 13,1-2).

Faremos algumas observações antes de começar analisar os textos que falam da segunda multiplicação; é notável que todas as narrativas da multiplicação dos pães nos contam que, no fim, quando todo mundo comeu e ficou satisfeito e as sobras foram recolhidas, há um distanciamento de Jesus dos seus discípulos como também da multidão, como indicamos acima. Na verdade o Evangelho de João nos informa especificamente que ao perceber que havia uma conspiração para fazer dele um rei, Jesus retirou-se a montanha. Os discípulos, por sua vez, foram de barco para outro lugar. A segunda observação é que há muitos textos que falam de Jesus e o mar da mesma maneira que há muitos outros textos que falam de Jesus em sua relação ao alimento. A terceira é que os estudos linguísticos contemporâneos nos permitem apreciar melhor a natureza da linguagem bíblica. À luz desta nova apreciação dos textos bíblicos é importante o envolvimento dos cristãos na política para que o Reino de Deus se torne uma realidade dentro da história humana neste início do terceiro milênio. É impressionante ver como a linguagem metafórica da Bíblia nos convoca a essa tarefa! 

10. Para comentar sobre os textos que falam de Jesus caminhar sobre o mar: Marcos e Mateus mencionam que Jesus obrigou os discípulos ir embora de barco para outro lugar, no final da multiplicação dos pães. Assim fizeram. Seu barco estava no mar agitado, estavam cansados de remar contra o vento, sem alcançar seu destino. Era uma noite escura e Jesus não estava mais com eles. De acordo com o texto de Marcos, Jesus, vendo isso, foi de madrugada ao seu encontro caminhando sobre as águas. Queria ultrapassá-los. Os discípulos vendo-o caminhar sobre as águas imaginaram que era um fantasma e gritaram aterrorizados. Outra vez, por sua própria iniciativa Jesus os assegura, ou melhor, revela sua identidade e pede lhes não terem medo. Ele subiu no barco e o vento se acalmou. De novo, Marcos faz questão de afirmar que eles ainda continuavam com medo, pois não tinham entendido nada a respeito dos pães porque o coração deles estava endurecido.

11. O texto de Mateus que relata o episódio de Jesus caminhar sobre as águas (cf. Mt 14,22-34), na sua primeira parte (vv.22-27), assemelha ao texto de Marcos. O autor adiciona na segunda parte, nos seus vv.28-34, um detalhe fascinante. Uma vez que os discípulos reconheceram Jesus, ainda distante do barco, Pedro tem um pedido especial. Ele quer ir até Jesus caminhando sobre o mar. Jesus o chamou para fazer sua experiência. Pedro saiu de barco e começou a andar em direção a Jesus. Tudo correu muito bem até que ele começou a sentir o vento forte e começou a afundar. Alarmado, Pedro gritou pedindo socorro a Jesus e este estendeu sua mão e o segurou, mas não sem repreendê-lo pela sua fraqueza da fé que gerou a dúvida. Assim que os dois subiram na barca o vento se acalmou. A reação dos discípulos ao acontecido foi de ajoelharem-se diante do Nazareno fazendo uma profissão da fé: “Tu és verdadeiramente Filho de Deus”, uma fórmula semelhante a que o centurião usou em Mc 15,39.

12. Referimos a muitos textos espalhados nos quatro evangelhos para estudar os dois milagres: o de multiplicação dos pães e o “caminhar sobre as águas” que Jesus de Nazaré realizou. Tradicionalmente estes milagres foram considerados provas da sua divindade e o consequente domínio sobre a natureza. No entanto o leitor percebeu que nós escolhemos tratar os dois milagres como um só bloco a fim de apontar para outra interpretação.

Vimos que no final do milagre da multiplicação dos pães é um momento de tensão, de distanciamento entre, de um lado, Jesus e seus discípulos, e de outro, Jesus da multidão. De acordo com os textos de Marcos de Mateus, Jesus obriga os discípulos irem para outro lugar, de barca. Entrementes o texto de João assinala que Jesus tinha percebido o plano para fazer dele um rei e por isso ele se distanciou de todos, foi para a montanha para rezar. Aqui, o notável é que o Nazareno se retira para rezar, isto é, estar em comunhão com seu Pai no mais um momento decisivo no seu ministério.

O reencontro de Jesus com seus discípulos é da sua iniciativa. Os discípulos estão no mar agitado, remando contra o vento e sem chegar a seu destino, numa noite escura. Jesus é visto por eles caminhando sobre as águas. A reação deles é gritar por medo, por ter visto um fantasma, algo que dá medo. Eles ainda não tinham chegado a reconhecer aquele que é capaz de caminhar sobre as águas, isto é, aquele que tem uma proposta alternativa de resolver os problemas dos humanos, de maneira igualitária, muito diferente da proposta meritocrática capitalista do império que controlava o mar!

É Jesus que revela sua identidade aos discípulos amendrados e tira seu medo. O texto de João menciona que “quiseram então receber Jesus na barca”. Quando ele subiu no barco o vento se acalmou e eles logo chegaram ao seu destino. O texto considerado mais primitivo, o de Marcos, afirma explicitamente: é que não tinham entendido nada a respeito dos pães, porque o coração deles estava endurecido.

Estes dois milagres têm um valor simbólico extraordinário, que se evidencia levando em consideração a natureza metafórica da linguagem bíblica. Na “multiplicação dos pães” dois métodos de organização sócio-político-econômica estão em jogo. O tradicional e mais comum critério de compra e venda que favorece aquele que tem (capitalismo) é substituído por outro que favorece a distribuição do que está disponível, de acordo com a necessidade de cada um. Nós sabemos como este igualitarismo sonhado continua sendo uma utopia ainda. Na retomada atual do Brasil pelas forças obscurantistas a serviço neoliberalismo neocolonialista, há um grande esforço para ofuscar a experiência de igualitarismo realizado no país nas últimas décadas; isto, num circo ridículo (mas efetivo) montado com componentes políticos-judiciais-midiáticos.

O susto que os discípulos levam ao ver Jesus caminhar sobre as águas refere à natureza assustadora do igualitarismo baseado nas necessidades de todos os seres humanos o que o Reino de Deus promove. É muito diferente do modo tradicional capitalista imperial meritocrática que exclui os menos dotados. Nos trechos neotestamentários que examinamos até agora, lemos sobre Jesus e sua relação com o “mar”: Jesus sente sobre o mar para ensinar (cf. Mc 4,1); Jesus acalma o mar agitado que amedronta os discípulos (cf. Mc 4,35-41); e a pesca milagrosa que deixa os discípulos espantados(cf. Lc 5,4-11; também Jo 21,1-14). Que é Jesus que sai ao encontro dos discípulos que estavam distantes dele, por ainda não tinham captado a pedagogia do Reino pela dureza do seu coração, aponta para a inciativa divina pela qual o ser humano aprende a responder só com dificuldade.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018 0 comentários

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (3)


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (26)
Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (3)

Acabamos de examinar os quatro textos que falam do milagre de multiplicação dos pães nos quatro evangelhos; agora restou-nos a fazer uma leitura dos dois textos nos evangelhos de Marcos e Mateus que reportam uma segunda multiplicação dos pães. Em seguida propomos tirar algumas conclusões oriundas dessa nossa leitura de todos esses textos para indicar pistas para uma compreensão das implicações políticas da nossa leitura dentro do horizonte da mudança das épocas que vivemos.

7. Os textos que narram a segunda multiplicação dos pães se encontram em Mc 8,1-10 e Mt 15,32-39. De acordo com o Evangelho de Marcos este segundo milagre se realiza no território pagão. Nestes dois textos não há nenhum detalhe novo que nós não vimos nas quatro narrativas examinadas até agora. Resumindo as narrativas: há uma situação de carência; Jesus, movido pela compaixão age para resolver a situação. Como nas narrativas anteriores, os discípulos são seus colaboradores no trabalho de constatar a inviabilidade de aplicar a solução comum capitalista comercial tradicional. Depois, a seu pedido, eles organizam o povo (a sentar-se em pequenos grupos) para distribuir o pão “eucaristizado”, de acordo com a necessidade de cada um, evitando que alguém acumule além do necessário. Todos comeram e ficaram satisfeitos. A sobra, uma quantia considerável, não é desperdiçada, mas é recolhida. Neste momento Jesus se afasta dos seus discípulos e da multidão.

8. Já no início do nosso exame deste bloco de textos sobre o milagre da multiplicação dos pães comentamos que este “milagre” refere à preocupação que Jesus de Nazaré tinha sobre o como suprir as necessidades básicas da população Palestinense, vítimas do capitalismo selvagem que o império romano impunha nessas terras impiedosamente através dos seus mercenários, os notáveis e os cidadãos de bem, locais.

Vale lembrar de que Jesus depois de ser batizado no Rio Jordão por João Batista foi tentado no deserto (cf. Mc 1,12-13). Os evangelhos de Mateus e Lucas têm alguns detalhes das tentações. A tentação de matar a fome, de qualquer maneira, é a primeira que o rabino de Nazaré enfrentou. Ele recusou desviar-se do foco da sua missão de instaurar o Reino de Deus, isto é, efetuar mudanças sociais e politicas radicais recorrendo a meros paliativos dentro do sistema vigente, como sugeria o tentador. O Nazareno recorreu às Sagradas Escrituras para sustentar sua posição.

Diante da necessidade de alimentar a multidão num lugar afastado Jesus e seus discípulos analisam as opções; o jeito capitalista comercial tradicional de comprar foi descartado como solução inviável; a alternativa do jeito fraterno, solidário e igualitário vai ser testada; para isso a reorganização social é necessária. Esta e atarefa da distribuição dos pães e peixes, após a realização do gesto eucarístico ficaram por conta dos discípulos. Entretanto, está claro  a necessidade da articulação das ideologias político-econômicas que se baseiam nos valores do Reino de Deus na realização deste projeto na história.

Das narrativas acima examinadas vimos que o critério usado na reorganização da multidão sentar-se em grupos pequenos foi: que cada um recebesse o que precisava e evitar os mais ágeis se apossasse de tudo, deixando os outros desprovidos. É muito contrário ao que está acontecendo em nosso mundo atual de abundância, submetido a crescente dominação dos gananciosos que energiza a onda neoliberal pós-colonial. As experiências “comunistas” e “socialistas”, tão bem criminalizadas na propaganda imperialista neoliberal, têm que ser avaliadas desta perspectiva e aperfeiçoadas com novas experiências ainda.

O gesto eucarístico que todos os seis textos aduzem aponta para a missão das comunidades que celebram a Eucaristia hoje de serem os agentes dessa transformação social gerando o modo fraterno, solidário e igualitário de usufruir os recursos abundantes da terra mãe à disposição da toda a humanidade.

Aqui vale lembrar-se das poucas experiências que as comunidades primitivas realizaram nessa direção registradas no Livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42-47; 4,32-35). Para a nossa surpresa logo em seguida aparece a história de Ananias e Zafira que fraudaram essa prática nova e revolucionária (cf. At 5,1-11)! Será que “o modo fraudulento” tem que continuar ser a regra? Não há possibilidade de mudar?

Embora as comunidades dos seguidores de Jesus de Nazaré tivessem sofrido modificações ao longo da sua longa história, para servir até como a religião imperial, experiências para pôr em prática o igualitarismo não faltaram em nenhum momento. Nós mesmos vivemos uma versão original dessa experiência do igualitarismo aqui no Brasil, nas últimas décadas. O aparato governamental tradicional serviu para gerar mobilidade social. É verdade que a elite, não só brasileira, mas globalizada, está aniquilando os fazedores, as lideranças dessa “revolução”, em operações jurídico-midiáticas fraudulentas bem montadas de criminalização com aparente sucesso, por enquanto!

Depois desse breve exame dos textos que narram o milagre de multiplicação dos pães e algumas reflexões práticas, nós vamos examinar o milagre reportado nos evangelhos em seguida: o de Jesus ir ao encontro dos seus discípulos caminhando sobre as águas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018 0 comentários

Fake Pope

FAKE POPE
As dores duma Igreja que passa de “sociedade perfeita” para ser o “Povo de Deus a Caminho”.

“Fake Pope” é um livro da autoria de dois jornalistas italianos: Nella Scavo e Roberto Beretta (SP, Paulus, 2018) que examinam as falsas notícias que circulam sobre o Papa Francisco, o personagem inusitado que apareceu na Cátedra de São Pedro na renúncia do Papa Bento XVI e continuamente gera ondas de perplexidade no mundo dos féis acostumados com doutrinas infalíveis e ritualismos tranquilizadores.

Nos 265 páginas deste livro os autores analisam 67 itens de notícias que circulam nos meios de comunicação contra este Bispo de Roma tão diferente. Francisco, vindo de fora de Europa, uma novidade após nove séculos, retoma o espírito de abertura do Vat II, desloca o euro centrismo da Igreja, não se comporta como um colosso infalível, mas como um ser humano igual aos outros, embora tenha uma missão especial: o de ser o Bispo de Roma. De fato, houve um movimento no período após a morte do Papa Paulo VI para levar a igreja de volta para “a cristandade eurocêntrica” que por sua vez, produziu a igreja de hoje, que nas palavras dos teólogos é uma de “teologia do pano e liturgia de fumaça” que o Papa argentino procura desmontar progressivamente.

Desde seus primeiros dias do ministério Petrino Papa Francisco vem incomodando uma boa parte dos católicos com sua chamada para ser “uma igreja em saída”. O novo Bispo de Roma realizou atos simbólicos condizentes a esta proposta sua com a decisão de hospedar-se com os outros na Casa Santa Maria em vez de residir no Palácio Apostólico. Ademais, ele não calça sapatilhas vermelhas, carrega sua bagagem de mão nas suas viagens, na cerimônia de lava-pés de quinta-feira santa incluiu muçulmanos e mulheres, deixando aborrecidos não poucos que zelam das tradições e bons costumes, os cidadãos de bem, de todos os continentes. Inicialmente houve um aumento fascinante na popularidade do Papa argentino. Mas quando apareceram documentos como “Laudato Si’” e “Amoris Laetitia” o mundo empresarial e as sentinelas das doutrinas tradicionais amarguram-se contra Francisco e não esconderam seus sentimentos, de fato efetivamente exercendo a liberdade da expressão que Papa Francisco introduziu na Igreja.

Os autores Nello Scavo e Roberto Beretta organizaram os 67 itens sobre Papa Francisco, que escolheram para sua análise, em onze grupos. O primeiro refere à atuação do Jorge Mario Bergoglio como superior dos Jesuítas na Argentina, assim como seu período de Arcebispo de Buenos Aires. Foi um período assombroso e sangrento na história do seu país; o tempo da ditadura militar desumano. Colaborador, traidor, associado dos comunistas são alguns epítetos favorecidos pelos que expressam sua hostilidade ao Arcebispo Emérito de Buenos Aires, agora o Papa. No entanto, os autores do “Fake Pope” elaboram, com esmero, textos sobre a empreitada do Bergoglio para atravessar as águas turvas durante a idade das trevas na história da sua terra natal e proteger vidas humanas ameaçadas com sucesso considerável.  

Da análise do passado “desaparecido” os autores passam para o processo que fez Begoglio passar a ser Francisco, considerado pelos seus adversários como algo que levou a igreja ter um Papa “Emérito” e outro Papa “Inválido”! Em seguida, os “Vatileaks” são vistos pelos nossos autores como “poderes fortes” ao assalto de Roma; entram agora na cenário contra Francisco os podre-ricos que se sentiram prejudicados pela postura ecológica do Francis; ele é acusado se ser o “maçom” perfeito através de uma manipulação técnica numerológica; ao admitir na “Amoris Laetitia” a necessidade de atualizar as articulações doutrinais sobre a família Francis foi sujeito até a uma “correctio filialis” (correção filial do pai errante pelos filhos) de um grupo obscurantista que incluía até Cardeais.

Em seguida o “Fake Pope” analisa os contraventos que o Pontífice encontrou em sua própria casa; estes referem às questões que vem de longe à espera da solução como a reforma da Cúria Romana, a tumultuosa situação gerada pelo escândalo de pedofilia e má gestão financeira; a contestação doutrinal no meio da realização do Sínodo sobre a Família; as “dúvidas” que este evento e o documento final levantaram na ala fundamentalista, e por fim algumas nomeações arriscadas que Francisco fez e lhe ganhou o epíteto de ditador. Em seguida, os autores avaliam as contestações dos atos simbólicos do Papa argentino na vida pessoal, suas práticas ecumênicas acaloradas demais, como também sua “tépida” defesa dos cristãos perseguidos, no ponto de vista dos seus censores.

Agora os autores passam a examinar as contestações e críticas do Papa Francisco quanto a seu interesse em examinar, à luz da evolução humana alcançada, a doutrina tradicional sobre questões como homo afetividade, gênero, assim chamados grupos “pro-life”, e LGBT. Sua abertura, baseando-se na dignidade da pessoa humana sobre estas questões é considerada pelos seus detratores como arquivamento dos “princípios inegociáveis”. Outra questão que deixa os cidadãos de bem e os guardiões da moral tradicional perplexos é a comunhão eucarística que eles consideram recompensa para os “perfeitos”! Agora vem as observações dos complotistas que veem grande perigo na tentativa do Francisco para transformar a igreja de “cristandade” numa “igreja em saída”. Há intelectuais, feministas e outros como também muitos entre os fiéis que não conseguem entendê-lo, pelo uso que ele faz das ciências humanas. Na verdade, seu chamado de ser “uma igreja em saída” pede o abandono de zonas de conforto tradicionais, algo dificílimo para quem já tem programado sua vida!

Percebe-se que Papa Francisco procura agradar a todos, mas cobra muito da sua comunidade, da Cúria, dos Bispos e presbíteros, e, de fato, muitos deles ficaram sem saber para onde “sair”. Os católicos praticantes, mesmo depois de 50 anos do Vat II, acostumado a uma leitura fundamentalista da Bíblia e vivendo mergulhados no momento atual de neo-devocionismo, que tem a autoridade como critério único não dão conta de administrar a perplexidade que a consciência da historicidade provoca. Na sua opinião Francisco está desmontando todo o pontificado romano, com seus hábitos de pedir bênção dos fiéis, carregar uma simples cruz de ferro em vez de ouro, usar sapatos simples, etc. Houve boatos de Francisco tentar influenciar as eleições presidenciais estadunidenses a favor do Trump, por ele supostamente estar contra aborto”!

Por fim, o que é pior ainda, o imperdoável, na vista dos “puristas”, é Papa Francisco libertar-se das pretensões da sua suposta infalibilidade e opinar “ex tempore” (espontaneamente) e admitir seus erros quando cometem alguns! Contudo, Nello Scavo e Roberto Beretta, os autores do “Fake Pope”, conseguiram retratar as dores duma “igreja em saída”, iluminada pelo Espírito Santo e está procurando saídas. Eles fazem isto pela sua maneira de examinar as críticas feitas ao estilo pastoral do Francisco, o Papa argentino, o Bispo de Roma, o Arcebispo Emérito do Buenos Aires.
segunda-feira, 26 de novembro de 2018 0 comentários

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (2)


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (26)

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (2)

4. Continuamos examinando os textos que narram o milagre da multiplicação dos pães. O Evangelho de Mateus, antes de apresentar o episódio de multiplicação dos pães (Mt 14,13-21), nos explica primeiro o porquê de Jesus decidir a ir a um lugar afastado. É a notícia da execução de João Batista (cf. Mt 14,12). Ao chegar lá, encontra uma multidão já reunida a sua espera. Encheu-se de compaixão por ela e curou dos doentes. Os detalhes da narrativa do “milagre”, que aconteceu ao entardecer são semelhantes ao que temos na narrativa de Marcos (cf. Mc 6,30-44). Diante da necessidade de alimentar uma multidão num lugar afastado a solução tradicional capitalista comercial de comprar o necessário é considerada inviável e Jesus manda seus discípulos organizar a multidão para usufruir os parcos recursos disponíveis.

 O gesto eucarístico que vem em seguida enfatiza a radical novidade que a comunidade que celebra a Eucaristia é capaz de efetuar na sociedade, pois ela vive a constante partilha dos recursos disponíveis de acordo com critérios que Jesus de Nazaré aplicava na sua práxis. Este comportamento anticapitalista vai fomentar revolução social pelo critério usado: a necessidade de cada um e não a capacidade de alguns poucos para acumular todo o possível. No entanto esse novo critério assegura a satisfação das necessidades de todos e até deixa sobra considerável. Vale notar que, desde sempre, as elites criminalizam qualquer atividade que implanta igualitarismo por ela fazer com que os dominadores tradicionais perdessem seus privilégios e mordomias.
5. Também no evangelho de Lucas, o texto que fala da multiplicação dos pães (Lc 9,10-17) é posicionado depois dos textos que falam do retorno dos discípulos da sua missão e o de receber a notícia da procura de Herodes, que “queria ver Jesus” (Lc 9,7-9). É que este o vassalo hediondo dos imperialistas romanos, tinha degolado João Batista, numa operação parecida com a “fraude-jato” dos nossos dias. Numa versão primitiva desta operação fraudulenta que, em nossos dias criminalizam as nossas lideranças políticas que usaram as estruturas governamentais tradicionais, antes usadas para manter o povo brasileiro em indigência, para melhorar a situação econômica dos mais pobres, Herodes e seus “cidadãos de bem” silenciaram, ou imaginavam que tinham conseguido silenciar tudo que João representava ao degolá-lo! É por isso que Herodes, quando ficou sabendo das atividades de Jesus de Nazaré, ficou convencido de que o Nazareno era o próprio João Batista ressuscitado e é por isso “queria ver Jesus”.

Em seus detalhes o episódio é semelhante ao que já lemos nos evangelhos de Marcos e Mateus. Resumidamente: Jesus procura afastar-se da multidão e vai para o outro lado do lago para ter sossego (segurança?) e um momento com seus discípulos só. Mas, a multidão já estava lá aguardando sua chegada. Jesus acolheu a bondosamente, ensinou-lhe sobre o Reino de Deus e curou os que precisavam. Ao entardecer os discípulos pedem Jesus para despedir a multidão; no entanto ele confiou a eles a tarefa de alimentá-la. Diante da situação de impossibilidade de aplicar a solução comum comercial capitalista, a narrativa de Lucas nos diz que houve recurso à solução solidária, fraterna, igualitarista que a Eucaristia promove. Os discípulos são autorizados para organizar a multidão como também para fazer a distribuição equitativa; há suficiente para suprir as necessidades de todos e tem sobra considerável.

6. Por sua vez o autor do Evangelho de João, que tem sua própria Cristologia, apresenta a multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) como o quarto dos sete “sinais” que explicita o personagem do “verbo que se fez carne”, isto é, Jesus de Nazaré. A narrativa se encontra depois do texto que trata da cura controvertida do enfermo na beira da piscina num dia de sábado (cf. Jo 5,1-47), Este terceiro sinal, a cura, levanta contestações sobre a identidade e a autoridade do Nazareno agir desta maneira inusitada. Entretanto Jesus insiste na sua sintonia com o Pai para agir de maneira apropriada, mesmo no dia de sábado, para proporcionar uma vida da qualidade para quem precisar, e assim retomar o sentido original da observância do sábado (cf. Ex 16,29-30; 20,8 especialmente a nota na Bíblia de Jerusalém). Contra a perseguição da parte dos seus adversários “judeus”, Jesus invoca o testemunho de João Batista (cf. Jo 5,35ss), as Escrituras (cf. Jo 5,39ss) e o próprio Moisés (cf. Jo 5, 45ss) a seu respeito.

É nesta situação tensa, próxima a Páscoa dos Judeus, mas longe de Jerusalém, o centro de poder oficial, que Jesus realiza a multiplicação dos pães. Há uma grande multidão que precisa ser alimentada. A solução convencional comercial capitalista não é aplicável. O que está disponível é considerado insuficiente, a primeira vista. A multidão é organizada para cada um receber o necessário e prevenir e os mais astuciosos acumulem além do que é necessário. Assim como nos sinóticos, aqui também são os discípulos responsáveis pela nova ordem social e a distribuição dos pães após a realização do gesto eucarístico. Todos comeram e ficaram satisfeitos e a sobra, uma quantia considerável é recolhida.

O autor de João faz questão de nos informar que no sinal da multiplicação dos pães que Jesus realizou, ele foi visto como “o Profeta que vem ao mundo” e houve um movimento para fazer dele um rei e é por isso que ele se retirou sozinho para a montanha. (cf. Jo 6,14-15). O Nazareno antecipou as consequências do resultado desta leitura interesseira do seu messianismo. Podemos afirmar que a reação de Jesus aponta para a radical novidade do Reino que ele proclamava e sua incompatibilidade com o sistema tradicional de meritocrático vigente.

domingo, 18 de novembro de 2018 0 comentários

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (1)


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (26)

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (1)

1. Falamos sobre a premonição do fim trágico de Jesus de Nazaré por ele se posicionar a favor dos mais pobres e necessitados contrariando os desígnios das elites poderosas que exploram os mais fracos. E agora pretendemos examinar: (1) o episódio da multiplicação dos pães; e (2) Jesus caminhar sobre as águas, como elementos principais do Reino de Deus que ele instaurava. A nossa leitura do milagre da multiplicação dos pães é a partir de um ponto de vista que aceita este como a alternativa ao sistema capitalista neoliberal reinante. De fato, há uma abundância de bens materiais no mundo que, distribuídos usando como critério as necessidades reais dos seres humanos, satisfaz a todos e deixa muita sobra ainda. No entanto percebemos que os poderosos favorecem desde sempre o acumulo de bens materiais de acordo com sua capacidade irrestrita de pilhar. Quanto à leitura do milagre de Jesus caminhar sobre o mar, é preciso lembrar que o mar simboliza, na linguagem bíblica, realidades variadas e que os impérios sempre fizeram questão de controlar o mar para assegurar seu domínio dos espaços. Aqui o caminhar de Jesus sobre o mar aponta para o projeto do Reino de Deus que transcende o esquema imperialista em sua metodologia e resultados obtidos. Veremos que seu projeto foi e continua sendo algo assustador até mesmo para seus discípulos.

 2. Para falar sobre o milagre da multiplicação dos pães, nós encontramos seis as narrativas desta nos evangelhos (cf. Mc 6,30-44; 8,1-10; Mt 14,13-21; 15,32-39; Lc 9,10-17; João 6,1-14). Essa multiplicidade dos textos, sobre o “milagre” junto com outros textos que falam das refeições e a comensalidade que Jesus praticava, hoje é vistas pelos estudiosos como a preocupação que Jesus tinha sobre a questão das necessidades básicas do ser humano. Nessas narrativas alguns elementos são fundamentais, apesar dos detalhes variarem. Nós já vamos exemplificar alguns deles antes de examinar os textos. Todos eles falam duma situação de necessidade de alimentar a multidão. Jesus indica os discípulos como os responsáveis para resolver essa situação. A solução convencional comercial capitalista de comprar o necessário é descartada como não sendo prático, vendo a indisponibilidade dos recursos financeiros. Na busca duma solução alternativa, percebe-se que o que está disponível é aparentemente insuficiente diante da grande necessidade. Então o Nazareno manda seus discípulos organizarem a multidão de tal forma que cada um receba o necessário.
Há uma referência à atuação das comunidades eucarísticas na transformação social pela menção feita dos gestos de Jesus tomar os pães e peixes, agradecer e entregar aos discípulos para serem distribuídos a multidão. Eles assim fizeram e todos comeram e ficaram satisfeitos. As sobras, uma quantia considerável, são recolhidas e não desperdiçadas.

Terminada a distribuição dos pães, há um distanciamento entre Jesus e seus discípulos; o rabino se afasta também da multidão. Os discípulos vão de barco para o outro lado. Jesus vai ao reencontro com eles caminhando sobre as águas num mar agitado. É um momento de tensão e uma experiência assustadora para os discípulos quebrantados.

3. De acordo com o texto de Marcos (6,30-44) o milagre da multiplicação dos pães aconteceu assim. Os discípulos voltaram da sua missão (cf. Mc 6,6b-13) e estavam ansiosos para contar suas experiências missionárias a Jesus. Mas, como apareceu muita gente a procura de Jesus, ele propôs que fossem a um lugar sossegado. Foram de barco a um lugar assim, porém a multidão antecipou-se e já estava aí quando Jesus chegou lá com seus missionários. Movido por compaixão ensinava-lhes muitas coisas, visto que a situação do povo era a de ovelhas sem pastor. Como o lugar era deserto e já tinha entardecido, seus discípulos, preocupados com a alimentação do povo, pediu Jesus que ele dispersasse a multidão a fim de que cada um providenciasse o necessário.

Mas Jesus encarregou os seus discípulos com a tarefa de alimentar o povo. A reação dos discípulos foi a de reconhecer a impossibilidade de cumprir a tarefa, pois não tinha dinheiro disponível para solução normal capitalista de comprar o necessário para providenciar refeições para a multidão. Tudo o que havia a disposição era muito pouco, apenas cinco pães e dois peixes. Neste momento Jesus incumbiu os discípulos para organizar o povo em pequenos grupos para que houvesse condições para cada um receber o necessário. O resultado do seu trabalho: a multidão acomodou-se em pequenos grupos na relva. Em seguida Jesus tomou os pães e peixes “realizou o gesto eucarístico” e os entregou aos apóstolos que os distribuíram; todos (cinco mil homens) comeram e ficaram satisfeitos. O que sobrou foi uma considerável quantia que foi recolhida. Logo em seguida, de acordo com o texto de Marcos, Jesus obrigou os discípulos irem de barco para a outra margem do lago enquanto ele despedia a multidão. Ele mesmo, depois de despedir a multidão foi à montanha para rezar (cf. Mc 6,45-57). A continuar...

segunda-feira, 12 de novembro de 2018 0 comentários

Premonição do fim trágico do Profeta Jesus


Premonição do fim trágico do Profeta Jesus

1. Examinamos os “milagres” de Jesus de Nazaré calmar a tempestade no mar e a cura do possesso de Gerasa a partir de um ponto de vista que leva em consideração as implicações da imagem do “mar” para a política imperialista. Vimos que a tempestade acalmada causou medo e perplexidade entre os discípulos (cf. Mc 4,41). A cura do possesso de Gerasa induziu os habitantes da região pedir Jesus para sair do seu território, visto que os gerasenos valorizavam mais seus porcos do que um concidadão libertado dos espíritos maus!

2. Agora analisaremos a cura da mulher hemorroíssa e a ressurreição da menina (cf. Mc 5,21-43; Mt 9,18-26; Lc 8,40-56). Jesus, voltando da terra dos gerasenos para o outro lado do mar encontra-se no meio de uma grande multidão. Um dos chefes da sinagoga, Jairo, vem pedir socorro porque sua filha está morrendo. Prontamente Jesus vai com ele e a multidão vai junto, apertando-o de todos os lados.
De repente uma mulher que sofria de hemorragia durante doze anos tocou na veste de Jesus e sentiu-se curada. Com efeito, ela tinha gasto tudo o que tinha para custear seu tratamento médico, sem que haja nenhuma melhora na sua condição. Ela ficou sabendo de Jesus, o rabino de Nazaré, e movida pela sua fé e a esperança de cura, aproximou-se dele na anonimidade no meio da multidão, tocou nele e sua fé foi amplamente recompensada. Entretanto, Jesus percebeu que força tinha saído dele e faz o necessário, descartando os protestos dos discípulos ignorantes, para tirar a mulher do seu anonimato e coloca-la em evidência e elogiar sua fé.

Nisso chegaram emissários da casa de Jairo anunciando a morte da menina. Não era mais preciso importunar o Mestre, disseram. Mas, Jesus, que escutou a conversa, aconselhou o pai da menina a ter coragem e ter fé; continuou sua caminhada para a casa da falecida, acompanhado apenas pelos três dos seus: Pedro, Tiago e João. Lá em casa os ritos fúnebres já estavam em progresso. A observação de Jesus de que a menina estava apenas dormindo e não estava morta, só produziu zombaria geral.
Todavia, Jesus fez com que todos saíssem; tomou consigo o pai e a mãe da criança junto com seus acompanhantes, entrou onde a criança estava. Pegou-a pela mão e pediu-lhe para se levantar. Imediatamente a menina, de doze anos, levantou-se e começou a andar. Jesus proibiu que divulgassem o acontecido e que dessem de comer para a menina.

Há alguns elementos notáveis neste episódio. Protagonistas neste relato são: uma mulher que sofria de hemorragia durante doze anos; a outra é uma menina de doze anos, prestes, normalmente, para se tornar mulher, mas agora é apenas um cadáver. A primeira, na sua condição de hemorroíssa, toca em Jesus, se salva, porém tecnicamente torna Jesus “impuro”. A segunda é tocada por Jesus e este contato físico restaura para ela a possiblidade de se tornar mulher.

É conveniente recordar que naquele tempo a mulher era vítima da desigualdade social que reinava. Ela era mais uma entre as posses do varão. As duas da nossa história, isto é, a hemorroíssa e o cadáver, foram libertados das suas condições de exclusão pelo encontro libertador com Jesus de Nazaré. Neste processo libertador, o Nazareno, contrariou as leis da pureza em vigor. Não é este fato que o autor quer nos comunicar com a frase: “Jesus ordenou expressamente que ninguém soubesse disso?” Mais uma vez, Jesus se posiciona no lado dos necessitados, contrariando as determinações dos poderosos tradicionais.

3. Na sequencia dos textos no Evangelho de Marcos está a rejeição que Jesus sofre em Nazaré, sua terra natal (cf. Mc 6,1-6a; Mt 13,53-58; Lc 4,16-30). Ao voltar para Nazaré, depois de se tornar famoso, ele é recebido com grande incredulidade. Boa parte da população, que pretendia conhecer suas origens humildes, partilhava do preconceito de Natanael que fez a pergunta: “De Nazaré pode vir algo de bom”? (Jo 1,46). Será que o que Jesus enfrentou em Nazaré não é muito parecido com o que Ex-Presidente Lula sofre hoje? Afinal, Lula como Presidente, fez acontecer no Brasil um milagre socioeconômico (mundialmente reconhecido) para o enorme desgosto da elite tradicional brasileira preconceituosa.

O texto de Marcos é sucinto, enquanto no Evangelho de Lucas tem detalhes que evidenciam o perigo de vida que Jesus corria na sua terra natal! O último versículo: “Jesus, porém, passando pelo meio deles, seguiu seu caminho” (Lc 4,30) pede a ser entendido como o resultado do agir dos amigos e simpatizantes da causa do Nazareno para protegê-lo dos esquemas nefastos das elites; tomando nota de que ainda em nossos dias se manipulam e falsificam processos judiciais além de abusar do poder de maneira que evidencia grande carência de idoneidade, para eliminar aqueles que opõem aos seus esquemas criminosos no poder.

4. Nesta situação é que Marcos nos reporta a missão do doze (cf. Mc 6,6b-13; Mt 10,5-15; Lc 9,1-6). É uma medida que amplia o escopo do trabalho de Jesus. O Nazareno deu aos seus missionários autoridade bastante para realizar sua missão. Podemos resumir as instruções quanto à modalidade, recursos etc. assim: providenciar o necessário e confiar na providência divina. Os missionários partiram e pregavam para que todos mudassem de vida. Expulsavam muito demônios e curavam doentes ungindo os com óleo.

5. Agora vem um texto de 16 versículos, um texto cumprido pelos padrões do autor do Evangelho de Marcos; este texto conta a história da execução de João Batista (cf. Mc 6,14-29; Mt 14,1-12; Lc 9,7-9). É um texto extraordinário pelo seu poder evocativo e o profetismo. O rei Herodes, apenas um vassalo do império romano, foi informado das atividades de Jesus de Nazaré. Havia diversas opiniões sobre este rabino itinerante da Galileia. Uns o identificavam com Elias, outros com um dos antigos profetas, agora ressuscitado. Um terceiro grupo o identificou com João Batista, degolado por Herodes, o mercenário dos imperialistas. O próprio Herodes aceitou essa terceira opinião.

Herodes estava sempre atento a toda expressão de insatisfação popular contra o sistema; no primeiro sinal de alguma expressão, ele agia energicamente para coibir a possibilidade de revolta. Por sua parte, João Batista tinha levantado muitas expectativas com suas criticas ao sistema podre mantido pelo rei Herodes e a cúpula religiosa centrada no templo de Jerusalém. O questionamento que João fez de Herodes por tomar sua cunhada Herodíades para si, causou a prisão de João Batista.

Herodes ofereceu um banquete aos notáveis da Galileia na ocasião do seu aniversário. Durante o evento, Salomé, a filha de Herodíades apresentou um espetáculo de dança que conquistou a admiração dos presentes. O rei, emocionado, prometeu presentear a moça com qualquer coisa que ela pediria. Salomé consultou sua mãe e pediu a cabeça de João Batista num prato. Logo, a mando do rei, carrascos decapitaram o profeta e trouxeram sua cabeça num prato que a dançarina aceitou e levou para sua mãe que tinha motivos fortes para fazer João perecer!

6. Que a carne do povo é devorada nos banquetes dos poderosos é algo que encontramos já nos profetas antigos que condenavam as praticas desumanas dos reis que governavam o povo de Deus (cf. Mq 3,3). Na ordem em que o autor do Evangelho de Marcos posicionou este texto no seu texto, ele serve como uma premonição do destino do Jesus, o profeta de Nazaré.

Entretanto, em meio à crueldade grosseira, horripilante dos detalhes deste episódio, será que não surge uma alerta para nós? Nós vivemos um momento de vitória de obscurantismo que promove a nova escravização do povo brasileiro. Este obscurantismo (o neoliberalismo globalizado) utiliza as reformas promovidas pelos que substituíram o governo legítimo em 2016 e agora por aqueles que ganharam um pleito conduzido no estilo fraude-jato que continuarão a tirar a carne dos pobres a devorar em suas festas suntuosas (lucros vultosos para os mais ricos a custa de maior miséria pra os mais pobres). É possível por alguém que segue Jesus escapar o fim trágico do próprio Jesus, se corajosamente resistir às injustiças sociais hodiernas?

segunda-feira, 5 de novembro de 2018 0 comentários

O império rejeita o Reino de Deus


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (24)
O império rejeita o Reino de Deus

1. No Evangelho de Marcos há um episódio de Jesus acalmar a tempestade no mar (cf. Mc 4,35-41; e seus paralelos Mt 8,23-27; Lc 8,22-24) logo depois da parábola do semeador e as explicações dessa. Era costume apresentar este ‘evento’ como prova da divindade de Jesus de Nazaré. Entretanto abordagens literárias hodiernas da linguagem da Bíblia nos proporciona um entendimento mais profundo do simbolismo do mar. O mar era considerado o lugar de forças desconhecidas ou até mesmo maléficas; o império romano fazia questão dominava o Mar Mediterrâneo e os países limítrofes. Na história recente o império britânico dominava os oceanos (se dizia: “Britania rules the waves”=Bretanha reina sobre os oceanos). E hoje Donald Trump discursa sobre o “Space Force” que os EUA criarão para dominar o espaço.

Com esta introdução passamos a examinar o episódio de o Nazareno acalmar a tempestade, acima referida, e o episódio que fala de Jesus no território do gerasenos (cf. Mc 5,1-20; e seus paralelos: Mt 8,23-34; Lc 8,26-39).

2. Jesus, depois de contar a parábola do semeador e mostrar nas explicações a diferença da compreensão desta, por aqueles que são comprometidos como o Reino de Deus e por aqueles que optaram para ficar fora dele, pede aos discípulos para irem à outra margem do lago. Eles assim fizeram. No entanto, surgiu uma forte tempestade durante a travessia. O barco estava a ponto de fundar. Jesus se encontrava adormecido; os discípulos, em pânico, apelaram a ele para salvar suas vidas. O rabino deu ouvido ao seu pedido de socorro, acalmou o vento; as ondas obedeceram a ele. Em seguida o Nazareno comentou sobre o medo dos seus discípulos por falta de fé. Essa crítica gerou nos discípulos grande perplexidade sobre sua personagem, pois perguntava entre si: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem”? Percebe-se que os discípulos ainda estavam dominados por forças a que Jesus vem submeter.

3. No próximo episódio, Jesus e seus discípulos já chegaram a outro lado do mar, à região do gerasenos. Veio ao seu encontro um homem possuído de um espírito mau. Ele era um elemento incontrolável. Tinham tentado prendê-lo em correntes e algemas, mas ele rebentava-as facilmente. Ele vivia no meio aos túmulos e as montanhas dia e noite gritando e machucando-se com pedras.
Aqui é importante tomar conhecimento de uma “vaca sagrada”; as badernas e vexames que marcam o sistema imperial capitalista. Seu deus “o mercado” é facilmente manipulado pelos elementos de “Federal Reserve” ou “Bank of England” ou similares, que praticam “insider trading” e outras praticas insidiosas, numa suposto jogo de “forças de mercado” gerando inúmeras vítimas no mundo inteiro. Ainda em nossos dias uma boa parte da população mundial passa sua vida, igual este possuído de Gerasa, em situações de carência mortífera como resultado dessas políticas imperialistas baseadas no capitalismo desumano.

Logo que viu Jesus o possuído correu até ele, ajoelhou-se diante do Nazareno. Ele não parava de gritar que reconhecia sua identidade de ser “Filho de Deus”, insistindo que não o atormentasse. Revelou seu nome como “legião” (o nome da unidade militar do império romano) e pediu que não os expulsasse para longe.
O novo habitat dos espíritos maus expulsos é a manada de porcos que pastava por perto. Sem demora os porcos lançaram-se em direção ao mar precipício abaixo e afogaram-se no mar. Os cuidadores dos porcos fugiram para dar a notícia na cidade e nos campos. Os habitantes da região foram ver o acontecido. Viram Jesus; o que era endemoninhado estava vestido e no seu perfeito juízo.
Entretanto, ao serem informados sobre os detalhes do que tinha acontecido com o possuído e os porcos, eles começaram a pedir Jesus que ele deixasse seu território. Quando Jesus embarcava para ir embora dali, o homem que tinha sido libertado da possessão pediu Jesus que o deixasse ficar com ele. Mas Jesus não o deixou; orientou-o voltar para sua casa e anunciar sua libertação aos seus. E ele anunciava a Boa Nova na região de Decápole. E todos ficavam maravilhados.

4. No Evangelho de Mateus se fala de dois possuídos que vão ao encontro de Jesus na terra dos gadarenos (cf. Mt 8,28-34). Nessa terra estrangeira O Nazareno encontra com pessoas que são vítimas do imperialismo, pois carregam, de maneira profunda, muitos efeitos e formas da dominação imperialista. É notável que a intervenção libertadora do rabino Jesus envie os poderes do mal para o fundo do mar. O episódio nos faz lembrar-se do destino do exército egípcio que perseguia os israelitas liderados por Moisés. No entanto, há tantos que se acostumaram tanto com a dominação, que não suportam que alguém como Jesus permaneça entre eles! Será que o processo distorcido jurídico-midiático-político, em percurso no Brasil, que procura eliminar, de maneira nazifascista, um programa partidário que visa gerar igualitarismo, não é uma versão atual da alienação que vitimas da dominação prolongada assim como os gadarenos/gerasenos tinham sofrido no tempo de Jesus de Nazaré?

      Nos textos de Marcos e Lucas também lemos que o homem de quem tinham saído os demônios pediu para ficar com Jesus, mas a instrução que ele recebe é: ficar no meio do seu povo divulgando tudo o que Deus fez por ele. Será que não está na hora para os materialmente beneficiados dos governos anteriores ao golpe parlamentar contarem como o Brasil é capaz de resolver seus problemas sem se entregar ao domínio do imperialismo capitalista e manter a mobilidade social libertadora?  

sábado, 13 de outubro de 2018 0 comentários

Ser solidário com os pobres não é ser comunista!


Canonização do Oscar Romero, mártir pelo Reino de Deus. (3)
III. Ser solidário com os pobres não é ser comunista

19. Mártir Oscar Romero foi nomeado arcebispo de San Salvador na época de substituição das figuras proféticas como Evaristo Arns, Aloisio Lorscheider, Helder Câmara e outros, por possuir dons diferentes daqueles que os detentores de poder no Vaticano aprovavam. Ao assumir o Arcebispado, ele percebeu que tinha de agir para que a verdade não fosse mais uma vítima do conflito fratricida que seu país vivia.

20. Romero assumiu ser a voz dos sem voz por meio das suas homilias (suas homilias transmitidas por rádio foram ouvidas por 75% da população) e reportagens no jornal diocesano. Seu jornalismo reconheceu o seu ponto de vista e não enganou o público com reportagens tendenciosas atrás de uma fachada de “objetividade”.

21. O arcebispo editorializou frequentemente sobre: 1) o direito de o povo se organizar para lutar pelos seus direitos (o regime e os militares viam em qualquer organização dos operários ou camponeses a guerrilha bolchevista); 2) a necessidade da reforma agrária (nos anos 1970, 2% da população ainda era dona de 60% das terras em El Salvador); 3) o fim da violência (levantamento feito depois do cessar fogo mediado por ONU em 1992 constatou que 85% das atrocidades foram cometidos pelos militares e os seus esquadrões da morte).

22. O profeta Romero promoveu a causa dos pobres sabendo que as consequências não serão diferentes do que sofriam os próprios pobres. Recusou a proteção especial que o governo lhe ofereceu. Sem se curvar diante do poder opressor, noticiou os acontecimentos da perspectiva dos pobres.

23. Suas denúncias incluíam a absolutização da riqueza como mal radical; a riqueza e prosperidade privada como absoluto intocável; o servilismo dos militares à oligarquia do dinheiro e a sua impunidade; a corrupção da Justiça a serviço dos poderosos contra os pobres; e a intervenção imperialista dos EUA.

24. Seu trabalho desmascarou a mentira dos meios da comunicação social a serviço dos poderosos. Ele não deixou de criticar a atitude imobilista e intransigente de muitos cristãos. A direita condenou-lhe como “comunista”, o que alguns de seus colegas no episcopado salvadorenho também fizeram. Jimmy Carter (o Presidente dos EUA) solicitou a assistência do Vaticano para calar esta voz profética.

25. Na sua vida e morte, Oscar Romero evidenciou que são os pobres e oprimidos que sinalizam o caminho da igreja no mundo de hoje. Foi a sua escolha. É o seu grande ensinamento, pois ele mesmo submeteu-se a injustiça, exploração e repressão que seu povo passava. As instalações do jornal diocesano foram incendiadas, e a emissora da rádio foi bombardeada.

26. Que ele foi assassinado sobre o altar é significativo: a igreja que nascia do Vat II foi atingida por incomodar o sistema iníquo reinante.

27. Para Romero, a igreja não pode ser reduzida ao âmbito cultual nem pode ser uma organização em que tudo vem de cima para baixo, como nos tempos da “cristandade”. A força da igreja reside na palavra de Deus transparente, sempre viva e eficaz no meio do povo. Ele falou de Deus, julgou a história de seu tempo à luz da Palavra, como fizeram os profetas outrora.

29. A parábola do bom samaritano (Lc 10,3-37) era seu modelo de ação. Ser solidário com os pobres não é ser “comunista” no sentido de ser revolucionário bolchevista. Sua doutrina baseia-se em Am 2,6; 3,10; 4,1; e Is 5,8. “Estes textos lidos na liturgia não são sobre um passado distante, mas referem-se às realidades hodiernas, cuja crueldade nos confunde e nos choca diariamente”, disse Romero ao aceitar o título de “Doutor Honoris Causa” na Universidade de Luvaina (Bélgica) no dia 2 de fevereiro de 1980.

30. Com variações muito sofisticadas, o imperialismo está empenhado em restabelecer sua dominação do povo brasileiro após de mais de uma década de uma experiência democrática participativa. É neste contexto que a relevância do martírio do Oscar para nós se torna clara. A canonização do Dom Oscar Arnulfo Romero y Goldámez fortalece os muitos seguidores de Jesus no Brasil que estão dando suas próprias vidas a fim de que os brasileiros mais fracos e necessitados tenham uma vida melhor!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018 0 comentários

Canonização do Oscar Romero, mártir pelo Reino de Deus (2)

Canonização do Oscar Romero, mártir pelo Reino de Deus. (2)
II. Dados biográficos do dom Oscar Romero

11. Apresentamos uma breve descrição biográfica do Oscar Romero depois de falarmos da situação social, econômica e política do El Salvador para melhor apreciar o desafio pastoral que ele enfrentou ao assumir como Arcebispo de San Salvador em 1977.

12. Oscar Romero nasceu na Ciudad Barrios, San Miguel aos 15 de agosto de 1917, e entrou no seminário em 1931. Teve de interromper os estudos para ajudar sua família, mas em pouco tempo retomou os estudos e foi enviado para Roma, onde em 1942 terminou os estudos e recebeu a ordenação presbiteral. Na volta para El Salvador, passou os próximos 24 anos desenvolvendo um trabalho pastoral em Anamorós e San Miguel, e em 1966 foi eleito secretário da Conferência Episcopal Salvadorenha.

13. Dom Romero foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador em 1970, onde permaneceu durante quatro anos. Ele não conseguiu se identificar com a atualização da linha pastoral de acordo com as propostas do Vat 2 e a Conferência de Medellín, que o arcebispo Luis Chávez y González efetuava, o que deixou transparecer sua tendência conservadora. A sua transferência como bispo da Diocese de Santiago de Maria aconteceu em 1974.

14. O governo salvadorenho e os esquadrões da morte da direita reprimiam todas as organizações dos camponeses na sua luta contra guerrilheiros bolchevistas. Em 1975, quando a “Guardia Nacional” assassinou cinco camponeses, dom Romero celebrou a missa do corpo presente; evitou denunciar o crime publicamente, mas escreveu uma carta dura ao presidente do país.

15. Para a surpresa da ala progressista da igreja de San Salvador, Romero foi nomeado Arcebispo de El Salvador em 1977. Entretanto, sua “conversão” não demorou muito. No dia 12 do março, o padre Rutílio Grande, um jesuíta comprometido com o povo no espírito evangélico, foi assassinado, e o arcebispo se posicionou publicamente no lado dos indefesos que estavam sendo massacrados.
16. Durante os próximos dois anos, ele se destacou pelo seu favorecimento da defesa da vida em uma situação muito complicada, na qual paixões ideológicas sacrificavam vidas humanas em um fratricídio sem sentido, como se essas não valessem nada. Em outubro de 1979 houve um golpe militar, e uma junta que incluía também civis tomou o poder. Os EUA, que promoveram o golpe, forneceram armas e treinamento aos salvadorenhos para assegurar que não se repetiria uma Nicarágua, onde os revolucionários tinham tomado o poder, em El Salvador.

17. Na carnificina que se seguiu, muitos, inclusive presbíteros e inúmeros agentes de pastoral, foram mortos. A guerrilha respondeu com execuções sumárias e destruição das estruturas do país. O arcebispo Romero pediu aos EUA a não mais fornecer armas para este conflito fratricida, e apelou às forças armadas salvadorenhas para não matarem seus próprios irmãos. Logo, no dia 24 de março, dom Oscar Romero foi baleado quando presidia a celebração eucarística, e faleceu logo.

18. No seu funeral, uma multidão estimada em 250.000 pessoas se reuniu. Houve protestos, e naquela ocasião mais 42 pessoas morreram. Dias depois, o mandante do crime, o major do Exército e fundador de um esquadrão da morte da direita, Roberto D’Aubuisson, foi preso com matérias incriminantes em sua posse, mas logo foi solto sem que ninguém fosse denunciado ou julgado pelo crime de assassinato do dom Romero até hoje. A guerra civil que se deslanchou em seguida durou 12 anos, a custo de mais 75 mil vidas salvadorenhas!
quinta-feira, 11 de outubro de 2018 0 comentários

Mártir Oscar Romero

Canonização do Oscar Romero, mártir pelo Reino de Deus. (1)
I. O cenário do martírio.
1. Oscar Arnulfo Romero y Goldámez (1917-1980) foi o Arcebispo de San Salvador, capital de El Salvador de 1977 até 24 de março de 1980 quando foi morto por um franco-atirador do exército de El Salvador, enquanto celebrava a Eucaristia. 38 anos depois da sua morte, é programada sua canonização por Papa Francisco, numa cerimônia na Praça de São Pedro, Vaticano, no dia 14 próximo durante a qual Papa Paulo VI e vários outros serão elevados a honra do altar.  Já no dia 23 de maio de 2015 ele foi beatificado, considerado um mártir pela fé.

2. O cenário do martírio de dom Oscar Arnulfo Romero y Goldámez era o mundo pós-colonial no qual o imperialismo de direita (EUA) guerreava contra o imperialismo de esquerda (antiga União Soviética). A América Latina, considerada área exclusiva da influência estadunidense (Monroe, 1823), ficou presa nessa peleja.

3. Organizações inspiradas na revolução bolchevista começaram a atuar em diversos países contra a versão latino-americana do feudalismo que ocultamente mantinha o colonialismo. Para neutralizar os movimentos revolucionários, os EUA estabeleceram a “Escola das Américas” no Panamá (1946) e treinaram suas forças mercenárias latino-americanas que assegurariam seu domínio na região.

4. A União Soviética conseguiu se estabelecer em Cuba e na Nicarágua, quebrando o monopólio estadunidense do continente. Em resposta, os EUA promoveram golpes militares, começando no Brasil (1964). Os governos fantoches assim instituídos suspenderam os direitos humanos, baseando-se em uma doutrina perversa de “segurança nacional” para manter a ordem tradicional com inaceitável crueldade. Os guerrilheiros responderam com desumanidade comparável.

5. Foi nessas águas turvas que um passo decisivo da inculturação da fé cristã foi dado na América Latina. A realidade socioeconômica favoreceu a recepção ao Concílio Vaticano 2º, em uma releitura, bem popular, do livro de Êxodo a partir da condição do povo na escravidão disfarçada no continente. Houve uma errada identificação do ânimo assim gerado com a revolução promovida pelos soviéticos. Agentes de pastoral foram caçados e eliminados como se fossem guerrilheiros.

6. Mártir Romero, o arcebispo de San Salvador, está entre os inúmeros outros do fratricídio impiedoso salvadorenho dessa época. Os anos que passaram desde seu assassínio até sua canonização tem incentivado uma reflexão sobre a vocação profética cristã que vem enriquecendo o processo de “conversão pastoral” da Igreja inserida no mundo “globalizado”.

7. El Salvador, um pequeno país de alguns poucos milhões de habitantes, de tamanho menor que o nosso Estado de Sergipe, fica entre a Guatemala, Honduras e o Oceano Pacífico na América Central. No início do século passado era produtor de café, mas a crise financeira dos anos 1930 começou a acirrar tensões entre o latifúndio (2% que ficava com toda a terra e 95% da riqueza do país) e a população camponesa com o 5% restante. O que passava por governo servia aos interesses das elites, geralmente. A animosidade culminou na “La Matanza” (1932), na qual pelo menos 50 mil trabalhadores do campo foram mortos, pois eles se organizaram e reivindicaram seus direitos à terra e à vida digna.

8. A guerra entre El Salvador e Honduras (1969) produziu um novo agravante social: a volta de 300 mil salvadorenhos de Honduras, agora como refugiados. Os esquadrões da morte intensificaram suas atividades nefastas. A crise de petróleo de 1973 foi, como se fosse, a faísca que encetou a conflagração.

9. Para conseguir paz no campo, houve tentativa hesitante de reforma agrária, que os latifundiários conseguiram fracassar. As eleições fraudadas de 1977 deram origem a protestos populares que o governo reprimiu com mão de ferro. Simultaneamente, os esquadrões da morte da direita eliminaram sindicalistas e todos os outros simpatizantes dos camponeses.

10. Eis o cenário tumultuado em que mártir Oscar Romero testemunhou sua fé seguindo os passos de Jesus de Nazaré.
quarta-feira, 10 de outubro de 2018 0 comentários

Parábolas do Reino – a semente e o semeador


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (22)

Parábolas do Reino – a semente e o semeador

Como nós já vimos, numa primeiro momento, o autor do Evangelho de Marcos nos apresentou Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, que João Batista anunciava na sua pregação no deserto e batizou no rio Jordão.  Este Jesus começou sua pregação depois que João foi preso. Ele anunciava a chegada do Reino de Deus. O autor nos contou de uma série de atividades do Nazareno para demonstrar a natureza libertadora do Reino, a nova criação. A reação dos poderosos, os “cidadãos de bem”, era decidir mata-lo ao perceber que ele era um perigo para o sistema tradicional que eles mantinham. Entretanto o Nazareno era imensamente popular entre os galileus, o que impedia a eliminação rápida e fácil deste rabino. Logo começaram uma campanha midiática difamadora contra Jesus acusando o de “corrupção”, isto é, ser possuído por Belzebu para poder realizar exorcismos. Era o início de um projeto de alcance longo que eliminaria o elemento que incomodava as elites. Até mesmo a própria família de Jesus chegou a acreditar que ele “ficou louco”; foi o momento em que Jesus anuncia os critérios de pertencer a nova família do Reino de Deus: fazer a vontade de Deus e não mais a consanguinidade.

Nessa conjuntura Marcos começa nos apresentar as parábolas de Jesus. O dicionário define a parábola assim: “narrativa alegórica que evoca, por comparação, valores de ordem superior, encerra lições de vida e pode conter preceitos morais ou religiosos”. No capítulo 4 de Marcos temos uma série de parábolas reunidas, a chave hermenêutica para entender o sentido da prática de Jesus. As parábolas são dirigidas à multidão e aos discípulos. O que chama a nossa atenção é que elas mostram como o anúncio do Evangelho da vida resgatada cria novos conflitos, ou revela os que já existem na sociedade, na vida cotidiana.

O primeiro texto de parábola que temos encontra-se no Mc 4,1-9. Os outros evangelhos sinóticos têm seu paralelo (cf. Mt 13,1-9; Lc 8,4-8). O cenário é a beira-mar. Por causa da numerosa multidão que se reuniu para ouvi-lo, Jesus sentou-se numa barca sobre o mar, ensinava muitas coisas à multidão que estava em terra. Ele ensinava em parábolas; a parábola que o autor nos conta é: um semeador saiu para semear. Aconteceu que parte da semente caiu à beira do caminho; estas, os pássaros as comeram. Outra parte caiu em terreno pedregoso; estas brotaram logo, porém não sobreviveram por falta de condições favoráveis. Outra parte caiu entre os espinheiros, foram sufocadas e não deram frutos. Por fim, a parte que caiu na terra boa produziram frutos; algumas trinta, sessenta e até cem por semente. No final do trecho temos uma admoestação: “Quem tem ouvidos ouça”.

Os textos de Mateus (13,1-9) e Lucas (8,4-8) concordam com o de Marcos em todos os detalhes. A nota de rodapé na Nova Bíblia Pastoral diz o seguinte: “A parábola faz pensar na luta de um camponês sem-terra paciente e confiante, que não desiste mesmo diante dos mais difíceis obstáculos, e confia em poder produzir o que é necessário para sobreviver com sua gente”. Nenhum dos três textos não fala nada sobre a preparação da terra que o semeador faz antes de semear. Todos estes textos repetem o sobreaviso: “Quem tem ouvidos ouça”.

De um lado, o Reino de Deus é uma realidade histórica que segue o ritmo da nossa vida cotidiana, sujeito a destino comum de todos os empreendimentos humanos! De outro lado a advertência: “Quem tem ouvidos, ouça” acentua a importância da decisão humana na realização deste projeto em nosso meio. Será que no fundo dos nossos debates eleitorais não está em jogo a aceitação do projeto de Reino de Deus ou a sua rejeição?

segunda-feira, 1 de outubro de 2018 0 comentários

Jesus, o Nazareno é o caluniado.

Jesus, o Nazareno é o caluniado.

Na atualidade os meios de comunicação no poder das elites, estão todos empenhados em difamar, através de uma campanha bem orquestrada para denegrir a ideologia petista e promover a ideologia neoliberal imperialista. Há milhares de “piedosos” e “puros”, vitimas desta campanha fascinante, porém caluniadora, angustiados e medrosos do perigo do “comunismo que pode tomar conta do Brasil”. Há alguns dias, eu estava num grupo de jovens acostumados com das práticas típicas da onda de “neo-devocionismo” que perpassa a Igreja Católica. Fizemos uma reflexão sobre a realidade política atual brasileira. Houve uma manifestação de medo do “comunismo” entre os mais jovens. Porém, um deles de 30 anos, tomou a palavra disse o seguinte: “No tempo de FHC vivemos sob muita pressão na questão de dinheiro; e depois a cosa melhorou; meu pai conseguiu reformar a nossa casa, e até comprar um carro para nós”. Se este “fantasma comunismo” que os coitados piedosos temem tanto, refere aos governos petistas, um período de prosperidade material e mobilidade social, inusitadas, evidencia-se no povo incapacidade extraordinária de avaliar o momento que se vive como também distinguir entre propaganda maliciosa e fatos evidentes; apontando para o sucesso desta propaganda dissimulada.

Os trechos dos evangelhos que vamos examinar hoje (Mc 3,22-30; Mt 12,22-32; Lc 11,14-23; 12,10) nos demostram que o que a gente vive agora, tinha sua versão própria no tempo de Jesus. Aqui é necessário recordar que a intenção teológica do Autor de Marcos é retratar o Filho de Deus que foi rejeitado e combatido a cada passo pelos detentores de poder, até que conseguissem condená-lo, e assassiná-lo na cruz, claro “na forma da lei”. Nós já vimos no primeiro bloco de narrativas da práxis de Jesus de Nazaré (cf. Mc 1,40-3,6) os governantes, observando as práticas de Jesus, perceberam o perigo que ele apresentava para o sistema que lhes assegurava privilégios e decidiram matá-lo. Eles já estavam a procura de uma maneira de conseguir prendê-lo de maneira “legal”. A imensa popularidade do Nazareno era um fator que atrapalhava seus planos. Com essas observações vamos passar para o episódio encontrado nos evangelhos sinóticos.

Enquanto o texto de Marcos (3,22-30) fala de doutores da Lei, vindo de Jerusalém começaram caluniar o Nazareno, acusando o de ser possuído de Beelzebu, o texto de Mateus (12,22-31) coloca a cura de um endemoninhado cego e mudo e o espanto que o acontecido causou nas multidões como o contexto de acusação. Por sua parte o texto de Lucas (11,14-23) concorda com o de Mateus. Essa campanha dos representantes dos poderosos levou Jesus questionar a prática bem comum de exorcismos naquele tempo. Jesus também mostrou a incoerência dos doutores, que o acusavam de expulsar demônios por estar em conluio com o chefe deles. Já que é a experiência comum: a divisão sempre enfraquece a família ou a organização onde ela existe; então dizer que Jesus expulsa satanás com a ajuda do próprio satanás é incongruente.

Aqui é importante notar que Jesus defende sua práxis, de maneira especial, o exorcismo, como o sinal da chegada do Reino de Deus que ele anunciava desde a prisão de João Batista (cf. Mc 1,15). Tendo mostrado que a acusação dos escribas não tinha sentido, Jesus revela o propósito mais profundo de sua ação: enfrentar até o fim o poder maléfico, destruidor da vida e da liberdade. Quem se coloca na contramão desse projeto, aquele que se opõe a que os seres humanos possam viver de maneira digna e livre, coloca-se fora e distante da graça de Deus e do perdão que ele concede.

Temos aqui uma afirmação sobre a blasfêmia contra o Espírito que jamais terá perdão (Mc 3,29). É uma elaboração teológica posterior da comunidade dos seguidores do rabino Jesus sobre a radical novidade que ele representa. Com efeito, Gn 1,1 fala da presença do vento/sopro/Espírito (RUAH) no início de tudo, a criação. A compreensão cristã da pessoa de Jesus é de ele ser o início da “nova criação”. As curas e os exorcismos que os evangelistas nos apresentam, são marcas do início dessa nova criação. Ao acusar Jesus de estar possuído por demônio para poder expulsar demônios é negar o plano de Deus que se revela em Jesus e colocar-se fora deste desígnio de Deus para sempre. É um processo, quer dizer a instauração da nova criação, que se realiza na história humana através da ação política, entre outras, ao longo dos séculos.  Não há dúvida de que a campanha caluniosa midiática desta semana contra a política petista, com sua complementação favorável da parte do judiciário, pode ser compreendida deste ponto de vista! A indignação, que porventura, sentida contra a injustiça que fizeram com Jesus de Nazaré, é mais bem transformada em ação concreta contra a injustiça praticada pelas elites contra seus adversários em nossos dias. 
 
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