quarta-feira, 26 de abril de 2017 0 comentários

O bezerro de ouro de hoje!




O bezerro de ouro de hoje!

No dia 28 de abril, é programado um protesto popular contra as políticas retrogradas sendo impostas pelo que tomou o lugar do governo brasileiro. Nas últimas décadas era a moda discursar sobre o secularismo, que efetivamente baniu o Deus Cristão do foro público. No seu lugar hoje se adora o deus Mercado, em vias de se tornar o Todo-Poderoso. É sobre esta divindade que eu quero refletir.

Harvy Cox, professor emérito da Harvard Divinity School (EUA) é um dos renomados teólogos da tradição protestante da nossa época (autor do livro: The Secular City - 1965), no seu livro mais recente “The Market as God” (Harvard University Press, 2016) oferece uma contribuição valiosa para entender os atributos deste deus Mercado em guerra com o Deus das religiões tradicionais.

Professor Cox não esconde sua admiração por Papa Francisco e sua crítica pungente do consumismo desenfreado de hoje e a economia de exclusão e de desigualdade. A Encíclica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho 2013) que censura “teorias gotejantes” e o trabalho sacralizado do sistema econômico vigente com seu mercado deificado influenciou Cox.

A autora da recensão do livro “The Market as God”, Melissa Jones* vê nele uma teoria que explica algo que deixou políticos, jornalistas e pensadores cismados desde que Donald Trump ganhou as eleições presidenciais nos EUA: a desconexão entre as palavras do Presidente e a realidade. Cox recorre ao pouco conhecido filósofo e semanticista de século 19: Alexander Bryan Johnson, um banqueiro que reconheceu que as cédulas que passava diariamente pelas suas mãos não possuíam valor intrínseco. Seu valor dependia da vontade humana que as atribuía valor real. Deste, o filósofo concluiu: as palavras, por si só, não são meios confiáveis para compreender a nossa realidade. Cox continua e diz que “as palavras carecem significados substanciais, podem ser usadas para enfeitiçar, persuadir, ou até mesmo para bajular sem sentir-se culpado”. Explica-se o funcionamento de mundo político com Mercado divinizado!

O Mercado e sua política servil adestraram a humanidade a chegar a sua condição atual através dos elementos religiosos próprios: narrativas, mitos, lendas, parábolas, liturgias e testemunhos. O Mercado conhece as nossas necessidades e desejos através dos grupos de interesse, e “big data”. Paulatinamente nós fomos programados para avaliar e adquirir produtos industrializados não pela sua utilidade nem a necessidade nossa, mas pelo que estes nos fazem sentir. Mensagens instantâneas e imagens que passam pelas nossas telas geram em nós a fé irrefletida que aquele produto vai nos salvar dos males do nosso tempo: rugas, gordura ou até mesmo desprestigio! Os “evangelistas” de deus Mercado trabalham com o mesmo zelo para nos levar “à hora da decisão” como fazia Billy Graham.

O autor vai mais um passo adiante ao procurar paralelos entre a religião e a economia. Ele analisa o “Pentecostes” de cada. Para os cristãos a igreja nasceu no dia de Pentecostes, houve derramamento do Espírito Santo, apareceram línguas de fogo, e os que estavam reunidos foram munidos com a capacidade de falar em línguas; posteriormente foram ouvidos e entendidos pelas multidões. Seu paralelo na economia realizou-se com a invenção de “pixel” aquele raio minúsculo da luz da comunicação digital! A afirmação de Cox de que a multiplicidade das imagens e mensagens que passam cada hora em nossas telas comunica mais com nossas emoções do que a nossa capacidade de analisar ou refletir é inegável!

Cox apresenta Roger Ailes, antigo CEO de Fox News como o típico evangelista de pixel, que conseguiu motivar os conservadores estadunidenses, pois a onda de emoção-acima-de-reflexão estorvou a lógica. Há mais..., porém fica para depois.


sábado, 15 de abril de 2017 0 comentários

A fé na ressurreição de Jesus

A fé na ressurreição de Jesus

No dia 16 de abril celebramos a Solenidade da Páscoa. É uma das solenidades que se celebra liturgicamente durante oito dias. Portanto esta semana (16-22) é a semana da ressurreição. Queremos oferecer algumas reflexões sobre a fé na ressurreição que se celebra na liturgia.

Pelo que sabemos, a fé na ressurreição de Jesus surgiu, em primeiro lugar, num ambiente litúrgico (cf. Lc 24, 13-35). De acordo com este texto, dois dos discípulos de Jesus, desalentados pelo fim trágico do Nazareno, estão indo para Emaús. O próprio Jesus encontra-os no caminho e os leva por um caminho que no final os leva a reconhece-lo como o Ressuscitado. Aquele estranho que entrou nas suas vidas por acaso, é o mesmo que despertou tantas esperanças neles e inúmeros outros! O cunho litúrgico deste perícope é inegável (cf. Lc 24,30-32).

Na verdade, todos os quatro evangelhos que nos falam da ressurreição, começam suas narrativas dizendo que aqueles que foram ao túmulo de Jesus, no primeiro dia da semana, encontraram-no vazio (cf. Mc 16,1-8; Mt 28,1-8; Lc 24,1-10; Jo 20,1-10). Embora fossem informados pelos anjos, isto é, por iniciativa divina, que Jesus não continua entre os mortos, mas está vivo, foi um momento de perplexidade e questionamentos (cf. Mc 16,5-7; Mt 28,2-7; Lc 24,4-6). Maria Madalena, os discípulos de Emaús, o discípulo amado e todos os outros que chegaram a fé na ressurreição, trilharam este caminho doloroso de medos, dúvidas e questionamentos que no final desembocou na alegria da ressurreição - a vida nova!

Existe uma multiplicidade de linguagens na Bíblia que falam da ressurreição. Os verbos “despertar” e “levantar”, usados neste contexto, sugerem a noção de que Deus se adentrou no sheol, o lugar dos mortos, e despertou Jesus, o crucificado, para a vida. Há outras fórmulas que confessam que ‘Jesus morreu e ressuscitou’; nessas, não se fala da intervenção divina, mas a atenção se desloca para Jesus. Aparecem também hinos e cânticos que louvam a Deus por ter ‘exaltado’ Jesus após sua morte na cruz (cf. Fl 2,6-11; 1Tm 3,16; Ef 4,7-10). Todavia, em tudo isso expressa se a fé que o acontecido é a obra de amor do Deus, seu Pai. No mundo pagão, à luz da experiência de Paulo no Areópago de Atenas (cf. At 17,32) os missionários começaram a usar expressões como “O que vive” e “O Vivente” para comunicar a novidade da ressurreição de Jesus (cf. Ap 1,17-18).

Essas ‘linguagens’ nos comunicam a experiência vivida pelos discípulos de Jesus, simples galileus, de uma radical reviravolta em suas vidas. Voltaram a se reunir, superando o medo; começaram a anunciar que o Crucificado está vivo; instituíram comunidades solidárias dos seguidores de Jesus em todo império romano. É possível nos aproximar da experiência primeira e seu conteúdo que desencadeia seu entusiasmo e sua audácia?

 Numa primeira aproximação, é possível afirmar que a fé na ressurreição de Jesus não se apoia no vazio; está alicerçada numa “experiência de encontro pessoal” dos discípulos com o Ressuscitado. A partir daí viveram um processo que lhes abriu para uma experiência nova e inesperada da presença de Jesus entre eles. Experimentaram-se Jesus vivo, e foram transformados em testemunhas intrépidos ‘no dia de Pentecostes’. Os Atos dos Apóstolos contêm resumos que retratam as primeiras comunidades (cf. At 2,42-47; 4,32-35; 5,12-16). Os capítulos três e quatro nos apresentam um episódio que exemplifica como a fé na ressurreição de Jesus de Nazaré se torna a fonte da libertação para toda humanidade.

FELIZ PÁSCOA!

P
quarta-feira, 12 de abril de 2017 0 comentários

A traição nas narrativas da Paixão de Jesus

A traição nas narrativas da Paixão de Jesus

Na tradição católica a proclamação litúrgica da Paixão na sexta-feira santa é feita do Evangelho de João (Jo 18,1-19,42), mas, no domingo de Ramos é o texto de um dos sinóticos; este ano foi o texto de Mateus (26,14-27,66). É deste que procuro ressaltar um aspecto cíclico da história que aponta para a eficiência do império a exterminar seus adversários com colaboração dos traidores do programa a ser destruído.

Por isso, é conveniente começarmos a nossa análise já nos primeiros versículos do capitulo 26 de Mateus (vv.3-13) para compreender melhor os eventos na sua totalidade a fim de que a celebração de paixão não seja algo alienado, mas algo que ilumina a realidade histórica, o contexto da celebração.
A decisão de matar Jesus por “traição, por um ardil, por uma cilada”, foi tomada pelas elites palestinenses, os agentes locais do império romano (Mt 1,3-5). Em seguida o texto fala da unção em Betânia (Mt 1, 6-13). Há um alvoroço em torno do perfume caro que uma mulher usou para ungir Jesus. É um indício da divisão, brigas de poder e a ganância reinante no meio dos discípulos desunidos. Foi o momento em que Judas, um dos doze apóstolos, decidiu buscar sua fortuna em outro lugar, longe do grupo; ele fez um contrato com os poderosos para entregar seu mestre por traição, por um preço!

Judas cumpre sua parte efetivamente na ocasião da Páscoa e o rabino Jesus que tirava o sono da ‘casa grande’ foi capturado por traição. Logo ele foi levado direto ao Sumo Sacerdote Caifás, que já estava reunido com os escribas e os anciãos. Estando seus esforços para obter “falso testemunho contra Jesus, a fim de mata-lo” (delações premiadas) em vão, O Sumo Sacerdote fez uma intervenção especial que gerou o consenso entre os presentes, que Jesus “É réu de morte”, precisamente o aval que a cúpula precisava!

“Chegada a manhã, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um conselho, contra Jesus, a fim de leva-lo à morte” (Mt 27,1). Agora a decisão das elites feita anteriormente recebeu a aparência de “legal”. Muito parecido com as sessões da Câmara Municipal de Campo Grande que destituiu um prefeito eleito e as Sessões de Congresso Nacional que anulou a decisão democrática do povo brasileiro ao substituir a Presidente legítima da República!

O próximo passo para os adversários de Jesus é de obter sua condenação imperial; levaram-no ao governador romano. Pilatos, um dos mais eficientes e cruéis dos administradores romanos de Palestina já sabia de Jesus e que as elites agiam contra ele motivados por inveja. No entanto, ele implementou os rituais da justiça romana, porém não se provou crime algum. Até mesmo sua própria mulher intercedeu em prol do Galileu. Sua estratégia de usar o costumeiro indulto pascal para salvar a vida de Jesus só aumentou a fúria das elites e a histeria da massa de manobra a seu dispor. Para evitar o perigo de um massacre o governador perspicaz decidiu ceder à pressão e condenou Jesus a crucificação.

Jesus foi devidamente executado; ele morreu bem mais rápido que se esperava. Contudo, o Nazareno tinha amigos entre as elites que, embora não conseguissem prevenir a tragédia da condenação criminal, apareceram no cenário para assegurar que ele recebesse um funeral digno. Entrementes, seus adversários, fizeram com que seu sepulcro fosse selado e que tivesse guarda montada para impedir “o roubo de cadáver”.

Veremos, foi em vão, pois a traição não tem a última palavra!




quarta-feira, 5 de abril de 2017 0 comentários

A Semana Santa

A SEMANA SANTA

A Semana Santa começa no domingo de Ramos. Todos os quatro Evangelhos reportam a solene entrada real de Jesus em Jerusalém, o centro religioso-político da Palestina (cf. Mt 21,1-17; Mc 11,3-11; Lc 19,28-42; Jo 12, 12-16). O texto de Mateus tem duas citações do AT para enfatizar a qualidade especial desta ‘procissão’ com a participação popular entusiasta, além de contrastar a entrada de Jesus com a dos reis poderosos deste mundo. O autor apresenta o evento como cumprimento do que foi dito no AT. O texto de Marcos é muito semelhante ao do Mateus. Lucas e Mateus mencionam o pedido dos fariseus, indignados, a Jesus para acalmar os ânimos da multidão que torcia por ele. Porém, a resposta do Nazareno foi um “não”; diante disso, João menciona que os fariseus discutiram entre si sobre o pouco resultado da sua campanha contra o rabino de Nazaré; disseram: “Vede: nada conseguis. Todos vão atrás dele!” (Jo 12,19). Os Sinóticos têm um detalhe: a história do empréstimo do jumentinho para Jesus montar; no emprestar do animal se vê Jesus exercendo o antigo direito real de requisitar transporte e outros objetos necessários para governar; o mais importante, o Nazareno é rei pacífico, pois o cavalo é o animal da guerra e não o jumentinho!

A Missa de Santos Óleos na Quinta-feira Santa pela manhã é a celebração anual que reúne todos os presbíteros da diocese junto com o Bispo diocesano que preside. Durante esta liturgia os padres reunidos renovam suas promessas presbiterais; num segundo momento desta liturgia o bispo abençoa os óleos a serem usados nas paróquias e comunidades nas celebrações dos sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Unção dos Enfermos durante o ano todo. Essa é a expressão da comunhão diocesana. Este ano essa solenidade vai ser realizada na Matriz Cristo Luz dos Povos, no dia 13 de abril às 08:00 horas.

No final da tarde do mesmo dia, acontece a Missa de Lava-pés em todas as paróquias. É a lembrança da grande lição do exercício de autoridade que Jesus o Nazareno ensinou aos seus discípulos naquela ceia derradeira (Jo 13,1-16). Lc 22,24-27 reporta a discussão entre os presentes naquele momento, sobre qual deles seria o maior. Além disso, todos os evangelhos reportam a predição da traição de Judas e a negação de Pedro.

As palavras consideradas tradicionalmente como a instituição da eucaristia (Mt 26,26-29; Mc 14,17-21; Lc 22.1419-20 e 1Cor 11,23-25) apresentam um grande desafio de entender o simbolismo eucarístico e necessita da elaboração mais extensa que não cabe aqui.

Na sexta-feira Santa celebra-se a Paixão do Senhor. A celebração consiste na leitura da Paixão, orações universais, a veneração da Cruz e a comunhão eucarística. Expressões populares devocionais como a Via Sacra tradicional ou até mesmo encenação da Paixão enriquecem e acrescentam ao simbolismo do dia que recorda a morte do Senhor.

No sábado Santo, após o por do sol, celebra-se a Vigília Pascal, popularmente conhecido como a “Missa do Fogo Novo”; (1) Ascender o Círio Pascal, simbolizando a ressurreição do Senhor; (2) a Proclamação da Páscoa; (3) sete leituras do AT e dois do NT que, na sua conjuntura, contam brevemente a História da Salvação; (4) batizados e a Renovação das Promessas Batismais para os já batizados, com o resto da liturgia eucarística compõem a liturgia mais solene do ano todo.


É necessário mencionar quatro leituras especiais feitas nesta semana: Is 42,17 na segunda-feira; Is 49,1-6 na terça-feira; Is 50,4-9a na quarta-feira; e Is 52,13-53-12 na sexta-feira da Paixão. São perícopes chamados “cânticos do servo sofredor” que falam de uma figura misteriosa. Foram entre os primeiros trechos bíblicos que ajudaram os discípulos de Jesus superar o escândalo da cruz e desvendar a enigma da pessoa e a missão de Jesus de Nazaré. 
 
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