O bezerro de ouro de hoje!
No dia 28 de abril, é programado um protesto popular
contra as políticas retrogradas sendo impostas pelo que tomou o lugar do
governo brasileiro. Nas últimas décadas era a moda discursar sobre o
secularismo, que efetivamente baniu o Deus Cristão do foro público. No seu
lugar hoje se adora o deus Mercado, em vias de se tornar o Todo-Poderoso. É
sobre esta divindade que eu quero refletir.
Harvy Cox, professor emérito da Harvard Divinity School
(EUA) é um dos renomados teólogos da tradição protestante da nossa época (autor
do livro: The Secular City - 1965), no seu livro mais recente “The Market as
God” (Harvard University Press, 2016) oferece uma contribuição valiosa para
entender os atributos deste deus Mercado em guerra com o Deus das religiões
tradicionais.
Professor Cox não esconde sua admiração por Papa Francisco e
sua crítica pungente do consumismo desenfreado de hoje e a economia de exclusão
e de desigualdade. A Encíclica Evangelii
Gaudium (Alegria do Evangelho 2013) que censura “teorias gotejantes” e o
trabalho sacralizado do sistema econômico vigente com seu mercado deificado
influenciou Cox.
A autora da recensão do livro “The Market as God”, Melissa
Jones* vê nele uma teoria que explica algo que deixou políticos, jornalistas e
pensadores cismados desde que Donald Trump ganhou as eleições presidenciais nos
EUA: a desconexão entre as palavras do Presidente e a realidade. Cox recorre ao
pouco conhecido filósofo e semanticista de século 19: Alexander Bryan Johnson,
um banqueiro que reconheceu que as cédulas que passava diariamente pelas suas
mãos não possuíam valor intrínseco. Seu valor dependia da vontade humana que as
atribuía valor real. Deste, o filósofo concluiu: as palavras, por si só, não
são meios confiáveis para compreender a nossa realidade. Cox continua e diz que
“as palavras carecem significados substanciais, podem ser usadas para
enfeitiçar, persuadir, ou até mesmo para bajular sem sentir-se culpado”. Explica-se
o funcionamento de mundo político com Mercado divinizado!
O Mercado e sua política servil adestraram a humanidade a
chegar a sua condição atual através dos elementos religiosos próprios:
narrativas, mitos, lendas, parábolas, liturgias e testemunhos. O Mercado
conhece as nossas necessidades e desejos através dos grupos de interesse, e
“big data”. Paulatinamente nós fomos programados para avaliar e adquirir
produtos industrializados não pela sua utilidade nem a necessidade nossa, mas
pelo que estes nos fazem sentir. Mensagens instantâneas e imagens que passam pelas
nossas telas geram em nós a fé irrefletida que aquele produto vai nos salvar
dos males do nosso tempo: rugas, gordura ou até mesmo desprestigio! Os
“evangelistas” de deus Mercado trabalham com o mesmo zelo para nos levar “à
hora da decisão” como fazia Billy Graham.
O autor vai mais um passo adiante ao procurar paralelos
entre a religião e a economia. Ele analisa o “Pentecostes” de cada. Para os
cristãos a igreja nasceu no dia de Pentecostes, houve derramamento do Espírito
Santo, apareceram línguas de fogo, e os que estavam reunidos foram munidos com
a capacidade de falar em línguas; posteriormente foram ouvidos e entendidos
pelas multidões. Seu paralelo na economia realizou-se com a invenção de “pixel”
aquele raio minúsculo da luz da comunicação digital! A afirmação de Cox de que
a multiplicidade das imagens e mensagens que passam cada hora em nossas telas
comunica mais com nossas emoções do que a nossa capacidade de analisar ou
refletir é inegável!
Cox apresenta Roger Ailes, antigo CEO de Fox News como o
típico evangelista de pixel, que conseguiu motivar os conservadores
estadunidenses, pois a onda de emoção-acima-de-reflexão estorvou a lógica. Há
mais..., porém fica para depois.

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