quinta-feira, 28 de junho de 2018 0 comentários

Da infância de Jesus, o que Evangelista Lucas nos conta


Da infância de Jesus, o que Evangelista Lucas nos conta


Também o Evangelho de Lucas dedica seus primeiros dois capítulos para nos falar da infância de Jesus de Nazaré. Nestes dois capítulos o autor quer nos mostrar que Deus age para realizar seu projeto, precisamente nas situações consideradas impossíveis para seres humanos.
Nos quatro versículos iniciais do primeiro capítulo o autor declara sua intenção de apresentar uma narrativa bem-ordenada depois de ter investigado tudo cuidadosamente. Ele vê no nascimento de João Batista e o de Jesus a resposta divina ao povo que ansiava por uma vida melhor. Essa resposta divina é dada dentro da história humana. Para evidenciar isto, ele apresenta referências históricas apropriadas, de acordo com os costumes de seu tempo.
O anúncio do nascimento de João foi feito por um anjo ao seu pai Zacarias quando exercia sua função sacerdotal no templo. Foi algo inesperado para ele, que já era um ancião e esposo de uma mulher que tinha passado o tempo normal de engravidar-se. Zacarias não deu conta de acreditar naquilo que ele ouvia. Por sua incredulidade ele ficou mudo. Sua mudez serviu como sinal para a população de que Zacarias foi escolhido para uma missão extraordinária e tinha passado por uma experiência inusitada enquanto servia no santuário.
Isabel, a esposa de Zacarias, engravidou-se algum tempo depois que ele retornou do templo, tendo completado suas funções ministeriais. Isabel, naturalmente, ficou imensamente grata a Deus por ter livrado-a da humilhação de ser uma mulher estéril, mas ocultou sua gravidez durante cinco meses.
No sexto mês da gravidez da Isabel, o anjo Gabriel foi enviado a Maria, uma jovem de Nazaré, prometida em casamento a José, da casa de Davi, para anunciar sua gravidez. Surpreendida, a moça faz perguntas necessárias para esclarecer suas dúvidas sobre este acontecimento estranho e inesperado. É uma obra de Deus, explicou o mensageiro de Deus, é a nova criação, que está sendo realizado na história humana. Ela foi a agraciada para ser a colaboradora na realização no plano de Deus para a humanidade. Neste contexto sua gravidez é interpretada como obra do Espírito Santo, assim como foi na criação (cf. Gn 1,1). Ao ouvir que para Deus nada é impossível, Maria deu seu consentimento e se tornou a serva do Senhor. Ela também foi informada que sua parenta Isabel, uma mulher considerada estéril, estava no sexto mês de gravidez.
Sem demora Maria partiu para a região montanhosa onde morava Zacarias e Isabel. O momento de encontro dessas duas mães, testemunhas vivas de que Deus age nas situações impossíveis para o ser humano, ocasionou uma profissão da fé da igreja (cf. Lc 1,42-43) e um dos belíssimos cânticos neotestamentários: “O Magnificat” que louva a Deus pela libertação humana que Ele realiza na história (cf. 1,46-55).
O nascimento de João Batista foi um momento de grande alegria para os parentes e vizinhos, sem falar da família do recém-nascido. No entanto, o momento de circuncidar o menino foi um momento de emoções mistas, até assombroso, pois aconteceu mais uma coisa inesperada: seu pai recuperou sua capacidade de falar. Temos aqui na boca de Zacarias outro cântico importante da igreja, “O Benedictus) que bendiz o Senhor pela libertação que Deus na sua misericórdia cede a humanidade (cf. Lc 1,68-79).
O segundo capítulo começa narrando o nascimento de Jesus (Mt 2,1-7). De novo, o autor dá as indicações necessárias para mostrar que este acontecimento que traz radical novidade à história humana, é histórico. O casal Maria e José tiveram que se deslocar a Belém para cumprir uma ordem imperial. Resumidamente podemos afirmar que Maria deu à luz a seu primogênito numa situação de carência de tudo, o que assemelha à situação dos migrantes que hoje procuram uma vida melhor fora dos seus países. Assim Jesus nasceu na cidade de Davi, Belém.
São os humildes pastores da região que receberam a notícia do nascimento de Jesus. Um anjo anuncia-lhes essa boa notícia; sua primeira reação é de medo, mas o anjo lhes pediu para tomar coragem se alegrarem, pois há motivo para isso: o nascimento do Salvador na cidade de Belém, a cidade de Davi. De repente muitos outros juntaram-se ao mensageiro de Deus e temos aqui mais um hino da Igreja– o famosíssimo “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos que ele ama!” (Lc 2,14).
Assim que desapareceram os anjos, os pastores foram a procura do recém-nascido. Eles encontraram tudo de jeito que o anjo tinha anunciado. Foi um momento em que todos ficarem maravilhados com o que os pastores contavam. Por sua parte, Maria guardou tudo no seu coração, meditativamente. Os pastores voltaram da visita agradecendo a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como tinha sido dito a eles.
Maria e José levaram o menino para a circuncisão, deu lhe o nome de Jesus como foram instruídos pelo anjo antes da sua concepção. Nesta ocasião apareceu Simeão, um homem justo e piedoso que esperava a consolação de Israel. Movido pelo Espírito Santo ele tomou a criança nos braços e louvou a Deus com outro hino da igreja antiga: o “Nunc dimittis” (cf. Lc 2,29-32); e deu uma mensagem especial para a mãe do menino. Havia também uma profetisa, Ana, que desde sua juventude não se afastava do Templo, servindo a Deus piedosamente. Ela chegou neste momento e dando graças a Deus, falava do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém (cf. Lc 2,36-38). Terminadas as cerimônias a família voltou para casa em Nazaré de Galileia. E o menino crescia forte, sábio com a graça de Deus sobre ele.
No final do segundo capítulo o autor nos conta da peregrinação anual da família a Templo de Jerusalém. Contudo, esta vez aconteceu algo diferente, pois Jesus ficou para trás na hora da viagem de volta. Sentindo sua falta no final da viagem do primeiro dia, Maria e José voltaram a sua procura e o encontraram no templo no terceiro dia. O jovem Jesus estava no meio dos doutores, fazendo perguntas e interagindo com eles de maneira que deixou todos maravilhados com sua inteligência e suas respostas. À sua mãe que reclamou do seu comportamento, recebeu uma resposta que nem ele nem seu pai deu conta de entender. No entanto, ele desceu para Nazaré com os pais e viveu obediente a eles; crescia em sabedoria, tamanho e graça, diante de Deus e das pessoas. Mais uma vez, sua mãe guardava todas as coisas em seu coração.

segunda-feira, 25 de junho de 2018 0 comentários

Emanuel, Deus conosco.


Jesus, a Boa Notícia para o século 21 (4)


Emanuel, Deus conosco.
Vimos que Marcos elaborou um “evangelho” para mostrar como Jesus, o Filho de Deus, foi mal compreendido, perseguido e eliminado “na forma da lei”. O pequeno grupo de seguidores que ele tinha escolhido, os colaboradores que conviviam com ele, mesmo estes tiveram dificuldades na compreensão e conseguiram superar suas dúvidas somente após a ressurreição.
O Evangelho de Mateus, em seus dois primeiros capítulos, apresenta Jesus de Nazaré como Emanuel, que significa Deus conosco; é o rei messiânico da linha de Davi; é o salvador de toda humanidade. No entanto, ele é mortalmente perseguido desde seu nascimento. Para alcançar seu objetivo o autor elabora uma genealogia de Jesus nos primeiros 17 versículos do seu primeiro capítulo. A árvore genealógica é uma construção harmoniosa, contém três blocos de quatorze nomes dos seus antepassados em cada. O messias tem sua origem no povo que Deus instituiu ao chamar Abraão. O Cristo também é da linha do Davi, o fundador de uma dinastia real. É significativo que além da Maria de Nazaré, a esposa de José que é da linha davídica, quatro outras mães são inseridas nessa lista: 1) Tamar, nora de Judá que o engana e seduz (Gn 38); 2) Raab, a prostituta que escondeu os espiões (Js 2); 3) Rute a estrangeira moabita; e 4) Betsabéia, a adultera mãe de Salomão (2 Sm 11). É interessante comparar essa genealogia com a que Lucas tem (cf. Lc 3,23-38) e notar as diferenças e semelhanças.
A segunda parte do 1º capítulo, isto é, nos vv.18-25 se conta o drama do nascimento de Jesus. Maria, comprometida em casamento a José, engravidou-se antes das núpcias. Diante da situação José vive um momento decisivo. Ele tinha o direito de repudiá-la. Tal ação da sua parte condenaria sua noiva à morte por apedrejamento, de acordo com a lei (cf. Dt 22,22-29). Mas, José, um homem “justo” (Mt 1,19) pensou numa solução menos severa, a de abandona´-la secretamente. Enquanto isso, eis, um anjo do Senhor aparece-lhe num sonho com uma mensagem. O anjo explicou-lhe a gravidez da Maria como parte de um plano que Deus tem para a salvação da humanidade e que José deve colaborar na realização deste, quer dizer, acolher Maria como sua esposa sem medo, e assumir a paternidade legal do filho. José tomou coragem e no tempo certo chegou a realizar tudo o que o mensageiro de Deus lhe pediu: acolheu Maria na sua casa como sua esposa, não teve relações com ela até que nascesse o filho; ele assumiu a paternidade legal do menino que nasceu, dando o nome de Jesus (=Deus salva), um nome que tem significado muito parecido com o nome sugerido pelo anjo: Emanuel, Deus conosco. O autor interpreta esses acontecimentos como cumprimento da profecia de Isaías (cf. Is 7,14).
Na pessoa de José que passa momentos de dúvidas diante da gravidez precoce da sua noiva, representam-se as pessoas que compreendem a religião e a vida do ponto de vista legalista e individualista. Que Deus intervém na história humana a partir dos marginalizados que têm a vida ameaçada é o significado da situação da vida que o anjo comunica a José. Percebemos nas escrituras que Deus tem um plano para o mundo. Adequar-nos e encaixar-nos neste, é custoso; o sonho de José, a intervenção do anjo e a decisão final que José chegou a tomar, apontam para a conversão que o sensibilizou para a necessidade dos outros. José começa agir, a partir de agora, motivado por uma justiça que supera o que está escrito na lei e torna possível o nascimento de Messias. Sua denúncia da gravidez antes da hora, colocava em perigo duas vidas: a da mãe e a do seu filho!
No seu segundo capítulo o autor nos fala de algumas reações que este evento causou (cf. Mt 2,1-12). O nascimento do filho de Maria aconteceu durante o tempo do rei Herodes. De repente, vieram uns magos do Oriente para Jerusalém a procura do “rei recém-nascido dos judeus”. Isto porque eles foram motivados encaminhados por um sinal (a estrela) que assinalava a uma transformação radical na história humana. Sua chegada “abalou” o rei Herodes, extremamente ciumento pelo seu poder. Na verdade, ele era um idumeu escorado pelo império romano. Sua ira ao saber de um rival fez a cidade também sentir “abalado”. Frustrado na sua tentativa de identificar daquele que seria seu rival em Jerusalém, Herodes abriu uma consulta mais abrangente sobre o provável local do nascimento deste “novo rei”.
Os especialistas nas Sagradas Escrituras indicaram a cidade de Belém como o local do nascimento do novo rei “pastor” prometido, baseando-se no profeta Miqueias (Mq 5,1-3). Então Herodes mandou os magos a Belém instruindo-os a reportar a ele sobre o local onde o recém-nascido estaria. Viajaram os magos, alegres agora, pois ao sair de Jerusalém reencontraram sua estrela-guia; chegaram ao encontro daquele que procuravam, ofereceram suas homenagens e voltaram para suas terras. Só é que foram avisados em sonho para não voltarem a Herodes, seguiram outro caminho e foram embora. É preciso comentar sobre o comportamento dos sacerdotes e doutores da lei que tinham a informação, mas foram incapazes de ação: a de se alegrar ao saber do nascimento do salvador, pois eram acomodados sem querer ler os sinais dos tempos que nos revelam os planos de Deus, visto que isto implicaria contrariar os esquemas dos atuais mantenedores do poder. Todavia não basta saber quem é o Messias; é necessário reconhecê-lo e aceitá-lo.
Na segunda parte deste capítulo o autor nos fala sobre a infância de Jesus (Mt 2,13-23); essa narrativa pode ser vista como um novo êxodo que dá início a nova história. Depois que os magos partiram, o anjo do Senhor apareceu de novo a José em sonho e o pede para fugir com sua família para o Egito, pois o rei Herodes procurava matar o menino. José fugiu para o Egito e ali permaneceu até a morte de Herodes. O autor interpreta o acontecido à luz do que o profeta Oseias tinha dito: “do Egito eu chamei meu filho” (Os 11,1).
Voltando um pouco para trás, Herodes, quando percebeu que foi enganado pelos magos, mandou matar todos os meninos de dois anos para baixo na região de Belém, imaginando que assim eliminaria seu rival. A chacina dos inocentes gerou uma situação que o autor interpreta citando o lamento de Raquel referido no livro do profeta Jeremias 31,15.
Morreu Herodes. Aparece de novo o anjo do Senhor para orientar José. Ele volta para sua terra e se estabelece em Nazaré de Galileia, a periferia de Israel onde Jesus começará sua atuação libertadora. Percebemos que José é um homem aberto a iluminação divina e disposto a fazer a vontade de Deus. Nos momentos atordoados essa sua capacidade fez com que ele tomasse as decisões certas para o plano de Deus desabrochar na história.
Mostrar que Jesus é o novo Moisés pertence às intenções teológicas do autor do Evangelho de Mateus como vimos acima. Enquanto no passado Moisés tinha fugido “do” Egito, agora Jesus foge “para” o Egito, visto que a terra prometida se tornou insuportável pela violência e opressão praticadas lá. Jesus dá início a nova história seguindo um trajeto semelhante ao de Moisés.

sexta-feira, 15 de junho de 2018 0 comentários

Jesus, a Boa Notícia para o século 21 (3)



O Filho de Deus entre os homens, o início
O autor do Evangelho de Marcos usa a frase concisa: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1) para iniciar sua narrativa da trajetória de Jesus de Nazaré. Este Jesus é a boa notícia que vem de Deus, diferente daquela que vem do imperador romano. Os três pontinhos no final do Mc 16,8 (considerado a conclusão original do texto) assinalam, para muitos comentaristas, à continuação desta mesma trajetória de Jesus na história desde então. Há um consenso entre os estudiosos que o capítulo 16,9-20 é um acréscimo posterior.
O Evangelho de Marcos (Mc) nos conta a história de Jesus, o Nazareno, que apareceu com uma mensagem relevante a situação calamitosa na história nas terras palestinas no início da E.C. Dado a ineficácia das lideranças tradicionais judaicas para endireitar o que precisava, a expectativa popular era que Deus ia agir diretamente através de uma figura chamada o Messias/ Cristos (de “Massiha” em hebraico e de “Christos” em grego), o ungido de Deus. Entretanto havia uma diversidade no imaginário quanto à essa figura e sua atuação como veremos mais adiante.
Que Jesus é o Filho de Deus, nem seus associados mais próximos não aceitaram facilmente. Embora tivessem pressentimentos de que o Nazareno era muito mais do que um rabino e realizava obras milagrosas, como fizeram mutos outros naquele tempo, tiveram que aguardar a ressurreição para chegar a essa conclusão. De fato, o Nazareno foi condenado réu da morte pelo Sinédrio (O Conselho supremo dos anciãos judeus) por ele igualar-se a Deus, o crime de blasfêmia que era punida com a pena da morte. Enquanto isso o império romano executou-o na cruz sob a acusação de ser o Rei dos Judeus, crime contra o César que acarretava a pena da morte. Naquele tempo, quando já preparava-se o ambiente para instaurar o culto do imperador como a divindade, era o imperador o filho de Deus e nenhum outro. Mesmo assim, temos uma afirmação paradoxal no final do Evangelho de Marcos. O centurião romano que comandava o destacamento encarregado da crucificação de Jesus, vendo-o expirar na cruz, confessou: “Realmente este homem era Filho de Deus” Mc 15,39)!
Os outros evangelhos têm muito mais detalhes do que o de Marcos ao introduzir o Filho de Deus. O autor de Mc no exercício da sua característica própria de ser sucinto nos apresentou Jesus em apenas num versículo. Agora passamos para examinar os “evangelhos de infância” que Mateus, Lucas e João têm nos escritos.

quinta-feira, 14 de junho de 2018 0 comentários

Jesus, a Boa Notícia para o século 21



Algumas observações iniciais


Antes de começar a examinar o texto do Evangelho de Marcos é necessário fazer algumas observações iniciais. A ordem normal dos evangelhos nas Bíblias é: Mateus (Mt), Marcos (Mc), Lucas (Lc) e João (Jo), porém nós vamos começar o nosso estudo com Marcos, o texto mais breve entre os quatro. É que à luz das investigações científicas feitas nos últimos dois séculos, hoje há um consenso entre os estudiosos que o Evangelho de Marcos foi o primeiro a ser escrito.
Todos os quatro evangelhos nos contam a história da vida pública de Jesus de Nazaré, sua paixão, morte e a ressurreição. Cada evangelho representa a tradição da comunidade onde os episódios da vida de Jesus foram contados e recontados até adquirir a forma e a ordem atuais. Até mesmo uma leitura bem rápida mostra que os primeiros três evangelhos têm uma grande parte de matéria em comum, enquanto o quarto (o de João) é bem diferente. Este fenômeno foi minuciosamente investigado como “a questão sinótica”, o que deu origem a diversas hipóteses sobre o processo da redação final dos textos evangélicos que temos. E os primeiros três são conhecidos como “sinóticos”, quer dizer, dá para lê-los “num olhar só” pela semelhança das narrativas.
Hoje temos quatro os evangelhos “canônicos”, quer dizer, estes quatro são normativos para a fé dos seguidores de Jesus de Nazaré. Existe também um grande número de “evangelhos apócrifos” de origem nos primeiros séculos; a autoria destes foram atribuídos a pessoas como Pedro, Tomé, Maria Madalena etc., entre outros. Aqui é necessário mencionar que o processo da formação do Novo Testamento iniciou-se no ano 150 da Era Comum (E.C.) e completou-se no terceiro Sínodo de Cartago no ano 397 E.C. O trabalho de determinar “a canonicidade”, isto é, para a comunidade chegar a decidir se um escrito poderia ser aceito como normativo para a fé foi um processo árduo, criterioso e doloroso até.
No passado recente, a renovação da vida cristã que o Concílio Vaticano II (1962-65) promoveu resultou num desabrochar extraordinário nos estudos bíblicos que têm beneficiado imensamente as comunidades cristãs, as da tradição católica principalmente. O grande número das traduções do texto bíblico (de original Hebraico, Aramaico e o Grego) que foram feitas nas últimas décadas são frutos desta renovação eclesial. Entre as traduções recentes, a Bíblia Pastoral, a tradução da CNBB, Bíblia de Jerusalém, Bíblia do Peregrino, a Tradução Ecumênica da Bíblia, etc. merecem menção, pois oferecem ferramentas excelentes para seus leitores compreenderem melhor a Palavra de Deus.
A Bíblia Pastoral é fruto de um “viver a Palavra de Deus” que aconteceu aqui no Brasil começando na segunda metade do século passado. Este “viver a Palavra” transformou a sociedade brasileira, que se abriu para a democracia participativa e colocou o país no caminho da construção de uma sociedade igualitária que corresponde ao “Reino de Deus” que Jesus instaurava, de acordo com os textos dos evangelhos sinóticos. A Nova Bíblia Pastoral (2014) passou por uma revisão minuciosa da Edição Pastoral (dos anos de 1991). A revisão incorporou os frutos das pesquisas bíblicas que deram passos largos nas últimas décadas, como vemos nas suas introduções, notas de rodapé, além de usar uma linguagem muito moderna e acessível.
O autor do Evangelho de Marcos quer nos ajudar a entender a pessoa e a práxis de Jesus de Nazaré para podermos chegar a tomar uma decisão quanto a nosso seguir o Filho de Deus (cf. Mc 1,1). Para alcançar seu objetivo ele conta num primeiro momento, da atividade de Jesus fez na região de Galileia, e no segundo momento, fala da sua subida para Jerusalém e o que aconteceu lá com ele. Mesmo na primeira parte fica evidente que Jesus, o Cristo, não é compreendido pelas lideranças políticas e religiosas, pelas multidões, sua própria família ou seus discípulos, porém o final é paradoxal: na hora da sua morte na cruz o centurião romano que supervisionou a crucificação, vendo o expirar, proclama: “Realmente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Encerra-se o Evangelho com alguns poucos que acompanharam-no até o fim, recebendo a tarefa de comunicar essa “Boa Nova” que Jesus de Nazaré é, ao mundo inteiro.
Aqui é necessário introduzir os outros evangelhos também, porque nós vamos examinar os paralelos do que Marcos nos conta nos outros três. O autor do Evangelho de Mateus quer mostrar que Jesus de Nazaré conduz o povo de Israel ao ponto alto da sua história; este Jesus surge do povo de Israel; ele é o filho de Davi. Para comunicar tal novidade Mateus organiza seu texto em cinco blocos, com dois capítulos introdutórios (caps 1-2) e no final a narrativa da morte e a ressurreição (caps 26-28). Jesus é o novo Moisés que com autoridade própria vai muito além na interpretação das leis que os líderes de Israel faziam. O critério decisivo é a solidariedade com os pobres (cf. Mt 25,31-46 o juízo final). Ademais, Deus se torna visível em Jesus. O autor encerra sua obra assegurando-nos de que no grande trabalho de anunciar ao mundo inteiro as práticas inspiradas na justiça de Deus, nós podemos contar com a presença permanente do Ressuscitado (Mt 28,19-20).
O Evangelho de Lucas é a primeira parte de uma obra que quer mostrar que a salvação que Deus oferece em Jesus é para toda humanidade; a segunda parte desta é o livro dos Atos dos Apóstolos. Jesus de Nazaré é o Messias dos pobres; sua práxis é ação política, seu manifesto político apresentado na sinagoga de Nazaré (Lc 4,18-21) é a continuação da promessa de Deus que já se encontra no Profeta Isaías (cf. Is 61,1-2). Por isso mesmo sua atuação gera conflitos e tensões. O império que se sente ameaçado, assassina o rabino de Nazaré “na forma da lei”, por uma ação bem coordenada, porém o “eliminado” ressuscita; hoje seus inúmeros seguidores se engajam no estabelecimento de uma nova história de novas relações e organizações em todos os cantos do mundo.
João, no quarto evangelho, apresenta a pessoa de Jesus de Nazaré (o Verbo de Deus) num momento em que surgiram resistências sobre seu ser “o Filho de Deus”. O autor usa sete “sinais” para provocar uma decisão nos seus leitores a favor ou contra o seguimento de Jesus, o Filho de Deus. Nesta obra “os sinais” são gestos reveladores da sua filiação do homem Jesus de Nazaré. Não há parábolas, nem aparece a expressão “Reino de Deus” neste Evangelho; no seu lugar “a vida” é a palavra-chave que desvenda o misterioso projeto de Deus para a humanidade revelado no Nazareno. O autor procura aprofundar a fé já conhecida, celebrada e vivenciada na certeza de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. É dele que provém “a vida”.

quarta-feira, 6 de junho de 2018 0 comentários

A boa notícia para o século 21. (1)


A boa notícia para o século 21. (1)


Hoje em dia ao ouvir a palavra “evangelho”, muitos vão pensar num dos Evangelhos – o de Mateus, Marcos, Lucas ou João. No entanto, vinte séculos atrás a palavra evangelho (de grego “euangelion” = boa notícia) tinha um significado bem diferente: era a notícia de um indulto ou benefício que o imperador romano concedia aos seus súditos e até mesmo o status de cidade romana conferida a uma cidade recém-conquistada.
O impressionante é que os seguidores de Jesus de Nazaré, que foi condenado por Pôncio Pilatos, o governador romano de Palestina, ressignificaram a palavra, “evangelho” logo depois do seu assassinato judicial na cruz. Esta novidade que os discípulos anunciavam, organizou a sociedade humana em comunidades alternativas que têm critérios bem diferentes dos da organização imperial (cf. Atos 2,42ff e paralelos) e colocou em perigo imediato as pretensões hegemônicas imperialistas.
Em pouco tempo este novo agrupamento humano recebeu o nome de “Cristãos”. Com audácia surpreendente os cristãos começaram a afirmar que a “Boa Nova” não vem do imperador, mas de Jesus o Nazareno, aquele que o império procurou eliminar manipulando os processos judiciais com astucia na ausência das provas válidas na lei. Não é de admirar que no mundo de hoje sente-se a necessidade de recuperar o significado original da palavra “evangelho” que é construir um mundo, contrariando a onda neoliberal, baseando-se nos critérios democráticos e anti-imperialistas.


No início do 3º milênio o Brasil vive um ciclo de prosperidade material inusitada que fomenta tensões sociais. Movido pelo Espírito Santo, a CNBB (A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) reconheceu, já no ano 2014, que era conveniente promover a tão almejada conversão pastoral recorrendo a Palavra de Deus como a ferramenta apropriada. A igreja em Campo Grande-MS inseriu-se neste caminho quando dedicou as terças-feiras para o estudo da Sagrada Escritura.
O documento 104 (CNBB) de 2014 visa a Igreja tornar-se “uma comunidade das comunidades”, começando na sua base, a atual paróquia. Concretamente, isto prevê uma modificação estrutural eclesial de longo prazo que nem clareza tem quanto aos seus novos contornos. Claro que não vão faltar tensões geradas pela incompreensão quanto da sua motivação, suas implicações, ou até mesmo o medo que tais empreendimentos pioneiros implicam.
Este “evento eclesial” insere-se num mundo em que o imperialismo capitalista, proclamando-se como o único critério de organização social (cf. Thomas Picketty, “O capital no século 21”, RJ, Editora Intrínseca, 2014) se impõe forçosamente. Não são poucos que se sentem encurralados nessa época de globalização e domínio inusitado de tecnologias de controle de tudo. Vimos como a descoberta de pré-sal no Brasil (2007) provocou uma decisão imperialista que promoveu a substituição do governo legítimo do Brasil (2016) numa ação bem orquestrada envolvendo os componentes midiáticos, parlamentares, e judiciais com sucesso espetacular. Domínio perverso e controle da tecnologia da mídia social influenciou os resultados de um pleito nos EUA que até desencadeou um discurso sobre “a era de pós-verdade” que vivemos atualmente!


Propomos uma leitura do Evangelho começando com o de Marcos, como um meio de nos orientar na construção da nossa história. Essa leitura procura encaixar-se na tradição eclesial que nasceu na recepção do Concílio Vaticano II (1962-65) aqui na América Latina (Medellín, 1968) e continua aperfeiçoando-se, e por último no encontro de CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano) na cidade de Aparecida do Norte (2007) definiu a identidade dos seguidores de Jesus como “discípulos missionários”. O episcopado brasileiro oportunamente fez um acréscimo da palavra “cidadão” à identidade do cristão nas diretrizes gerais da ação pastoral (2015-2019). Esperamos que a nossa leitura do Evangelho de Marcos seja uma contribuição para esclarecer o ser “discípulo missionário cidadão”.

 
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