O Reino dos Céus –
uma escolha
O capítulo 7 do Evangelho de Mateus, na sua primeira parte (vv.1-12)
encerra a interpretação cristã do decálogo e das leis e a segunda parte
(vv.13-29) conclui o primeiro dos cinco ‘livros’ que o texto de Mateus
capítulos 3-25 ‘contém’. As dificuldades da vida comunitária são os primeiros
dois tópicos tratados, a saber, a questão de julgar os outros precipitadamente
e a necessidade da prudência nas decisões tomadas e escolhas feitas no dia a
dia.
Hoje temos grande número de dispositivos que divulgam nossas
opiniões em toda parte o que pode viabilizar emitir juízes valorativos bem
ponderados. Uma das decisões que causa perplexidade é determinar a quem expor
suas pérolas, ou seja, o que você considera mais valioso em você mesmo.
Bem no final da interpretação cristã das regras, Jesus usa a
imagem de um pai que atende com todo o esmero um pedido de seu filho, para
revelar a atenção que o Deus Pai dá aos seus filhos que ele ama, de fato, com o
carinho do pai e a ternura da mãe. E por fim, temos a regra de ouro que refere
a reciprocidade das ações humanas no convívio diário. O conselho de fazer aos
outros, o que desejais que os outros vos façam, é uma herança imemorial da
humanidade.
Chegamos ao final da parte discursiva do anúncio do Reino
dos céus (Mt 7,13-29). Há uma exortação que incentiva uma decisão. Em seguida,
o texto apresenta uma alerta contra os falsos profetas. Bem dentro desta alerta
nós temos uma explicitação de um aspecto importante da vida e as práticas
religiosas. Entrar no reino dos céus refere a uma práxis, descobrir a vontade
do Pai e se esforçar para executar esta vontade. De novo, é a escolha que você
faz que determine sua inclusão ou exclusão, no reino. É notável que ressoe aqui
no versículo 7,23 o eco do juízo final (cf. Mt 25,31-46).
Os últimos versículos (7,24-29) têm ressonâncias bíblicas
muito profundas. Jesus contrasta os comportamentos diferentes dos seus
ouvintes: aqueles que levam a sério suas palavras e agem conforme, e os outros
que buscam a saída mais fácil, de fazer de conta de viver a vida nova do reino
apenas recitando as fórmulas corretas! No momento de adversidades, quem se
esforçou para construir sua casa sobre a rocha sobrevive, enquanto o outro se
torna desastrado. Para elaborar a questão de ressonância veterotestamentária
deste perícope é conveniente referir ao Sl 1, que fala dos dois caminhos
abertos para o ser humano: o caminho que leva a vida e o caminho que leva a
morte. Quem segue o caminho de Deus é igual à árvore plantada junto às águas
vivificantes.
A boa nova que Jesus é sempre foi interpretado em diversas
maneiras; já no tempo que o evangelho de Mateus chegava sua redação final,
parcialidades e ideologias utilitaristas marcavam o cenário cristológico. Hoje
nós vivemos numa situação em que a ‘religião’ cristã é usada para amparar até
políticas escravizadoras. É neste contexto que temos que reler as advertências
de Jesus contra os falsos profetas.
Os versículos finais (Mt 7,28-29) nos falam da multidão que
admirava da ‘doutrina’ de Jesus. O rabino de Nazaré ensinava com autoridade
própria, bem diferente dos fariseus e doutores da lei que se baseavam na anuência
das opiniões dos outros. Isso causou espanto também, pois acena ao que viria a acontecer
na vida do Nazareno em seguida. Para concluir: os capítulos 5-7 elaboram o
programa do Reino dos céus nas bem aventuranças; num segundo momento idealizam
a nova interpretação do decálogo e as leis para a vida do povo da nova aliança.

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