quarta-feira, 9 de agosto de 2017 0 comentários

Sabedoria e a força de resistência

Sabedoria e a força de resistência

O Livro de Sabedoria de Salomão é mais um exemplo de esforço do povo judeu para resistir ao domínio cultural e econômico-financeiro quase esmagador dos regimes helênico e romano durante os séculos 1 a.C e 1 d.C. A obra manifesta capacidades extraordinárias do povo judeu: profundo conhecimento das tradições judaicas; um notável conhecimento de aprendizado grego, uma religiosidade e compromisso intenso com o Deus de Israel (cf. 3,9). Diante do avanço imperialista aniquiladora do judaísmo, o autor procura persuadir seus companheiros a permanecerem fiéis à sua antiga fé no Deus da revelação, ao mesmo tempo aproveitarem ao máximo o que o helenismo tinha a oferecer.

Em 331 a.C. Alexandre, o Grande, construiu uma cidade portuária na costa mediterrânea do Egito a qual deu seu nome. Em pouco tempo Alexandria se tornou o mais importante centro cultural e educacional do mundo helênico com uma população judaica numerosa. Embora os judeus fossem permitidos manter sua identidade e eles participassem na vida cultural efervescente alexandrina, sua insistência em se apegar a um Deus nacionalista gerou polêmicas e perseguições. Diante das pressões multifaces aniquiladoras da identidade judaica, muitos foram seduzidos a abandonar suas tradições. Em resposta a essa crise é que foi escrito o livro de Sabedoria.

O autor não nos fornece dados biográficos, porém é possível identificá-lo com um pensador religioso semelhante ao Coélet e ao Sirácida. Ele participa vivamente nos debates intelectuais do seu dia, baseando-se nas tradições judaicas para dar sua resposta. Entrementes, ele não se limita ao público judeu, mas convida a todos para responder ao amor do grandioso e generoso Deus. Sua estratégia combina a fé tradicional judaica com modos de expressão e conceitos gregos. Seu sucesso na elaboração dessa extraordinária síntese efetivamente tem enriquecido a humanidade toda.

O início do regime romano no Egito (28 a.C.) é apontada como a época da redação do Livro de Sabedoria de Salomão. Que ele foi composto em grego levou Martinho Lutero não aceitá-la entre os livros “inspirados” na sua Bíblia, mas o livro é incluído na Bíblia dos cristãos desde a antiguidade. O Livro é um exemplo de um autor bíblico que levou a sério a cultura de sua época. Ele usa uma espécie de exortação que visa convencer as pessoas a seguirem certa linha de conduta. Outra técnica literária que ele usa é o flashback, a técnica muito usada nos filmes e a televisão hoje; repetir ou aludir na segunda parte do livro ao que foi falado na primeira parte do livro. Os estudiosos chegam a identificar quarenta e cinco exemplos desta, o que afirma tanto a unidade do livro como o espantoso talento literário do autor.

Outra técnica de uso comum no livro é a ‘inclusão’. A repetição da mesma palavra-chave ou expressão chave no começo e no final de uma seção para demarcar as unidades distintas da estrutura da obra. Um bom exemplo ocorre na repetição da palavra “justiça” nos VV.1 e 15 do capítulo 1. A técnica literária de ‘diatribe’, um método de argumentação em que se cria um oponente imaginário e passa a debater com ele. O capítulo 6, 9-11 apresenta o autor da Sabedoria se dirigindo a um publico imaginário.

São dois níveis discerníveis da dimensão libertadora no Livro de Sabedoria de Salomão; diante da hostilidade dos não judeus e o desânimo e a apostasia dos judeus o livro representa um exemplo de resistência às pressões imperialistas de domesticar o povo judeu. O autor escreve com bastante criatividade para defender o valor e a integridade de sua fé e de suas tradições. Com habilidade ele demonstra a compatibilidade da religião judaica e da cultura com elementos essenciais da cultura dominante. Sua insistência em afirmar que a sabedoria é um dom de Deus e não a realização da inteligência e da razão humana é louvável. A sabedoria autêntica é aquela que reconhece a soberania divina.
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sexta-feira, 4 de agosto de 2017 0 comentários

Estratégias de sobrevivência.

Estratégias de sobrevivência.

“Eclesiastico/Sirácida/Sabedoria de Ben Sira” é um dos livros sapienciais encontrados na Bíblia da tradição católica, assim como os grupos judeus falantes de grego tinham o incluído em seu cânon de escrituras. Mesmo não aceitando sua canonicidade, muitas igrejas da tradição de reforma, valorizam-no como escrito instrutivo e edificante.

Diferente dos outros livros do AT o autor se identifica especificamente (cf. 50,27). Embora fosse da família de sacerdotes, era um “escriba” que escolheu prestar alguma espécie de serviço ao governo e/ou dirigia uma escola para filhos de famílias bastadas e influentes de Jerusalém, (cf. 51,23). Era um “professor respeitado” da sua comunidade, ao mesmo tempo seus comentários sobre as mulheres que refletem a mentalidade e a perspectiva típicas do mundo antigo orientado para os homens, deixam muitos agastados hoje! Provavelmente ele é o mais frágil autor bíblico, pois é muito criticado por ser tão sincero e ingênuo; por isso há uma atraente vulnerabilidade humana cercando o autor. Não há como negar que sua obra contém uma síntese consistente e coerente dos ensinamentos sapienciais.

Há um consenso entre os estudiosos que a obra foi completada por volta de 180 a.C. em Jerusalém, em hebraico, porém seu neto traduziu o livro para o grego no ano 130 a.C. Palestina tinha passado das mãos dos ptolomeus egípcios às reis seleûcidas de Antioquia. Modificações introduzidas na economia puseram em perigo a unidade e a identidade da comunidade judaica, que se mantinha devido ao seu compromisso com a ajuda mútua e as redes de apoio. Os reis gregos permitiram, a princípio, que os judeus conservassem seus próprios costumes e sua religião, mas exerciam sutis pressões a favor da adoção dos hábitos gregos. As reações dos judeus a esse desafio variava entre aceitação entusiástica ou resistência e rejeição encarniçada.  

Sirácida identifica as duas crises enfrentadas pelo seu povo: destruição dos laços familiares e tribais tradicionais pelas políticas econômicas predatórias dos gregos; o atrativo dos modos de ser e da cultura gregas. Frente a primeira ele enfatiza a formação e manutenção de vínculos familiares e da solidariedade comunitária. Além disso, é imperativo assentar todos os relacionamentos humanos no nosso relacionamento com Deus por meio da imagem da Sabedoria (personificada). Diante da segunda ameaça o autor propõe o uso de recursos e materiais gregos para exprimir ensinamentos judaicos; ademais ele afirma a soberania divina a fim de se contrapor à ênfase grega na razão humana: “O princípio da sabedoria é temer ao Senhor”.

A genialidade do Sirácida se revela em sua capacidade de discernir os perigos que seu povo enfrentava sob a opressão imperialista. Seu livro é um modelo para todo povo ameaçado por expansionismo capitalista imperial. Ele propõe estratégias para combater a deterioração da família e os laços humanos, e demonstra convincentemente a continuidade da viabilidade e da relevância da cultura e da religião tradicionais de seu povo.

Nos dois movimentos da resposta às crises que seu povo passa o autor revela uma dimensão libertadora. São estratégias para ajudar seu povo a sobreviver e reagir às pressões opressivas espoliativas do regime helênico. Sirácida usa as formas literárias típicas dos sábios como, provérbios, hino de louvor, discursos, súplicas, listas ou onomásticas e a narrativa didática. O livro apresenta três grandes divisões: 1,1-23,28; 24,1-43,33; 44,1-50,24 e, um prefácio, uma conclusão com apêndices (50,25-51,30).

A grande obra de cinquenta e um capítulos recebeu apenas um “olhar superficial” aqui. O livro aponta para as direções ulteriores que a religião judaica seguiu, isto é, a sobreposição e fusão das tradições sacerdotal, sapiencial, e profética etc. O trabalho de Sirácida representa um esforço ousado e criativo de adaptar a religião e a sabedoria de seus ancestrais a uma nova situação histórica, suscitando a esperança de libertação e a luta para alcançá-la.


 
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