sábado, 26 de março de 2016 0 comentários

Mártir Oscar Romero (1917-1980)

Mártir Oscar Romero (1917-1980)

O cenário do martírio de dom Oscar Amulfo Romero y Goldámez (1917-1980) foi o mundo pós-colonial no qual o imperialismo de direita (EUA) guerreou contra o imperialismo de esquerda (antiga União Soviética). A América Latina, considerada área exclusiva da influência estadunidense (Monroe, 1823), ficou presa nessa luta. Organizações inspiradas na revolução bolchevista começaram a atuar em diversos países contra a versão latino-americana do feudalismo que ocultamente mantinha o colonialismo. Para neutralizar os movimentos revolucionários, os EUA estabeleceram a “Escola das Américas” no Panamá (1946) e treinaram suas forças mercenárias. A União Soviética conseguiu se estabelecer em Cuba e na Nicarágua, rompendo o monopólio do continente. Em resposta, os EUA promoveram golpes militares, começando no Brasil. Os governos fantoches assim instituídos suspenderam os direitos humanos, baseando-se em uma doutrina perversa de “segurança nacional” para manter a ordem tradicional com inaceitável crueldade. Os guerrilheiros responderam com desumanidade comparável..

Foi nessas águas turvas que um passo decisivo da inculturação da fé cristã foi dado na América Latina. A realidade socioeconômica favoreceu a recepção ao Concílio Vaticano 2º, em uma releitura do livro de Êxodo a partir da condição do povo na escravidão disfarçada. Houve uma errada identificação do ânimo assim gerado com a revolução promovida pelos soviéticos. Agentes de pastoral foram caçados e eliminados como se fossem guerrilheiros. Mártir Romero, o arcebispo de San Salvador, está entre os inúmeros outros do fratricídio impiedoso salvadorenho dessa época. Foi assassinado enquanto presidia a Eucaristia no dia 24 de março de 1980. Este bom pastor foi beatificado no dia 23 de maio de 2015. Os 35 anos que passaram desde seu assassínio incentivaram uma reflexão sobre a vocação profética cristã e vai dar início ao processo de “conversão pastoral” da Igreja para o mundo “globalizado”.

El Salvador, um pequeno país de 7 milhões de habitantes, de tamanho menor que o nosso Estado de Sergipe, fica entre a Guatemala, Honduras e o Oceano Pacífico na América Central. No início do século passado era produtor de café, mas a crise financeira dos anos 1930 começou a acirrar tensões entre o latifúndio (2% que ficava com toda a terra e 95% da riqueza do país) e a população camponesa. O que passava por governo servia aos interesses das elites, geralmente. A animosidade culminou na “La Matanza” (1932), na qual pelo menos 50 mil trabalhadores do campo foram mortos, pois eles se organizaram e reivindicaram seus direitos à terra e à vida digna. A guerra entre El Salvador e Honduras (1969) produziu um novo agravante social: a volta de 300 mil salvadorenhos de Honduras, agora como refugiados. Os esquadrões da morte intensificaram suas atividades nefastas. A crise de petróleo de 1973 foi, como se fosse, a faísca que encetou a conflagração. Para conseguir paz no campo, houve tentativa hesitante de reforma agrária, que os latifundiários conseguiram fracassar. As eleições fraudadas de 1977 deram origem a protestos populares que o governo reprimiu com mão de ferro. Simultaneamente, os esquadrões da morte da direita eliminaram sindicalistas e todos os outros simpatizantes dos camponeses. Eis o cenário tumultuado em que mártir Oscar Romero testemunhou sua fé seguindo os passos de Jesus de Nazaré.

A beatificação do Oscar Romero (23.05.2015) é uma ocasião para analisar sua vida e obra. Aqui apresentamos uma breve descrição biográfica sua, pois já falamos da situação social, econômica e política do El Salvador para melhor apreciar o desafio pastoral que ele enfrentou ao assumir como Arcebispo de San Salvador em 1977.Oscar Romero nasceu na Ciudad Barrios em 1917, e entrou no seminário em 1931. Teve de interromper os estudos para ajudar sua família, mas em pouco tempo retomou os estudos e foi enviado para Roma, onde em 1942 terminou os estudos e recebeu a ordenação presbiteral. Na volta para El Salvador, passou os próximos 24 anos desenvolvendo um trabalho pastoral em Anamorós e San Miguel, e em 1966 foi eleito secretário da Conferência Episcopal Salvadorenha. Dom Romero foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador em 1970, onde permaneceu durante quatro anos.

Ele não conseguiu se identificar com a atualização da linha pastoral de acordo com as propostas do Vat 2 e a Conferência de Medellín, que o arcebispo Luis Chávez y González efetuava, o que deixou transparecer sua tendência conservadora. A sua transferência como bispo da Diocese de Santiago de Maria aconteceu em 1974. O governo salvadorenho e os esquadrões da morte da direita reprimiam todas as organizações dos camponeses na sua luta contra guerrilheiros bolchevistas. Em 1975, quando a “Guardia Nacional” assassinou cinco camponeses, dom Romero celebrou a missa do corpo presente; evitou denunciar o crime publicamente, mas escreveu uma carta dura ao presidente do país. Para a surpresa da ala progressista da igreja de San Salvador, Romero foi nomeado Arcebispo de El Salvador em 1977. Entretanto, sua “conversão” não demorou muito. No dia 12 do março, o padre Rutílio Grande, um jesuíta comprometido com o povo no espírito evangélico, foi assassinado, e o arcebispo se posicionou publicamente no lado dos indefesos que estavam sendo massacrados.

Durante os próximos dois anos, ele se destacou pelo seu favorecimento da defesa da vida em uma situação muito complicada, na qual paixões ideológicas sacrificavam vidas humanas em um fratricídio sem sentido, como se essas não valessem nada. Em outubro de 1979 houve um golpe militar, e uma junta que incluía também civis tomou poder. Os EUA, que promoveram o golpe, forneceram armas e treinamento aos salvadorenhos para assegurar que não se repetiria uma Nicarágua, onde os revolucionários tinham tomado o poder, em El Salvador. Na carnificina que se seguiu, muitos, inclusive presbíteros e inúmeros agentes de pastoral, foram mortos. A guerrilha respondeu com execuções sumárias e destruição das estruturas do país. O arcebispo Romero pediu aos EUA a não mais fornecer armas para este conflito fratricida, e apelou às forças armadas salvadorenhas para não matarem seus próprios irmãos.

Logo, no dia 24 de março, dom Oscar Romero foi baleado quando presidia a celebração eucarística, e faleceu logo. No seu funeral, uma multidão estimada em 130.000 pessoas se reuniu. Houve protestos, e naquela ocasião mais 42 pessoas morreram. Dias depois, o mandante do crime, o major do Exército e fundador de um esquadrão da morte da direita Roberto D’Aubuisson, foi preso com matérias incriminantes em sua posse, mas logo foi solto sem que ninguém fosse denunciado ou julgado pelo crime de assassinato do dom Romero até hoje. A guerra civil que se deslanchou em seguida, durou 12 anos, a custo de mais 75 mil vidas salvadorenhas! O martírio do dom Oscar Romero (2) A sua transferência como bispo da Diocese de Santiago de Maria aconteceu em 1974

Mártir Oscar Romero foi nomeado arcebispo de San Salvador na época de substituição das figuras proféticas como Evaristo Arns, Aloisio Lorscheider, Helder Câmara e outros, por possuir dons
diferentes. Ao assumir o Arcebispado, ele percebeu que tinha de agir para que a verdade não fosse mais uma vítima do conflito fratricida que seu país vivia. Romero assumiu ser a voz dos sem voz por meio das suas homilias (suas homilias transmitidas por rádio foram ouvidas por 75% da população) e reportagens no jornal diocesano. Seu jornalismo reconheceu o seu ponto de vista e não enganou o público com reportagens tendenciosas atrás de uma fachada de “objetividade”. O arcebispo editorializou frequentemente sobre: 1) o direito de o povo se organizar para lutar pelos seus direitos (o regime e os militares viam em qualquer organização dos operários ou camponeses a guerrilha bolchevista); 2) a necessidade da reforma agrária (nos anos 1970, 2% da população ainda era dona de 60% das terras em El Salvador); 3) o fim da violência (levantamento feito depois do cessar fogo mediado por ONU em 1992 constatou que 85% das atrocidades foram cometidos pelos militares e os seus esquadrões da morte).

O profeta Romero promoveu a causa dos pobres sabendo que as consequências não serão diferentes do que sofriam os próprios pobres. Recusou a proteção especial que o governo lhe ofereceu. Sem se curvar diante do poder opressor, noticiou os acontecimentos da perspectiva dos pobres. Suas denúncias incluíam a absolutização da riqueza como mal radical; a riqueza e prosperidade privada
como absoluto intocável; o servilismo dos militares à oligarquia do dinheiro e a sua impunidade; a corrupção da Justiça a serviço dos poderosos contra os pobres; e a intervenção imperialista dos EUA. Seu trabalho desmascarou a mentira dos meios da comunicação social a serviço dos poderosos. Ele não deixou de criticar a atitude imobilista e intransigente de muitos cristãos.

A direita condenou-lhe como “comunista”, o que alguns de seus colegas no episcopado
salvadorenho também fizeram. Jimmy Carter (EUA) solicitou a assistência do Vaticano para calar esta voz profética. Mas, na sua vida e morte, Oscar Romero evidenciou que são os pobres e oprimidos que sinalizam o caminho da igreja no mundo de hoje. Foi a sua escolha. É o seu grande ensinamento, pois ele mesmo submeteu- -se a injustiça, exploração e repressão que seu povo
passava. As instalações do jornal diocesano foram incendiadas, e a emissora da rádio foi bombardeada. Que ele foi assassinado sobre o altar é significativo: a igreja que nascia do Vat 2 foi atingida por incomodar o sistema iníquo reinante. Para Romero, a igreja não pode ser reduzida ao âmbito cultual nem pode ser uma organização em que tudo vem de cima para baixo, como nos tempos da cristandade. A força da igreja reside na palavra de Deus transparente, sempre viva e eficaz no meio do povo. Ele falou de Deus, julgou a história de seu tempo à luz da Palavra, como fizeram os profetas. A parábola do bom samaritano (Lc 10,3-37) era seu modelo de ação. Ser solidário com os pobres não é ser “comunista” no sentido de ser revolucionário bolchevista. Sua doutrina baseia-se em Am 2,6; 3,10; 4,1; e Is 5,8. “Estes textos lidos na liturgia não são sobre um passado distante, mas referem-se às realidades hodiernas, cuja crueldade nos confunde e nos choca diariamente”, disse Romero ao aceitar o título de “Doutor Honoris Causa” na Universidade de Luvaina (Bélgica) no dia 2 de fevereiro de 1980.






sexta-feira, 25 de março de 2016 0 comentários

Profeta Jesus chega a Jerusalém.

Profeta Jesus chega a Jerusalém.

Nas igrejas tradicionais que têm sua liturgia organizada em ciclos anuais, o domingo de Ramos inaugura a Semana Santa que faz memória dos últimos dias de Jesus de Nazaré. No domingo próximo, o de ramos, a entrada do Nazareno na cidade de Jerusalém, o centro da vida dos judeus, é uma das marcas principais da liturgia do dia. A história desta entrada é contada em todos os quatro evangelhos (Mc 11,1-10; Mt 21,1-11; Lc 19,28-40 e Jo 12.12-16). Os detalhes comuns das narrativas são: o jumento emprestado; os mantos e ramos usados para marcar seu caminho nesta ocasião; e a multidão entusiasmada que o aclama como rei e o apresenta como profeta.
Nos evangelhos sinóticos, Jesus, ao chegar Jerusalém envia dois dos seus discípulos para buscar o jumento. Montado nele e aclamado por uma multidão entusiasmada ele entra na Cidade Santa. A multidão tinha visto os milagres que ele operou ao longo da sua subida para Jerusalém; a “subida” é uma chave hermenêutica importante para entender a obra de Lucas. João menciona que a multidão estava testemunhando agora o episódio de ressurreição de Lázaro (cf. Jo 12,17). Sl 118,26: “Bendito o que vem em nome de Javé! Hosana nas alturas!” e Zc 9,9: “Não temas filha de Jerusalém, pois agora seu rei está chegando, justo e vitorioso” resumem os conteúdos da aclamação popular que o Nazareno recebia. João faz questão de afirmar que os discípulos não entendiam o que estava acontecendo, e que só depois da ressurreição de Jesus, à luz das Escrituras é que deram conta disso.
Sua entrada na Cidade Santa causa uma agitação, de acordo com todas as quatro narrativas. Às perguntas dos hierosolimitanos sobre sua identidade respondeu a multidão: “Este é o profeta Jesus de Nazaré da Galileia”. Os sinóticos nos dá a impressão de que essa foi a única visita de Jesus a Cidade Santa durante toda sua vida como um profeta itinerante; João, pelo contrário, faz parecer que o Nazareno teria feito outras viagens neste período. Mas, todas as quatro narrativas falam de uma entrada real esta vez. Que Jesus mandou dois dos seus discípulos para buscar sua montaria é visto pelos comentaristas modernos como, “Jesus reivindica(r) o direito régio da requisição de meios de transporte, um direito conhecido em toda a Antiguidade” (Ratzinger, 2007,17).
Vimos que a pergunta sobre a identidade de Jesus que entra na Cidade Santa produziu duas respostas: (1) ele é um rei; (2) ele é um profeta. Vale lembrar que o crime pelo qual ele foi condenado pelo império foi proclamar se Rei dos Judeus. No entanto, há algo que é muito diferente em sua entrada e a dos reis no sentido convencional do termo. Normalmente um rei entra numa cidade como conquistador, dominador, exibindo a força das armas e das tropas que tem. No caso de Jesus, seu reino não depende nos meios convencionais, isto é, armas, para sua realização. Do exercício do seu reinado e seu fim inglorioso nós vamos ouvir mais durante a Semana Santa. Logo depois da sua chegada em Jerusalém, o profeta Jesus realiza uma ação simbólica que ameaça o sistema sociopolítico-econômico e religioso centrado no templo o que torna os moradores da cidade seus inimigos (cf. Lc 23,18-23).
Para falar sobre a reação das autoridades: os fariseus, de acordo com Lucas, pediram a Jesus para calar seus discípulos. A resposta de Jesus foi: “Se eles se calarem, as pedras gritarão” citando Hab 2,11. Na versão de João, os fariseus debatiam entre si seu insucesso dizendo: “Vejam; todo mundo vai atrás de Jesus” (Jo12,19).


quinta-feira, 10 de março de 2016 0 comentários

A mulher flagrada no adultério.

A mulher flagrada no adultério.
A capacidade dos textos bíblicos de nos falarem no contexto vital é bem conhecida. Exortação moral é um dos usos mais comuns da Sagrada Escritura. Mas ela também ilumina a situação em que nós vivemos. Pretendemos ilustrar isso com o texto de João 8,1-11 que conta a história da mulher flagrada em adultério. Ela foi levada até Jesus de Nazaré pelos guardiães da “ordem”, já encolerizados com sua práxis baseada num Deus que ele considerava o Pai Bom. De fato, tinham tentado até matá-lo (cf. Mc 3,6; Jo 5, 17-18; 7,1.19 etc.). Este episódio foi mais uma armadilha para incriminar o rabino inconveniente (cf. 8,6).
No caso de adultério, Lv 20,10 define a punição – apedrejamento dos dois. É notável que os escribas e fariseus trouxeram apenas a mulher para Jesus. Sem dúvida alguma é uma tentativa (tão comum) de manipular a justiça, para servir interesses. Percebe-se que a preocupação não era a culpa, muito menos a inocência nem do homem nem da mulher envolvidos no adultério. Era apenas um esquema ardiloso para pegar Jesus. Queriam sua opinião sobre o que a lei mandava fazer; ele pediu que aquele que não tinha pecado nenhum desse início ao rito de apedrejamento. O episódio é narrado após uma tentativa frustrada para sequestrar e acabar com Nazareno (cf. Jo 7,32.44-52). No entanto, a empreitada não deu o resultado desejado, pois Jesus tinha apoio da população.
Jesus de Nazaré incomoda todo mundo, pois sua pregação do Reino de Deus exige mudanças em tudo. Nós vimos como sua família, seus conterrâneos, até mesmo, seus colaboradores mais próximos (sem falar das autoridades religiosas e civis) não tinham compreendido seu projeto e obstaculizaram-no. Seu projeto era bem diferente do da sua própria religião; foram as autoridades religiosas que tomaram a iniciativa para eliminar este atrapalhador. Sua imagem de Deus como o “Pai Bom” desmontava a organização da sociedade que privilegiava uns, enquanto fardos pesados foram impostos aos demais. Sua acolhida aos excluídos, comensalidade com os indesejados e as curas (restauração da capacidade de viver a todos) abalavam as fundações da “ordem” social. Sua política econômica era baseada na necessidade de cada um e não na capacidade de poucos acumular gerando carestia para os muitos. Sem dúvida alguma, tal sistema deixa os G7 apreensivos e os dirigentes das bolsas de valores sem sono! Ele tinha que ser eliminado.
As pessoas ficam horrorizadas ao lembrar da inquisição, a notória instituição de combate a heresia. Entretanto o espírito inquisitorial está sempre presente no ser humano. Inquisição Medieval foi a intolerância que chegou a ser institucionalizada adquirindo até atributos divinos, pois funcionava “para salvaguardar a pureza de doutrina”. Na atualidade vivemos um surto deste mesmo espírito na sociedade brasileira no contexto de mobilidade social gerada pelos programas governamentais. Estes programas têm no fundo uma ideologia que assemelha a de rabino de Nazaré. Percebe-se a manipulação do processo da lei no episódio da mulher flagrada no adultério, pois levaram somente a mulher sem o homem que adulterou-se com ela. Ficou difícil separar entre o espírito que norteia os vazamentos selecionados e as investigações tendenciosas dos crimes de “corrupção” que reforçam a campanha ferrenha de criminalizar uma parte da população brasileira, atualmente, para o benefício da oligarquia tradicional, do espírito que motivava a armadilha contra Jesus de Nazaré, narrada no texto de Jo 8,1-11.


The English Version.

The woman caught in adultery.
That biblical texts speak to us in our life situation is well known. Moral exhortation is one of the most common uses that these texts are put to. But they also illuminate the context of our life situation. We mean to show this using John 8:1-11, a passage that tells us about a woman caught in adultery. She was taken to Jesus of Nazareth by the guardians of the morals, already furious with the way he acted basing himself upon his idea o God as a Good Father. In fact they had even tried to kill him (ref. Mark 3:6; John 5:17-19; 7:1.19 etc.). This episode is about another attempt to incriminate the trouble maker.
The book of Leviticus 20:10 prescribes the punishment for adultery in clear terms: death by stoning for both the partners. But it is interesting to note that the Scribes and the Pharisees brought only the woman to Jesus. This is just another instance of a very common practice; that of manipulating legal processes to serve special interests. We see that the operation was carried out to lay a trap for Jesus, frustrated as they were int their earlier attempts; they wanted his opinion on the case. As they kept insisting he opined that the one who had no sin should cast the first stone. We also note that the author placed this episode immediately after another failed attempt to kidnap the Galilean prophet for he had enormous popular support (ref. John 7:32.44-52).
It must be said that Jesus of Nazareth upset everyone with his appealing “Kingdom of God” that demanded changes in everything. We have seen how his own family, fellow citizens and even his own chosen disciples (not to speak of the religious or civil authorities) were not able grasp his idea and even looked for ways to stop it. His project was very different from those of the religious or even the civil ones. They were the religious authorities who took the lead to get rid of him.
His idea of God as “Good Father” was gnawing away the roots of the system that favored a few while the majority perished in misery. The warm welcome he extended to the unwanted, eating with all sorts of people of dubious morality and the cures were all raising hopes in the very people whom the system had subjugated. To crown it all, the economic model he proposed had the needs of the weaker ones and the not the capacity of the stronger ones to amass wealth as criterion; it would leave the G7 leaders worried and the Stock Exchanges would disappear! He had to be eliminated.

People are shocked to read about the Medieval Inquisition that fought heresies. However, the tendency to eliminate what is different has always been a hall mark of all societies. In the Middle Ages the spirit of intolerance was made into an institution, it even acquired divine sanction, for it (purportedly) was employed to safeguard “doctrinal purity”. At the moment the Brazilian society is witnessing a resurgence of this spirit due to the social mobility generated by governmental programs inspired in some way on the ideals of Jesus. Going back to the story of the woman caught in adultery, the punishment prescribed was for both, but the authorities brought only the woman. In order to trap Jesus they left out a part in the legal proceedings. In the situation in Brazil a number of proceedings are marked by this partiality and it is rather difficult to separate the motives behind the news leaks and the controversial anti-corruption campaign from those that made the Jewish authorities to present only the woman in the adultery case in John 8,1-11.
segunda-feira, 7 de março de 2016 0 comentários

O Pai Bom - a melhor metáfora para Deus.

O Pai Bom – a melhor metáfora para Deus.


Nós falamos sobre a diferença entre o projeto de Jesus de Nazaré e o projeto das religiões. Hoje adentramos o projeto de Jesus para examinar a imagem de Deus em que este projeto baseou-se. Lemos em Lucas 15,1-2: “Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam para ouvir Jesus. Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam: ‘esse homem recebe pecadores e come com eles'”.

Com essas palavras introdutórias o autor reporta três parábolas que evidenciam a imagem de Deus que fundamentava a práxis de Jesus de Nazaré. A primeira é sobre o pastor que se preocupa com a ovelha perdida (Lc 15,4-7) e a segunda fala de uma mulher que faz todo esforço para recuperar sua moeda perdida (Lc 15,8-10). As duas parábolas são também a maneira lucana de combater o machismo presente na sua comunidade. O pastor e a mulher, os dois, se dedicam com o mesmo zelo no trabalho de recuperar o que estava perdido e ambos festejam a alegria de reencontro. A terceira parábola é a bem conhecida história do “filho pródigo” (Lc 15,11-32).

Um homem tinha dois filhos. O mais novo pediu sua herança, prontamente recebe-a e foi embora com tudo para viver a sua vida. Em pouco tempo de vida desregrada ele é reduzido a penúria e, na ausência de outras opções, decidiu voltar para casa do Pai para poder sobreviver. O pai saiu para acolhê-lo, restituiu sua dignidade perdida do filho e festejou sua recuperação. Enquanto isso o filho mais velho que tinha se comportado de acordo com as normas o tempo todo, chegou de volta do seu trabalho, e ao ser informado sobre o motivo da festa, revoltou-se. O pai saiu, de novo, ao encontro deste. O filho reclamou a falta de recompensa (bem-merecida) pela sua fidelidade e protestou contra a misericordiosa bondade do pai para com o errante, o esbanjador.

O importante para nós aqui é a figura do pai. Na parábola não se faz referência alguma a mãe dos dois filhos. Os deuses das religiões, geralmente, têm suas consortes. O pai deste história, tem as qualidades paternas e maternas. O pai, ao ver o filho mais novo que voltava, encheu-se de compaixão e acolheu-o com ternura maternal. No caso do filho mais velho, o pai sai de novo quando este recusou se a entrar e participar na festa da família e raciocina com a mesma ternura para convencê-lo. Mas, não sabemos qual foi o fim da história. Para a comunidade de seguidores de Jesus, organizada com todos os apetrechos religiosos, esta ambiguidade é emblemática neste ano de Jubileu da Misericórdia de Deus.

Os discursos proferidos nas duas sessões do Sínodo sobre a família (2014-2015) eram bem representativos de duas tendências na igreja. De um lado aqueles que favorecem o modelo do agir do Pai Bom que desconsidera tradições, motivado pela compaixão em face da necessidade de restaurar a dignidade perdida do seu filho. De outro, aqueles que insistiam no cumprimento inerrante das leis para a plena integração na vida eclesial (uma recompensa?).

Na parábola do Pai Bom Jesus argumenta a respeito de sua prática de acolher gente considerada indigna e ser solidário com ela. Em relação ao filho mais novo, sua decisão de voltar a procurar seu pai a partir da sua miséria destaca o movimento da gente marginalizada e a sintonia entre seus anseios de vida e o que a prática de Jesus vem indicando. O filho mais velho, com a sua postura rígida, nos faz pensar nos líderes a quem Jesus se dirige: os convencidos da sua própria justiça e retidão, que perderam a sensibilidade para com as necessidades e carências dos demais .




The English Version.


THE GOOD FATHER – The best metaphor for God.

After pointing out the difference between what religions preach and the Kingdom of God that Jesus proposes, we want to go deeper into his project; examine the image of God on which it is based. We read in Luke 15:1-2 that “... tax collectors and sinners were seeking the company of Jesus, all of them eager to hear what he had to say. But the Pharisees and the scribes frowned at this, muttering. “This man welcomes sinners and eats with them”.
With these introductory words the author presents us three parables. The first one (vv. 4-7) is about a shepherd who leaves his 99 sheep to after the one that got lost. The second one (vv. 8-10) is about a woman who spares no effort in her search for a lost coin. It is worth noting that these two parables are also Luke's way of protesting against the masculine dominance strongly felt in his community. Both the shepherd and the housewife show the same zeal in searching for what was lost and upon finding it both of the offer festivities.
The third parable is the well known one about the “prodigal son”: A man had two sons. The younger one asked for his heritage, got it from his father and soon he went away with all he had to a far away place to lead a life of his own. In a short while he found himself penniless. As he was unable to make a decent living he decided to return to his father's house. The father recognized him from far, went out to welcome him back and did everything to restore his lost dignity of the son including a sumptuous party. The elder son, very correct in his behavior always, was not at home when his brother came back home. When he came back home from his work he found that the house was in the middle of a feast. On being told that it was to commemorate the return of his younger brother, he was angered and refused to go in. The father went out for a second time to reason it out with his elder son. But the son took the opportunity to complain about the lack of rewards for his good behavior as also to criticize the compassionate behavior of his father toward his brother, a waster.
What interests us in this story is the father figure. First of all there is no reference to the mother of the two brothers. Generally the gods of the religions have their consorts. The father in this story shows himself to have both paternal as well as maternal qualities. On seeing his younger son return, the father is filled with compassion; goes out and receives him with maternal affection. He shows the same maternal affection towards his elder son as he reasoned with him about the reception given to his younger brother. We do not know how the story ended, but for the community of the followers of Jesus organized with all the trappings of a religion the ambiguity of this story is emblematic in this year that observes the jubilee of God's Mercy.
The speeches made during both the sessions of the Synod on Family (2014-15) represented two strong tendencies prevailing within the Church. There are those who advocate the attitude of the father of the parable, merciful handling of cases of those in irregular situations, leaving aside the inflexibility in observing the traditions on one side. There is another powerful group that advocates correct observances of the norms as a precondition for full integration into church life (as compensation!).
In his parable about the G ood Father, Jesus argues for the hearty welcome he gives to those considered unworthy and his solidarity with them. In the decision of the younger son to return to his father's house to escape his miserable situation, there is something that coincides with the efforts that the poor who organize themselves for a better life and the practice of Jesus. The elder son, with his grudges and rigid ways makes us think of the leaders at whom Jesus directs his parables. They are full of the self righteousness, unable to be compassionate towards the suffering and the needy.





terça-feira, 1 de março de 2016 0 comentários

Jesus e a religião: a parábola da figueira.

Jesus e a religião: a parábola da figueira

Contrariando as previsões, feitas no recém-passado, hoje a religiosidade é muito evidente em nosso país. Os numerosos programas religiosos na TV, o aumento das devoções e o crescente comércio dos sentimentos e artigos religiosos, o próspero indústria de turismo religioso entre outros, são sinais disso. Ao mesmo tempo a sociedade brasileira também passa por um momento de aumento de intolerância, audaciosa linchamento midiático dos adversários, e tentativas para legislar exclusão e marginalização do “diferente”. Com frequência ouve-se afirmações como: “Índio bom é índio morto” ou “Bandido bom é bandido morto”, o que sinaliza fortalecimento das tendências fascistas. Aqui é oportuno ler Lc 13,1-9, um trecho que, de fato, vai ser lido e meditado na liturgia Católica no domingo próximo. O que nos interessa neste perícope é a parábola da figueira infrutífera (vv.6-9). No contexto da hostilidade Jesus de Nazaré encontrou das autoridades religiosas, não é difícil descobrir a qual situação o profeta dirigiu sua crítica.

Avanços nas pesquisas Cristológicas nos permitem a comparar e contrastar o projeto de Jesus de Nazaré (o Reino/Reinado de Deus) e os projetos religiosos. Entretanto, a organização da comunidade dos seguidores de Jesus está inserido num arcabouço religioso. As religiões objetificam o “sagrado” num espaço, um templo, utensílios, rituais e normas; e estes são contrapostos ao “profano”, o laico, o secular, o separado. Em contraste o projeto de Jesus tem seu centro “sagrado” na pessoa, o ser humano seja quem for e como for. É a pessoa vinculada aos demais seres humanos naquilo que é comum a todos por igual. Pelas reações que o projeto de Nazareno tem gerado (e continua gerando), percebe-se que é ele mais exigente do que qualquer “projeto religioso”. Normalmente o projeto religioso baseia-se na distinção e separação; o de Jesus fundamenta-se em “comunhão”. A boa nova que Jesus é, une, supera as distâncias de diferenças, apara arestas e é sempre compreensivo e tolerante. A história nos conta da violência que as diversas religiões perpetraram com seus mecanismos de separar e dividir. Nós bem conhecemos como a preocupação com “a ortodoxia” tem dividido, separado, excluído, marginalizado e condenado muitos dos nossos, nas últimas décadas! Logo, não é de estranhar se ficar evidente a incompatibilidade entre o projeto da religião e o projeto de Jesus de Nazaré.

É notável que Jesus aceitou a função mais baixa a que uma sociedade pode submeter alguém: a de delinquente executado por blasfêmia e subversão. Enquanto isso, no projeto das religiões, a seus representantes são cedidos destaque e posição. Paulatinamente eles forjam verdades absolutas e indiscutíveis. Subsequentemente até arrogam por si (ou os funcionários atribuem a eles) até a infalibilidade. Assim a intolerância é justificada em nome de Deus. Jesus de Nazaré trabalhou para acabar com isso. A sua originalidade e sua grandeza consistem nisso. Infelizmente foi também a razão do seu fracasso!

Mesmo em nossa época em que se queixa da “indiferença religiosa” interesse na pessoa de Jesus de Nazaré cresce; grupos tradicionalmente marginalizados veem nele alguém que se solidariza em sua dor, assim como as “multidões” da Galileia que acorriam a ele. É possível falar sobre a atualidade palpitante do profeta de Nazaré, justamente pela sua capacidade para ir além do tradicional. É neste contexto que surge a pergunta: sobre a figueira infrutífera e a nossa religiosidade e a conversão que a quaresma visa.



The English Version.

Jesus and religion: the parable of the fig tree.

Contrary to all recent predictions religiosity is increasingly in vogue in our country. The large number of TV programs, increase in devotions and pious practices, the ever growing trading of religious sentiments and religious articles, as well as the ever expanding religious tourist industry are all signs of this trend. At the same time the Brazilian society is also going through a period of never before seen intolerance, selected lynching of political enemies, and legislative measures enacted to do away with everything that is “different”. It is very common to hear: “a good Indian is a dead one” or “a good bandit is a dead one”! These are signs of the growth of fascist tendencies in our society. It is in these circumstances that we look at Luke 13,1-9, that will be read next Sunday in the Catholic Liturgy. What interests us here is the parable of the (barren) fig tree (vv.6-9). Faced with the growing hostility of religious authorities against Jesus of Nazareth, it easy to know to whom he directed this parable.

Advances in Christological studies enable us to compare and contrast Jesus' project (Kingdom of God) with that of the religions. But one cannot forget that the followers of Jesus have always organized themselves within the frame work a religion. Religions, usually, turn the “sacred” into an object, contained in a space, in a temple with utensils, rituals and norms; these are always separated from the “profane”, the lay and the secular. As against this the “sacred”, for Jesus, is centered in the person, without any distinction. Simply the human being related to others on an equal footing. From the reactions that this project aroused and still continues to, it is clear that it is more demanding one than anything that religion proposes. Normally religions have mechanisms that distinguish and separate; Jesus, on the other hand, bases his program on equality and unity. The good news that Jesus is, unites, overcomes the distance due to differences, polishes off the sharp edges, and makes it possible be welcoming and broad minded. History tells us of the senseless violence that religions with their techniques of dividing and separating have caused. We still remember how in the zeal to be orthodox so many among our own were separated, excluded and even condemned during the last few decades. Therefore it is not strange to find that what Jesus wants to do and what religions want to do are very different things.

It is well worth remembering that Jesus accepted to be reduced to the worst that a society can do to any one: he was condemned and executed as a blasphemer and a subversive. In the religions the important figures are given the pride of place. Gradually they produce absolute and unquestionable truths and even acquire infallibility, thus justifying intolerance in the name of God. Jesus worked against all these; it was his originality and greatness, as well as the cause of his downfall!

Even in these days, considered days of religious indifference, the desire to find out more about Jesus, the Nazarene, isn't disappearing. Traditionally marginalized groups are flocking to him as did the “multitudes” in Galilee. We can, indeed, talk about his pulsating actuality, for his ability to go beyond the usual. It is in this context that we are questioned about our religiosity, the message of the parable for us and the conversion that Lent envisages.



 
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