sexta-feira, 27 de julho de 2018 0 comentários

A novidade do Reino de Deus e as reações geradas



A novidade do Reino de Deus e as reações geradas

O Evangelho de Marcos nos apresenta uma série de episódios, começando com o milagre da cura na sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1,21-28) e vai até a fala de Jesus sobre a sua nova família (cf. Mc 3,31-35) que nós vamos tratar como um bloco. Este bloco nos dá uma visão global das mudanças que o Reino de Deus que Jesus anunciava provoca na sociedade, assim como a reação que tais mudanças causavam.

A cura na sinagoga de Cafarnaum foi uma ação poderosa que enfrenta o poder do mal (Mc 1,21-28). Da sinagoga Jesus vai para a casa de Pedro onde ele cura sua sogra e outros enfermos. Os demônios reconhecem a identidade de Jesus, mas o Nazareno não permite que essa seja divulgada pelos espíritos impuros (cf. Mc 1,29-34).

Noutro dia, Jesus se afasta para um lugar deserto pela madrugada e aí rezava. Pedro e seus companheiros saíram a procura de Jesus, pois eram ansiosos para aproveitar da popularidade de Jesus ao resgatar a saúde de tantos. No entanto, contrariando lhes Jesus mostrou a necessidade de anunciar o Reino nos outros lugares também e partiu dali, pregando nas sinagogas por toda a Galileia (cf. Mc 1,35-39).

Em seguida, temos a cura do leproso (Mc 1,35-39). O leproso implorou a cura e, Jesus “irado” tocou nele para efetuar a cura. Ao tocar no leproso, o próprio Jesus se tornou impuro ritualmente, um excluído. A “ira” de Jesus é algo que encontramos só neste texto de Marcos, e ela aponta para o  desafio que Jesus lança ao sistema político e religioso que exclui uma porção de gente para se justificar.

O próximo episódio fala da cura do paralítico em Cafarnaum num dia de sábado (cf. Mc 2,1-12). Movido pela fé extraordinária dos envolvidos, Jesus, primeiro, perdoa os pecados do paralítico, assim desfazendo a teologia da retribuição em voga. Isto escandalizou os doutores da lei, presentes no local. Jesus começou a ser considerado um blasfemador, visto que só Deus podia perdoar pecados. Para mostrar que todos nós somos autorizados a anunciar o perdão de Deus, Jesus mandou o paralítico de volta para sua casa carregando sua maca. O acontecido causou admiração nos presentes e eles glorificavam a Deus por ter visto algo inusitado.

Os coletores de impostos eram pessoas excluídas pelos Judeus, porém Jesus chamou um deles, Levi, filho de Alfeu, para ser seu seguidor (cf. c 2,13-17). Rabino Jesus participou numa refeição com os “pecadores”, o que levantou questionamento da moral de Jesus da parte dos doutores da lei do partido dos fariseus. Serviu como ocasião para Jesus rejeitar os esquemas que descriminam pessoas, tanto do ponto de vista social como religioso.

A prática de jejum é de tempo de espera dos tempos messiânicos; agora, é tempo de festa, pois o noivo já está presente. (Mc 2, 18-22). À contestação dos discípulos de João Batista e os fariseus Jesus usa as metáforas do pano novo, e do vinho novo afirmando a radical novidade que a presença do Reino faz na vida humana.

Os vigilantes de bons costumes, os fariseus, criticaram os discípulos de Jesus por violar o dia de sábado (Mc 2,23-28). Rabino Jesus aproveitou o momento para estabelecer uma perspectiva equilibrada quanto às leis, a serviço da vida humana, recorrendo a Sagrada Escritura.

 A cura de uma mão paralisada no dia de sábado, que Jesus realiza depois de “lançar um olhar de indignação” sobre os que tinham preparado uma armadilha (cf. Mc 3,1-6a), provocou a decisão final da parte das autoridades para mata-lo. Jesus sai com seus discípulos à procura de refúgio!
Mas, a multidão dos necessitados, oriundos de toda a Palestina, foi em busca de Jesus. E Jesus fez o necessário para atender bem a todos. Ele constituiu um grupo (de doze), como agentes multiplicadores, para uma formação mais intensa, ter autoridade para pregar e expulsar os demônios. Só é que ele não permitia os demônios fazerem uma divulgação prejudicial a sua causa (Mc 3, 7b-19).

Neste momento Marcos nos dá notícias sobre as dificuldades que Jesus teve com sua família (Mc 3,2-21). Foi neste momento também que os poderosos montaram uma campanha contra Jesus, dizendo que ele estaria expulsando demônios por estar em conluio com o chefe dos demônios. Diante disso Jesus faz uma reflexão sobre a fraqueza que a divisão causa e o pecado contra o Espírito Santo que não tem perdão (Mc 3,22-30). Mais uma vez a família procura Jesus, e o momento Jesus anuncia a nova família no Reino de Deus. Essa é baseada na abertura da pessoa para fazer a vontade de Deus.

terça-feira, 24 de julho de 2018 0 comentários

Jesus chama seus primeiros discípulos


Jesus chama seus primeiros discípulos

1. De acordo com o Evangelho de Marcos, a primeira coisa que Jesus faz ao começar seu ministério público em Galileia foi, chamar algumas pessoas para se associarem ao seu estilo de vida e trabalho (cf. M 1,16-20). Os primeiros chamados foram André e Simão (Pedro), seu irmão. Eram pescadores. Quando Jesus os chamou, eles deixaram as redes e o seguiram. Em seguida, ele chama mais dois pescadores: Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu. Eles também deixaram as redes, barcas e os empregados com seu pai e foram atrás de Jesus.
De fato, o costume naquele tempo era cada um procurar um ou outro mestre de acordo com sua predileção, para tornar-se seu discípulo. Muito contrário disso, Jesus chama alguns e faz isto com autoridade incomum. Seu chamado exige uma resposta total: estar com ele; assumir seu estilo de vida e continuar sua missão mais tarde. Eles deixam a segurança trazida pelo trabalho profissional e pela família, a fim de aceitar este chamado. O espaço do trabalho de quem aceita o chamado de Jesus de Nazaré é a humanidade e o mundo agora.
O desafio maior para os chamados é de compreender o sentido da ação de Jesus e a partir daí descobrir quem ele é.


2. No Evangelho de Mateus a narrativa do chamado dos primeiros discípulos de Jesus, está no quarto capítulo (cf. Mt 4, 18-22). É muito semelhante à de Marcos, nos detalhes salvo um acréscimo: ao chamar André e Simão, Jesus promete fazer-lhes pescadores de gente.


3. A história chamado dos primeiros discípulos em Lucas (Lc 5,1-11) vem depois da sua visita de Jesus a Nazaré, que foi um momento de perigo mortal (cf. Lc 4,16-30) como também depois das narrativas da cura da sogra de Pedro e os outros enfermos (cf. Lc 4, 38-44).
Na sua jornada pelos povoados de Galileia, Jesus chega às margens do lago de Genesaré. Os pescadores estavam encerrando suas atividades, lavando as redes. Jesus, subiu na barca de Simão e pediu que afastasse um pouco da terra, para que a multidão que ansiava ouvi-lo possa ouvir melhor. Sentado na barca, Jesus ensinava a multidão.
Terminada sua pregação Jesus pede Simão para avançar às águas mais profundas com o intuito de uma pesca. O pescador, mesmo contrariado no seu instinto profissional, pois algo em Jesus o impressionou, jogou as redes. O resultado foi uma pesca extraordinária, que o deixou perplexo, pois precisou pedir a ajuda dos companheiros para recolher o pescado todo. No seu espanto, Pedro chegou a pedir Jesus para que afastasse dele. Todavia o Senhor chamou também os filhos de Zebedeu, uma vez que seu propósito era fazê-los todos destemidos pescadores de gente! Deixando tudo eles seguiram Jesus.

4. No primeiro capítulo de João temos alguns detalhes sobre o chamado de quatro discípulos (cf. Jo 1,35-51). João Batista aponta para Jesus como o “Cordeiro de Deus”; dois dos seus discípulos o seguiram, fizeram uma experiência de “ver onde ele morava”, a seu convite. André, um deles logo comunica ao seu irmão Simão que ele tinha encontrado o Messias e o conduziu a Jesus.
No dia seguinte Jesus chamou Filipe, que por sua vez relatou a Natanael sobre seu encontro com Aquele de quem Moisés tinha escrito!. No entanto Natanael teve que passar por um processo de superar alguns preconceitos como também a experiência de encontro profundo com Jesus de Nazaré antes de conseguir aceitar Jesus como Rabi e Filho de Deus.


5. Depois destes breves comentários sobre o chamado dos primeiros discípulos é possível resumir o que os textos nos dizem sobre a transformação da vida dos que aceitaram o chamado. Primeiro, a iniciativa é de Jesus, ele chama com autoridade inusitada. O chamado é emitido no lugar do trabalho, na situação da vida de cada um. No caso de Pedro e de Natanael temos notícias da experiência profunda que tiveram com o Nazareno que resultou numa resposta que os levaram para deixar tudo e assumir um compromisso de fazer algo novo. Superando o medo, assim como os preconceitos, eles partiram para a missão de “pescar gente”!

sexta-feira, 20 de julho de 2018 0 comentários

Jesus de Nazaré começa anunciar o Reino de Deus.


Jesus de Nazaré começa anunciar o Reino de Deus.


1. Até agora nós falamos dos preparativos que precederam o início da vida pública de Jesus de Nazaré. A nossa intenção aqui é de examinar os textos nos quatro evangelhos, textos que nos falam sobre o que pode ser considerado o início da pregação do Nazareno. Começaremos com o texto de Marcos; o texto é muito breve, começamos por ele, não por ele ser breve, mas a nossa escolha foi apresentar Jesus de Nazaré, a boa notícia para o século 21, baseando-nos no texto de Evangelho de Marcos. Como o leitor já percebeu, fazemos referências aos paralelos nos outros evangelhos para evidenciar a riqueza da compreensão da pessoa e a missão de Jesus nos diversos detalhes encontrados em cada texto.
De fato, Marcos nos informa do início da vida pública de Jesus apenas em dois versículos (Mc 1,14-15). Depois que João Batista foi preso, Jesus se dirigiu a Galileia, anunciando a Boa Notícia (o evangelho) que vem de Deus. O resumo da sua pregação que temos aqui, nestes versículos, diz que o tempo já se cumpriu; o Reino de Deus está perto. Neste momento, dizia Jesus, cabe a todos alcançarem a mudança de vida e acreditar no evangelho, para poder acolher a ação de Deus. Aqui é necessário afirmar que, embora todos esperassem a transformação radical na realidade vigente, as expectativas sobre como seria essa conversão, eram muito diversas.
Que o autor do texto usa poucas palavas aqui não deixa de nos dar um indício de como era a situação. João está preso. Foi João que batizou Jesus. A situação é de contestação e perigo, pois a prisão de João aponta para a preocupação dos detentores de poder, os vigilantes, que mantêm os bons costumes e a ordem estabelecida intacta. E nós já vimos que João apontou para Jesus como aquele mais forte que viria depois dele e batizaria com o Espírito Santo e fogo. É neste contexto que Jesus começa anunciar que Deus vai implantar seu reino e que este reino é um movimento transformador. Aceitar o desafio da mudança que Deus propõe, é a proposta de Jesus. É esta a Boa Notícia que o Nazareno vai proclamar por suas palavras e ações.


2. Mateus acrescenta alguns detalhes interessantes a esta informação sobre o início do trabalho de Jesus em Galileia (cf. Mt 4,12-17). Jesus voltou para Galileia depois que João foi preso. Na sua volta, ele foi morar em Cafarnaum. O Evangelho de Mateus tem a intenção teológica de apresentar Jesus como aquele em quem as promessas de Deus feitas aos antepassados outrora serão cumpridas. Então ele vê nessa escolha de Jesus para morar em Cafarnaum, aliás, ele interpreta esta fato como cumprimento da profecia de Isaías (cf. Is 8,23-9,1).
Paradoxalmente a transformação prometida por Deus inaugura-se em Galileia, uma região distante do centro de poder, poder religioso assim como também poder político. A esperança da salvação se manifesta justamente numa região donde nada de bom é esperado! Que nada de bom era esperada desta região fica claro no episódio do chamado de Filipe e Natanael (cf. Jo 1, 43-51). Lemos aqui do Filipe, que aceitou o chamado de Jesus, foi logo anunciar ao seu irmão Natanael, que ele tinha encontrado aquele de quem Moisés escreveu na lei. Natanael, o irmão, fez questão de fazer a pergunta irônica se algo de bom poderia vir da Galileia!


3. Lucas, no seu texto (Lc 4,14ss) que fala do início da pregação de Jesus de Nazaré, enfatiza o papel do Espírito Santo. Jesus, na sua volta para Galileia tornou-se famoso e muito elogiado; ensinava nas sinagogas da região. No episódio que nos conta a história da sua visita a sinagoga de Nazaré, o Nazareno lê Is 61,1-2 para fundamentar sua práxis. De verdade, sua fala é muito parecida com um manifesto, o plano de ação, de um político que faz campanha em nossos dias.
Jesus se considera consagrado e ungido pelo Espírito de Deus. Sua missão é evangelizar aos pobres. A evangelização inclui a libertação dos presos, a recuperação da vista aos cegos, a restituição de liberdade aos oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor.
Aqui é necessário elaborar o quarto item no manifesto de Jesus, isto é, o ano da graça, o ano do jubilar de AT (cf. Lv 25,1-4.8-10). Era uma maneira de evitar o acumulo desmedido de riquezas pelos mais poderosos deixando a grande maioria, os mais fracos e menos astuciosos, em miséria. Essa legislação procurava assegurar igualitarismo na comunidade israelita, pois ela previa a restauração de herança, que porventura fosse alienada, a cada família a cada 50º ano, o ano jubilar. Assim, todos teriam, pelo menos o mínimo, para começar o primeiro ano após o ano jubilar
Esta é uma proposta assustadora para o mundo de imperialismo neoliberal hodierno que aniquila com enorme crueldade toda ideologia e até mesmo as estruturas governamentais que visam promover igualitarismo, impondo seu patrocinado meritocracia capitalista como o único modelo de organização social!
Sem demora a parte dos seus ouvintes, enfurecidos com tal proposta inusitada de mudanças revolucionárias de Jesus, começaram a agir para eliminar o “falso profeta” que ameaçava seus lucros e privilégios tão abertamente. Entretanto não tiveram sucesso esta vez, e ele passou por meio deles para prosseguir seu caminho.


4. Lembrando de que os evangelhos não são crônicas, nem reportagens, muito menos registros dos eventos que satisfazem os critérios da historiografia hodierna, passamos para o Evangelho de João para examinar o texto que poderia ser considerado a narrativa dos inícios do ministério de Jesus. Refiro me às núpcias de Caná (Jo 2,1-11).
Diferente dos evangelhos sinóticos, João apresenta sete sinais na primeira parte da sua obra para alcançar seu propósito teológico: o de mostrar Jesus de Nazaré como “o verbo encarnado”. O primeiro destes sete sinais é a transformação de água em vinho na festa de casamento em Caná. A mãe de Jesus estava lá, assim como Jesus e seus discípulos. Jesus realiza o milagre empurrado pela sua mãe, por assim dizer, visto que o versículo 4 refere a dúvida que ele ainda tinha sobre a conveniência de agir de tal maneira para manifestar sua glória. Foi o princípio dos sinais e os discípulos creram nele. Como qualquer ser humano Jesus também precisou de ajuda da sua família para firmar-se na sua vocação.


5. Na diversidade dos detalhes dos textos evangélicos que nos contam do início da vida pública de Jesus de Nazaré, fica claro que Jesus de Nazaré passou por todo um processo de crescimento e amadurecimento que um ser humano passa para assumir e comprometer-se com a sua missão na vida. Marcos nos faz uma afirmação branda com o mínimo de detalhes. Mateus interpreta o início das atividades de Jesus como cumprimento da profecia antiga que aponta para a possibilidade de Deus fazer a salvação humana surgir de lugares e das pessoas de quem menos se espera algo bom!
Para Lucas quem vê em Jesus de Nazaré o salvador de toda a humanidade, é alguém que tem um manifesto ou um programa de ação que tem implicações políticas, religiosas, econômicas e sociais assustadoras para o sistema em vigência. Em João, Jesus é aquela pessoa que ainda não tem a segurança e precisa o empurrão da sua própria mãe para começar a agir.

terça-feira, 17 de julho de 2018 0 comentários

Jesus de Nazaré diante das tentações (2)


Jesus de Nazaré diante das tentações (2)


4. Continuamos com o tema das tentações que Jesus de Nazaré enfrentou durante a sua vida pública. Todos os quatro evangelhos canônicos falam das tentações que Jesus. Nós já examinamos o que os evangelhos sinóticos têm a dizer a este respeito. Vimos que Marcos faz uma simples afirmação que Jesus foi tentado por Satanás, enquanto Mateus e Lucas nos contam os detalhes das três tentações de forma esquematizada. Por sua vez, o Evangelho de João nos informa de uma tentativa por parte dos irmãos de Jesus para persuadi-lo a ir a Jerusalém e divulgar seu trabalho na ocasião da Festa das Tendas para ser conhecido (cf. Jo 7,1-5). Argumentaram que quem quisesse ser conhecido não faz nada às escondidas, e por isso Jesus deve se mostrar ao mundo. A festa era uma excelente oportunidade. O notável aqui é que o autor sentiu a necessidade de comentar: “na verdade, nem os irmãos de Jesus acreditavam nele!”
Ademais, nos sinóticos nós encontramos também outras instâncias de tentativas de desviar o Nazareno do seu propósito. Pedro, no episódio da cura da sua sogra (cf. Mc 1,29-34), procura por Jesus para informá-lo sobre sua popularidade devido as curas realizadas, a popularidade que poderia ser aproveitada. No entanto, a resposta de Jesus foi: “Vamos a outros lugares, às aldeias da vizinhança, para que eu pregue também lá. Porque foi para isso que eu saí”.
De acordo com o texto de Mateus, Jesus, vendo a multidão ao seu redor mandou que partissem para a outra margem (cf. Mt 8,14-18); aqui surge uma pergunta sobre o porquê de Jesus querer se afastar da multidão.
Talvez o que Lucas tem a dizer (cf. Lc 4,38-44) pode nos ajudar encontrar a resposta a esta pergunta. Não é Pedro apenas, mas a multidão toda queria segurar Jesus para que ele não fosse embora. A resposta de Jesus no texto de Lucas é muito parecida com a que Pedro recebeu, como reporta o texto de Marcos. Transparece em todos os detalhes narrados, que foi um momento de muita pressão que procurava desviar o Nazareno do seu caminho; todavia ele segue adiante na sua missão de passos inabaláveis.
Marcos reporta outra tentativa de Pedro desviar Jesus da sua missão na ocasião do anúncio da paixão (cf. Mc 8,27-33). Quando Jesus começou a ensinar aos discípulos que seu caminho não é de um messias glorioso, mas o do servo sofredor, desencadeou-se um momento conflituoso, pois Pedro leva Jesus à parte e começou a repreendê-lo. A reação de Jesus foi de retrucar em linguagem clara que Pedro tinha prioridades muito contrárias às de Deus. No paralelo deste episódio em Mateus (cf. Mt 16,23-33) Pedro manifesta sua intenção de não deixar Jesus seguir seu caminho escolhido, que produziu severa repreensão da parte de Jesus.
A transfiguração (Mc 9,2-13) é outro momento em que Pedro tomou a iniciativa e sugeriu a armação de tendas necessárias para permanecerem onde eles se encontravam. Os paralelos do episódio, narrados em Mt (Mt 17,1-13) e Lc (Lc 9,28-36) têm os mesmos detalhes. Mas, todos os três textos nos dão indicações que a cena refere a desarmonia que existia entre Jesus e seus apóstolos quanto a finalidade e os métodos de sua práxis. É Pedro, como sempre, que toma a iniciativa para fazer uma proposta desafinada com a de Jesus; entretanto é necessário ver na pessoa de Pedro o representante dos interesses motivadores dos que seguiam Jesus.
Ainda outro momento de tentativa para manipular a práxis de Jesus e desviar a sua missão, foi na ocasião da multiplicação dos pães. Todos os quatro evangelhos narram este milagre. No entanto, o Evangelho de Marcos fala de Jesus, logo que todo mundo comeu e ficou satisfeito, obrigar os discípulos entrar na barca e seguir adiante dele para a outra margem. Ele mesmo despediu a multidão e foi à montanha para rezar (cf. Mc 6,45-47). Mateus narra os mesmos detalhes, porém acrescenta: “Quando chegou o fim da tarde, ele estava aí sozinho…” (cf. Mt 14,22-23). No Evangelho de João afirma-se que houve um plano para fazer Jesus rei, ao perceber o que ia acontecer, Jesus se afastou, e foi para a montanha sozinho (cf. Jo 6,14-15).
De tudo isso percebemos que Jesus o Nazareno foi tentado frequentemente e precisou ficar muito atento para que não fosse desviado de seu propósito missionário.



segunda-feira, 16 de julho de 2018 0 comentários

Jesus de Nazaré diante das tentações (1)


Jesus de Nazaré diante das tentações (1)

1. Na sequência dos episódios da vida e práxis de Jesus de Nazaré que o autor do Evangelho de Marcos nos narra, vem as tentações que ele enfrentou logo depois de ser batizado no Rio Jordão. É interessante notar que o autor faz um resumo de tudo, que não foi pouco mesmo, em apenas dois versículos (Mc 1, 12-13). Outro ponto curioso é que este apanhado é nos apresentado, mesmo antes de falar das atividades de Jesus na região da Galileia, e outros lugares. Nós estamos sendo preparados para avaliar as narrativas em seguida, a partir de um ponto de vista específica: a fidelidade inabalável de Jesus de Nazaré. Isto, porque todos os que seguem a vocação de servir aos irmãos terão diversas possibilidades de alcançar seus objetivos; as decisões e escolhas são feitas a partir de critérios fundamentais da práxis. Qual foi o fundamento da práxis jesuana?
De acordo com o texto (Mc 1,12-13), Jesus de Nazaré, depois de ser batizado por João Batista, foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto onde ele passou quarenta dias e noites, tentado por Satanás; ele vivia entre as feras, mas era servido pelos anjos.
Levando em consideração a natureza simbólica da linguagem da Sagrada Escritura, é necessário lembrar que no AT “a multidão” que saia da escravidão do Egito passou “quarenta anos” no deserto antes que se constituísse um povo (Israel) que tomou posse da terra prometida. Desde cedo, o significado profundo da vida de Jesus e sua práxis foi compreendido pela comunidade primitiva à luz do AT, então este número quarenta refere à sua vida na sua totalidade.
Por mais breve que seja a descrição das tentações, ela anuncia o caminho da vida que Jesus de Nazaré trilharia, um caminho que será marcado por conflitos. Os conflitos serão crescentes, por ele recusar a se desviar em face de obstáculos de vários tipos: sugestões vindas de simpatizantes, incompreensão dos mais próximos ou até mesmo a resistência mortífera da parte dos detentores de poder e os guardiões de bons costumes (moral tradicional).
Sem embargo, Jesus não está sozinho, pois o texto disse que “os anjos o serviam”. Veremos posteriormente que havia simpatizantes da causa que o rabino de Nazaré defendia. Foram muitas as ocasiões em que ele escapou ileso das situações mortais. Claro, faltam detalhes de como se desenvolveu a situação de perigo e os meios pelos quais o Nazareno se salvou; contudo a intenção do autor é nos mostrar que proteção divina acompanha seu escolhido para que ele cumpra sua missão na sua totalidade.

2. O Evangelho de Mateus tem detalhes das tentações que Jesus de Nazaré enfrentou durante os quarenta dias no deserto (Mt 4,1-11). O pão é uma necessidade básica na vida humana. Jesus jejuou quarenta dias sentiu fome. O tentador desafia Jesus usar seu privilégio de ser Filho de Deus para resolver a questão da fome de maneira fácil, isto é, ordenar as pedras se tornarem pão. Jesus rebate o tentador citando a Sagrada Escritura que aponta para as necessidades da vida humana, que vão muito além do pão. Isto porque ‘ser Filho de Deus’ é construir uma sociedade onde ninguém falte o pão quotidiano, o que de fato é o sentido último das palavras que vem da boca de Deus.
O Satanás leva Jesus ao ponto mais alto da estrutura de Templo e desafia o para jogar-se abaixo. Esta vez o diabo cita as Escrituras para dizer, se Jesus for Filho de Deus, ele teria a proteção divina. Na sua refutação Jesus mostra das próprias Escrituras, que não é certo tentar a Deus. Aqui é bom lembrar de que Jesus era, na terminologia de hoje, um “leigo”. Ele não fazia parte da cúpula da organização religiosa. Teria sido tão fácil se ele fosse um sumo sacerdote do Templo; suas palavras teriam a autoridade da estrutura tradicional. Olhando ao nosso redor: são quantos que arrogam a si próprios os títulos como “Bispo”, “Apóstolo”, entre outros, para tirar vantagens políticas e pecuniárias! O uso da religião para servir aos fins nefastos não é coisa de hoje.
Por uma terceira vez o diabo leva Jesus a um monte muito alto de onde era possível visualizar os reinos do mundo e a grandiosidade deles. Para adquirir a capacidade para dominar todo aquele poder o preço era apenas adorar o diabo de joelho. Isto me faz lembrar do partido político que aderiu a “ponte para o futuro (em 2015)” para poder substituir o governo legítimo do Brasil (2016). Voltando para a reação de Jesus à proposta de tornar se um déspota: está escrito “adorar somente o Senhor, seu Deus e somente a ele prestar culto”. Neste ponto o diabo deixou Jesus e os anjos aproximaram-se dele e se puseram a servi-lo.

3. O Evangelho de Lucas fala das tentações de Jesus no deserto no seu capítulo quarto (Lc 4,1-13). Já no primeiro versículo o autor destaca o papel do Espírito Santo na volta de Jesus do Jordão (após seu batismo) e a ser conduzido pelo deserto a ser tentado pelo diabo. São três as tentações, as mesmas que encontramos em Mateus; só há uma diferença: a de ordem. Enquanto a segunda tentação em Mateus refere ao poder religioso, em Lucas a segunda é a grandeza do poder sobre as nações. Como aquele que exerce poder sobre as nações, seria tão fácil impor sua vontade sobre os povos e conseguir o que quiser. É uma proposta muito vantajosa. Mas, para não cair nessa tentação, Jesus se baseia nas Sagradas Escrituras mais uma vez, e continua fiel à sua missão sem ser desviado. E o autor encerra o episódio dizendo que o diabo se afastou de Jesus, para voltar no tempo oportuno.

segunda-feira, 9 de julho de 2018 0 comentários

João batiza Jesus de Nazaré


João batiza Jesus de Nazaré


1. Todos os quatro evangelhos nos informam que Jesus foi batizado por João Batista. De acordo com o texto de Marcos (Mc 1,9-11) Jesus chegou de Nazaré de Galileia e foi batizado no Rio Jordão por João. Quando ele subiu de água, viu-se os céus se rasgar e o Espírito Santo descer sobre ele na forma de uma pomba. Em seguida, uma voz do céu o aclamou: “Tu és meu Filho bem-amado, em ti eu me agrado”.
Com o rito do batismo o Nazareno se insere num movimento que vinha gerando entusiasmo no povo cansado e vivia a expectativa de mudanças profundas, como já vimos, quando falamos da pregação de João Batista.
Com efeito, Jesus continua a missão do João, mas com diferenças significativas. Em primeiro lugar, enquanto João levou o povo para fora do povoado, para o deserto, a fim de viver um momento preparativo, Jesus, por sua vez, vai anunciar a presença do Reino no meio do povo, pois ele ia aos povoados, uma vez que o tempo de preparação já se tinha esgotado.
O momento do batismo ocasiona a revelação da identidade de Jesus, o Nazareno. Aqui, é importante notar que o entendimento de quem ele é, vincula-se de certo a compreensão do seu agir. Como veremos ao longo da nossa leitura dos textos evangélicos, a identidade do salvador da humanidade é progressivamente interpretada, recorrendo a diversos personagens do AT. Isto posto, podemos apontar para a primeira chave da interpretação, isto é, a figura do “Servo de Javé” (Is 42,1-4) com sua ação discreta e solidária.


2. O Evangelho de Mateus no seu capítulo 3, 13-17 faz uma descrição do cenário de batismo de Jesus por João Batista. Os detalhes do evento aqui descrito são semelhantes ao que temos no texto de Marcos. No entanto, o autor de Mateus reporta um diálogo entre Jesus e João Batista, antes que realize o rito do batismo. João tenta impedir Jesus a ser batizado por ele, afirmando que é ele que deveria ser batizado por Jesus e não o contrário. Mesmo assim, quando Jesus afirmou que toda justiça deve ser cumprida, João concordou com o Nazareno e o batizou. Os céus se abriram, o Espírito Santo desceu sobre Jesus como uma pomba e uma voz, vindo do céu, confirmou o Nazareno como o Filho amado, em quem o Pai tem seu beneplácito.
Jesus deixa claro, desde no momento do seu batismo, que é a justiça que vai orientar todo seu agir. Para compreender o que o Nazareno entende por justiça, temos que examinar a sua práxis. No entanto, já podemos dizer antecipadamente que ser batizado por João é reconhecer, da parte de Jesus, a importância da sua missão; inserir-se num processo histórico que vinha de longa data, na qual ele é o cume. A voz que vem do céu confirmando-o como o filho amado, em quem reside o agrado do Pai, refere a fé professada pela igreja primitiva: Jesus é aquele que realiza plenamente o projeto de Deus na história humana “na plenitude dos tempos”, nas palavras do Apóstolo Paulo (cf. Gl 4,4).
Este projeto de Deus a ser instaurado na história humana se chama de “Reino de Deus/Reino dos Céus” nos evangelhos sinóticos e em João é “a vida/vida em abundância”. Ademais, o batismo de Jesus tem influenciado o desenvolvimento da doutrina sobre Jesus de Nazaré (Cristologia) posteriormente, quando a filosofia grega começou a influenciar decisivamente as diversas articulações teológicas como por exemplo: adocionismo, docetismo etc.


3. O Evangelho de Lucas tem apenas dois versículos para tratar do Batismo de Jesus por João Batista (Lc 3,21-22). Os detalhes do evento são os mesmos que já encontramos em Marcos e Mateus. Jesus estava no meio daqueles se fizeram batizar por João Batista e foi batizado por ele. E enquanto Jesus estava em oração, os céus se abriram, os Espírito Santo desceu sobre ele na forma de pomba e uma voz, vindo do céu, afirmou: “Tu és meu filho. Hoje eu te gerei”.
Aqui é necessário fazer um acréscimo. Na sua sequência o texto de Lucas apresenta uma genealogia de Jesus (Lc 3,23-38). De fato, ao tratar da genealogia em Mateus nós apontamos para as diferenças entre as duas. Visto que a voz do céu diz sobre o “gerar” (hoje eu te gerei), é conveniente nós examinarmos a intenção teológica manifesta aqui.
Lucas apresenta Jesus de Nazaré como aquele que assume em si as alegrias e esperanças assim como os sofrimentos de toda a humanidade. Nós vimos que a genealogia de Mateus enumera um total de quarenta e duas gerações, e tem seu começo no Abraão, o iniciador do povo escolhido. Entretanto, a genealogia de Jesus em Lucas começa em José, considerado o pai de Jesus, e vai até Adão, o filho de Deus, a figura mítica que está no início a raça humana. São setenta e sete gerações aqui enumeradas; duas “setes”, o número sete na Sagrada Escritura significa a totalidade. Por fim, Jesus é “o gerado” para dar início a nova humanidade.


4. No capítulo 1,29-34 do Evangelho de João temos o testemunho de João Batista sobre Jesus. O autor não faz uma descrição da cena do batismo de Jesus de maneira que temos nos evangelhos sinóticos. Mas, o Batista começa seu testemunho no dia seguinte, vendo Jesus chegando ao seu encontro. O Batista apresenta-o como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; como aquele que viria depois dele, mas passou à sua frente porque existia antes dele. João Batista admite que não o conhecia; ele acrescenta que sua missão é fazer todo povo israelita conhecer seu salvador. Completa seu testemunho dizendo que aquele que o enviou batizar com água tinha dado o sinal de reconhecer aquele que batizaria com o Espírito Santo: a descida e a permanência do próprio Espírito Santo como uma pomba sobre ele. E é sobre Jesus de Nazaré que o Espírito desceu e permaneceu.


5. Em conclusão, o momento de batismo foi marcante na vida de Jesus de Nazaré. É a preparação mais próxima para sua vida pública. Toda sua atuação foi vista e interpretada pela comunidade primitiva como uma práxis animada pelo Espírito Santo. Além disso, na voz vinda do céu ficou claro que toda a atividade de Jesus foi considerada como fazer a vontade de Deus Pai. Como vimos acima, o batismo de Jesus por João Batista foi, também, um episódio que influenciou o desenvolvimento posterior da compreensão da pessoa de Jesus de Nazaré e as articulações doutrinais que continuam até em nossos dias.

segunda-feira, 2 de julho de 2018 0 comentários

João Batista anuncia a mudança radical


Jesus, a Boa Notícia para o século 21 (7)

João Batista anuncia a mudança radical

(1) Depois de examinar a introdução a história de Jesus de Nazaré nos quatro evangelhos nós passamos agora a averiguar o que os quatro têm registrado sobre o contexto histórico no qual o Nazareno deu início a sua atuação libertadora do seu povo. Os versículos 2-8 do primeiro capítulo de Marcos nos falam da pregação do João Batista que gerou uma expectativa esperançosa na sociedade que almejava ação direta do próprio Deus, visto que as estruturas tradicionais e sua maneira de exercer a autoridade, tinham se manifestado claramente incapazes de corresponder aos anseios do povo.
Para começar, o autor de Marcos introduz a nós João Batista, o mensageiro de Deus, a voz que clama no deserto pedindo mudança de vida, como cumprimento das profecias de Malaquias (3,1) e Isaías (40,3) que assinalavam a ação divina. Em meio a toda frustração que vivia o povo palestinense, o Profeta João aparece no deserto pregando a “conversão”, mudança de vida, como preparação para acolher as transformações radicais que um “enviado” de Deus, ainda desconhecido, efetuaria em breve.
É necessário enfatizar que João chamou o povo para o deserto, pois ele defendia um novo começo, para fazer os preparativos a acolher a nova aliança. Todos da região iam até ele, uma vez que eram cansados do sistema político-religioso vigente, este que na verdade, se encontrava bem longe dos ideais da primeira aliança que tinha constituído a nação, outrora. A primeira aliança entre Javé e o povo foi concluído no deserto. Agora, na sua incessante busca de salvação o povo dá ouvido a convocação de João e sai para o deserto de novo para arrumar o ambiente propício para a tão almejada redenção, ainda vindoura.
O batismo de água que João administrava, era apenas um rito de iniciação de todo um processo, que exigia o arrependimento para o perdão dos pecados. Era a condição que João punha para o povo poder acolher aquele, o mais forte, ainda por vir depois dele. Considera-se que João batizava nas cercanias da região por onde Josué com o povo israelita teria atravessado o Rio Jordão nos primórdios da história para tomar a cidade de Jericó, dando início a ocupação da terra prometida.
Profeta João levava uma vida de ascese severa, pelo que o texto nos conta. Ele batizava com água e se considerava apenas o servo daquele que, futuramente, batizaria com o Espírito Santo.


(2) No Evangelho de Mateus, temos a narrativa da pregação de João Batista no capítulo 3, 1-12. Quanto à sua descrição do personagem, o conteúdo de pregação de João, e a interpretação do seu ministério profético, os textos de Mateus e de Marcos concordam entre eles.
Entretanto, há acréscimos interessantes em Mateus. O primeiro deles que vamos destacar é a crítica do sistema opressora que João faz; essa crítica vai colorir a sua saudação dos membros da elite. Ao observar a presença dos fariseus e saduceus no meio da multidão que lhe procurava, o profeta chamou-os de: “Raça de cobras venenosas”! (Mt 3, 8). Ademais, ele desmonta a falsa segurança de “ser filhos de Abraão” em que a oligarquia se fundamentava para poder manter o sistema iníquo que amparava seus privilégios contra o povo.
Em segundo lugar, João chama o povo de volta para a Aliança, assim como fizeram todos os profetas “canônicos”. Isto, porque o momento que se vive tem um elemento de juízo definitivo iminente. Para ilustrar seu ponto o Profeta usa duas imagens. A do machado que já está colocado na raiz das árvores que não produzem frutos desejados a serem jogadas no fogo. A segunda é do pá que está na mão para começar a limpeza da eira no final da colheita que separa o trigo de palha. O trigo vai para o celeiro e a palha vai para o fogo que nunca acaba.
Podemos dizer que a definitividade do momento e radicalidade da mudança de vida exigida são realçadas com força incomum neste texto.


(3) Lucas tem um texto ainda mais extenso do que o de Mateus Lc 3,1-, para nos contar da preparação do ambiente que João Batista faz para receber o messias tão esperado. O autor contextualiza o acontecido com referências históricas adequadas. Na sua totalidade o texto de Lucas concorda com os de Mateus e Marcos no que nos diz sobre a pregação do Batista.
Enquanto o Batista em Mateus epiteta os membros da oligarquia de “raça de cobra venenosas”, em Lucas as mesmas palavras são dirigidas à multidão que ia ao seu encontro. A falsa segurança baseada no “ser filhos de Abraão” é desconstruída, e as imagens do machado pronto para derrubar as árvores infrutíferas e o pá na mão para separar o trigo de palha assinalam a definitividade da mudança radical iminente.
Além disso, João em Lucas aconselha a multidão que perguntou-lhe sobre o caminho da conversão, a partilha do que tem, contrariando o sistema capitalista que praticava o acumulo irrestrito pelos poderosos, infernizando a vida dos mais fracos e pobres. Aos odiados e excluídos cobradores de impostos João pediu que não cobrassem nada mais do que era o estabelecido. Ele orientou os soldados a não abusassem o poder que tinham a sua disposição.
Aos que, na sua ansiosa busca do salvador tão almejado, imaginavam que João fosse o Messias, ele assegurou que ele não era o tão esperado por tantos. Seu batismo era com água enquanto o Messias prometido batizaria com o Espírito Santo e fogo. Lucas acrescenta a informação sobre a prisão cautelar que o rei Herodes tinha feito de João.


(4) Ao passar para falar do que o Evangelho de João nos contra sobre a fase preparatória que coube a João Batista na apresentação do Messias tão esperado, algumas observações são necessárias. Diferente dos sinóticos, que têm narrativas da sua atividade profética, o autor do Evangelho narra o testemunho que o Profeta no deserto dá. Em segundo lugar, a expressão “judeus” neste texto não refere ao povo judeu, mas a parte da população judaica que combatia ao Jesus. Os “judeus” questionavam sua autoridade para agir de jeito que ele agia, sua maneira de interpretar as leis e os costumes, diante das necessidades humanas. A manutenção da ordem estabelecida não era o critério de Jesus. A elite reconheceu bem cedo o perigo que Jesus representava ao sistema e trabalhou com desempenho extraordinário a fim de destruir Jesus e o que ele representava.
O Evangelho nos apresenta o testemunho de João Batista, nos versículos 19-28 do seu capítulo primeiro. Este trecho começa com os enviados de Jerusalém questionando a autoridade do Batista para começar um movimento com o rito do batismo. O profeta nega ser aquele, o esperado, e admite ser apenas aquele que aponta para o envidado de Deus, ainda desconhecido, porém já presente no meio da multidão que se reunia ao seu redor. Outro ponto de ênfase é que o Batista admite ser nem digno de desamarrar a correia das sandálias do messias.
Em conclusão podemos dizer que o ambiente das origens da atividade messiânica situa-se longe do centro do poder, de qualquer tipo, nas margens da sociedade que as instituições religiosas e políticas que procuravam dominar e manter controlado tudo.

 
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