A parábola do rico esbanjador e do pobre Lazaro
As palavras “crise”, “crítica”, “crítico” e outras derivadas
do verbo grego krinein apontam para o
aspecto dinâmico (o de ‘decidir’ a cada momento) da realidade humana. Neste
sentido a fala sobre a crise no Brasil (há 28 anos que eu ouço tal discurso), é
legítima. De fato, o ‘Reino’ que Jesus de Nazaré anunciava exigia decisões dos
seus ouvintes, continuamente; as decisões em prol do Reino de Deus feriam os
interesses capitalistas imperialistas romanos que eram baseados na ganância
irrestrita. Os poderosos do império, sempre atentos a qualquer sinal da tentativa
de subverter seus esquemas, eliminavam-na diretamente com força brutal.
Queremos mostrar o momento brasileiro atual como análogo ao
que Jesus viveu no seu tempo e que, hoje, seus seguidores são autorizados a ler
e interpretar criticamente sua mensagem, e agir acertadamente dentro do próprio
contexto histórico. Com efeito, nós presenciamos, nos últimos meses, as múltiplas
posturas adotadas pelos que se consideram “cristãos” ante o processo político
em percurso no país.
Propomos uma leitura rápida da parábola de “o rico esbanjador
e o pobre Lázaro” (Lc 16,19-38) como a denúncia radical que Jesus faz ao
imperialismo. Tal leitura serve também como fonte duma reflexão sobre o momento
atual e a denúncia que o Nazareno faz, como chave para compreendê-lo. Claro, a
parábola é um gênero literário singular; sua leitura fundamentalista como uma
descrição do que acontece após a morte, seria um exercício de ingenuidade e
alienação fúteis.
È importante notar que o comportamento imperialista não tem se
modificado muito desde o tempo de Jesus. Ainda hoje os poderosos festejam
escravizando os trabalhadores e privando os cidadãos comuns dos seus direitos
humanos. Os pobres ficam para fora de “portão”, muitos “deitados”, sentindo-se
impotentes diante da força dominadora do poder movido por ganância; e “cães os
lambendo os feridos”! Na história que Jesus conta há um diálogo intrigante
entre pai Abraão e o rico, este insistente para que Abraão aja em seu favor
enquanto aquele aponta para a vida como algo impar e o caráter dos seus
momentos como irrepetíveis.
É necessário reafirmar que o objetivo da parábola não é
descrever o céu nem o inferno, mas condenar a indiferença dos ricos e
poderosos.
No meio desta sociedade injusta e cruel o espírito de Deus
impele Jesus para os últimos, para os que vivem e morrem excluídos como mendigo
Lázaro. O evangelista Lucas captou bem a direção que Jesus tomou na sua vida e
a expressa em 4,16-22. Na sinagoga de Nazaré Jesus aplica a si próprio as
palavras do Profeta Isaias 62,1-2. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque
Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me
para proclamar a libertação aos presos, e aos cegos a recuperação da vista;
para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”.
Os quatro grupos de pessoas mencionados aqui: os pobres; os presos;
os cegos e os oprimidos resumem e representam a primeira preocupação, aliás, os
que mais estão no coração de Jesus. Não podemos esquecer que Jesus fala em
promover uma vida nova e libertada entre os últimos. A “opção pelos pobres” não
é uma invenção de teologia alguma, nem uma moda posta a circular depois do
Concílio Vaticano2, mas uma opção do espírito de Deus. É olhar para a vida a
partir dos últimos!
O “império do dinheiro” é neste momento o grande adversário
do projeto humanizador de Deus no mundo inteiro. Nós no Brasil estamos sentindo
suas punhaladas, depois que o governo legítimo foi substituído. A indignação
profética dos seguidores de Jesus diante dessa realidade é mais bem aplicada
para despertar-nos da passividade da indiferença (ou o sentimento de
impotência?) e dar ouvido a grito de Jesus: os últimos devem ser sempre os
primeiros!

- Follow Us on Twitter!
- "Join Us on Facebook!
- RSS
Contact