quarta-feira, 28 de junho de 2017 0 comentários

A parábola do rico esbanjador e do pobre Lazaro

A parábola do rico esbanjador e do pobre Lazaro

As palavras “crise”, “crítica”, “crítico” e outras derivadas do verbo grego krinein apontam para o aspecto dinâmico (o de ‘decidir’ a cada momento) da realidade humana. Neste sentido a fala sobre a crise no Brasil (há 28 anos que eu ouço tal discurso), é legítima. De fato, o ‘Reino’ que Jesus de Nazaré anunciava exigia decisões dos seus ouvintes, continuamente; as decisões em prol do Reino de Deus feriam os interesses capitalistas imperialistas romanos que eram baseados na ganância irrestrita. Os poderosos do império, sempre atentos a qualquer sinal da tentativa de subverter seus esquemas, eliminavam-na diretamente com força brutal.

Queremos mostrar o momento brasileiro atual como análogo ao que Jesus viveu no seu tempo e que, hoje, seus seguidores são autorizados a ler e interpretar criticamente sua mensagem, e agir acertadamente dentro do próprio contexto histórico. Com efeito, nós presenciamos, nos últimos meses, as múltiplas posturas adotadas pelos que se consideram “cristãos” ante o processo político em percurso no país.

Propomos uma leitura rápida da parábola de “o rico esbanjador e o pobre Lázaro” (Lc 16,19-38) como a denúncia radical que Jesus faz ao imperialismo. Tal leitura serve também como fonte duma reflexão sobre o momento atual e a denúncia que o Nazareno faz, como chave para compreendê-lo. Claro, a parábola é um gênero literário singular; sua leitura fundamentalista como uma descrição do que acontece após a morte, seria um exercício de ingenuidade e alienação fúteis.

È importante notar que o comportamento imperialista não tem se modificado muito desde o tempo de Jesus. Ainda hoje os poderosos festejam escravizando os trabalhadores e privando os cidadãos comuns dos seus direitos humanos. Os pobres ficam para fora de “portão”, muitos “deitados”, sentindo-se impotentes diante da força dominadora do poder movido por ganância; e “cães os lambendo os feridos”! Na história que Jesus conta há um diálogo intrigante entre pai Abraão e o rico, este insistente para que Abraão aja em seu favor enquanto aquele aponta para a vida como algo impar e o caráter dos seus momentos como irrepetíveis.

É necessário reafirmar que o objetivo da parábola não é descrever o céu nem o inferno, mas condenar a indiferença dos ricos e poderosos.

No meio desta sociedade injusta e cruel o espírito de Deus impele Jesus para os últimos, para os que vivem e morrem excluídos como mendigo Lázaro. O evangelista Lucas captou bem a direção que Jesus tomou na sua vida e a expressa em 4,16-22. Na sinagoga de Nazaré Jesus aplica a si próprio as palavras do Profeta Isaias 62,1-2. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos, e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”.

Os quatro grupos de pessoas mencionados aqui: os pobres; os presos; os cegos e os oprimidos resumem e representam a primeira preocupação, aliás, os que mais estão no coração de Jesus. Não podemos esquecer que Jesus fala em promover uma vida nova e libertada entre os últimos. A “opção pelos pobres” não é uma invenção de teologia alguma, nem uma moda posta a circular depois do Concílio Vaticano2, mas uma opção do espírito de Deus. É olhar para a vida a partir dos últimos!

O “império do dinheiro” é neste momento o grande adversário do projeto humanizador de Deus no mundo inteiro. Nós no Brasil estamos sentindo suas punhaladas, depois que o governo legítimo foi substituído. A indignação profética dos seguidores de Jesus diante dessa realidade é mais bem aplicada para despertar-nos da passividade da indiferença (ou o sentimento de impotência?) e dar ouvido a grito de Jesus: os últimos devem ser sempre os primeiros!



quarta-feira, 21 de junho de 2017 0 comentários

A experiência do mundo, a experiência de Deus

A experiência do mundo, a experiência de Deus

Gerhard von Rad (1901-1971, o estudioso alemão do AT, opinou que a grandeza de Israel tenha decorrido do fato de não ter mantido a fé e conhecimento apartados. As experiências do mundo sempre foram para ele também experiências divinas, assim as experiências de Deus eram para ele experiências do mundo.

Neste segundo momento da nossa reflexão sobre a sabedoria como o caminho para a libertação/salvação, no momento em que o país vive a mudança de democracia concedida a democracia representativa do povo soberano, nós vamos olhar rapidamente ao conteúdo do livro de Provérbios. É uma coletânea de ditos atribuídos ao Salomão e também aos sábios diversos como Agur e Lemuel. Além de uma introdução extensa o livro tem um poema que descreve “a mulher/esposa ideal” no final. È possível afirmar que este livro representa uma das principais maneiras pelas quais a academia israelita respondeu à crise de identidade no período exílico e pós-exilico. E os desafios do momento eram a sobrevivência e o assentamento dos alicerces do futuro.

São diversas as vozes que se fazem ouvir ao longo dos trinta e um capítulos deste livro: pais, mestres, sábios e reis que exibem seu conhecimento. As palavras dos sábios de outras terras e culturas enriquecem a coletânea ainda mais. Mas, todas essas vozes são apenas ecos e variações da voz que domina e permeia toda a compilação – a voz da Sabedoria.

Percebe-se a personificação da sabedora como mulher no livro. Esta técnica permitiu que os autores sapienciais unificassem os vários tipos de sabedoria. Contudo, é possível falar de uma espécie de moldura feminina a partir das imagens empregadas nos capítulos 8 e 31,10-31. Nos períodos, exílico e pós-exílico, com o fim da monarquia, o lar emergiu como o loco central da identidade e vida da comunidade judaica. Há autores que interpretam o papel central da mulher no capítulo 8 como a metáfora do papel de Deus como Genitor Divino que cria e mantém a morada da comunidade humana – o mundo habitado.

Entrementes, não se esqueceu dos contrapontos, pois as imagens femininas inventadas pelos homens tendem perpetuar os estereótipos da mulher como madona ou prostituta; esta, a fonte do mal, e aquela a fonte do bem. No entanto, comentaristas veem na figura da “Sabedoria”, muito além de uma típica parceira potencial de casamento; a valer, um caráter autônomo que convida todos à plena existência humana. Ela é a ponte entre Deus e os seres humanos, e entre os seres humanos e o mundo criado.

São duas coletâneas de provérbios atribuídos a Salomão (10,1-15.33; 16,1-22,16 e 25,1-29,37). Na primeira, o otimismo permeia ao lado de uma serena confiança no regime justo e leal de Deus no mundo: “Em todo lugar os olhos de Javé estão vigiando os maus e os bons” (15,3). O livro traz também o conselho dos sábios não israelitas. As afinidades com a sabedoria egípcia são particularmente fortes. Além disso, nós temos palavras de outros sábios, como por exemplo, 24,29 que é uma versão negativa da regra de ouro que aprece em Mt 5,38-45; 7,12. “Nunca diga: ‘Vou fazer para ele o mesmo que ele me fez. Vou lhe pagar como ele merece’”.

 “No mundo existem quatro seres pequeninos que são mais sábios do que os sábios: as formigas, povo fraco, mas que recolhe comida no verão; as ratazanas, povo sem força, mas que mora nas rochas; os gafanhotos, que não têm rei, mas avançam todos em ordem; as lagartixas, que se podem pegar com a mão, mas penetram até em palácios de reis” (30, 24-28). Por fim, no capítulo 31 as imagens femininas dos capítulos 1-9 voltam a nos propor uma estratégia de libertação: “Abra a boca em favor do mudo e em defesa dos desfavorecidos. Abra a boca e dê sentenças justas, defendendo o pobre e o indigente” (31,8-9). 



quarta-feira, 14 de junho de 2017 0 comentários

A sabedoria um caminho para a libertação

A sabedoria um caminho para a libertação

Finalizando seus comentários sobre o livro “Voltaire, o homem dos quarenta escudos” Jacir Alfonso Zanatta escreveu que (atualmente) “... Para o povo brasileiro vale a seguinte máxima: passa-se a vida esperando por políticos honestos, e, esperando, se morre” (O Estado, 10.06.2017, B4). Será que nós somos condenados a este destino? De fato, no livro de Eclesiastes (Coélet) temos uma posição teológico-filosófica que ajudou o povo de Deus atravessar uma fase na sua história que assemelha muito a situação brasileira de dominação brutal pelos interesses econômicos nefastos.

Durante os séculos 4º-3º a.C Palestina passou sob o domínio grego. Os ptolomaicos mantiveram a política fiscal dos persas e aperfeiçoaram-na com a introdução de impostos anuais por quantias de moeda corrente fixas. Para um o povo agrícola que pagava seus impostos em quantias proporcionais da sua produção anual, o novo sistema foi desastroso. A inovação grega não levou em conta as variáveis que influenciam a produção na lavoura, não poucos tiveram que vender seus bens, até mesmo membros da família para pagar os impostos!

A crise é econômica, política e religiosa. Diante desta sensação de impotência e de incapacidade de melhorar as coisas, o livro de Eclesiastes foi a resposta à decadência da sociedade palestinense. Este livro, de apenas doze capítulos, é complexo em sua estrutura, concentra em temas sapienciais e usa o método de observação e na experiência. No final das suas críticas acerbadas às pretensões humanas Coélet chega a uma primeira conclusão desafiadora e desestabilizadora sobre os empreendimentos humanos: “Tudo é fugaz, uma corrida atrás de vento” (1,14.17; 2,11.17.19.23.26; e assim por diante). A experiência como fonte de conhecimento o levou a uma segunda conclusão: um grande número de perguntas não tem respostas; as aparentes injustiças e arbitrariedades da vida não têm solução. Os homens não podem “compreender a obra que Deus realiza do começo até o fim” (3,11). É uma “espiritualidade sapiencial libertadora”, assustadora nas suas exigências de aceitação da limitação e da ignorância humana que o autor propõe!

Todavia Coélet conduz seu povo a uma nova compreensão de seu Deus e usa sua capacidade linguística e a “dialética” para sabotar alguns dos pressupostos e princípios da economia monetária helênica assoladora para seu povo. No plano religioso ele contesta e relativiza os ensinamentos tradicionais. Aqui surgem umas perguntas vitais (cf. 2,11-16). Contudo sua linguagem dialética que justapõe o positivo e negativo da experiência, exorta seus leitores aceitar a bondade da criação (cf. 2,24; 3,12-13.22; 5,17-18; 8,15; 9,7-9; 11,9). Ao mesmo tempo, ele afirma que o homem é incapaz de reter ou possuir qualquer ‘lucro’ de seu trabalho! Sem embargo, é necessário caminhar à presença Daquele que não pode ser conhecido, mas apenas reconhecido com assombro e reverência. Aceitar as trevas, se render ao mistério e por fim renunciar ao mais caro e mais profundo desejo do coração humano – entender a vida!

Com o “caráter comercial” do seu linguajar, Coélet evita atacar diretamente as estruturas econômicas predatórias do imperio. Ainda assim, a matemática, um elemento central para a mentalidade do mercado, é usado para expor a insensatez da “sabedoria” das estruturas econômicas opressoras. “Mais vale um bocado com lazer, do que dois bocados com fadigo, correndo atrás do vento” (4,6). Assim Coélet ataca a sabedoria vinculada ao sistema helênico com sua opressão dos pobres, o esforço competitivo, e a busca irrefletida do ganho material. Além disso, a própria estrutura do livro, com suas divisões baseadas nos refrões, nas repetições, mostra que o autor sagaz usou padrões matemáticas para criticar o materialismo prevalente.

Desta maneira, Coélet propõe uma espiritualidade, diferente daquela centrada no culto de Javé no templo de Jerusalém (5,1), uma que permita a sobrevivência naquela época dramática.



quarta-feira, 7 de junho de 2017 0 comentários

A política como lugar teológico

A política como lugar teológico


Cabe uma reflexão teológica sobre a efervescência social que o Brasil vive hoje. Propomos uma leitura rápida dos Salmos 105 e 106 (um díptico) que são uma releitura da história de Israel, como um modelo dessa. O Deus da Aliança na sua constância e o ser humano na sua inconstância, são as chaves que o salmista usou na interpretação da história diante da desgraça do exílio babilônico. Para a leitura dos textos, recomendamos a “Bíblia do Peregrino” pela riqueza da sua exegese, ou as edições “Pastoral” por serem traduções brasileiras. Efetivamente as duas usam muitas técnicas para auxiliar numa leitura popular e a fácil compreensão dos textos.

O Salmo 105 começa como um hino que visa celebrar a caminhada histórica do povo, a quem Deus se revela caminhando junto. A introdução (1-6) é uma a convocação para dar graças ao Senhor. O tema central é anunciado logo (7-11): o Deus que governa a história é o Deus da promessa. Foi um pequeno grupo humano (12-15), que, guiado pelo profundo instinto de liberdade, não se deixa escravizar por ninguém que começou essa caminhada histórica. Neste impulso de ser livre já está presente o Deus libertador. A pessoa de José (16-22) simboliza a história de todo povo escravo; ele se torna o portador da vida nova. O período da vida no Egito é lembrado, mencionando os líderes da libertação (23-27). As sete pragas no Egito (28-38) são vistas como testemunha do conflito, a luta pela libertação, da qual Israel sai vitorioso. Com Deus no seu lado o povo se torna invencível! No entanto, o deserto é o caminho para a libertação (39-41); o deserto é o lugar onde o povo conseguirá construir uma história e sociedade novas, desde que se mantenha fiel ao projeto de Deus. Esta leitura da história procura suscitar fé e esperança nas pessoas.

O Salmo 106, complementa o anterior, pela lembrança das falhas humanas nessa história. No estilo próprio da linguagem bíblica o autor resume essas em sete ‘pecados’. Já na introdução (1-6) a geração presente se solidariza com as passadas; a primeira das falhas foi (7-12) o desejo de povo, perseguido pelos egípcios, querer voltar para a escravidão (cf. Ex 14). Quando sentiu fome no deserto, foi atendido, mas o povo quis partir para a acumulação, desconfiando na Providência (cf. Ex 16). Em seguida é lembrada a rebeldia de Datã e seu grupo (16-18) contra as lideranças que conduziam o povo na realização do projeto de Deus (cf. Nm 16). A idolatria consiste em adorar ídolos e transformar Deus num ídolo, a fim de o manipular(cf. Ex 32). Acovardar-se ao chegar a terra prometida é outro lapso do povo recordado (24-27). Copiar os modelos político-religiosos dos canaanitas, que exploravam e oprimiam os camponeses foi outro pecado (28-31; cf. Nm 25). Quando faltou água (32-33), o povo reclamou tanto, que até Moisés chegou a duvidar (cf. Ex 17; Nm 20). Já na terra prometida, em vez de seguir o projeto de Javé, o povo se deixou fascinar e contaminar com os projetos dos opressores. O leitor percebe que o exílio está sendo interpretado como castigo por servir aos deuses estrangeiros. Mas os vv. 43-46 exaltam da constância de Deus que não abandona seu povo apesar das suas infidelidades.

Uma reflexão teológica tem que levar em conta de que no Brasil atual um modelo de capitalismo que procurou implementar justiça social está sendo superado pelas forças imperialistas a serviço de deus-mercado. Segundo, a democracia participativa está sendo substituída pelo velho coronelismo. Terceiro, sutilmente o ser humano está sendo reduzido à mão de obra e mero consumidor, controlado pelas forças de mercado! Por fim, manipulação astuciosa dos sentimentos religiosos nas últimas décadas está produzindo uma classe, além da elite tradicional, culpabilizante dos menos favorecidos! No entanto, o Livro de Gênesis 1,27 diz: “E Deus criou o homem à sua imagem”.


 
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