quinta-feira, 21 de abril de 2016 0 comentários

Discípulos missionários e cidadãos.

Discípulos missionários e cidadãos.

A Assembleia Geral da CNBB está em progresso na Cidade de Aparecida do Norte desde a quarta-feira, dia 06 de Abril e vai até o dia 15 próximo. Este evento anual procura ler os sinais dos tempos e articular respostas às questões levantadas no momento histórico a partir da fé em Jesus, o Ressuscitado. Brasil atual vive um momento decisivo de definir sua democratização continuada e a construção de uma sociedade igualitária ou a volta para o regime oligárquico do século 17. As liberdades garantidas na constituição assim como os vestígios da ditadura militar (doutrina da segurança nacional) são fatores determinantes a disposição dos políticos, burocratas e a população em geral na escolha do Brasil que queremos. De um lado o povo (a população e o governo) vive um desejo expresso de eliminar (ou pelo menos diminuir) a corrupção que desde séculos infernizava a vida do cidadão; de outro, o desejo de vingança de um criminoso investigado, e a inconformidade de um partido político aceitar a derrota eleitoral pelas quais querem forçar a troca de um governo por vias de validade duvidosas, embora tenha aparência de constitucionalidade. Está em andamento uma polarização que vai definir o futuro da nação.
É neste contexto que a CNBB vai atualizar, entre outros assuntos, sua reflexão sobre a identidade cristã. E nós queremos expor aos nossos leitores alguns pontos que poderiam enriquecer a definição da mesma. Em primeiro lugar Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, é proposto como o modelo para o sujeito eclesial, que todo batizado é. Jesus é visto como uma pessoa livre, responsável, capaz de opções, decisões e um amor incondicional. É de notar que o sujeito eclesial é inserido numa comunidade (igreja), descrita como: (1) povo de Deus peregrino; (2) o corpo de Cristo na história e (3) que tem um rosto mariano.
É muito evidente o grande esforço necessário para superar a noção da igreja como estrutura piramidal, hierárquica e fechada. Em seu lugar se propõe a imagem da igreja como o povo de Deus que é fermento no meio da humanidade. Repetindo o chamado do Papa Francisco os Bispos propõem transformar a igreja no 'lugar' da misericórdia gratuita onde todos possam ser acolhidos, amados, perdoados e animados a viver segundo a boa nova do Evangelho (cf. Egangelii Gaudium 114). Uma segunda imagem aplicada a igreja é a de Corpo de cristo na história. Os cristãos são os olhos, as mãos, a boca e o coração de Jesus no mundo. Cristo é a cabeça deste corpo, a igreja é sua servidora (o rosto Mariano da igreja). A imagem “Corpo de Cristo” implica num forte compromisso de cuidado e solidariedade especialmente com os mais fracos. Os sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Crisma e Eucaristia) são a fundamentação desta identidade dos dois: a do crente e a da igreja.
Dois conceitos importantes (sacerdócio comum dos batizados e o “sensus fidei”) recebem atenção. No batismo todo cristão é ungido sacerdote, profeta e rei. O sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio comum. É uma intuição original do Vat2. O “sensus fidei” pode ser descrita como a unção espiritual que refere à totalidade dos fiéis que com um instinto de fé ajuda a igreja discernirem o que vem realimente de Deus. Assumir ativamente a cidadania em toda sua amplitude (cf. Jo 1,14) é a “encarnação” que constrói um mundo mais humano e que nos humaniza. Todo dualismo que contrapõe o sujeito eclesial contra o cidadão necessita ser superado. Pois é a pessoa humana que deve ser salva, é a sociedade humana que deve ser renovada (cf. GS nº3)


            
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A traição sempre presente na realidade human!

A traição sempre presente na realidade humana!

            A Sexta-feira da Paixão tradicionalmente faz memória de Jesus de Nazaré, o profeta itinerante da Galileia que o império Romano, obrigado pelos poderosos da Palestina, crucificou. Embora os judeus tivessem matado muitos por apedrejamento (cf, At 7,55-8,2), fizeram questão de conseguir a condenação e a crucificação de Nazareno pelo governador Romano. Vale notar que eliminar adversários com máxima violência é algo que se repete com frequência na história humana. No dia 24 março último (ontem) recordava-se o Mártir Oscar Romero (de El Salvador) que foi morto a tiro em 1980 enquanto celebrava a Missa por ele se posicionar a favor dos massacrados. De fato não houve nenhum processo para evidenciar “legalidade”, mas a esquadrão de morte executou o em prol do império. Entre os numerosos mártires que foram eliminados assim, temos Chico Mendes, Dorothy Stang, Ezekiel Ramin (Brasil), Martin Luther King (EUA), Mahatma Gandhi (Índia) cuja memória permanece fresca entre nós. Todos eles agiram de tal maneira que seus opositores sentiram-se obrigados a reagir com violência mortal.
            Nós já tivemos oportunidade de analisar a práxis de Jesus em poucos detalhes em diversos momentos neste mesmo espaço. O evangelista Lucas é que apresenta um manifesto (Lc 4,16-30) que motivava a práxis jesuânica pondo-o em conflito direto com interesses imperiais. Todos os evangelhos (principalmente os sinóticos) nos contam como este pregador itinerante libertou seus conterrâneos das garras das ideologias escravizantes (exorcismos), efetuou inclusão social (curas de diversos tipos de doenças), interpretou as leis, tradições e costumes com autoridade inusitada e contou parábolas que além de questionar as tradições consideradas inalteráveis abriu novas perspectivas. Sua práxis gerou duas reações: (1) entre os populares, esperança e expectativas nunca antes vistas; (2) entre as elites e os poderosos que dominavam o povo, apreensão e temor.
            No domingo de Ramos (20.03.2016) comemoramos a entrada de Jesus em Jerusalém aclamado rei e profeta pelos seus seguidores. Estando em Jerusalém, ele foi a templo, observou tudo e organizou um movimento a fim de eliminar as operações econômico-financeiras sediadas no lugar santo. As autoridades que já estavam de olho nele desde Galileia, mas sem poder barrá-lo, por ele ter aprovação popular esmagadora, agora receberam apoio dos hierosolimitanos afetados pela ação profética de Jesus contra o templo centrado comércio. Além disso, as autoridades receberam uma oferta extraordinária de traição e entrega, da parte de um dos seus colaboradores mais íntimos: Judas Iscariotes. A similaridade entre os elementos do golpe em andamento no Brasil e a eliminação de Jesus de Nazaré, na forma da lei, é impressionante além de ser muito evidente!
            A decisão de matar Jesus foi tomada bem antes da sua execução (cf. Mc 3,6; Jo 7,1.11,53). Não foram poucas as tentativas para pelo menos sequestrá-lo ou até mesmo matá-lo (cf. Lc 4,28-30; Jo 7,30.32.44-52; 8,40.59; 11,45-54). Nós já comentamos sobre a reação que a investida do profeta de Nazaré contra as atividades comerciais no templo produziu. Pelo fato de todos os quatro evangelhos reportarem este episódio (Mc 11,15-16; Mt 21,12-17; Lc 19,45-46; Jo 2,13-24) fica claro que foi o momento de virada na perseguição do rabino Jesus. A entrada de Judas Iscariotes no cenário golpista (Mc 14,1-2; Lc 22,1-7; Jo 13,21-30) facilitou a realização do projeto dos poderosos para acabar com Jesus de Nazaré.


            
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Profeta Jesus chega a Jerusalém.

Profeta Jesus chega a Jerusalém.

Nas igrejas tradicionais que têm sua liturgia organizada em ciclos anuais, o domingo de Ramos inaugura a Semana Santa que faz memória dos últimos dias de Jesus de Nazaré. No domingo próximo, o de ramos, a entrada do Nazareno na cidade de Jerusalém, o centro da vida dos judeus, é uma das marcas principais da liturgia do dia. A história desta entrada é contada em todos os quatro evangelhos (Mc 11,1-10; Mt 21,1-11; Lc 19,28-40 e Jo 12.12-16). Os detalhes comuns das narrativas são: o jumento emprestado; os mantos e ramos usados para marcar seu caminho nesta ocasião; e a multidão entusiasmada que o aclama como rei e o apresenta como profeta.
Nos evangelhos sinóticos, Jesus, ao chegar Jerusalém envia dois dos seus discípulos para buscar o jumento. Montado nele e aclamado por uma multidão entusiasmada ele entra na Cidade Santa. A multidão tinha visto os milagres que ele operou ao longo da sua subida para Jerusalém; a “subida” é uma chave hermenêutica importante para entender a obra de Lucas. João menciona que a multidão estava testemunhando agora o episódio de ressurreição de Lázaro (cf. Jo 12,17). Sl 118,26: “Bendito o que vem em nome de Javé! Hosana nas alturas!” e Zc 9,9: “Não temas filha de Jerusalém, pois agora seu rei está chegando, justo e vitorioso” resumem os conteúdos da aclamação popular que o Nazareno recebia. João faz questão de afirmar que os discípulos não entendiam o que estava acontecendo, e que só depois da ressurreição de Jesus, à luz das Escrituras é que deram conta disso.
Sua entrada na Cidade Santa causa uma agitação, de acordo com todas as quatro narrativas. Às perguntas dos hierosolimitanos sobre sua identidade respondeu a multidão: “Este é o profeta Jesus de Nazaré da Galileia”. Os sinóticos nos dá a impressão de que essa foi a única visita de Jesus a Cidade Santa durante toda sua vida como um profeta itinerante; João, pelo contrário, faz parecer que o Nazareno teria feito outras viagens neste período. Mas, todas as quatro narrativas falam de uma entrada real esta vez. Que Jesus mandou dois dos seus discípulos para buscar sua montaria é visto pelos comentaristas modernos como, “Jesus reivindica(r) o direito régio da requisição de meios de transporte, um direito conhecido em toda a Antiguidade” (Ratzinger, 2007,17).
Vimos que a pergunta sobre a identidade de Jesus que entra na Cidade Santa produziu duas respostas: (1) ele é um rei; (2) ele é um profeta. Vale lembrar que o crime pelo qual ele foi condenado pelo império foi proclamar se Rei dos Judeus. No entanto, há algo que é muito diferente em sua entrada e a dos reis no sentido convencional do termo. Normalmente um rei entra numa cidade como conquistador, dominador, exibindo a força das armas e das tropas que tem. No caso de Jesus, seu reino não depende nos meios convencionais, isto é, armas, para sua realização. Do exercício do seu reinado e seu fim inglorioso nós vamos ouvir mais durante a Semana Santa. Logo depois da sua chegada em Jerusalém, o profeta Jesus realiza uma ação simbólica que ameaça o sistema sociopolítico-econômico e religioso centrado no templo o que torna os moradores da cidade seus inimigos (cf. Lc 23,18-23).
Para falar sobre a reação das autoridades: os fariseus, de acordo com Lucas, pediram a Jesus para calar seus discípulos. A resposta de Jesus foi: “Se eles se calarem, as pedras gritarão” citando Hab 2,11. Na versão de João, os fariseus debatiam entre si seu insucesso dizendo: “Vejam; todo mundo vai atrás de Jesus” (Jo12,19).
Pe. Kurian.

Many of the historical churches that have their annual liturgical circles well organized have the Palm Sunday at the beginning of the Holy Week that commemorate the last days of Jesus of Nazareth. On this day one of the highlights of the liturgy is the solemn entry of Jesus in Jerusalem the nerve center of Palestinian Judaismo. All the four gospels tell us the story of this entry (Mark 11,1-10; Mathew 21,1-11; Lc 19,28-40; John 12,12-16). Some details are common to all the narratives: the donkey on which Jesus rides, clothes spread in the path of Jesus as he entered the city; the enthusiastic crowd that aclaims him king and prophet.
According to the sinoptics, Jesus, on reaching Jerusalem, sends two of his disciples to get the donkey. Seated on the animal he enteres the city acclaimed by a group of enthusiasts. Many in the crowd had witnessed the miracles he worked along the way to Jerusalem. “Going up to Jersualem” is an important hermeneutical key to understand the literary project of Luke. Evangelist John makes it a point to mention that the enthusiastic crowd had witnessed the resurrection of Jesus (John 12,17). Ps 118, 26: “Blessed is he who comes in the name of the Lord! Hosana in the highest!” and Zacharias 9,9: “Fear not daughter of Sion, for your king comes, just and victorious” sum up the popular acclamation of Jesus. It is noteworthy that the disciples were not able understand what was happening and that only after the resurrection of Jesus matters were clear to them.
All the four gospels tell us that this solemn entry of Jesus in Jerusalem caused agitation. To the inquisitive jerusalemites the crowd around Jesus answered: “this is the prophet from Nazareth, Galileia”. The sinoptics make it seem that this was the only visit that Jesus made to Jerusalem during his life as an itinerant prophet, while the Gospel of John creates and impression that he did make other visits to the Holy City. But all of them insist on the royal nature of this entry. That Jesus sent two his men to requistion the donkey is seen by modern scholars as the royal prerogative, a well known ancient custom (Ratzinger 2007, 17).


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O Reino de Deus, uma semente enterrada.

O Reino de Deus, uma semente enterrada.

A casa grande ficou muito satisfeita quando enterraram Jesus de Nazaré, sem saber que tinha plantado uma semente! O Livro dos Atos dos Apóstolos nos contam como essa semente brotou, nasceu, cresce e se espalha por toda parte. Hoje nós vamos comentar resumidamente o capítulo 6 do Evangelho de João e os capítulos 6-9 dos Atos dos Apóstolos para ilustrar o ponto. É necessário dizer, antes de tudo, que a “memória” que se faz na liturgia não é uma simples recordação dos eventos do passado; fazer memória neste contexto ilumina o agir do dia a dia de hoje.

Começamos com o capítulo 6 de João (lido nesta semana), pois este é de capital importância para entender o Reino de Deus que Jesus anunciava. A história do milagre da multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) numa situação em que não tinha como aplicar a solução comercial (capitalista) causou um surto de esquemas políticos de soluções fáceis sem compromisso. Isto fez com que Jesus se distanciasse (v.15). A garantia da dignidade não se encontra no poder de um líder que manda, mas no serviço de cada um e no organizar a comunidade para o bem de todos. O reencontro de Jesus com seus discípulos “caminhando sobre as águas” (Jo 6,16-21) pode ser interpretado como a superação da ideologia capitalista do império (romano) que controlava o Mar Mediterrâneo. O texto disse que os discípulos “ficaram com medo” ao ver Jesus (v.19).

O longo discurso em seguida (Jo 6,22-59) interpreta as obras de Jesus (neste caso: a multiplicação dos pães e o caminhar sobre as águas) como sinais. O texto tem uma estrutura dialogal e passo a passo o mestre leva seus ouvintes progredirem em sua compreensão. O pão que sacia a fome corporal temporariamente é o símbolo de algo mais profundo. A tese fundamental joanina é que Jesus é Deus encarnado (cf. Jo 1,14). O caminho para viver a vida plena é acreditar naquele que Deus enviou. Acreditar nele implica mudança no estilo de viver, no organizar a sociedade e no regular a distribuição dos recursos disponíveis.

Agora, o deslocamento de foco na pregação dos discípulos, isto é, falar não de Reino de Deus que Jesus anunciava, mas pedir que acreditem na pessoa de Jesus é algo que aconteceu bem na aurora do cristianismo. A linguagem do discurso contém uma mensagem importante também para os nossos dias. É notável que ao chegar o momento da decisão, o elemento determinante para o sonho de Reino de Deus tornar-se a realidade, a opção geral foi contra Jesus (cf. Jo 6,60-71); somente um pequeno grupo deu conta de aderir a radicalidade das exigências do Nazareno.

Atos 6-9 referem a um momento de aumento dos cristãos o que motivou uma organização melhor em vista de funcionamento mais eficaz. Diácono Estevão é um dos que destacam na sua atuação missionária (At 6,8). Seus adversários, frustrados nas suas tentativas em desbaratá-lo, subornou especialistas que instituíram um processo no Sinédrio (cf. At 6,11-15). Na sua defesa (At 7,1-53) Estevão faz uma releitura do AT numa ótica cristológica e condena uso de Templo e a imagem de Deus para manter o povo submisso. Irados, arrastaram-no para fora e apedrejaram-no. Aqui entra outro personagem importante no cenário: Saulo de Tarso. Coordenou o linchamento do Diácono. Assumiu o papel de do verdugo principal dos cristãos (At 8,1-4), até que ele mesmo fosse convertido num dos missionários mais zelosos da causa de Jesus (At 9,1-30), pois na sua carreira de perseguidor chegou a perceber que o Reino de Deus é uma semente que brota e frutifica toda vez que é enterrada!




quarta-feira, 20 de abril de 2016 0 comentários

Sal da terra (Mt 5,13) - s batizadfos, a economia e a política.

Sal da terra (Mt 5,13) – os batizados, a economia e a política.

O livro dos Atos dos Apóstolos registra cinco momentos de confronto dos cristãos com interesses econômicos tradicionais (cf. At 5,1-11; 13,4-12.50-51; 16,16-24; 19,23-40). Os ritos macabros, de tom inquisitorial, que a nação brasileira vive em 2016 é, de fato, uma batalha entre dois modelos econômicos: de um lado o social desenvolvimentista do PT; e de outro, a onda neoliberal do capitalismo selvagem que o PMDB patrocina. Aqui fica claro que conhecer o capitalismo ajuda entender por que o império enterrou Jesus para nulificar o Reino de Deus.

O economista francês Thomas Piketty, assistido por equipes especializadas com acesso aos melhores bancos de dados, pesquisou durante 15 anos a economia mundial nos últimos 200 anos e escreveu “O capital no século 21” (Editora Intrínseca, RJ, 2014). O livro já é uma obra de referência em pouco tempo. Em 16 capítulos o autor conta a história do capitalismo nos últimos dois séculos, faz análises e indica seus rumos para o século 21.

A abertura na igreja a partir do Vat 2, e a recém-concluída Assembleia Geral da CNBB que deliberou o papel “cidadão” dos batizados pedem conhecimento aprofundado do mundo, o campo de atuação cristã. A intuição originária do Vat 2 ainda soa em nossos ouvidos: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angustias dos homens de hoje, sobretudo dos pobre e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Jesus; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontra eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história (GS 1).

A revista “Vida Pastoral” (Editora Paulus; versão online: http://www.vidapastoral.com.br/) em seu número mais recente (57/309, maio-junho de 2016) traz um artigo (páginas 3-12) de autoria do renomado pastoralista Nicolau João Bakker sobre o livro do Piketty, acima mencionado. Diferente das resenhas comuns, Bakker propõe um roteiro de leitura do livro para captar as idéias principais do Piketty, usando principalmente textos do próprio livro.

Nos textos do Evangelho (de João) lidos estes dias na liturgia duas imagens se destacam: o pão (que desceu do céu) e o bom pastor. A natureza metafórica da linguagem bíblica, especialmente do Evangelho de João é bem conhecida. Lembrando disso interpretamos o discurso sobre o pão (cf. Jo 6) como referindo às necessidades humanas básicas. Inicialmente Jesus recebeu aprovação da opinião pública, mas na medida em que as exigências para não faltar pão foram se esclarecendo, suas propostas foram rejeitadas exceto por grupo minoritário. A segunda imagem, a do pastor pode ser transladada à do político em nossos dias. João relata como o discurso de Jesus, “o bom pastor”, não agradou a elite tradicional (cf. Jo 10,25: “... mas vocês não acreditam em mim”).  Houve tentativas de apedrejá-lo; até mesmo de sequestrá-lo. Mencionamos estes para evidenciar a natureza contraditória das propostas cristãs às do império. A identidade do cristão, cidadão, choca frontalmente com os interesses capitalistas, pois o Reino de Deus implica a conversão a uma sociedade igualitária.



sábado, 2 de abril de 2016 0 comentários

Acreditar na ressurreição de Jesus - a força da mudança social.

Acreditar na ressurreição de Jesus – a força da mudança social.


O Livro dos atos dos Apóstolos nos conta a história fascinante de como o anúncio da ressurreição de Jesus começou a se espalhar no mundo inteiro. Esta semana (da ressurreição) a liturgia nos apresenta textos que tratam do início da pregação apostólica. Os Apóstolos foram transformados em testemunhas destemidos no dia de Pentecostes. É Pedro que recebe o destaque nos capítulos iniciais. Seu discurso (At 2,14-36) a multidão interpreta o fim trágico de Jesus de Nazaré na cruz à luz das Sagradas Escrituras. Seu sequestro, condenação e execução entre os criminosos recebem sentido de fazer parte do desígnio de Deus. Embora o império e seus colaboradores tivessem imaginado que tudo o que o profeta de Galileia representava acabaria com sua morte na cruz, aconteceu algo inesperado e incompreensível. Seus discípulos, agora, são anunciadores de uma novidade na história humana (At 2,32). A fala de Pedro sobre como as autoridades e a população rejeitaram Jesus de Nazaré, em vez de gerar hostilidade, produziu uma reação inesperada. Ao ouvir que o crucificado foi ressuscitado e é constituído Senhor e Cristo, por Deus de Israel, não poucos da multidão entrou na dinâmica de conversão e já se forma uma comunidade da fé através do batismo, para se salvar “dessa gente corrompida” (At 2,40).

Além de anunciar a boa nova de Jesus os discípulos também começam realizar obras semelhantes às do Nazareno antes de ser morto. A história do coxo que pedia esmolas no pátio do templo (At 3) é o exemplo oferecido neste respeito. Pedro e João, em vez de dar uma esmola, libertam-no e ele não vive mais dependente. Essa mudança foi efetuada em Nome de Jesus, o que causou alegria naquele que foi curado, surpresa, admiração na população e espanto nas autoridades. Pedro faz outro discurso; Jesus de Nazaré foi constituído Senhor e Cristo; foi o Deus de Abraão, Isaac e Jacó que glorificou este Jesus, o enviado de Deus que o povo e as autoridades rejeitaram; é em Nome deste Jesus que o coxo foi curado; Jesus é o novo Moisés; por fim Pedro exorta o povo ao arrependimento.

A reação das autoridades não demorou (cf. At 4). O acontecido gerou uma situação agitada. O número dos crentes em Jesus crescia. Preocupados, os governantes encarceraram Pedro e João e fizeram inquérito sobre a autoridade para mudar a situação do mendigo. Tomando a palavra, por sua vez, Pedro fez um pronunciamento surpreendente mostrando que não existia outro Nome, a não ser o do Jesus de Nazaré para a salvação da humanidade. Seus interrogadores ficaram perplexos pela força de testemunho deste pescador galileu; fizeram uma consulta particular entre si e decidiram proibir o uso do nome do Ressuscitado; ameaçaram os discípulos de castigos severos e os soltaram; eles, porém saíram do inquérito glorificando a Deus por tudo o que tinha acontecido.

Por outro lado os trechos dos evangelhos lidos neste período nos falam das dificuldades que até seus colaboradores íntimos tiveram para chegar a acreditar na ressurreição de Jesus. Em primeiro lugar o império esforçou-se para negar o fato de ressurreição com subornos e boatos (cf Mt 28,10-15). Mesmo a Maria Madalena, uma das discípulas mais próximas de Jesus não reconhece o Ressuscitado no primeiro momento (cf. Jo 20,15-16), e o machismo prevalente fez com que ela nem foi acreditada quando ela falava do seu encontro com o Ressuscitado (cf. Mc 19,6-11). Finalmente, o episódio de Tomé incrédulo (Jo 20,24-29) sinaliza a nossa resistência à fé no Ressuscitado como a força de mudança social.
 
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