Dar a vida pelos irmãos...
No dia 24 de março, faz 37 anos que Dom Oscar Arnufo Romero
y Goldamez, o Arcebispo de San Salvador, El Salvador foi assassinado enquanto
celebrava missa na Capela do Hospital Divina Providência da mesma cidade. Ele
nasceu aos 15 de agosto de 1917 em Ciudade Barrios, El Salvador. Completou seus
estudos em Roma e foi ordenado presbítero em 1943. Nos próximos 26 anos ele atuou
como pároco e chegou a conhecer a miséria profunda que assolava seu país. Em
1997 ele foi nomeado Arcebispo de San Salvador, chegou à capital com a fama de
conservador.
Foi aqui que ele passou por uma experiência de conversão
igual a do fariseu Saulo de Tarsis que se transformou em Paulo, Apóstolo de Jesus
de Nazaré. Naquele momento El salvador encontrava se preso no meio da guerra
imperialista entre os EUA e a então União Soviética; as forças governamentais e
os esquadrões da morte das elites eliminaram brutalmente qualquer oposição. A
nova esperança e o novo ânimo resultantes da recepção inculturada do Concílio
Vaticano 2 foram equivocadamente considerados “comunismo” por muitos para
complicar a situação conflituosa, cruel e fratricida. Agentes de pastoral foram
massacrados com impiedosa crueldade. Dom Romero deu conta de ler os sinais dos
tempos e tornou-se “a voz dos sem voz” em meio da selvageria salvadorenha e denunciou
a violência em todas suas formas e exigiu que poderes constituídos agissem com responsabilidade.
O martírio deste pastor bom aponta para seu ser discípulo
missionário cidadão e a sua evangélica opção preferencial pelos pobres. Já na
sua vida ele contemplava a possibilidade do suplício do mártir:
"Fui frequentemente ameaçado de morte. Como cristão não
acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho.
Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor sou
obrigado por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os
salvadorenhos, até por aqueles que me assassinarem. O martírio é uma graça de
Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o
sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade. Pode escrever:
se chegarem a me matar, desde já eu perdoo e benzo aquele que o faça" (Dom
Oscar Romero, ao Jornal Excelsior, do México, duas semanas antes de sua morte).
Desde o dia da sua morte (24.03.1980), nas vésperas da
Anunciação do Senhor, o povo de Deus o considerava um Santo (sensus fidelium).
Porém o processo da sua canonização iniciada em 1994 ficou barrado em Vaticano,
pois sua morte foi classificada como “resultado de suas opções políticas e não
por causa do seu profético e evangélico testemunho em favor dos pobres e
pequenos”. Contudo o Papa vindo da América Latina, deu prosseguimento a causa e
Oscar Romero foi beatificado no dia 23 de maio de 2015, reconhecido como mártir
pela fé, assim superando a paralisia eclesial causada por um dualismo
nestoriano. Faltou apenas a celebração da sua canonização.
"Romero é verdadeiramente um mártir da Igreja do Vaticano
II, uma Igreja que é mãe de todos, particularmente dos mais pobres". Assim
se referiu a dom Oscar Romero o postulador da causa de beatificação do bispo
salvadorenho, o cardeal dom Vincenzo Paglia. “Alguém que derramou seu sangue
por Jesus Cristo só pode ser santo. E eu fico feliz, porque o Monsenhor Romero
agora vai ser reconhecido e cultuado como santo. Isso é o que ele realmente foi
e é”, disse Maria Clara Bingemer, autora do livro “Dom Oscar Romero – Mártir da
Libertação”, publicado pela Editora Santuário. “Romero não foi indiferente nem
à dor da pobre gente, nem à guerra, nem à injustiça, nem à falta de futuro e
esperança que se abatia sobre seu povo”, opina Pe. José Beozzo o conhecido
teólogo historiador brasileiro.
Outras igrejas reconheceram o martírio do Dom Romero com
mais celeridade. Quando Bento XVI, a 17 de setembro de 2010, adentrou como
primeiro Papa a fazê-lo, o imponente portal oeste da Abadia de Westminster de
Londres teve que passar por sob a estátua de Oscar Romero perfilada ao lado do
pastor batista Martin Luther King, de Mahatma Ghandi, e de outros mártires do
século XX, ali representados.

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