A demonologia do Antigo Testamento
Hoje nós vamos
examinar a linguagem que o AT usa para falar do seu entendimento da presença do
mal na realidade humana. A primeira observação é que o AT cultiva um dualismo
moderado; quer dizer, tudo, inclusive o bem e o mal vêm de Deus. Nós já vimos uma
intuição fundamental: “... os desígnios do coração humano são maus desde a sua
infância” (Gn 8,21); porém essa é moderada por outra, de força igual: “Se
aceitamos de Deus os bens, não devemos também aceitar os males?” (Jó 2,10). É
importante notar que a tradição judaica foi influenciada pelos imperialistas persas,
gregas e romanas até chegar o horizonte apocalíptico em que Jesus de Nazaré
atuou.
Na demonologia do
AT há termos genéricos para designar demônios coletivos (os demônios do
deserto, divindades de outros povos, divindades ligadas a morte, peste, doença,
epidemias etc.) e nomes próprios para designar os demônios individuais (Azazel, Asmodeu, Beliya’al, Ba’al Zebub
etc.). A serpente, o Leviatã e os serafins recebem menção especial. A serpente,
com seu simbolismo muito diversificado nas mitologias, representa na Bíblia, a
encarnação da ordem contrária a Deus. Leviatã representa o poder caótico das
águas primordiais enquanto os serafins são criaturas celestiais a serviço de
Javé (cf. Is 6,2.6).
O Satanás:
adversário, inimigo, acusador, promotor etc. tem sua origem nos tribunais. Como
a Israel se formou a partir de vários grupos de diferentes culturas e lugares,
assumiu os traços de satanás que cada povo cultivava, incorporando-os na sua
demonologia progressivamente. No livro de Jó satanás está entre os filhos de
Deus (Jó 1,6). Podemos ler em 1Cr 21,1 o satanás está a serviço de Deus como
aquele que executa o mal. O livro de Eclesiástico apresenta satanás como
adversário, o inimigo. O verbo “satanizar” é usado com significado de odiar,
hostilizar ou acusar como lemos no Gn 27,41. Em resumo é possível dizer que o
AT não conhece um poder do mal absoluto e contrário a Deus.
A religião dos persas (zoroastrismo) é baseada na guerra eterna
entre Ahura Mazada (o bem, a luz, a
verdade e a vida) e Angra Mayiniu (o
mal, a mentira, as trevas, o caos e a morte). Judeus entraram em contato com o
zoroastrismo depois que Ciro derrotou os Babilônios em 539 a.C. Os persas creditaram
os males da vida a demônios maléficos. Ao lado desses havia demônios bons como
querubins que guardavam palácios e templos etc. Estes passaram para o judaísmo
e foram equiparados aos anjos protetores.
A opressão dos gregos a partir de 332 a.C. deu um novo impulso
à demonologia judaica. O livro de Tobias (deste período) já fala em exorcismo.
Expulsar os demônios ocupou um lugar importante na prática libertadora de
Jesus, pois ele comungava com seu povo a crença na ação das forças destruidoras
(demônios, satanás etc.). As ideias do Platão (429-377 a.C.) influenciaram a demonologia
grega: há uma série de demônios entre o mundo das pessoas e o olimpo, o monte
das divindades; a habitação natural dos demônios seria o ar; eles servem como
intermediários entre o céu e a terra; entre eles têm os bons e os maus.
Recorria-se à magia e à bruxaria para proteger se dos demônios malignos.
No período altamente conflitiva dos selêucidas (séc. 2 a.C.)
os judeus passaram a interpretar a sua condição em linguagem teológica como uma
grande batalha cósmica – é a cosmovisão apocalíptica judaica no tempo de Jesus.
E por fim a crueldade romana contribuiu ainda mais para que os judeus vissem
satanás e seus demônios agindo nas forças do reino do mal que vinha de Roma.

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