quarta-feira, 9 de agosto de 2017 0 comentários

Sabedoria e a força de resistência

Sabedoria e a força de resistência

O Livro de Sabedoria de Salomão é mais um exemplo de esforço do povo judeu para resistir ao domínio cultural e econômico-financeiro quase esmagador dos regimes helênico e romano durante os séculos 1 a.C e 1 d.C. A obra manifesta capacidades extraordinárias do povo judeu: profundo conhecimento das tradições judaicas; um notável conhecimento de aprendizado grego, uma religiosidade e compromisso intenso com o Deus de Israel (cf. 3,9). Diante do avanço imperialista aniquiladora do judaísmo, o autor procura persuadir seus companheiros a permanecerem fiéis à sua antiga fé no Deus da revelação, ao mesmo tempo aproveitarem ao máximo o que o helenismo tinha a oferecer.

Em 331 a.C. Alexandre, o Grande, construiu uma cidade portuária na costa mediterrânea do Egito a qual deu seu nome. Em pouco tempo Alexandria se tornou o mais importante centro cultural e educacional do mundo helênico com uma população judaica numerosa. Embora os judeus fossem permitidos manter sua identidade e eles participassem na vida cultural efervescente alexandrina, sua insistência em se apegar a um Deus nacionalista gerou polêmicas e perseguições. Diante das pressões multifaces aniquiladoras da identidade judaica, muitos foram seduzidos a abandonar suas tradições. Em resposta a essa crise é que foi escrito o livro de Sabedoria.

O autor não nos fornece dados biográficos, porém é possível identificá-lo com um pensador religioso semelhante ao Coélet e ao Sirácida. Ele participa vivamente nos debates intelectuais do seu dia, baseando-se nas tradições judaicas para dar sua resposta. Entrementes, ele não se limita ao público judeu, mas convida a todos para responder ao amor do grandioso e generoso Deus. Sua estratégia combina a fé tradicional judaica com modos de expressão e conceitos gregos. Seu sucesso na elaboração dessa extraordinária síntese efetivamente tem enriquecido a humanidade toda.

O início do regime romano no Egito (28 a.C.) é apontada como a época da redação do Livro de Sabedoria de Salomão. Que ele foi composto em grego levou Martinho Lutero não aceitá-la entre os livros “inspirados” na sua Bíblia, mas o livro é incluído na Bíblia dos cristãos desde a antiguidade. O Livro é um exemplo de um autor bíblico que levou a sério a cultura de sua época. Ele usa uma espécie de exortação que visa convencer as pessoas a seguirem certa linha de conduta. Outra técnica literária que ele usa é o flashback, a técnica muito usada nos filmes e a televisão hoje; repetir ou aludir na segunda parte do livro ao que foi falado na primeira parte do livro. Os estudiosos chegam a identificar quarenta e cinco exemplos desta, o que afirma tanto a unidade do livro como o espantoso talento literário do autor.

Outra técnica de uso comum no livro é a ‘inclusão’. A repetição da mesma palavra-chave ou expressão chave no começo e no final de uma seção para demarcar as unidades distintas da estrutura da obra. Um bom exemplo ocorre na repetição da palavra “justiça” nos VV.1 e 15 do capítulo 1. A técnica literária de ‘diatribe’, um método de argumentação em que se cria um oponente imaginário e passa a debater com ele. O capítulo 6, 9-11 apresenta o autor da Sabedoria se dirigindo a um publico imaginário.

São dois níveis discerníveis da dimensão libertadora no Livro de Sabedoria de Salomão; diante da hostilidade dos não judeus e o desânimo e a apostasia dos judeus o livro representa um exemplo de resistência às pressões imperialistas de domesticar o povo judeu. O autor escreve com bastante criatividade para defender o valor e a integridade de sua fé e de suas tradições. Com habilidade ele demonstra a compatibilidade da religião judaica e da cultura com elementos essenciais da cultura dominante. Sua insistência em afirmar que a sabedoria é um dom de Deus e não a realização da inteligência e da razão humana é louvável. A sabedoria autêntica é aquela que reconhece a soberania divina.
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sexta-feira, 4 de agosto de 2017 0 comentários

Estratégias de sobrevivência.

Estratégias de sobrevivência.

“Eclesiastico/Sirácida/Sabedoria de Ben Sira” é um dos livros sapienciais encontrados na Bíblia da tradição católica, assim como os grupos judeus falantes de grego tinham o incluído em seu cânon de escrituras. Mesmo não aceitando sua canonicidade, muitas igrejas da tradição de reforma, valorizam-no como escrito instrutivo e edificante.

Diferente dos outros livros do AT o autor se identifica especificamente (cf. 50,27). Embora fosse da família de sacerdotes, era um “escriba” que escolheu prestar alguma espécie de serviço ao governo e/ou dirigia uma escola para filhos de famílias bastadas e influentes de Jerusalém, (cf. 51,23). Era um “professor respeitado” da sua comunidade, ao mesmo tempo seus comentários sobre as mulheres que refletem a mentalidade e a perspectiva típicas do mundo antigo orientado para os homens, deixam muitos agastados hoje! Provavelmente ele é o mais frágil autor bíblico, pois é muito criticado por ser tão sincero e ingênuo; por isso há uma atraente vulnerabilidade humana cercando o autor. Não há como negar que sua obra contém uma síntese consistente e coerente dos ensinamentos sapienciais.

Há um consenso entre os estudiosos que a obra foi completada por volta de 180 a.C. em Jerusalém, em hebraico, porém seu neto traduziu o livro para o grego no ano 130 a.C. Palestina tinha passado das mãos dos ptolomeus egípcios às reis seleûcidas de Antioquia. Modificações introduzidas na economia puseram em perigo a unidade e a identidade da comunidade judaica, que se mantinha devido ao seu compromisso com a ajuda mútua e as redes de apoio. Os reis gregos permitiram, a princípio, que os judeus conservassem seus próprios costumes e sua religião, mas exerciam sutis pressões a favor da adoção dos hábitos gregos. As reações dos judeus a esse desafio variava entre aceitação entusiástica ou resistência e rejeição encarniçada.  

Sirácida identifica as duas crises enfrentadas pelo seu povo: destruição dos laços familiares e tribais tradicionais pelas políticas econômicas predatórias dos gregos; o atrativo dos modos de ser e da cultura gregas. Frente a primeira ele enfatiza a formação e manutenção de vínculos familiares e da solidariedade comunitária. Além disso, é imperativo assentar todos os relacionamentos humanos no nosso relacionamento com Deus por meio da imagem da Sabedoria (personificada). Diante da segunda ameaça o autor propõe o uso de recursos e materiais gregos para exprimir ensinamentos judaicos; ademais ele afirma a soberania divina a fim de se contrapor à ênfase grega na razão humana: “O princípio da sabedoria é temer ao Senhor”.

A genialidade do Sirácida se revela em sua capacidade de discernir os perigos que seu povo enfrentava sob a opressão imperialista. Seu livro é um modelo para todo povo ameaçado por expansionismo capitalista imperial. Ele propõe estratégias para combater a deterioração da família e os laços humanos, e demonstra convincentemente a continuidade da viabilidade e da relevância da cultura e da religião tradicionais de seu povo.

Nos dois movimentos da resposta às crises que seu povo passa o autor revela uma dimensão libertadora. São estratégias para ajudar seu povo a sobreviver e reagir às pressões opressivas espoliativas do regime helênico. Sirácida usa as formas literárias típicas dos sábios como, provérbios, hino de louvor, discursos, súplicas, listas ou onomásticas e a narrativa didática. O livro apresenta três grandes divisões: 1,1-23,28; 24,1-43,33; 44,1-50,24 e, um prefácio, uma conclusão com apêndices (50,25-51,30).

A grande obra de cinquenta e um capítulos recebeu apenas um “olhar superficial” aqui. O livro aponta para as direções ulteriores que a religião judaica seguiu, isto é, a sobreposição e fusão das tradições sacerdotal, sapiencial, e profética etc. O trabalho de Sirácida representa um esforço ousado e criativo de adaptar a religião e a sabedoria de seus ancestrais a uma nova situação histórica, suscitando a esperança de libertação e a luta para alcançá-la.


quarta-feira, 19 de julho de 2017 0 comentários

O sofrimento dos inocentes...

O sofrimento dos inocentes...

Diante de experiência da dor surge a pergunta: “por quê?”. Ela se torna agudíssima perante os sofrimentos de inocentes. Das civilizações antigas como a egípcia, a mesopotâmica e a indiana, indícios literários de como este, o sofrimento humano, foi captado, têm chegado a nós. Na tradição bíblica nós herdamos o livro de Jó que desenvolve uma reflexão sapiencial sobre o sofrimento de inocente, é disso que nós vamos tratar hoje.

A imagem de Deus pressuposta no livro de Jó é a de alguém que se relaciona com o ser humano, ainda que essa relação não fosse descrita com a palavra aliança. Jó chega a questionar este Deus sobre sua incompreensível experiência de vida que passa por sofrimento injusto. O livro é considerado ‘sapiencial’, pois a história de Jó funciona como uma parábola, uma maneira sapiencial típica, de proceder literário. O texto, em toda sua complexidade, faz com que as perguntas de Jó tornam-se nossas; nós saímos de sua leitura, imersos na perplexidade e na incerteza, de fato!

Embora a história de Jó tivesse sido ocorrido na época pré-mosaica, os estudiosos tendem datar a redação da obra no período exílico (587-559 a.C) ou do começo do período pós-exílico. Este período caracterizou-se por uma severa crise socioeconômica, pelas medidas novas que a administração imperialista persa introduziu na Palestina. Os opulentos agiotas judeus aproveitaram do momento, porém nem todos os ricos aderiram essa lógica cruel e escravizante do novo regime econômico, mesmo sofrendo a bancarrota em razão da sua piedade e da sua fidelidade aos requisitos da aliança.
Numa tal situação perguntas sobre a justiça de Deus e do significado do sofrimento dos inocentes se tornam urgentes. O indivíduo que age com fidelidade a aliança é vítima do infortúnio. Enquanto isso o que segue a lógica do enriquecimento e que explora habilidosamente seus compatriotas em apuros, em seu próprio benefício, fica ainda mais opulento e ocupa lugar de honra na sociedade. Onde está a justiça de Deus e por que “Jó” tem que viver na humilhação?

O autor do livro de Jó pode ser visto a si mesmo e ao seu papel refletido nos três amigos de Jó que vêm ensinar e iluminá-lo. Por pertencer à elite de sua comunidade confere-lhe a vantagem da instrução e tem condições de tratar do que está perturbando sua comunidade. Ele exerce também o papel de pastor, oferecendo consolo e orientação a seu povo, pois acima de tudo, se vive um momento de uma crise espiritual; as convicções tradicionais passam por revisões. Portanto, “Jó, o inabalável”, proporciona um modelo de fé e fidelidade, servindo como um farol de esperança.

Na sua forma literária o livro é considerado “sui generis” (impar em sua própria categoria). O autor se mostra um poeta habilidoso, capaz de usar a seu bel-prazer várias formas literárias a fim de tratar das questões e problemas da vida humana. O hino de louvor, o lamento individual, a linguagem de causas e o discurso, entre outras, destacam-se na obra. Embora o livro parecesse seguir uma clara lógica narrativa, as reviravoltas e mudanças de rumo desconcertantes nele existentes deixam o leitor perplexo. De acordo com um comentarista recente “O livro de Jó é uma sofisticada obra-prima destinada a envolver o leitor nas ambiguidades e incertezas do sofrimento (de Jó)”.

Por não encontrarmos nenhuma resposta clara e inteiramente satisfatória às nossas perguntas no livro, vou concluir com a paráfrase do Salmo 5 que o poeta nicaraguense Ernesto Cardenal fez como um exemplo de lamento dos povos latino-americanos:
“Ouve minhas palavras, Senhor
Ouve meus gritos
Ouve meu protesto
Porque não és um Deus amigo de ditadores,
nem partidário de sua política
a propaganda deles não o influencia
E não dás as mãos ao malfeitor...”.




sexta-feira, 14 de julho de 2017 0 comentários

Os pequeninos privilegiados...


Os pequeninos privilegiados...

Hoje as pesquisas sobre a linguagem e suas implicações estão avançando muito e também rapidamente. Neste contexto a Bíblia, o livro sagrado dos Judeus e Cristãos, e a sua linguagem passam por análise minuciosa como uma obra literária. O entendimento e a interpretação da Palavra de Deus nas palavras dos homens têm dado largos passos nos últimos tempos por causa disso. Na sua totalidade este livro pode ser considerado uma meditação bem elaborada sobre a condição humana. Ele contém múltiplos gêneros literários, pois nenhuma situação humana é excluída do horizonte desta ‘contemplação’. Ao mesmo tempo essa reflexão é motivada pela consciência de Deus presente e atuante na história humana e propõe uma ideologia que pode até parecer tolice!

Geralmente a história humana conta a versão dos vencedores poderosos que eliminam forçosamente toda resistência à sua dominação. É paradoxal, dentro desta mesma história atua outra corrente que vai muito além da repressão dos mais fracos. A narrativa desta começa no Gn 12 com a história do chamado de Abraão para sair da sua terra e ir para uma terra prometida, dando início assim a algo novo na história humana. O horizonte dessa nova iniciativa é: “Javé viu que a maldade do ser humano crescia na terra e que todo projeto do coração dele era sempre mau” (Gn 6,5). O último episódio narrado neste respeito é “A Torre de Babel” (cf. Gn 11,1-9), um projeto grandioso que obrigou a Javé “confundir a língua” dos homens. 

Abraão, quando foi chamado para iniciar o novo projeto, já era de idade avançada, porém ele acreditou na promessa de Deus e saiu da sua terra para seguir um caminho desconhecido para o futuro. O resto do livro de Gênesis conta a história dos patriarcas que levaram para frente este novo projeto. O restante dos livros do AT narram os caminhos diversos e diversificados que este projeto novo percorreu ao longo das gerações até chegar “a plenitude do tempo” (Gl 4,4) nas palavras do Paulo Apóstolo.

O Evangelho de Mateus apresenta Jesus de Nazaré como filho de Abraão através da genealogia (cf. MT 1,1-17). Os evangelhos nos contam que este Jesus, além de ser um taumaturgo era um narrador de histórias encantadoras; ele passou sua vida do profeta itinerante, na Galileia, entre os mais fragilizados e os vulneráveis. Com sua práxis ele gerou entusiasmo inusitado no meio dos oprimidos, o que assustou as autoridades que se sentiram obrigados a eliminar este pregador inofensivo (aparentemente) que falava das aves do céu e os lírios do campo. Empregou a máxima violência, o império o crucificou por ser “Rei dos Judeus”.

Entretanto, nós não temos notícias de Jesus organizando ou inspirando uma revolução armada ou até mesmo resistência violenta contra ninguém, mesmo tendo uma representação bastante variada das camadas da sociedade palestinense entre seus seguidores. No que se refere à acusação de ser “rei”, os evangelistas nos informam que ele realizou uma entrada em Jerusalém aclamado rei pela multidão (cf.Jo 12,12-16) e mais adiante ele responde ao governador romano que seu reino não é deste mundo (cf. Jo 18,28-37).

O paradoxal na história da salvação/redenção/libertação está aqui: entrar no Reino de Deus que Jesus de Nazaré anunciava durante sua vida pública e agora no final da vida qualificada como “não é deste mundo”. Como entender este projeto? Na liturgia do domingo passado (09.07.17), na primeira leitura o profeta Zacarias convidava a cidade de Jerusalém a se alegrar pela chegada do seu rei montado num jumento(Zc 9,9-10), ao contrário dos reis que montam no cavalo, o animal da guerra. O trecho do evangelho lido na mesma liturgia apresentou Jesus agradecendo ao Pai por “... (esconder) estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25-30).



quarta-feira, 5 de julho de 2017 0 comentários

A libertação, sabedoria em nossos dias.

A libertação, sabedoria em nossos dias.

Para o mundo, cada vez mais plural e globalizado, em que a grande maioria da população se sente vítima, a eleição do argentino, Mário Jorge Bergoglio (*1936), no dia 13 de março de 2013 para a Sé de Roma como seu 266º Bispo foi um divisor das águas. Das mudanças às quais seus gestos simbólicos nos primeiros momentos de assumir o ministério Petrino assinalavam, a imprensa regalou avidamente a população em toda parte.

Agora, quatro anos depois, as edições recentes das revistas católicas estão empenhadas em perfilar o Papa Francisco, este sábio “do fim do mundo” e sua práxis paradigmática. O Papa não para de nos surpreender. Assim como Francisco de Assis, cujo nome ele escolheu para singularizar sua nova missão, o novo Papa herdou um mundo em que a humanidade e a própria igreja se encontravam em “ruínas”. O consenso que aparece sobre ele até agora é que ele é “alguém que mira o céu com os pés no chão, tendo-os por vezes feridos e enlameados”.

Este redator-chefe documento de CELAM (2007) que “exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”, age para efetuar a transformação na pastoral que leve a Igreja às periferias da vida humana, pois ele se aborrece com o clericalismo e denuncia a “autorreferência de muito eclesiásticos”. Na verdade, seus gestos, signos e a sua própria linguagem são interpelações para a teologia de hoje!

Papa Francisco evidenciou em diversas maneiras que é Jesus que deve ocupar o centro da igreja e do mundo; a sua escolha do nome de Francisco assinalava todo um programa que visava o amadurecimento da igreja, saída do Vat2 da sua infância, para lutar contra um século vencido pela mundialização da injustiça social. Percebe-se que ele vê seu ministério de Bispo de Roma como tarefa de construir pontes para se aproximar das pessoas e da natureza, mais do que construir muros para proteger os privilégios de uns poucos ou erguer paredes para excluir os muitos necessitados!

Sem demora ele se pronunciou contra a sociedade do consumo, do descarte e da degradação do meio ambiente em que vivemos; sua proposta é a alternativa de acolher as palavras de Jesus como fonte da vida. Ao mesmo tempo ele é sensível das situações em que a fragilidade humana impede a concretização ideal dos princípios evangélicos. Desde cedo ele adotou o caminho da misericórdia e da integração.

O sínodo sobre a família (2014-5) e a Exortação Apostólica pós-sinodal “A Alegria do Amor” constituem um momento pivotante para a teologia, pois nesse, assim como nos documentos anteriores Francisco introduz um paradigma epistemológico novo: conhecer, compreender, curar; não conhecer para dominar, mas conhecer para curar/libertar/salvar. O Papa tem consciência da complexidade que atravessa a nossa realidade; as novidades que a tecnociênca nos proporcionam podem enriquecer ou empobrecer o ser humano. Não há como resolver nossos problemas de maneira simplista e nos preconiza a empregar uma metodologia oriunda da teologia encarnada, missionária, integradora e em movimento.

É crucial sua retomada de modelo da Igreja “povo de Deus” para substituir o modelo piramidal. Para Francisco a Igreja circular, a circularidade trinitária é o paradigma por excelência, pois se alinha com as exigências do mundo e combina melhor com sua missão libertadora: de uns em direção a todos e de todos em relação a cada um, sem esquecer que “o todo é superior à parte”. O modelo proposto aqui não é a esfera (circulo), mas o poliedro, pois este reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm sua originalidade.

Eis um sábio que propõe uma alternativa que tenciona restabelecer a sanidade humana e o equilíbrio do habitat humano ameaçado pelas forças totalizantes e a ditadura do relativismo.






quarta-feira, 28 de junho de 2017 0 comentários

A parábola do rico esbanjador e do pobre Lazaro

A parábola do rico esbanjador e do pobre Lazaro

As palavras “crise”, “crítica”, “crítico” e outras derivadas do verbo grego krinein apontam para o aspecto dinâmico (o de ‘decidir’ a cada momento) da realidade humana. Neste sentido a fala sobre a crise no Brasil (há 28 anos que eu ouço tal discurso), é legítima. De fato, o ‘Reino’ que Jesus de Nazaré anunciava exigia decisões dos seus ouvintes, continuamente; as decisões em prol do Reino de Deus feriam os interesses capitalistas imperialistas romanos que eram baseados na ganância irrestrita. Os poderosos do império, sempre atentos a qualquer sinal da tentativa de subverter seus esquemas, eliminavam-na diretamente com força brutal.

Queremos mostrar o momento brasileiro atual como análogo ao que Jesus viveu no seu tempo e que, hoje, seus seguidores são autorizados a ler e interpretar criticamente sua mensagem, e agir acertadamente dentro do próprio contexto histórico. Com efeito, nós presenciamos, nos últimos meses, as múltiplas posturas adotadas pelos que se consideram “cristãos” ante o processo político em percurso no país.

Propomos uma leitura rápida da parábola de “o rico esbanjador e o pobre Lázaro” (Lc 16,19-38) como a denúncia radical que Jesus faz ao imperialismo. Tal leitura serve também como fonte duma reflexão sobre o momento atual e a denúncia que o Nazareno faz, como chave para compreendê-lo. Claro, a parábola é um gênero literário singular; sua leitura fundamentalista como uma descrição do que acontece após a morte, seria um exercício de ingenuidade e alienação fúteis.

È importante notar que o comportamento imperialista não tem se modificado muito desde o tempo de Jesus. Ainda hoje os poderosos festejam escravizando os trabalhadores e privando os cidadãos comuns dos seus direitos humanos. Os pobres ficam para fora de “portão”, muitos “deitados”, sentindo-se impotentes diante da força dominadora do poder movido por ganância; e “cães os lambendo os feridos”! Na história que Jesus conta há um diálogo intrigante entre pai Abraão e o rico, este insistente para que Abraão aja em seu favor enquanto aquele aponta para a vida como algo impar e o caráter dos seus momentos como irrepetíveis.

É necessário reafirmar que o objetivo da parábola não é descrever o céu nem o inferno, mas condenar a indiferença dos ricos e poderosos.

No meio desta sociedade injusta e cruel o espírito de Deus impele Jesus para os últimos, para os que vivem e morrem excluídos como mendigo Lázaro. O evangelista Lucas captou bem a direção que Jesus tomou na sua vida e a expressa em 4,16-22. Na sinagoga de Nazaré Jesus aplica a si próprio as palavras do Profeta Isaias 62,1-2. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos, e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”.

Os quatro grupos de pessoas mencionados aqui: os pobres; os presos; os cegos e os oprimidos resumem e representam a primeira preocupação, aliás, os que mais estão no coração de Jesus. Não podemos esquecer que Jesus fala em promover uma vida nova e libertada entre os últimos. A “opção pelos pobres” não é uma invenção de teologia alguma, nem uma moda posta a circular depois do Concílio Vaticano2, mas uma opção do espírito de Deus. É olhar para a vida a partir dos últimos!

O “império do dinheiro” é neste momento o grande adversário do projeto humanizador de Deus no mundo inteiro. Nós no Brasil estamos sentindo suas punhaladas, depois que o governo legítimo foi substituído. A indignação profética dos seguidores de Jesus diante dessa realidade é mais bem aplicada para despertar-nos da passividade da indiferença (ou o sentimento de impotência?) e dar ouvido a grito de Jesus: os últimos devem ser sempre os primeiros!



quarta-feira, 21 de junho de 2017 0 comentários

A experiência do mundo, a experiência de Deus

A experiência do mundo, a experiência de Deus

Gerhard von Rad (1901-1971, o estudioso alemão do AT, opinou que a grandeza de Israel tenha decorrido do fato de não ter mantido a fé e conhecimento apartados. As experiências do mundo sempre foram para ele também experiências divinas, assim as experiências de Deus eram para ele experiências do mundo.

Neste segundo momento da nossa reflexão sobre a sabedoria como o caminho para a libertação/salvação, no momento em que o país vive a mudança de democracia concedida a democracia representativa do povo soberano, nós vamos olhar rapidamente ao conteúdo do livro de Provérbios. É uma coletânea de ditos atribuídos ao Salomão e também aos sábios diversos como Agur e Lemuel. Além de uma introdução extensa o livro tem um poema que descreve “a mulher/esposa ideal” no final. È possível afirmar que este livro representa uma das principais maneiras pelas quais a academia israelita respondeu à crise de identidade no período exílico e pós-exilico. E os desafios do momento eram a sobrevivência e o assentamento dos alicerces do futuro.

São diversas as vozes que se fazem ouvir ao longo dos trinta e um capítulos deste livro: pais, mestres, sábios e reis que exibem seu conhecimento. As palavras dos sábios de outras terras e culturas enriquecem a coletânea ainda mais. Mas, todas essas vozes são apenas ecos e variações da voz que domina e permeia toda a compilação – a voz da Sabedoria.

Percebe-se a personificação da sabedora como mulher no livro. Esta técnica permitiu que os autores sapienciais unificassem os vários tipos de sabedoria. Contudo, é possível falar de uma espécie de moldura feminina a partir das imagens empregadas nos capítulos 8 e 31,10-31. Nos períodos, exílico e pós-exílico, com o fim da monarquia, o lar emergiu como o loco central da identidade e vida da comunidade judaica. Há autores que interpretam o papel central da mulher no capítulo 8 como a metáfora do papel de Deus como Genitor Divino que cria e mantém a morada da comunidade humana – o mundo habitado.

Entrementes, não se esqueceu dos contrapontos, pois as imagens femininas inventadas pelos homens tendem perpetuar os estereótipos da mulher como madona ou prostituta; esta, a fonte do mal, e aquela a fonte do bem. No entanto, comentaristas veem na figura da “Sabedoria”, muito além de uma típica parceira potencial de casamento; a valer, um caráter autônomo que convida todos à plena existência humana. Ela é a ponte entre Deus e os seres humanos, e entre os seres humanos e o mundo criado.

São duas coletâneas de provérbios atribuídos a Salomão (10,1-15.33; 16,1-22,16 e 25,1-29,37). Na primeira, o otimismo permeia ao lado de uma serena confiança no regime justo e leal de Deus no mundo: “Em todo lugar os olhos de Javé estão vigiando os maus e os bons” (15,3). O livro traz também o conselho dos sábios não israelitas. As afinidades com a sabedoria egípcia são particularmente fortes. Além disso, nós temos palavras de outros sábios, como por exemplo, 24,29 que é uma versão negativa da regra de ouro que aprece em Mt 5,38-45; 7,12. “Nunca diga: ‘Vou fazer para ele o mesmo que ele me fez. Vou lhe pagar como ele merece’”.

 “No mundo existem quatro seres pequeninos que são mais sábios do que os sábios: as formigas, povo fraco, mas que recolhe comida no verão; as ratazanas, povo sem força, mas que mora nas rochas; os gafanhotos, que não têm rei, mas avançam todos em ordem; as lagartixas, que se podem pegar com a mão, mas penetram até em palácios de reis” (30, 24-28). Por fim, no capítulo 31 as imagens femininas dos capítulos 1-9 voltam a nos propor uma estratégia de libertação: “Abra a boca em favor do mudo e em defesa dos desfavorecidos. Abra a boca e dê sentenças justas, defendendo o pobre e o indigente” (31,8-9). 



quarta-feira, 14 de junho de 2017 0 comentários

A sabedoria um caminho para a libertação

A sabedoria um caminho para a libertação

Finalizando seus comentários sobre o livro “Voltaire, o homem dos quarenta escudos” Jacir Alfonso Zanatta escreveu que (atualmente) “... Para o povo brasileiro vale a seguinte máxima: passa-se a vida esperando por políticos honestos, e, esperando, se morre” (O Estado, 10.06.2017, B4). Será que nós somos condenados a este destino? De fato, no livro de Eclesiastes (Coélet) temos uma posição teológico-filosófica que ajudou o povo de Deus atravessar uma fase na sua história que assemelha muito a situação brasileira de dominação brutal pelos interesses econômicos nefastos.

Durante os séculos 4º-3º a.C Palestina passou sob o domínio grego. Os ptolomaicos mantiveram a política fiscal dos persas e aperfeiçoaram-na com a introdução de impostos anuais por quantias de moeda corrente fixas. Para um o povo agrícola que pagava seus impostos em quantias proporcionais da sua produção anual, o novo sistema foi desastroso. A inovação grega não levou em conta as variáveis que influenciam a produção na lavoura, não poucos tiveram que vender seus bens, até mesmo membros da família para pagar os impostos!

A crise é econômica, política e religiosa. Diante desta sensação de impotência e de incapacidade de melhorar as coisas, o livro de Eclesiastes foi a resposta à decadência da sociedade palestinense. Este livro, de apenas doze capítulos, é complexo em sua estrutura, concentra em temas sapienciais e usa o método de observação e na experiência. No final das suas críticas acerbadas às pretensões humanas Coélet chega a uma primeira conclusão desafiadora e desestabilizadora sobre os empreendimentos humanos: “Tudo é fugaz, uma corrida atrás de vento” (1,14.17; 2,11.17.19.23.26; e assim por diante). A experiência como fonte de conhecimento o levou a uma segunda conclusão: um grande número de perguntas não tem respostas; as aparentes injustiças e arbitrariedades da vida não têm solução. Os homens não podem “compreender a obra que Deus realiza do começo até o fim” (3,11). É uma “espiritualidade sapiencial libertadora”, assustadora nas suas exigências de aceitação da limitação e da ignorância humana que o autor propõe!

Todavia Coélet conduz seu povo a uma nova compreensão de seu Deus e usa sua capacidade linguística e a “dialética” para sabotar alguns dos pressupostos e princípios da economia monetária helênica assoladora para seu povo. No plano religioso ele contesta e relativiza os ensinamentos tradicionais. Aqui surgem umas perguntas vitais (cf. 2,11-16). Contudo sua linguagem dialética que justapõe o positivo e negativo da experiência, exorta seus leitores aceitar a bondade da criação (cf. 2,24; 3,12-13.22; 5,17-18; 8,15; 9,7-9; 11,9). Ao mesmo tempo, ele afirma que o homem é incapaz de reter ou possuir qualquer ‘lucro’ de seu trabalho! Sem embargo, é necessário caminhar à presença Daquele que não pode ser conhecido, mas apenas reconhecido com assombro e reverência. Aceitar as trevas, se render ao mistério e por fim renunciar ao mais caro e mais profundo desejo do coração humano – entender a vida!

Com o “caráter comercial” do seu linguajar, Coélet evita atacar diretamente as estruturas econômicas predatórias do imperio. Ainda assim, a matemática, um elemento central para a mentalidade do mercado, é usado para expor a insensatez da “sabedoria” das estruturas econômicas opressoras. “Mais vale um bocado com lazer, do que dois bocados com fadigo, correndo atrás do vento” (4,6). Assim Coélet ataca a sabedoria vinculada ao sistema helênico com sua opressão dos pobres, o esforço competitivo, e a busca irrefletida do ganho material. Além disso, a própria estrutura do livro, com suas divisões baseadas nos refrões, nas repetições, mostra que o autor sagaz usou padrões matemáticas para criticar o materialismo prevalente.

Desta maneira, Coélet propõe uma espiritualidade, diferente daquela centrada no culto de Javé no templo de Jerusalém (5,1), uma que permita a sobrevivência naquela época dramática.



quarta-feira, 7 de junho de 2017 0 comentários

A política como lugar teológico

A política como lugar teológico


Cabe uma reflexão teológica sobre a efervescência social que o Brasil vive hoje. Propomos uma leitura rápida dos Salmos 105 e 106 (um díptico) que são uma releitura da história de Israel, como um modelo dessa. O Deus da Aliança na sua constância e o ser humano na sua inconstância, são as chaves que o salmista usou na interpretação da história diante da desgraça do exílio babilônico. Para a leitura dos textos, recomendamos a “Bíblia do Peregrino” pela riqueza da sua exegese, ou as edições “Pastoral” por serem traduções brasileiras. Efetivamente as duas usam muitas técnicas para auxiliar numa leitura popular e a fácil compreensão dos textos.

O Salmo 105 começa como um hino que visa celebrar a caminhada histórica do povo, a quem Deus se revela caminhando junto. A introdução (1-6) é uma a convocação para dar graças ao Senhor. O tema central é anunciado logo (7-11): o Deus que governa a história é o Deus da promessa. Foi um pequeno grupo humano (12-15), que, guiado pelo profundo instinto de liberdade, não se deixa escravizar por ninguém que começou essa caminhada histórica. Neste impulso de ser livre já está presente o Deus libertador. A pessoa de José (16-22) simboliza a história de todo povo escravo; ele se torna o portador da vida nova. O período da vida no Egito é lembrado, mencionando os líderes da libertação (23-27). As sete pragas no Egito (28-38) são vistas como testemunha do conflito, a luta pela libertação, da qual Israel sai vitorioso. Com Deus no seu lado o povo se torna invencível! No entanto, o deserto é o caminho para a libertação (39-41); o deserto é o lugar onde o povo conseguirá construir uma história e sociedade novas, desde que se mantenha fiel ao projeto de Deus. Esta leitura da história procura suscitar fé e esperança nas pessoas.

O Salmo 106, complementa o anterior, pela lembrança das falhas humanas nessa história. No estilo próprio da linguagem bíblica o autor resume essas em sete ‘pecados’. Já na introdução (1-6) a geração presente se solidariza com as passadas; a primeira das falhas foi (7-12) o desejo de povo, perseguido pelos egípcios, querer voltar para a escravidão (cf. Ex 14). Quando sentiu fome no deserto, foi atendido, mas o povo quis partir para a acumulação, desconfiando na Providência (cf. Ex 16). Em seguida é lembrada a rebeldia de Datã e seu grupo (16-18) contra as lideranças que conduziam o povo na realização do projeto de Deus (cf. Nm 16). A idolatria consiste em adorar ídolos e transformar Deus num ídolo, a fim de o manipular(cf. Ex 32). Acovardar-se ao chegar a terra prometida é outro lapso do povo recordado (24-27). Copiar os modelos político-religiosos dos canaanitas, que exploravam e oprimiam os camponeses foi outro pecado (28-31; cf. Nm 25). Quando faltou água (32-33), o povo reclamou tanto, que até Moisés chegou a duvidar (cf. Ex 17; Nm 20). Já na terra prometida, em vez de seguir o projeto de Javé, o povo se deixou fascinar e contaminar com os projetos dos opressores. O leitor percebe que o exílio está sendo interpretado como castigo por servir aos deuses estrangeiros. Mas os vv. 43-46 exaltam da constância de Deus que não abandona seu povo apesar das suas infidelidades.

Uma reflexão teológica tem que levar em conta de que no Brasil atual um modelo de capitalismo que procurou implementar justiça social está sendo superado pelas forças imperialistas a serviço de deus-mercado. Segundo, a democracia participativa está sendo substituída pelo velho coronelismo. Terceiro, sutilmente o ser humano está sendo reduzido à mão de obra e mero consumidor, controlado pelas forças de mercado! Por fim, manipulação astuciosa dos sentimentos religiosos nas últimas décadas está produzindo uma classe, além da elite tradicional, culpabilizante dos menos favorecidos! No entanto, o Livro de Gênesis 1,27 diz: “E Deus criou o homem à sua imagem”.


quinta-feira, 25 de maio de 2017 0 comentários

Diante de deus-Mercado

Diante de deus-Mercado


O momento tragicômico que Brasil vive na era pós-golpe é mais bem entendido com uma reflexão teológica. São as tensões de passagem do capitalismo hegemônico do modelo desenvolvimentista para o modelo neoliberal do mercado livre que o país experimenta. A idolatria do dinheiro, concentração da riqueza, exclusão social e a crise ambiental, que este sistema iníquo provoca, são fatos bem reconhecidos; são muitos os preocupados com a gravidade da situação, mas poucos aceitam mudanças para uma vida mais solidária e fraternal.

A ideologia capitalista que foi um sistema de ideias norteadoras de uma classe social na segunda metade do século passado hoje passa a ser o núcleo da cultura global em construção e seu ethos num mundo globalizado. A modernidade baniu o mito cristão da esfera pública e a pós-modernidade edifica o novo mito que se baseia na nova cosmovisão a partir do mercado ‘livre’ divinizado, a versão moderna do bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-35).

Ronald Regan, Margaret Thatcher e outros impuseram políticas neoliberais ao mundo usando instituições como FMI, Banco Mundial, “Consenso Washington” e campanhas agressivas na mídia da comunicação para divulgar o credo dessa nova religião. Teóricos como Ludwig van Mises (1881-1973) anunciaram a ruptura do mito de progresso e desenvolvimento. As pessoas não têm mais direito “natural”, na nova dispensação, de ter acesso às condições da vida digna, ao passo que todo programa social em nome de “justiça social/dívida social”, transferindo dinheiro dos ricos para os pobres, é “roubo”. Foi feita uma releitura do mito do pecado original, quer dizer, pretender conhecer a complexidade do mercado e regular seu funcionamento com ações governamentais é “pecado”, pois gera “crise” no mercado!

Assim a religião da pós-modernidade revela-se culpabilizante sem oferecer nenhuma forma de perdão ou redenção. Anticapitalismo, segundo von Mises, é a procura de bode expiatório dos fracassados por não forem capazes de assumir, a sua própria culpa, uma vez que igualdade perante a lei dá a você o poder de desafiar cada bilionário! Eis o porquê da agressividade dos “anti-esquerda”, visto que os governos intervencionistas tiram deles o que é por direito deles para dá-lo aos pobres, os que não foram capazes de ganhar seu próprio dinheiro.

Diante disso o cristão identifica três urgências: defender o direito de todos os seres humanos a uma vida digna; a desculpabilização dos pobres da sua situação social; a retomada da noção da responsabilidade de toda a sociedade perante a crise social e ambiental. Já que a idolatria neoliberal mostrou sua capacidade de fascinar seus seguidores e lhes oferecer um sentido de vida, é preciso oferecer outra “narrativa mítica” em contraposição.

Dito isso, a tarefa da teologia seria de discernir entre Deus e os ídolos que exigem sacrifício e culpabilização dos pobres. A novidade da mensagem cristã é introduzir na história o amor fraternal que inclui a todos; sua afirmação central é que as vítimas são inocentes, e nenhuma desculpa ou pretexto justifica a vitimação deles. A afirmação “as vítimas são inocentes” é importante, pois são os réus que têm sua inocência questionada, não as vítimas. De fato os primeiros testemunhos da ressurreição de Jesus declaram que, para Deus, Jesus era justo, inocente, ao contrário do que pensaram o Templo e o Império!

A um mundo que anuncia que não há alternativa ao sistema do mercado livre, reafirmar o caráter profético do cristianismo é ter a capacidade de oferecer uma outra “narrativa mítica” capaz de desvelar e denunciar cosmovisões, símbolos e mitos opressivos do Império atual!



quarta-feira, 10 de maio de 2017 0 comentários

Jogadas midiáticas atuais e as profecias nos tempos idos

 Jogadas midiáticas atuais e as profecias nos tempos idos

Vivemos um momento de investida opressora promovido pela mídia hegemônica a serviço do imperialismo capitalista patrimonial. Vemos como ela direciona o percurso da nossa história, mas não para o bem de todos os cidadãos brasileiros. Neste contexto, baseando-nos em Jr 28,1-17, queremos mostrar que esse fenômeno infeliz já existia em tempos idos, e que a profecia de Jeremias é emblemática neste sentido.
Profeta Jeremias viveu entre dois períodos políticos muito distintos em Judá. O primeiro diz a respeito aos anos que precederam a morte do rei Josias (609 a.C), um período de independência política, prosperidade econômica e de reforma religiosa. O segundo período, marcado por rápida decadência político-econômica, em que Judá esteve dominado pelo Egito e pela Babilônia sucessivamente (605-586/7 a.C.).
O profeta atua intermediando a comunicação entre divindade e os humanos, instrumento midiático da palavra, geralmente vinculado aos movimentos sociais e à cultura; agia como porta-voz dos pobres e oprimidos, contudo o AT fala dos grupos de profetas, que promoviam interesses diversos. Para Jeremias, o falso profeta mente, desviando o povo, impedindo que se converta e volte para o caminho da Aliança com Javé. O profeta autêntico, pelo contrário, é chamado para fazer a soberania de Javé ir além do âmbito do Sagrado, tangendo a vida social e demais áreas do domínio estatal.
A derrocada do império assírio (631 a.C.) deu origem aos confrontos entre o Egito e a Babilônia, para dominar a região; foi Babilônia que ganhou no final. Existiam, pelo menos duas facções na corte de Jerusalém: uma pró-Babilônia e outra pró-Egito. O clero, que tinha se afastado dos ideais da Aliança mosaica, os altos funcionários do rei, grandes proprietários, junto com os setores do comércio internacional, favoreciam a aliança com o Egito. Todos rejeitaram as críticas do Jeremias, porém alguns entre a nobreza concordavam com as orientações de Jeremias (cf. Jr 36,14-20).
Jr 28 nos informa que Rei Sedecias de Judá foi convidado pelos reis de Moab, Edom, Amon, Tiro e Sidõnia para formar uma coalizão anti-babilônica. Profeta Jeremias recebeu uma ordem de Javé por meio de uma ação simbólica (canga no pescoço) a anunciar que Judá deveria submeter-se ao senhorio de Babilônia (cf. Jr 27,3-11), como a única possibilidade de salvação e a garantia de permanência do rei em Judá (cf. Jr 27,12-13). Jeremias alerta que os falsos profetas mentem ao anunciar a insubmissão ao poder opressor (cf. Jr 27,9-10.14-15). Hananias, um profeta de palácio pretende falar em nome de Javé e desautoriza a palavra de Jeremias (cf. Jr 28.2-4). Ele declara publicamente que Jeremias é o falso profeta, incapaz de discernir a vontade de Javé na história. Na verdade a profecia deste reflete os sonhos, desejos e ideais dos grupos pró-Egito. Para esses render-se à Babilônia significava perder as mordomias que os aliados da Coroa usufruíam.
Em sua resposta a Hananias, Jeremias põe à prova a profecia propondo um critério de discernimento, o da confirmação histórica (cf. Jr 28, 5-17; também Dt 18,21-22). Porém, Hananias retira o jugo do pescoço de Jeremias e o quebra. Essa mensagem, assim como a dos demais profetas do palácio (cf. Jr 14,13-14), constituiu-se como propaganda midiática que servia aos interesses de corrupção e da morte, consequência de desconhecimento e distanciamento de Deus. Suas palavras eram enganadoras e buscavam sintonia com o desejo do povo, igualmente culpado. Deus fez com que Jeremias desse uma resposta a Hananias (cf. Jr 28,13-16). Distinguir entre os falsos e verdadeiros profetas não é tarefa fácil. Contudo, a história confirmou a profecia de Jeremias: Hananias morreu naquele ano (Jr 28,17), assim como Jeremias tinha profetizado e mais tarde Judá foi conquistado por Babilônia.
Jeremias não era um propagandista pró-Babilônia, mas sua profecia serviu para denunciar a indiferença de Judá em relação aos valores éticos ligados à Aliança. Ele reconheceu que o mais sensato naquele momento era render-se à Babilônia. Seus oráculos visavam a conversão de todo o povo para promover a equidade, o direito e a justiça, o ideal de uma sociedade igualitária.
Na atualidade o capitalismo patrimonial hegemônico apresenta-se como ‘o dado’ que vem de Deus e adota o tom moralista (hipócrita) que engana um grande número dos cidadãos!









quarta-feira, 3 de maio de 2017 0 comentários

A experiência da torre de Babel

A experiência da torre de Babel (Gn 11,1-9)

O livro de Gênesis 11,1-9 nos conta de uma experiência humana vivida no determinado momento da história. A narrativa pode ser resumida assim: a terra toda falava a mesma língua; os que migravam do Oriente encontraram um local agradável e aí se estabeleceram; com seu domínio de novas tecnologias (a arte de fabricar tijolos) decidiram construir uma cidade com uma torre que chegue até o céu, para ficarem famosos e não se dispersarem pela superfície da terra. Mas, Javé, ao perceber que o projeto humano contrariava o seu, confundiu sua língua e os espalhou pela superfície da terra.

O perícope é uma narrativa etiológica, quer dizer, ela procura explicar a origem de alguma situação ou estrutura. Que a terra toda falava a mesma língua está no começo da história. Sociólogos e antropólogos reconhecem a linguagem como uma das marcas primárias de uma cultura específica, da tradição cultural, ou do grupo étnico. Essa história relata um projeto humano de não permitir diversidade, de ficarem todos juntos e uniformizados e se tornarem famosos.

De fato, Gn 10,8-10 menciona Nimrod, um caçador de alta fama, “o primeiro poderoso da terra”, que dominava a cidade de Babel a prolepse do que viria no capítulo 11. Posto que no fim desta história o que aconteceu foi o contrário do que o homem almejava, como entender e interpretar essa? A referência histórica pode ter sido a Babilônia, o cume do projeto imperial de Nabucodonosor (604-562 a.C) que procurava anular todas as diferenças legítimas: culturais, linguísticas, religiosas etc. no mundo inteiro! Javé “confundiu a linguagem” e depois “espalhou o povo pela face da terra”. A confusão que vem pela diversidade, por si só, seria uma punição divina pelo projeto de comunicação ‘uniformizada’ como de exploração e dominação, e não de diálogo e da igualdade. Será que não existe uma determinação divina para o ser humano crescer em diversidade?

Passando rapidamente para o NT, Atos 2, 1-13, a narrativa de Pentecostes, lida de maneira sincrônica contribui para nossa compreensão deste texto. Diacronia e sincronia são essenciais na interpretação dos textos. Neste caso a tradição cristã de usar o esquema de ‘promessa-cumprimento’ na compreensão dos textos bíblicos justifica a leitura sincrônica. Em tal leitura, a torre de Babel pode ser vista como um projeto de comunicação desagregadora enquanto o Pentecostes com sua glossolalia como a recuperação da comunicação positiva. No projeto de Babel (o projeto de homem) procurou-se anular diversidade, enquanto no (projeto de Deus) Pentecostes, a capacidade comunicar-se mesmo nas diferenças é restituído.

A chegada do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, na comunidade refere às experiências carismáticas dos cristãos. O impacto deste é para os de fora, como instrumento de evangelização. De forma cifrada o evento torna-se também uma severa crítica ao império romano, ou seja, uma fina ironia de como Deus atua contra os poderosos sem que eles percebam!

O fenômeno da glossolalia – o falar em outras línguas tem em contraponto o fenômeno da audição coletiva. São duas hipóteses aceitas na sua interpretação: uma, a manifestação extática e a outra refere a capacidade dos discípulos a comunicar com os judeus e prosélitos reunidos em Jerusalém para a festa. A lista das nacionalidades em At 2,8-11 reflete a lista utilizada na propaganda do império romano para mostrar as nações dominadas por ele. Só é que tem uma subversão da lista: o Evangelho de Jesus e a nova aliança alcançaram a todas as nações no derramar do Espírito no dia de Pentecostes!


No Brasil, hoje forçosamente submetido ao projeto de capitalismo patrimonial hegemônico, será a que a experiência da torre de Babel não está se repetindo?
quarta-feira, 26 de abril de 2017 0 comentários

O bezerro de ouro de hoje!




O bezerro de ouro de hoje!

No dia 28 de abril, é programado um protesto popular contra as políticas retrogradas sendo impostas pelo que tomou o lugar do governo brasileiro. Nas últimas décadas era a moda discursar sobre o secularismo, que efetivamente baniu o Deus Cristão do foro público. No seu lugar hoje se adora o deus Mercado, em vias de se tornar o Todo-Poderoso. É sobre esta divindade que eu quero refletir.

Harvy Cox, professor emérito da Harvard Divinity School (EUA) é um dos renomados teólogos da tradição protestante da nossa época (autor do livro: The Secular City - 1965), no seu livro mais recente “The Market as God” (Harvard University Press, 2016) oferece uma contribuição valiosa para entender os atributos deste deus Mercado em guerra com o Deus das religiões tradicionais.

Professor Cox não esconde sua admiração por Papa Francisco e sua crítica pungente do consumismo desenfreado de hoje e a economia de exclusão e de desigualdade. A Encíclica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho 2013) que censura “teorias gotejantes” e o trabalho sacralizado do sistema econômico vigente com seu mercado deificado influenciou Cox.

A autora da recensão do livro “The Market as God”, Melissa Jones* vê nele uma teoria que explica algo que deixou políticos, jornalistas e pensadores cismados desde que Donald Trump ganhou as eleições presidenciais nos EUA: a desconexão entre as palavras do Presidente e a realidade. Cox recorre ao pouco conhecido filósofo e semanticista de século 19: Alexander Bryan Johnson, um banqueiro que reconheceu que as cédulas que passava diariamente pelas suas mãos não possuíam valor intrínseco. Seu valor dependia da vontade humana que as atribuía valor real. Deste, o filósofo concluiu: as palavras, por si só, não são meios confiáveis para compreender a nossa realidade. Cox continua e diz que “as palavras carecem significados substanciais, podem ser usadas para enfeitiçar, persuadir, ou até mesmo para bajular sem sentir-se culpado”. Explica-se o funcionamento de mundo político com Mercado divinizado!

O Mercado e sua política servil adestraram a humanidade a chegar a sua condição atual através dos elementos religiosos próprios: narrativas, mitos, lendas, parábolas, liturgias e testemunhos. O Mercado conhece as nossas necessidades e desejos através dos grupos de interesse, e “big data”. Paulatinamente nós fomos programados para avaliar e adquirir produtos industrializados não pela sua utilidade nem a necessidade nossa, mas pelo que estes nos fazem sentir. Mensagens instantâneas e imagens que passam pelas nossas telas geram em nós a fé irrefletida que aquele produto vai nos salvar dos males do nosso tempo: rugas, gordura ou até mesmo desprestigio! Os “evangelistas” de deus Mercado trabalham com o mesmo zelo para nos levar “à hora da decisão” como fazia Billy Graham.

O autor vai mais um passo adiante ao procurar paralelos entre a religião e a economia. Ele analisa o “Pentecostes” de cada. Para os cristãos a igreja nasceu no dia de Pentecostes, houve derramamento do Espírito Santo, apareceram línguas de fogo, e os que estavam reunidos foram munidos com a capacidade de falar em línguas; posteriormente foram ouvidos e entendidos pelas multidões. Seu paralelo na economia realizou-se com a invenção de “pixel” aquele raio minúsculo da luz da comunicação digital! A afirmação de Cox de que a multiplicidade das imagens e mensagens que passam cada hora em nossas telas comunica mais com nossas emoções do que a nossa capacidade de analisar ou refletir é inegável!

Cox apresenta Roger Ailes, antigo CEO de Fox News como o típico evangelista de pixel, que conseguiu motivar os conservadores estadunidenses, pois a onda de emoção-acima-de-reflexão estorvou a lógica. Há mais..., porém fica para depois.


sábado, 15 de abril de 2017 0 comentários

A fé na ressurreição de Jesus

A fé na ressurreição de Jesus

No dia 16 de abril celebramos a Solenidade da Páscoa. É uma das solenidades que se celebra liturgicamente durante oito dias. Portanto esta semana (16-22) é a semana da ressurreição. Queremos oferecer algumas reflexões sobre a fé na ressurreição que se celebra na liturgia.

Pelo que sabemos, a fé na ressurreição de Jesus surgiu, em primeiro lugar, num ambiente litúrgico (cf. Lc 24, 13-35). De acordo com este texto, dois dos discípulos de Jesus, desalentados pelo fim trágico do Nazareno, estão indo para Emaús. O próprio Jesus encontra-os no caminho e os leva por um caminho que no final os leva a reconhece-lo como o Ressuscitado. Aquele estranho que entrou nas suas vidas por acaso, é o mesmo que despertou tantas esperanças neles e inúmeros outros! O cunho litúrgico deste perícope é inegável (cf. Lc 24,30-32).

Na verdade, todos os quatro evangelhos que nos falam da ressurreição, começam suas narrativas dizendo que aqueles que foram ao túmulo de Jesus, no primeiro dia da semana, encontraram-no vazio (cf. Mc 16,1-8; Mt 28,1-8; Lc 24,1-10; Jo 20,1-10). Embora fossem informados pelos anjos, isto é, por iniciativa divina, que Jesus não continua entre os mortos, mas está vivo, foi um momento de perplexidade e questionamentos (cf. Mc 16,5-7; Mt 28,2-7; Lc 24,4-6). Maria Madalena, os discípulos de Emaús, o discípulo amado e todos os outros que chegaram a fé na ressurreição, trilharam este caminho doloroso de medos, dúvidas e questionamentos que no final desembocou na alegria da ressurreição - a vida nova!

Existe uma multiplicidade de linguagens na Bíblia que falam da ressurreição. Os verbos “despertar” e “levantar”, usados neste contexto, sugerem a noção de que Deus se adentrou no sheol, o lugar dos mortos, e despertou Jesus, o crucificado, para a vida. Há outras fórmulas que confessam que ‘Jesus morreu e ressuscitou’; nessas, não se fala da intervenção divina, mas a atenção se desloca para Jesus. Aparecem também hinos e cânticos que louvam a Deus por ter ‘exaltado’ Jesus após sua morte na cruz (cf. Fl 2,6-11; 1Tm 3,16; Ef 4,7-10). Todavia, em tudo isso expressa se a fé que o acontecido é a obra de amor do Deus, seu Pai. No mundo pagão, à luz da experiência de Paulo no Areópago de Atenas (cf. At 17,32) os missionários começaram a usar expressões como “O que vive” e “O Vivente” para comunicar a novidade da ressurreição de Jesus (cf. Ap 1,17-18).

Essas ‘linguagens’ nos comunicam a experiência vivida pelos discípulos de Jesus, simples galileus, de uma radical reviravolta em suas vidas. Voltaram a se reunir, superando o medo; começaram a anunciar que o Crucificado está vivo; instituíram comunidades solidárias dos seguidores de Jesus em todo império romano. É possível nos aproximar da experiência primeira e seu conteúdo que desencadeia seu entusiasmo e sua audácia?

 Numa primeira aproximação, é possível afirmar que a fé na ressurreição de Jesus não se apoia no vazio; está alicerçada numa “experiência de encontro pessoal” dos discípulos com o Ressuscitado. A partir daí viveram um processo que lhes abriu para uma experiência nova e inesperada da presença de Jesus entre eles. Experimentaram-se Jesus vivo, e foram transformados em testemunhas intrépidos ‘no dia de Pentecostes’. Os Atos dos Apóstolos contêm resumos que retratam as primeiras comunidades (cf. At 2,42-47; 4,32-35; 5,12-16). Os capítulos três e quatro nos apresentam um episódio que exemplifica como a fé na ressurreição de Jesus de Nazaré se torna a fonte da libertação para toda humanidade.

FELIZ PÁSCOA!

P
quarta-feira, 12 de abril de 2017 0 comentários

A traição nas narrativas da Paixão de Jesus

A traição nas narrativas da Paixão de Jesus

Na tradição católica a proclamação litúrgica da Paixão na sexta-feira santa é feita do Evangelho de João (Jo 18,1-19,42), mas, no domingo de Ramos é o texto de um dos sinóticos; este ano foi o texto de Mateus (26,14-27,66). É deste que procuro ressaltar um aspecto cíclico da história que aponta para a eficiência do império a exterminar seus adversários com colaboração dos traidores do programa a ser destruído.

Por isso, é conveniente começarmos a nossa análise já nos primeiros versículos do capitulo 26 de Mateus (vv.3-13) para compreender melhor os eventos na sua totalidade a fim de que a celebração de paixão não seja algo alienado, mas algo que ilumina a realidade histórica, o contexto da celebração.
A decisão de matar Jesus por “traição, por um ardil, por uma cilada”, foi tomada pelas elites palestinenses, os agentes locais do império romano (Mt 1,3-5). Em seguida o texto fala da unção em Betânia (Mt 1, 6-13). Há um alvoroço em torno do perfume caro que uma mulher usou para ungir Jesus. É um indício da divisão, brigas de poder e a ganância reinante no meio dos discípulos desunidos. Foi o momento em que Judas, um dos doze apóstolos, decidiu buscar sua fortuna em outro lugar, longe do grupo; ele fez um contrato com os poderosos para entregar seu mestre por traição, por um preço!

Judas cumpre sua parte efetivamente na ocasião da Páscoa e o rabino Jesus que tirava o sono da ‘casa grande’ foi capturado por traição. Logo ele foi levado direto ao Sumo Sacerdote Caifás, que já estava reunido com os escribas e os anciãos. Estando seus esforços para obter “falso testemunho contra Jesus, a fim de mata-lo” (delações premiadas) em vão, O Sumo Sacerdote fez uma intervenção especial que gerou o consenso entre os presentes, que Jesus “É réu de morte”, precisamente o aval que a cúpula precisava!

“Chegada a manhã, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um conselho, contra Jesus, a fim de leva-lo à morte” (Mt 27,1). Agora a decisão das elites feita anteriormente recebeu a aparência de “legal”. Muito parecido com as sessões da Câmara Municipal de Campo Grande que destituiu um prefeito eleito e as Sessões de Congresso Nacional que anulou a decisão democrática do povo brasileiro ao substituir a Presidente legítima da República!

O próximo passo para os adversários de Jesus é de obter sua condenação imperial; levaram-no ao governador romano. Pilatos, um dos mais eficientes e cruéis dos administradores romanos de Palestina já sabia de Jesus e que as elites agiam contra ele motivados por inveja. No entanto, ele implementou os rituais da justiça romana, porém não se provou crime algum. Até mesmo sua própria mulher intercedeu em prol do Galileu. Sua estratégia de usar o costumeiro indulto pascal para salvar a vida de Jesus só aumentou a fúria das elites e a histeria da massa de manobra a seu dispor. Para evitar o perigo de um massacre o governador perspicaz decidiu ceder à pressão e condenou Jesus a crucificação.

Jesus foi devidamente executado; ele morreu bem mais rápido que se esperava. Contudo, o Nazareno tinha amigos entre as elites que, embora não conseguissem prevenir a tragédia da condenação criminal, apareceram no cenário para assegurar que ele recebesse um funeral digno. Entrementes, seus adversários, fizeram com que seu sepulcro fosse selado e que tivesse guarda montada para impedir “o roubo de cadáver”.

Veremos, foi em vão, pois a traição não tem a última palavra!




quarta-feira, 5 de abril de 2017 0 comentários

A Semana Santa

A SEMANA SANTA

A Semana Santa começa no domingo de Ramos. Todos os quatro Evangelhos reportam a solene entrada real de Jesus em Jerusalém, o centro religioso-político da Palestina (cf. Mt 21,1-17; Mc 11,3-11; Lc 19,28-42; Jo 12, 12-16). O texto de Mateus tem duas citações do AT para enfatizar a qualidade especial desta ‘procissão’ com a participação popular entusiasta, além de contrastar a entrada de Jesus com a dos reis poderosos deste mundo. O autor apresenta o evento como cumprimento do que foi dito no AT. O texto de Marcos é muito semelhante ao do Mateus. Lucas e Mateus mencionam o pedido dos fariseus, indignados, a Jesus para acalmar os ânimos da multidão que torcia por ele. Porém, a resposta do Nazareno foi um “não”; diante disso, João menciona que os fariseus discutiram entre si sobre o pouco resultado da sua campanha contra o rabino de Nazaré; disseram: “Vede: nada conseguis. Todos vão atrás dele!” (Jo 12,19). Os Sinóticos têm um detalhe: a história do empréstimo do jumentinho para Jesus montar; no emprestar do animal se vê Jesus exercendo o antigo direito real de requisitar transporte e outros objetos necessários para governar; o mais importante, o Nazareno é rei pacífico, pois o cavalo é o animal da guerra e não o jumentinho!

A Missa de Santos Óleos na Quinta-feira Santa pela manhã é a celebração anual que reúne todos os presbíteros da diocese junto com o Bispo diocesano que preside. Durante esta liturgia os padres reunidos renovam suas promessas presbiterais; num segundo momento desta liturgia o bispo abençoa os óleos a serem usados nas paróquias e comunidades nas celebrações dos sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Unção dos Enfermos durante o ano todo. Essa é a expressão da comunhão diocesana. Este ano essa solenidade vai ser realizada na Matriz Cristo Luz dos Povos, no dia 13 de abril às 08:00 horas.

No final da tarde do mesmo dia, acontece a Missa de Lava-pés em todas as paróquias. É a lembrança da grande lição do exercício de autoridade que Jesus o Nazareno ensinou aos seus discípulos naquela ceia derradeira (Jo 13,1-16). Lc 22,24-27 reporta a discussão entre os presentes naquele momento, sobre qual deles seria o maior. Além disso, todos os evangelhos reportam a predição da traição de Judas e a negação de Pedro.

As palavras consideradas tradicionalmente como a instituição da eucaristia (Mt 26,26-29; Mc 14,17-21; Lc 22.1419-20 e 1Cor 11,23-25) apresentam um grande desafio de entender o simbolismo eucarístico e necessita da elaboração mais extensa que não cabe aqui.

Na sexta-feira Santa celebra-se a Paixão do Senhor. A celebração consiste na leitura da Paixão, orações universais, a veneração da Cruz e a comunhão eucarística. Expressões populares devocionais como a Via Sacra tradicional ou até mesmo encenação da Paixão enriquecem e acrescentam ao simbolismo do dia que recorda a morte do Senhor.

No sábado Santo, após o por do sol, celebra-se a Vigília Pascal, popularmente conhecido como a “Missa do Fogo Novo”; (1) Ascender o Círio Pascal, simbolizando a ressurreição do Senhor; (2) a Proclamação da Páscoa; (3) sete leituras do AT e dois do NT que, na sua conjuntura, contam brevemente a História da Salvação; (4) batizados e a Renovação das Promessas Batismais para os já batizados, com o resto da liturgia eucarística compõem a liturgia mais solene do ano todo.


É necessário mencionar quatro leituras especiais feitas nesta semana: Is 42,17 na segunda-feira; Is 49,1-6 na terça-feira; Is 50,4-9a na quarta-feira; e Is 52,13-53-12 na sexta-feira da Paixão. São perícopes chamados “cânticos do servo sofredor” que falam de uma figura misteriosa. Foram entre os primeiros trechos bíblicos que ajudaram os discípulos de Jesus superar o escândalo da cruz e desvendar a enigma da pessoa e a missão de Jesus de Nazaré. 
quarta-feira, 29 de março de 2017 0 comentários

A QUARESMA

A QUARESMA, um tempo de conversão

A quaresma é uma tradição antiqüíssima dos cristãos na preparação para a Solenidade da Páscoa. As igrejas que têm suas liturgias organizadas em ciclos anuais celebram este período com leituras, cantos e cerimônias próprias. Toda essa organização litúrgica tem a mudança de vida, quer dizer, o voltar ao caminho do Senhor Deus da Aliança de jeito que os profetas conclamavam o povo outrora, como seu ponto principal.

Na tradição católica este tempo começa na quarta-feira das cinzas e vai até a quinta-feira Santa quando se inicia o Tríduo Pascal. Oração, penitência e caridade são os meios tradicionais recomendados para alcançar a conversão, mudança de vida. Entre todas as práticas quaresmais, é do Sacramento de Penitência e da CF que nós vamos falar aqui.

O perdão, a reconciliação, ou sua ausência demarca a vida de toda pessoa profundamente. É um processo que acontece a todo o momento na vida da gente. Este também tem um aspecto comunitário, o que na tradição católica transformou-se em um rito sacramental. A confissão sacramental é o cume de todo um processo que afeta a vida positivamente e tem que ser bem celebrado.

Uma confissão bem feita ajuda melhorar a vida da pessoa em todos os aspectos. Efetivamente toda pessoa tem uma opção fundamental na sua vida que a norteia em sua a totalidade. Todos os atos humanos são motivados pela opção fundamental, portanto o que se considera “pecado” é mais bem vista à luz desta opção, junto com as escolhas feitas e decisões tomadas ao longo da vida da pessoa.
Assim sendo é importante que o/a penitente procure um presbítero a quem consegue se abrir num diálogo fraterno a fim de considerar sua opção fundamental, valorar os atos individuais, assim fazer do sacramento da reconciliação um momento de encontro com o Pai misericordioso (cf. Lc 15,11-32). De outra forma o sacramento se degenera numa recitação da lista de “pecados”, seguida por uma “absolvição”. Claro, ‘os mutirões de confissão’ não são momentos oportunos para tal celebração do sacramento da Penitência.  

As Campanhas da Fraternidade há mais de meio século, vêm realçando a importância do aspecto social da conversão. A interação entre a conversão pessoal que motiva a conversão social, e o bem oriundo destas campanhas para a sociedade brasileira já é um capítulo bem-aventurado da nossa história.

A CF 2017 (Biomas brasileiros e a defesa da vida) oportunamente reflete sobre nossaa administração da riqueza que “Deus fez o universo e viu que tudo era bom” e entregou aos cuidados do “ser humano livre (que) à sua imagem Deus criou” com a tarefa de “cultivar e bem guardar a criação”. Em contrapartida, há outro canto da Campanha que fala do “grito de lamento (que) sobe ao céu, ao Criador: ‘O guardião da casa aqui virou depredador’”. Através dos cânticos, encontros, estudos e das outras atividades a Campanha procura incentivar a conscientização da necessidade de nos assemelhar cada vez mais a “imagem e semelhança” de Deus que nos considera “(sua) obra principal”.
Todos estes preparativos desembocam na Semana Santa e a solenidade da Ressurreição do Senhor.

Estes eventos litúrgicos formam o ápice de toda ação litúrgica anual. É evidente que a correspondência entre a vida cotidiana e a ação litúrgica é que marca a qualidade da vida cristã. Na Vigília Pascal (Sábado à noite), popularmente conhecida como a “Missa do fogo novo” há um momento da ‘renovação das promessas batismais’ que, de fato, é o manancial de toda vida da fé o ano todo. É preciso entrar um pouco mais detalhadamente nalgumas das celebrações litúrgicas para que se evidenciem as implicações destes momentos para a vida quotidiana.

 “Se o grão de trigo não morrer,
Caindo em terra fica só;
Mas se morrer dentro da terra,
Dará frutos abundantes” (Jo 12,24 CF 2015).






 
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