terça-feira, 12 de fevereiro de 2019 0 comentários

O segundo anúcio da Paxão


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (32)
O segundo anúncio da Paixão

Entre a primeiro anúncio da Paixão (cf. Mc 8,34-38) e o segundo, (cf. Mc 9,30-37) todos os três evangelhos sinóticos falam da transfiguração (cf. Mc 9,2-13 e paralelos) e a cura de um epilético (cf. Mc 9,14-29 e paralelos). Para entender a relação destes dois episódios ao anúncio da Paixão é importante ter em mente a intenção teológica de cada um dos evangelistas. Que Jesus de Nazaré, aquele que foi condenado e executado na cruz como um criminoso pela “justiça” imperialista, era muito mais do que se pensava dele, é evidente em todos os sinóticos com todos os seus detalhes diferentes.

A “transfiguração” (Mc 9,2-13; Mt17,1-13; Lc 9,28-36) é uma construção teológica das comunidades primitivas, a construção que evidencia seu avanço na compreensão da pessoa do “crucificado e ressuscitado”. Refere a um aspecto extraordinário e misterioso da experiência incompreensível, que Pedro, Tiago e João, assim como também os outros, tiveram do seu mestre. Para entender a transfiguração: montanha alta, a brancura extrema das roupas, a presença da nuvem, a voz do céu, que aqui afirma da filiação divina do Nazareno, são elementos típicos que denotam, na linguagem bíblica, a teofania desde os tempos veterotestamentários. A presença de Moisés e Elias apontam para outro momento hermenêutico avançado: Jesus é aquele que plenifica o desígnio divino na história humana na tradição do próprio Moisés e do Elias, dois personagens que tiveram papéis importantes neste processo.

Este texto também menciona outra tentativa da parte de Pedro, que visa impor seus interesses e desviar o foco da missão de Jesus, ao oferecer construir três tendas a fim de prolongar a situação vantajosa e até muito agradável. Essa proposta “petrina” está bem na linha do que ele propôs a Jesus que se tinha afastado depois da cura da sua sogra e de realizar outros milagres em Cafarnaum: “Todos te procuram” (cf. Mc 1,29-39). Pedro fez sua proposta apesar de estar “com medo” (Mc 9,6) e é interessante notar a diferença dos detalhes da reação de Pedro e seus companheiros a transfiguração nos outros dois evangelhos. Para Mateus: “Ao ouvir isso (a voz do Pai), os discípulos caíram com o rosto por terra e ficaram com muito medo” (Mt 17,6); enquanto Lucas nos disse que “Pedro ainda falava, quando veio uma nuvem e os cobriu com sua sobra. Ao entrarem na nuvem, ficaram com medo” (Lc 9,32).

Ao descer da montanha Jesus pede aos seus não contarem a ninguém do que tinha acontecido até que “o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”. Eles assim fizeram, embora tivessem procurado entender melhor o que “ressuscitar dos mortos” significava. Há ainda uma conversa entre Jesus e seus três discípulos sobre o papel de Elias em relação a Jesus; essa resulta na afirmação em Mateus de que os discípulos chegaram a entender João Batista como o Elias que era esperado a voltar “para restaurar as coisas” (cf. Mt 17,10-13).

Passamos agora a examinar os textos que falam da cura do epilético. A narrativa em Marcos (9,14-29) é o maior do que a de Mateus ou Lucas. Da montanha Jesus volta para junto dos discípulos que se encontravam numa situação contenciosa, havia uma grande multidão e os doutores da Lei discutindo com eles. À sua pergunta sobre o motivo de tanta agitação, alguém da multidão reclamou de o insucesso deles expulsar o espírito mudo que atormentava seu filho.

O Nazareno se irrita com a incredulidade tão evidente naquela situação; pediu que trouxesse o menino a ele. Ao se aproximar o menino a Jesus o espírito maligno se exibiu violentamente, sacudindo sua vítima e jogando-o no chão. O pai do menino, além de responder as perguntas de Jesus sobre a duração desse caso a possessão, implorou a ajuda de Jesus, se ele pudesse. Jesus aproveita o momento para mostrar a necessidade da fé que torna tudo possível. Imediatamente o pai professou a sua fé: “Eu creio! Ajuda a minha falta de fé”.

Para muitos, o menino já estava morto, no entanto o texto, com detalhes típicos das curas que Jesus realiza, isto é - tomou-o pela mão, o levantou, e ele ficou de pé - reporta sua restauração a vida normal, apesar da confusão.

Mais tarde, quando Jesus entrou em casa, os discípulos queriam saber por que eles mesmos não foram capazes de expulsar o demônio. É que estavam preocupadíssimos com o alcance do seu próprio poder, muito menos com a adesão a Deus por meio de Jesus, que caminha para o confronto e da cruz!

É neste ambiente assombrado que Jesus faz o segundo anúncio da Paixão (cf. Mc 9,30-37; Mt 17,22-23; 18,1-5; Lc 9,43b-48). Jesus está atravessando a Galileia, sem que ninguém saiba do seu paradeiro. Ele ensina seus discípulos sobre seu fim trágico, de ser entregue aos seus adversários que o matarão “na forma da lei”. E, morto, ressuscitará depois de três dias. Os discípulos não entendiam o que isso queria dizer, e tinham medo de lhe perguntar.

Chegando em Cafarnaum Jesus perguntou-lhes sobre o que eles discutiam no caminho, porém ficaram calados, pois eles estavam discutindo sobre quem era o maior entre eles! Para enfatizar a necessidade deles se transformarem em “servidores” sem pretensões de grandeza, prestigio ou domínio para construir o Reino de Deus, Jesus acolheu uma criança carinhosamente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019 0 comentários

Jesus a caminho para Jerusalém


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (31)
Jesus a caminho para Jerusalém

O evangelho de Marcos é um documento programático. O leitor tem percebido que o autor nos conta das atividades de Jesus de Nazaré na primeira parte da sua obra e na segunda ele nos conta das consequências da sua práxis a fim de beneficiar a comunidade da fé, que inclui aqueles que seguiram o Nazareno desde o primeiro século até os nossos dias. Conhecer Jesus é importante; que este conhecimento leve a um compromisso com a causa de Jesus, isto é, a instauração do Reino de Deus num mundo que com muita facilidade o rejeita é mais importante ainda.

Vimos logo no início do Evangelho de Marcos um bloco de textos (Mc 1,40-3,6) estruturado para narrar alguns milagres, entre outros, que rabino Jesus realizou. Os beneficiários destes milagres ficaram maravilhados e louvavam a Deus pela força restauradora vindo do próprio Deus na pessoa do Nazareno. Ao mesmo tempo as elites poderosas, aliados dos imperialistas romanos, que fiscalizavam e criminalizavam qualquer movimento popular de libertação, decidiram matar Jesus e iniciaram articular um plano para realizar seu plano nefasto “na forma da lei”. Isto porque as implicações das transformações que a práxis de Jesus provocava ameaçavam seu status de privilegiados do sistema vigente.

Na segunda parte do seu Evangelho Marcos narra a subida de Jesus a Jerusalém numa técnica literária chamada de “inclusão”. Este seu deslocamento de Galileia a Jerusalém acontece entre as duas curas de cegos (cf. Mc 8,22-26 e 10,46-52). A primeira, a cura do cego de Betsaida, é um episódio peculiar a Marcos. O Evangelho não nos informa o nome do curado; ele é levado a Jesus pelos outros; Jesus o leva para longe, realiza alguns ritos e ele recupera sua vista gradativamente. Uma vez curado, Jesus despede-o com a injunção de não voltar para a situação anterior (“Não entre no vilarejo”), em que ele ficava sem enxergar.

 A segunda, a do cego de Jericó (Mc 10,46-52) tem detalhes diferentes. O cego tem nome (Bartimeu); ele mesmo percebe a presença de Jesus e pede socorro usando um dos títulos Cristológicos mais importantes: “Filho de Davi”. Os que estavam ao seu redor procuram calá-lo, diferente daqueles da cura do cego de Betsaida, que tinham intercedido por ele. Depois da sua cura, Bartimeu “seguiu a Jesus no caminho”. Vale lembrar que durante muito tempo os seguidores de Jesus eram conhecidos como aqueles que seguiam “O Caminho”, antes de receber o nome “cristãos” (cf. At 11,26).

Entre essas duas curas dos cegos nós temos três anúncios da sua paixão que Jesus de Nazaré faz (cf. Mc 8,30-38; 9,9,30-31; 10,32-34). Ironicamente, cada anúncio produz “cegueira” crescente nos discípulos quanto a caminho que Jesus de Nazaré propõe seguir na sua missão de instaurar o Reino de Deus, como veremos em breve ao analisar os textos (cf. Mc 8,32-33; 9,33-38; 10.35-45.

Para começar analisar os textos: o primeiro anúncio da paixão (Mc 8,34-38 cf. Mt 16,24-28; Lc 9,23-27) é precedido pela profissão da fé de Pedro (Mc 8,27-33; cf. Mt 16,13-23; Lc 9,18-22). Jesus está na região de Cesareia de Filipe, depois que ele advertiu seus discípulos para se protegerem do “fermento dos fariseus”. Ele pergunta aos seus que tinham voltado da sua missão aos vilarejos da Galileia, sobre o que se dizia no meio do povo a seu respeito. Eles reportaram que alguns consideravam o rabino de Nazaré João Batista ressuscitado (Herodes), Elias, Jeremias ou um dos profetas dos tempos antigos.

Aqui Jesus quer saber o que os seus próprios discípulos pensavam sobre sua identidade. Na boca de Pedro temos a profissão da fé das comunidades primitivas. Jesus elogia Pedro pela sua abertura à revelação divina. No Evangelho de Mateus percebemos uma virada eclesiológica, pois essa profissão da fé é o fundamento da comunidade que o Nazareno está formando (cf. Mt 16,17-19).

Jesus começa ensinar sobre o paradoxal caminho que ele tinha escolhido; o anúncio e a instauração do Reino de Deus não seguirão a rota que os empreendimentos dos poderosos deste mundo segue normalmente. Enquanto estes alcançam suas metas usando força maior para derrotar seus adversários e superar obstáculos no caminho, o “Filho do Homem” vai entregar sua vida em face de oposição brutal: perseguição, morte na cruz e ressurreição.

Pedro não se conforme com tal escolha tão inconvencional.  Inconformado, ele repreende Jesus. Na hora Jesus o censura pela sua falta de compreensão da radical novidade que Deus realiza na história humana na sua própria pessoa. É neste momento que o Nazareno faz o primeiro anúncio da sua paixão a multidão e a seus discípulos. O Reino de Deus concretiza-se neste mundo, quando tem que se nega, toma sua cruz, entrega sua vida por causa de Jesus e do Evangelho deste Reino.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019 0 comentários

O Nazareno a caminho para Jerusalém


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (30)
O Nazareno a caminho para Jerusalém
A Nova Bíblia Pastoral (SP, Paulus, 2014), seguindo os exegetas modernos, divide o Evangelho de Mateus em duas partes. A primeira (Mc 1,12-8,26) responde à pergunta: Quem é Jesus? A segunda parte (Mc 8,27-16,20) responde à pergunta: Como seguir Jesus? O que nós vamos fazer daqui em diante é, analisar os textos da segunda parte, de jeito que fizemos com os textos da primeira. Sempre compararemos os textos de Marcos com os textos paralelos encontrados nos outros dois sinóticos; e onde for possível nós também examinaremos textos do Evangelho de João para completar o que os sinóticos nos apresentam para indicar que Jesus de Nazaré é a Boa Notícia para o século 21.
Nós vamos subdividir a segunda parte em três para facilitar uma compreensão melhor: 1) Jesus a caminho para Jerusalém (8,27-10,52); 2) atividades de Jesus em Jerusalém (11,1-13,37); 3) o fim trágico do Nazareno (14,-16,20).
Antes de iniciar a análise detalhada dos textos dessas três subdivisões propomos fazer algumas observações que vão proporcionar ao leitor uma visão global do conteúdo de cada uma delas. Na primeira, isto é, no caminho que Jesus faz para chegar Jerusalém (8,26-10,52), há um triplo anúncio da paixão; o autor registra nitidamente a reação dos discípulos, que é marcada por crescente falta de entendimento do “caminho” que o rabino Jesus propõe seguir.
Na segunda (11,1-13,37), Jesus que entra na cidade aclamado pelo povo, é severamente contestado quanto a sua concepção e interpretação das leis e dos costumes tradicionais pelos representantes das autoridades constituídas. A tensão em face da crescente hostilidade dessas contra o rabino de Nazaré é bem palpável.
A terceira parte (14,1-16,20) apresenta os detalhes da execução da decisão para matar Jesus, tomada pelas elites tradicionais que encontramos já no início do Evangelho (cf. Mc 3,6). Houve colaboração traidora de dentro do grupo de Jesus; houve manipulação dos processos de justiça, abuso de poder e diversas outras práticas nefastas, em voga até em nossos dias, para conseguir eliminar “na forma da lei” aquele rabino que vinha de periferia (Galileia) e incomodava os esquemas da “casa grande”. Essa que, com a cumplicidade do império romano assegurava a posição privilegiada, elaborou uma plano para destruir Jesus, um plano muito parecido com o que está sendo executado no Brasil para destruir a democracia brasileira através dos ritos propriamente democráticos!
No entanto, o último capítulo (Mc 16) nos diz que apesar do sucesso dos poderosos em eliminar fisicamente Jesus de Nazaré, o que ele representava para humanidade continua vivo e bem ainda hoje!
Com essas breves observações de introdução nós vamos começar analisar os textos desta segunda parte do Evangelho de Marcos.



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019 0 comentários

O fim da missão de Jesus em Gaileia


Jesus de Nazaré, a Boa Nova para o século 21 (29)

A missão de Jesus em Galileia encerra-se

Os evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc) dividem a vida pública de Jesus em duas partes; a primeira, em Galileia e a segunda em Jerusalém. Nós nos baseamos no Evangelho de Marcos para apresentar Jesus de Nazaré como a Boa Notícia para o século 21. Agora a nossa leitura vai passar para a segunda parte. Em Mc essa “passagem” acontece no capítulo 8. A primeira parte deste capítulo (vv.1-26) é como o encerramento do ministério de Jesus na região de Galileia.

Este texto pode ser dividido em quatro blocos: o primeiro fala de uma segunda multiplicação dos pães (cf. Mc 8,1-10; Mt 15,32-39); o segundo conta da insistência dos fariseus por um milagre “vindo do céu” que legitimaria a autoridade com a qual Jesus de Nazaré agia (cf. Mc 8,11-13; Mt 16,1-4); no terceiro o Nazareno adverte seus discípulos sobre o “fermento” dos fariseus (cf. Mc 8,14-21; Mt 16,5-12); e por fim, a cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26).

Numa ocasião anterior, quando se tratava da multiplicação dos pães como um dos componentes principais do Reino de Deus que Jesus de Nazaré anunciava, havíamos mencionado a segunda multiplicação dos pães encontrados em Marcos e Mateus. Contudo, é necessário comentar de novo sobre este milagre, visto que: 1) o milagre assinala a preocupação de Jesus quanto às necessidades básicas da gente que o segue; 2) como já vimos Jesus vive numa situação tensa em que as autoridades estão perseguindo-o; 3) mesmo depois de acompanha-lo de perto, seus discípulos não compreendem as implicações da sua práxis. Em face de tudo isso Jesus não se desvia do seu objetivo de anunciar o Reino de Deus, que é uma vida digna para todos.

Ambos os textos, o de Marcos e o de Mateus, que falam da segunda multiplicação dos pães têm conteúdo semelhante. Jesus age movido por compaixão, alimenta quatro mil homens (sem contar as mulheres e as crianças) de maneira desafiadora ao sistema mercantilista em vigor. Seus perseguidores, os fariseus e seus colaboradores, faziam questão de zelar pela manutenção deste sistema que assegurava seus privilégios. O método de Jesus foi além do comércio capitalista tradicional; considerado impraticável naquele contexto, e mostrou que há uma alternativa: a partilha solidária que implica uma nova organização social que não se fundamenta na capacidade de alguns poucos acumularem tudo, deixando os muitos outros na carência. Levar em consideração a necessidade de cada um é o critério dessa nova organização social. 

Logo em seguida os fariseus exigem que o Nazareno realizasse um milagre “vindo do céu” (cf. Mc 8,11-13; Mt 16,1-4), para comprovar a autorização da sua práxis. Enquanto o texto de Mc fala de Jesus que, exasperado com a incredulidade deles foi embora, Mateus tem mais detalhes. As autoridades são implacáveis na sua insistência de que o Nazareno tem que se enquadrar nos parâmetros definidos por eles, antes que o aceitassem como um autorizado na sua práxis libertadora. Jesus elogia a capacidade humana normal de ler os sinais dos tempos e agir conforme a necessidade. Entretanto ele fica admirado com a inépcia e a insensibilidade desses supostos peritos nas Sagradas Escrituras a reconhecer ação divina na história humana. Jesus sugere o sinal de Jonas a eles para um entendimento da sua atuação e foi embora.

No terceiro bloco (Mc 8,14-21; Mt 16,5-12) Jesus e seus discípulos estão na barca indo para o outro lado. Ele começa adverti-los contra “o fermento” dos fariseus. A reação dos discípulos é tipicamente a daqueles que fazem leitura fundamentalista das Sagradas Escrituras. De acordo com Marcos eles imaginavam que Jesus falava de pães porque havia apenas um pão no barco; de acordo com Mateus, foi porque eles tinham esquecido levar pão. Jesus fez uma dispendiosa hermenêutica para mostrar a eles a necessidade de ficar longe dos ensinamentos farisaicos das autoridades. No entanto, o texto de Marcos termina com a pergunta, que não deixa de ser enigmática, de Jesus: “E vocês ainda não compreenderam?”

O próximo episódio, a cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26) é peculiar de Marcos. Este vai figurar em nossas discussões mais adiante. O que aconteceu foi o seguinte: ao chegar Jesus em Betsaida, levaram um cego a ele pedindo que tocasse nele. Jesus, por sua parte levou o pela mão para fora do povoado, realizou alguns ritos que de modo gradativo restaurou sua capacidade de enxergar perfeitamente. Jesus o mandou para sua casa recomendando que não entrasse no vilarejo, onde ele ficava em condições de cegueira.

Mesmo no meio da perseguição mortal, crescente incompreensão dos mais próximos, a rejeição pelos incomodados por sua práxis libertadora, Jesus de Nazaré continua inabalável no seu propósito de anunciar o Reino de Deus. Aconselha aos beneficiários do Reino a não voltarem às circunstâncias que lhes roubam elementos necessários da vida em sua plenitude (cf. Mc 8,26).

Aqui surge uma pergunta que não quer se calar: no retrocesso sócio-político-econômico-religioso, o que está acontecendo em nosso país não é justamente a volta aos tempos de obscurantismo, justamente o que Jesus pediu o curado de Betsaida evitar?

domingo, 13 de janeiro de 2019 0 comentários

A fé em Jesus não tem fronteiras


Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o Século 21 (28)
A fé em Jesus não tem fronteiras – a cura da filha da mulher siro-fenícia


Nos evangelhos de Marcos e Mateus há um episódio que fala da cura da filha da mulher siro-fenícia (cf. Mc 7,24-30; Mt 15,21-28). Em seguida vem o trecho que fala da cura de um surdo-gago. Só o Evangelho de Marcos tem essa narrativa. Estes trechos estão colocados em ambos os evangelhos logo depois da interpretação das leis e dos costumes tradicionais dos Judeus que Jesus faz e que, de acordo com seus discípulos, escandalizou os fariseus e doutores da lei (cf. Mt 15, 12).
De acordo com Marcos Jesus está a caminho para a região de Tiro e Sidônia. Ele entrou numa casa e queria que ninguém soubesse disso. Levando em consideração a decisão das elites para matar Jesus e as instâncias de incompreensão e rejeição que seguem essa decisão (cf. Mc 3,6.20-21.22; 5,16-17; 6,1-6a) não seria um erro considerar Jesus um fugitivo, e é por isso Marcos afirma que Jesus não queria que detalhes sobre seu paradeiro fossem divulgados. No entanto. Mateus não menciona este detalhe.
Quanto à mulher siro-fenícia, a mãe da menina endemoninhada, que procura a salvação para sua filha, Mateus tem detalhes que chamam atenção. Na boca dessa mulher é colocado dois dos títulos Cristológicos importantes do NT: “Senhor” e “Filho de Davi” (Mt 15,22). Ela pede a libertação da sua filha do sofrimento terrível de possuída. Surpreendentemente Jesus não presta atenção alguma a pedido da mulher. São os discípulos, incomodados com a insistência da mulher, que intercedem a favor dela. E aqui, na fala de Jesus, temos a expressão de um dos problemas cruciais que as comunidades primitivas tentavam a resolver. Disse Jesus: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel!” (Mt 15,24). Qual o significado dessa afirmação?
Como o próprio Jesus e seus primeiros discípulos eram todos judeus, havia um grupo forte que resistia a qualquer abertura nas comunidades cristãs para receber pagãos no seu meio. As palavras de Jesus citadas acima apontam para a força que este grupo tinha na comunidade. Vale notar que os Atos dos Apóstolos retratem essa luta que não se resolveu com facilidade alguma.
Segundo Mateus, neste momento a mulher aproximou-se de Jesus, ajoelhou-se diante dele e pediu socorro, enquanto Marcos nos fala da mulher que se atira aos pés de Jesus para pedir auxílio. A reação do Nazareno até parece grosseria: “Deixe que primeiro os filhos fiquem saciados. Porque não fica bem tirar os pães dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos” (Mc 7,26-27). A mulher deu uma resposta surpreendente, oriunda da fé confiante: “Senhor, também os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas das crianças”. Vendo a força da sua fé Jesus disse a ela que sua filha estava libertada da sua aflição. A mulher voltou para sua casa e encontrou a filha curada, deitada na cama.
O mundo sempre foi marcado por barreiras e preconceitos diversos: étnico, cultural, econômico, politico etc. O episódio que examinamos acima marca o início de superação desse obstáculo no caminho da humanidade. As palavras insistentes da mulher desafiam as delimitações que procuram delimitar a libertação que Deus proporciona na pessoa de Jesus de Nazaré como exclusividade ao povo judeu apenas. A siro-fenícia defende o direito do seu povo também a ser alcançada pela ação libertadora de Jesus.
Mesmo depois de dois mil anos da existência das comunidades de seguidores de Jesus, ainda há muitas barreiras antes que “Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,28). Nós vivemos um momento em que forças poderosas estão fomentando ódio e preconceitos a serviço do avanço do novo colonialismo neoliberal “globalizado”. Sua técnica atualmente é um suposto “combate” a corrupção falsificando dos processos judiciais, parcialidade acentuada e abuso de poder (agir “ultra vires”), uso de fofoca no lugar de provas para condenar seus adversários. Até mesmo a Igreja Católica passa por um momento de contestações sobre questões com a comunhão eucarística para pessoas em supostas “situações irregulares” e a presidência por parte das mulheres das Celebrações Eucarísticas, entre outras, mesmo que as mulheres celebrem a Eucaristia igual aos homens o fazem (ver a Oração Eucarística 1, do século IV e a Oração Eucarística IV, da era pós-Vat II sobre a distinção entre celebrar e presidir).
Este retrocesso sócio-político-econômico em percurso no mundo globalizado tem seu componente religioso: as seitas de inspiração neopentecostal com seu intimismo alienante, sua teologia de prosperidade e o avanço de algo pior ainda, a teologia do arrebatamento, uma leitura equivocada de alguns textos paulinos.
Com essas observações nós vamos fazer uma leitura de Mc 7,31-37, um episódio que só este evangelho tem. Ainda no território pagão, Jesus está a caminho do Mar da Galileia, levaram um surdo e gago a ele pedindo que ele pusesse a mão sobre ele. O Nazareno o leva para longe da multidão, realiza alguns atos simbólicos e a pessoa recupera sua capacidade de ouvir e a habilidade de falar. A tradicional interpretação enfoca nas práticas sacramentais das comunidades primitivas.
Temos mais um episódio que assinala, em primeiro lugar, perda da capacidade de viver a vida na sua plenitude aflige a humanidade inteira, sem distinção nenhuma; em segundo lugar, a restauração da humanidade que Deus efetua na pessoa de Jesus de Nazaré não se delimita por barreira nenhuma. A missão do Nazareno tem um objetivo amplo: formar homens e mulheres renovados, que possam viver plenamente, na liberdade e responsabilidade. Eis a missão do discípulo missionário cidadão!

 
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