A
quaresma é efetuar mudança social
O texto que fala do chamado de Mateus, o cobrador de
impostos (Mt 9,9-13) tem respostas para algumas perguntas como: 1) quem pode
seguir Jesus?; 2) qual a dinâmica deste seguimento? De acordo com a narrativa,
Jesus chamou o coletor de impostos do local do seu trabalho. Prontamente ele
deixou tudo e seguiu o Nazareno. Jesus, sentado a mesa em casa (em sua casa ou
a de Mateus?) recebeu muitos cobradores de impostos e “pecadores”, o que
escandalizou os guardiões dos ‘bons costumes’ outra vez! Jesus usou o momento
para esclarecer que a sua missão não é junto aos que se consideram perfeitos,
pelo contrário, é junto aos que têm consciência das suas insuficiências. “Vão e
aprendam o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. Porque eu não
vim chamar os justos, e sim pecadores”, foram as palavras do Nazareno na
ocasião.
Voltando para a pergunta sobre quem é que pode seguir Jesus,
a resposta é bem clara: torna-se seu discípulo qualquer um que partilhe a visão
compassiva do profeta Jesus. Para nos ajudar a entender qual a dinâmica do
discipulado Mt 9,14-17 oferece ilustrações que o próprio Nazareno emprega para explicitar
a radical novidade do seguimento. Os partidários de João Batista chegam a questionar
Jesus sobre a vida festiva (sem jejuar!) dos seus discípulos. Com efeito, eles
mesmos e os fariseus levavam uma vida austera e cheia de observâncias severas. Mas,
para o Nazareno, a vida no Reino é uma festa por ter esgotado o tempo de
espera; sem esquecer que, na prática, nem sempre essa festa é ininterrupta! As
parábolas sobre o pano novo de remendo e o vinho novo em odres novos sinalizam essa
diferença fundamental! É de notar que este segundo fragmento sobre o
discipulado, com sua novidade inusitada, desafia a nós, acostumados a resumir
nosso seguimento de Jesus a certas práticas religiosas ou até mesmo apenas a
realização ‘correta’ dos determinados ritos!
O Evangelho continua com mais um bloco de narrativas dos
milagres em 9,18-26. Uma hemorroíssa tocou na orla da túnica de Jesus e ficou curada
(cf. Mc 9,25-26). Percebemos neste texto que este milagre é inserido no relato
doutro – o da ressurreição da filha do chefe. Ao chegar à casa do chefe os
procedimentos funerais estavam em progresso e a multidão estava em alvoroço. O
anúncio que Jesus faz da “ressurreição” da jovem é recebida com desdém, pelo
menos por uma parte da multidão. No entanto, Jesus tomou a menina pela mão e
ela se levanta. A notícia se espalhou em toda parte – mais uma mudança assustadora
na situação/condição da vida.
Em seguida temos o texto que fala da cura dos dois cegos e
um endemoninhado (Mt 9,27-34). Os dois cegos foram atrás de Jesus gritando:
“Filho de Davi, tem piedade de nós”. O Nazareno toca nos olhos deles elogiando
a qualidade da sua fé. Logo depois levaram um endemoninhado a Jesus. Jesus
expulsou o demônio e o mudo começou a falar. O acontecido causou admiração na
população, mas as elites minimizaram-no, acusando Jesus de estar em conluio com
o chefe dos demônios (Belzebu) para poder realizar exorcismos (cf. Mt 9,34;
12,24 e paralelos). Essa campanha é muito parecida com a que a imprensa interesseira
nacional vem fazendo para criminalizar os brasileiros que procuram transformar
o país, de um dos mais desiguais do mundo para uma sociedade solidária e
democrática!
Os versículos (Mt 9,35-38) que fazem a transição de
narrativa para a parte discursiva deste 2º “livro” já nos prepara para “o
diferencial” da missão cristã, isto é, o de transformar a situação de miséria e
angústia do povo numa festa (mudança social)! Jesus que percorreu as cidades, os
vilarejos e povoados, ensinava nas sinagogas conhece de perto as condições da
vida do povo. Ele é movido por compaixão. A exortação para pedir o dono de
colheita mandar trabalhadores é a preparação para ampliar o escopo da presença
do Reino e que o Reino se torna realidade histórica com a participação humana,
comunitária.

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