sábado, 18 de junho de 2016 0 comentários

A multiplicação dos pães

O desafio eucarístico (2)
A multiplicação dos pães

É na Bíblia que encontraremos o caminho para o batizado cidadão neste momento em que o império (capitalismo patrimonial global) procura aniquilar programas políticos da economia solidária, fazendo troça dos ritos democráticos e processos governamentais através do mercenarismo infiltrado nessas áreas. Semana passada nós examinamos os episódios no início do capítulo 6 de Marcos - o contexto do milagre da multiplicação dos pães (Mc 6,30-44), pois acreditamos que é no “símbolo” do pão na Bíblia que descobriremos orientações para batizado agir no mundo atual.

Mc 6,14-29 falou do banquete dos poderosos em que a cabeça do João Batista foi servida num prato (banquete da morte)! Ele contrariou os interesses imperiais. Este banquete está em oposição à multiplicação dos pães (Mc 6,30-44 - o banquete da vida). O texto tem seus paralelos em Mt 14,13-21; Lc 9,10-17; e Jo 6,1-14. De fato, Mc 8,1-10 e Mt 15,32-39 falam até de outra multiplicação. Tantas repetições sinalizam a importância deste aspecto da obra de Jesus de Nazaré que anunciava a chegada do Reino de Deus.

O episódio começa com a volta dos discípulos da missão e seu querer partilharem as experiências (Mc 6,30). Jesus sugeriu que eles fossem com ele para um lugar deserto, a fim de que tenham sossego da multidão que lhe procurava; e foram; contudo ao chegar ao retiro, já estava ali a multidão a sua espera!

Jesus teve compaixão “porque eles estavam como ovelhas sem pastor”. Quando a Bíblia fala de Javé ter compaixão (AT), ou Jesus ter compaixão (NT) uma mudança importante está para acontecer. O Nazareno começou a ensinar muitas coisas para eles. O que será que ele ensinou? As horas avançaram e ficava tarde. Os discípulos, preocupados com a questão de alimentação, pediram Jesus a dispersar a multidão para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar comida.

 “Vocês é que têm de lhes dar de comer” respondeu Jesus. Há um diálogo em seguida sobre como alimentar a multidão e chegaram à conclusão de que a solução convencional (capitalista=a troca) é inviável e foi descartada. Agora o Nazareno levanta a pergunta sobre o que tinham a disposição; por sua parte, os discípulos fizeram um trabalho de verificar; era muito pouco que tinham: apenas cinco pães e dois peixes. Jesus mandou organizar a multidão (sociedade) de uma maneira diferente. Dividiu-se em pequenos grupos que sentaram na relva. Aqui cada um receberia o que precisava. Tal organização difere da multidão, aglomeração desorganizada, que abre a possibilidade dos mais fortes, dos mais rápidos se apossar de tudo o que são capazes, sem consideração das necessidades dos mais lentos, fracos, aleijados etc.

Uma vez que a multidão foi ordenada para facilitar a partilha soli-dária, o texto faz referência à prática eucarística cristã: “depois Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos para que os distribuíssem...” (Mc 6,41). Uma multidão de cinco mil homens, disse o texto, comeu e as sobras recolhidas encheram doze cestos.

Aqui é importante ter em mente que nós não temos uma reportagem nos padrões jornalísticos de hoje, mas uma construção teológica (memorial) das mudanças que aconteciam pela atuação de Jesus. Os números, assim como os outros elementos que compõem a narrativa servem pelo seu valor simbólico e apontam para a economia alternativa que o Profeta propõe como a marca do Reino de Deus.




The English version



The multiplication of loaves

At this moment global capitalist forces are engaged in a ferocious fight to do away with all efforts to create more humane economic system the world over. In Brazil, their embedded mercenaries make mockery of democratic processes and governmental procedures for this purpose. In such circumstances it is only in the Bible that one can find any help to find a way out of this subhuman state of affairs. In our last post we looked at what the Gospel of Mark tells us at the beginning of Chapter 6, considering it as the setting for the multiplication of the loaves (Mk 6:3044), because we believe that “bread/loaf” in its symbolic value as found in the Bible has a profound implications for humanity.

The episode begins with the return of the disciples form their missionary trip (Mk 6:30). To make it easier for them to share their experiences, without a crowed pressing on them with their needs, Jesus suggested that they go to a lonely place. But to their surprise they found, when they arrived there, that the deserted place that they had thought of, was taken over by a crowd of needy people!

Jesus had compassion on the multitude, “for they were like sheep without a shepherd”. Whenever in the Bible it is said that Yahweh had compassion (OT), or Jesus felt compassion (NT) a great modification of the situation is about to occur. Jesus began to teach the crowd many things, says the text. What was it that he taught? Time passed and it was getting late. His disciples, concerned about the meals for the crowd, asked Jesus to send them away so that they could go to buy their food in the nearby villages and towns.

“You are the ones who have to feed them” answered Jesus. A dialog follows. The question of feeding such a crowd was examined thoroughly and it was clear that the usual capitalist solution (to buy the needed foodstuff) was inviable. Prophet Jesus asks about the quantity of food available on the spot; the disciples do a quick checking; there was very little, just five loaves and two fish. But then he proposes a new way of organizing the crowd (the society) in such a way that each one gets what she/he needs. The crowd is divided into small groups that sit down on the grassy land. This arrangement is different from that of an unruly crowd which enable the stronger and the faster ones to gather for themselves alone all that they can, without any consideration for the slow, weak and the disabled among them.

Once the crowd is organized to facilitate a solidary sharing the text makes a reference to the Christian Eucharist: “Jesus took the five loaves and the two fish and, raising his eyes to heaven, he pronounced a blessing, broke the loaves and handed them to his disciples to distribute to the people” (Mc 6:41). The text says that five thousand people ate, and what was left over filled twelve baskets.

It is important to have in mind that the Bible text is not a piece of journalistic reporting, but a theological construct that recounts the changes that Jesus’ activity generated. The numbers as well as all the other elements that compose the narrative, through their symbolic value point to the alternative economic system the Prophet of God’s Reign proposes.


segunda-feira, 6 de junho de 2016 0 comentários

O desafio Eucarístico (1)

O desafio Eucarístico (1).

Na quinta-feira (26.05.2016) se comemorou a tradicional festa de Corpus Christi. As atividades da desta festa expressam a fé na presença real divina entre nós. Tal presença de Deus na história humana sempre desafiou a capacidade humana de viver consciente deste fato. Aproveitamos o momento para examinar alguns trechos bíblicos que evidenciam a preocupação divina com a vida humana, e procuraremos elaborar algumas das suas implicações para nós. Começamos com o capítulo 6 de Marcos.

Este capítulo reporta alguns momentos decisivos na vida pública de Jesus. Os primeiros versículos nos contam da reação dos seus conterrâneos durante a sua visita ao seu povoado Nazaré como profeta itinerante. Ele tinha saído para o deserto e passou um tempo ali a fim de discernir melhor sua missão. Foi batizado por João Batista e começou a anunciar a proximidade do Reinado de Deus em Galileia depois que seu mentor foi preso (Mc 1,14-15. Seu anúncio incluía expulsar os maus espíritos, curar os doentes e agir para incluir os tradicionalmente marginalizados de volta ao convívio social. O autor do Evangelho resume todo este trabalho em linguagem figurativa de ‘milagres’.

Suas atividades geraram opiniões conflitantes; os populares, beneficiários da sua ação libertadora, a favor dele; as elites e os poderosos (inclusive autoridades) contra ele, pois ele era visto como uma ameaça ao sistema vigente. O início do capítulo 6 (1-6a) nos conta como ele foi rejeitado pelos seus conterrâneos. Foi neste momento que o rabino Jesus decidiu ampliar o escopo do seu trabalho enviando seus discípulos às aldeias vizinhas com poder sobre os espíritos impuros (cf. Mc 6,6b-12). Eles foram instruídos quanto a “o como” de realizar a missão. Os discípulos foram e pregaram que as pessoas se convertessem. Expulsaram demônios e curaram doentes.

Aqui o autor insere o trecho que fala do fim trágico de João Batista (cf. Mc 6,14-29). Há motivos teológicos e políticos para o autor narrar o episódio aqui, pois o trecho em seguida fala do milagre da multiplicação dos pães. A preparação do ambiente deste milagre (uma festa dos pobres) é contar de uma festa dos poderosos da terra.

O rei Herodes tinha mandado prender João Batista, por causa da Herodíades, sua cunhada com quem ele vivia. Ela queria que João fosse morto, mas o rei precisou a ser coagido para realizar tal cometimento. Quando notícias sobre o profeta de Nazaré chegaram aos ouvidos do déspota, ele acreditou que era i próprio João que ele tinha mandado a matar, mas agora ressuscitado.
A execução do Batista aconteceu na festa do aniversário real prestigiado pelos poderosos e notáveis do seu reino. Herodíades fez com que a dança da sua filha agradasse a todos os convivas, muito mais ao rei, embriagado. A dançarina aproveitou do momento e pediu a cabeça do João Batista como sua recompensa. Relutantemente Herodes deu a ordem de degolar João; sua cabeça foi trazida num prato para a festa!

Na literatura profética encontramos a condenação da prática de devorar a carne do povo nas refeições dos poderosos (cf. Mq 3,3). Ainda hoje os mecanismos econômico-financeiros continuam o “devorar a carne do povo nas refeições dos poderosos”, enquanto o capital patrimonial continua implantando sistemas excludentes e empobrecedores da maioria! Surge a pergunta para nós: qual a postura do batizado perante a farsa que traz ganância irrestrita assumir o controle do nosso país por meios manhosos? Na próxima, analisaremos ‘o milagre’ da multiplicação dos pães.


The English version


On Thursday, 26th of May, the traditional Corpus Christi was celebrated. A number of events and activities to show the faith in the real divine presence among us marked the day. Such divine presence in human history has always been a challenge to the human capacity to live according to this belief. On this occasion we take the opportunity to examine a few Bible passages that deal with the divine interest in human life and to spell out some of its implications. We begin with chapter 6 of the Gospel of Mark.

Chapter 6 o Mark’s Gospel is about some very decisive moments in the public life of Jesus. Right at the beginning we read about the reaction of his fellow countrymen on his first visit as a wandering prophet to Nazareth. He had left this village, gone into the desert, spent time to find out more about his life’s calling, had got himself baptized at the hands of John the Baptist and after John was arrested began announcing the nearness of God’s Reign throughout the region of Galilee (Mk 1:14-15). His proclamation included casting out evil spirits, healing the sick and turning back the situation of those who were traditionally excluded. The author sums up all these in the figurative language of “miracles”.

Opinions were sharply divided about what Jesus had gone about doing; those who were liberated from the evils that had prevented them from enjoying a full life were in his favor, but the powerful, the rich and the elite saw in him an imminent danger to the existing system. The opening verses of the chapter (6:1-6a) tell us that he was rejected by the citizenry of his native village. At this point the Nazarene decided to send his disciples two by two to the neighboring villages with authority over evil spirits (Mk 6:6b-12). They were instructed on how to go about in their mission; they went and preached to people about the need for conversion. They also healed the sick and cast out demons.
It is here that the author inserts the passage about the violent end of John the Baptist (Mk 6:14-29). There is a reason for this; what comes next is the “miracle” of the multiplication of loaves. This is the preparation to contrast the miracle (the feast of the poor) with the feasting of the powerful ones of this world.

King Herod had John arrested because of his sister-in-law Herodias with whom he had been living. Herodias wanted John killed but it took time and effort to get the king do this. And when news about Jesus, the Prophet from Nazareth, began to trickle in, Herod was convinced that it was John whom he had murdered, risen again.

The execution of John the Baptizer took place during the festivities of Herod’s birthday in the presence of the prominent citizens and authorities of the kingdom. Herodias made sure that her daughter’s dance delighted everyone, especially the drunken king. The dancing girl took advantage of the situation and asked for the head of John the Baptizer as her recompense. The unwilling king was pressured to give the order to behead the prisoner and the head was brought in a plate to the girl who gave it to her mother.

There is strong condemnation of this practice of the powerful ones devouring the flesh of the poor in the prophetic literature (Mic 3:3). Even in our days, through shrewd financial schemes the rich continue “to devour the flesh of poor” in their meals, The neoliberal Capitalism is honing up the world economy in a way that excludes and impoverishes the major part of the human race. A vital question arises here: what is the role of the baptized Christian in Brazil at this moment when greed driven structural changes are being imposed in a very sly manner manipulating the very democratic processes? In the next part we shall analyze the “miracle” of the multiplication of loaves to find some clues for an answer.




quarta-feira, 1 de junho de 2016 0 comentários

O Profeta Oséias nos fala...


O Profeta Oséias nos fala...

 

          A literatura profética atravessa os séculos da monarquia no AT. O dicionário Aurélio define o movimento profético apontando para sua liderança carismática, seus aspectos religiosos e sociais, e acrescenta o seguinte comentário: “tal movimento é geralmente considerado pelas ciências sociais como expressão ideológica de grupos ou povos em situação de crise e dominação, e, especialmente, em situação de subordinação colonial”. Diante da manobra desonesta das forças obscurantistas que visam recolonizar o Brasil, é nos escritos proféticos que encontraremos iluminação e indicações para a missão dos discípulos missionários cidadãos.


          O livro do Profeta Oséias trata de um período (750-722 a.C) bem semelhante aos nossos dias. Grande prosperidade e expansão material junto com corrupção e golpes de estado (cf. 2Rs 14,25), pois os reis israelitas esqueceram sua missão e entrosaram se na política imperial. O programa brasileiro de construir uma sociedade igualitária também sofreu desvio semelhante, quando os governantes optararam realizar as extravagâncias escandalosas de consumo, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas que, de fato, marcam o “arrivismo” (inoportuno) num mundo desigual. Em duas décadas, Israel teve seis reis dos quais quatro foram assassinados. Ainda bem, que hoje o método golpista preferido é menos sangrento: midiática-parlamentar.
 

          Oséias condena a violência, corrupção e assassinatos, e propõe a reorganização da sociedade com estruturas justas (cf. Os 4,1-3). Sua pregação toda está impregnada por uma experiência pessoal tão profunda que se tornou para ele um símbolo (cf. Os 1 e 3). A sua esposa Gomer, a mãe de seus três filhos, deixou-lhe repetidas vezes para se entregar a outros amantes. Esse amor não correspondido ultrapassou o nível de frustração pessoal para ser uma enorme força de anúncio profético.
 

          É possível dividir o livro em três partes a fim de captar melhor sua mensagem. A primeira (1-3) e a segunda (4-11) apresentam duas comparações para falar do relacionamento entre Deus e Israel. A terceira parte (12-14) procura sintetizar o casamento e a rebeldia do filho, e conclui afirmando que Deus garante a vida. O profeta retrata a relação entre o Deus, sempre fiel e cheio de amor e seu povo que o abandona e prefere correr ao encontro dos ídolos. Ele denuncia todo tipo de idolatria (=esquecer o projeto de Deus, isto é, “uma sociedade igualitária”) que ele chama de prostituição.


          Os ritos de fertilidade e prostituição sagrada etc., práticas dos cananeus que infiltraram no culto dos hebreus, hoje têm suas versões nas privatizações, terceirizações e o monopólio que a “eficiência” capitalista idolatra. Tais ‘prostituições’, segundo Oséias, incluem também alianças políticas com potências estrangeiras que provocam dependência, exploração econômica e opressão (7,8-12; 8,9-10), os golpes de Estado que preservam interesses de uma pequena minoria (7,3-7), a confiança no poder militar e nas riquezas (8,14; 12,9) e todo tipo de injustiça (4,1-2; 6,8-9; 10,12-13).
 

          Oséias, porém, não é só um acusador, mas anuncia o amor fiel e misericordioso de Deus para com seu povo, se este se converter e voltar a conhecê-lo. Para o profeta, o conhecimento de Deus é uma prática que corresponda ao projeto de Deus, elaborado no deserto por ocasião do êxodo (cf. Ex 19,1-40,38 a aliança do Sinai). Então, sim: Javé receberá novamente seu povo como esposa, dispensando-lhe todo o carinho (2,4-25); ou tratando-o como filho (Os 11).

 

 

 

 
 
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