Vós sois o sal da terra... Mt 5,13
Os capítulos 5-7 de Mateus formam a parte discursiva do
primeiro dos cinco ‘livros’ em que dividimos os capítulos entre a narrativa de
infância de Jesus (Mt 1-2) e a narrativa da sua Paixão, Morte e a Ressurreição (Mt
26-28). Levando estes três capítulos como uma unidade, é possível considerar:
1) 5,1-16 como a introdução; 2) 5,17-7,12 como a interpretação cristã da lei
moral bíblica e 3) 7,13-29 como a conclusão.
Dentro deste esquema, a introdução (Mt 5,1-16) nos traz “as
bem-aventuranças” e as marcas que identificam o seguidor de Jesus. É verdade
que na virada estóica do cristianismo as bem-aventuranças foram consideradas
virtudes a serem adquiridas pelos cristãos. Entretanto, na realidade, são
qualidades que marcam a atuação cristã para fazer o Reinado dos Céus presente
no mundo. É paradoxal que a pobreza do espírito (desapego) e a mansidão não são
marcas dos bem-sucedidos do nosso mundo! Consolar os aflitos, trabalhar pela
justiça, ser misericordiosos, promover a paz etc. na prática, traz perseguições
ainda hoje. É a experiência nossa, assistir as campanhas de vilificação dos
políticos que promovem ideologias que visam gerar fraternidade e solidariedade
que sinalizam a presença do Reino, de fato, aqui na terra.
Nos versículos 5,13-16 temos duas metáforas que servem para caracterizar
os seguidores de Jesus de Nazaré. Essas imagens, tão familiares a todos nós, são
tiradas da vida quotidiana. A primeira, fala do sal que se torna insosso e não
serve para nada mais, a não ser jogado fora e pisado pelos homens. A segunda é
da luz (cf. Mt 4,16). O Nazareno é intransigente na questão da atuação dos seus
seguidores. O texto também comunica a nós o auto-retrato dos primeiros cristãos
– comunidades catalisadoras de mudança social. Uma igreja que serve para
justificar o “status quo” opressora é o sal que perdeu sua salinidade. Uma
igreja que não ilumina, nem aponta para saídas para os miseráveis que sistemas
econômicos baseados na ganância irrestrita geram, é uma luz apagada ou uma
lâmpada colocada debaixo do alqueire. No entanto, seguir Jesus é incessante
trabalho para abrir caminhos para superar a exclusão e favorecer os mais
necessitados num repartir equitativo das riquezas que a terra produz.
Agora passamos para a nova interpretação da lei moral
bíblica (Mt 5,17-7,12), ou seja, o decálogo, os grandes mandamentos do amor ao
Deus e ao próximo e os deveres de piedade (Mt 5,17-7,12). No capítulo cinco nós
temos uma secção de vinte e oito versículos (Mt 5,20-48) que fazem uma comparação
entre algumas praticas tradicionais e sua (nova) observância inspirada na práxis
de Jesus. Referem as práticas a respeito da ira (VV.21-26), o adultério (vv.27-30),
o divórcio (vv.31-32), os juramentos (vv33-37), a vingança (vv.38-42) e
finalmente o mais exigente: o amor aos inimigos (vv.43-48).
Temos aqui seis perícopes que obedecem a uma fórmula:
“Ouvistes... mas Eu vos digo”. O primeiro refere à questão de ira. A nova
recomendação é de fazer as pazes com o adversário antes de tudo; até o sacrifício
a Deus é para ser oferecido numa atitude reconciliadora. Na questão de
igualdade dos sexos, vv.27-30 apresentam uma proposta que incentiva uma atitude
de respeito pela pessoa da mulher, e não considerá-la um objeto sexual. Na
questão de repudiar a mulher, o novo ensino acaba de vez com o tradicional
privilégio masculino. Na comunidade na qual o Reino se faz presente não há
necessidade dos juramentos. A nova interpretação da “lei de talião” (Mt 5,
38-42) prepara o caminho para o projeto revolucionário do Reino, isto é, amar
os inimigos e orar pelos que perseguem a gente (Mt 5,43-48)!

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