Há quatro anos...
Na última segunda-feira (13.03.2017) fez quatro anos que
Cardeal Jorge Mario Bergoglio, de Buenos Aires, apareceu na janela dos
aposentos papais no Vaticano para assumir o ministério do Bispo de Roma com o
nome de Francisco. Passadas as emoções iniciais, o mundo católico respirou com
alívio, depois de três décadas de restauração a cristandade. Não poucos
pensadores católicos tinham considerado aquele período “o exílio babilônico” da
igreja em nossos dias! Também o mundo que recuperava da primeira crise do
capitalismo patrimonial hegemônico de século 21 se alegrou com a chegada deste
homem “do fim do mundo” a Sé de Roma. Bergoglio, este arquiteto principal do documento
conclusivo de CELAM, Aparecida (2007) que definiu os cristãos “Discípulos-Missionários”
não decepcionou ninguém. Para começar, ele, o primeiro da Companhia de Jesus a
assumir o governo da Sé de Roma pediu o povo de Deus abençoá-lo, contrariando o
protocolo tradicional! Foi o início de inverter a pirâmide hierárquica estrutural
da igreja a uma da comunhão e colegialidade. Ele optou para morar no hotel do
Vaticano “Domus Mariae”, pagar suas contas pessoalmente e carregar sua bagagem
da mão nas viagens.
As promessas e frustrações do papado do Francisco são
simbolizadas na Exortação pós-sinodal “Amoris Letitia” (Alegria do amor) no seu
conteúdo e na sua recepção pelos católicos do mundo. Com gestos simbólicos e
palavras, apesar da aparente espontaneidade aborrecedora a alguns, ele restabeleceu
credibilidade da igreja mergulhada numa maré de escândalos. Claro, ainda há
muito a reformar, mas é bom recordar sua política: “toda mudança tem que ser
bem preparada”.
Um dos primeiros atos do governo do Francisco foi convocar o
Sínodo realizado nos anos 2014 e 2015 sobre os desafios que a família enfrenta no
mundo de hoje. Os preparativos incluíram questionários que facilitariam a
participação de todos os batizados. Entrementes, jogo de interesses fez com que
a consulta não foi mais do que “pro forma” em muitas dioceses. Mesmo assim o
importante é não perder da vista o esforço do Bispo de Roma converter a igreja
numa comunidade colegial, participativa, correspondendo à imagem “o povo de
Deus”.
O evento levantou esperanças e expectativas no mundo
inteiro; os fiéis junto com aqueles que exercem diversos ministérios em prol da
comunidade reuniram-se em diálogo sobre o que significa “a família” e descobrir
juntos como essa instituição fundamental humana possa ser servida. Papa Francisco,
num modo de falar, incorpora o espírito do Vat2 em sua pessoa, e o Sínodo (dos
bispos, por enquanto) é um dos primeiros frutos daquele Concílio. Ele tomou a
corajosa decisão de usar este organismo estrutural para promover colegialidade,
solidariedade a serviço da missão da igreja e viver a comunhão intra-eclesial.
Na abertura dos trabalhos sinodais o Papa pediu aos padres
falar com “parrhesia”, isto é, com clareza, sem medo e escutar com humildade.
Debates sobre a fidelidade a doutrina tradicional quanto a matrimônio,
divórcio, nulidade das uniões, casais em situações “irregulares” além das
questões como homo afetividade, bissexuais e transgêneros continuam calorosos
ainda hoje. “Amoris Letitia”, o documento que nasceu aqui, não é
revolucionário, mas evolucionário. Não há respostas prontas, porém cutuca a igreja,
sentada a beira de estrada por mais de três décadas, a levantar e caminhar. Desafios
enormes estão no caminho da Igreja: mulheres no ministério da igreja; doutrinas
antiquadas sobre a sexualidade humana e o escândalo de abuso sexual são alguns
dos desafios. O documento, com toda sua complexidade e pluralidade, anuncia a
mensagem: a Igreja é guiada pelo Espírito do Ressuscitado na sua peregrinação.
A conversão pastoral visada pelo Bispo de Roma perturba os
tradicionalistas. No entanto este apóstolo da misericórdia de Deus não desiste fomentar
atualizações na doutrina e nas práticas da igreja. O jornal alemão “Der Zeit”,
na sua edição no dia 08 de março último publicou uma entrevista com Papa
Francisco. Papa falou da possibilidade da ordenação presbiteral dos “viri
probati” (homens idôneos) para resolver a situação das inúmeras comunidades sem
a eucaristia. O Papa não deixou de mencionar as muitas mulheres que estão à
frente das comunidades aos domingos; e o estudo que está sendo feito sobre as
diaconisas...

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