Sal da terra (Mt 5,13) – os batizados, a economia e a
política.
O livro dos Atos dos Apóstolos registra cinco momentos de
confronto dos cristãos com interesses econômicos tradicionais (cf. At 5,1-11;
13,4-12.50-51; 16,16-24; 19,23-40). Os ritos macabros, de tom inquisitorial, que
a nação brasileira vive em 2016 é, de fato, uma batalha entre dois modelos
econômicos: de um lado o social desenvolvimentista do PT; e de outro, a onda
neoliberal do capitalismo selvagem que o PMDB patrocina. Aqui fica claro que conhecer
o capitalismo ajuda entender por que o império enterrou Jesus para nulificar o
Reino de Deus.
O economista francês Thomas Piketty, assistido por equipes
especializadas com acesso aos melhores bancos de dados, pesquisou durante 15
anos a economia mundial nos últimos 200 anos e escreveu “O capital no século
21” (Editora Intrínseca, RJ, 2014). O livro já é uma obra de referência em
pouco tempo. Em 16 capítulos o autor conta a história do capitalismo nos
últimos dois séculos, faz análises e indica seus rumos para o século 21.
A abertura na igreja a partir do Vat 2, e a recém-concluída
Assembleia Geral da CNBB que deliberou o papel “cidadão” dos batizados pedem
conhecimento aprofundado do mundo, o campo de atuação cristã. A intuição
originária do Vat 2 ainda soa em nossos ouvidos: “As alegrias e as esperanças,
as tristezas e as angustias dos homens de hoje, sobretudo dos pobre e de todos
aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as
angústias dos discípulos de Jesus; e não há realidade alguma verdadeiramente
humana que não encontra eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada
por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua
peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação
para a comunicar a todos. Por este motivo, a igreja sente-se real e intimamente
ligada ao gênero humano e à sua história (GS 1).
A revista “Vida Pastoral” (Editora Paulus; versão online: http://www.vidapastoral.com.br/) em
seu número mais recente (57/309, maio-junho de 2016) traz um artigo (páginas
3-12) de autoria do renomado pastoralista Nicolau João Bakker sobre o livro do
Piketty, acima mencionado. Diferente das resenhas comuns, Bakker propõe um roteiro
de leitura do livro para captar as idéias principais do Piketty, usando
principalmente textos do próprio livro.
Nos textos do Evangelho (de João) lidos estes dias na
liturgia duas imagens se destacam: o pão (que desceu do céu) e o bom pastor. A
natureza metafórica da linguagem bíblica, especialmente do Evangelho de João é
bem conhecida. Lembrando disso interpretamos o discurso sobre o pão (cf. Jo 6) como
referindo às necessidades humanas básicas. Inicialmente Jesus recebeu aprovação
da opinião pública, mas na medida em que as exigências para não faltar pão
foram se esclarecendo, suas propostas foram rejeitadas exceto por grupo
minoritário. A segunda imagem, a do pastor pode ser transladada à do político
em nossos dias. João relata como o discurso de Jesus, “o bom pastor”, não
agradou a elite tradicional (cf. Jo 10,25: “... mas vocês não acreditam em
mim”). Houve tentativas de apedrejá-lo; até
mesmo de sequestrá-lo. Mencionamos estes para evidenciar a natureza contraditória
das propostas cristãs às do império. A identidade do cristão, cidadão, choca
frontalmente com os interesses capitalistas, pois o Reino de Deus implica a
conversão a uma sociedade igualitária.

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