quarta-feira, 20 de abril de 2016

Sal da terra (Mt 5,13) - s batizadfos, a economia e a política.

Sal da terra (Mt 5,13) – os batizados, a economia e a política.

O livro dos Atos dos Apóstolos registra cinco momentos de confronto dos cristãos com interesses econômicos tradicionais (cf. At 5,1-11; 13,4-12.50-51; 16,16-24; 19,23-40). Os ritos macabros, de tom inquisitorial, que a nação brasileira vive em 2016 é, de fato, uma batalha entre dois modelos econômicos: de um lado o social desenvolvimentista do PT; e de outro, a onda neoliberal do capitalismo selvagem que o PMDB patrocina. Aqui fica claro que conhecer o capitalismo ajuda entender por que o império enterrou Jesus para nulificar o Reino de Deus.

O economista francês Thomas Piketty, assistido por equipes especializadas com acesso aos melhores bancos de dados, pesquisou durante 15 anos a economia mundial nos últimos 200 anos e escreveu “O capital no século 21” (Editora Intrínseca, RJ, 2014). O livro já é uma obra de referência em pouco tempo. Em 16 capítulos o autor conta a história do capitalismo nos últimos dois séculos, faz análises e indica seus rumos para o século 21.

A abertura na igreja a partir do Vat 2, e a recém-concluída Assembleia Geral da CNBB que deliberou o papel “cidadão” dos batizados pedem conhecimento aprofundado do mundo, o campo de atuação cristã. A intuição originária do Vat 2 ainda soa em nossos ouvidos: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angustias dos homens de hoje, sobretudo dos pobre e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Jesus; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontra eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história (GS 1).

A revista “Vida Pastoral” (Editora Paulus; versão online: http://www.vidapastoral.com.br/) em seu número mais recente (57/309, maio-junho de 2016) traz um artigo (páginas 3-12) de autoria do renomado pastoralista Nicolau João Bakker sobre o livro do Piketty, acima mencionado. Diferente das resenhas comuns, Bakker propõe um roteiro de leitura do livro para captar as idéias principais do Piketty, usando principalmente textos do próprio livro.

Nos textos do Evangelho (de João) lidos estes dias na liturgia duas imagens se destacam: o pão (que desceu do céu) e o bom pastor. A natureza metafórica da linguagem bíblica, especialmente do Evangelho de João é bem conhecida. Lembrando disso interpretamos o discurso sobre o pão (cf. Jo 6) como referindo às necessidades humanas básicas. Inicialmente Jesus recebeu aprovação da opinião pública, mas na medida em que as exigências para não faltar pão foram se esclarecendo, suas propostas foram rejeitadas exceto por grupo minoritário. A segunda imagem, a do pastor pode ser transladada à do político em nossos dias. João relata como o discurso de Jesus, “o bom pastor”, não agradou a elite tradicional (cf. Jo 10,25: “... mas vocês não acreditam em mim”).  Houve tentativas de apedrejá-lo; até mesmo de sequestrá-lo. Mencionamos estes para evidenciar a natureza contraditória das propostas cristãs às do império. A identidade do cristão, cidadão, choca frontalmente com os interesses capitalistas, pois o Reino de Deus implica a conversão a uma sociedade igualitária.



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