O Reino de Deus, uma semente enterrada.
A casa grande ficou muito satisfeita quando enterraram Jesus
de Nazaré, sem saber que tinha plantado uma semente! O Livro dos Atos dos
Apóstolos nos contam como essa semente brotou, nasceu, cresce e se espalha por
toda parte. Hoje nós vamos comentar resumidamente o capítulo 6 do Evangelho de
João e os capítulos 6-9 dos Atos dos Apóstolos para ilustrar o ponto. É
necessário dizer, antes de tudo, que a “memória” que se faz na liturgia não é
uma simples recordação dos eventos do passado; fazer memória neste contexto
ilumina o agir do dia a dia de hoje.
Começamos com o capítulo 6 de João (lido nesta semana), pois
este é de capital importância para entender o Reino de Deus que Jesus
anunciava. A história do milagre da multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) numa
situação em que não tinha como aplicar a solução comercial (capitalista) causou
um surto de esquemas políticos de soluções fáceis sem compromisso. Isto fez com
que Jesus se distanciasse (v.15). A garantia da dignidade não se encontra no
poder de um líder que manda, mas no serviço de cada um e no organizar a
comunidade para o bem de todos. O reencontro de Jesus com seus discípulos
“caminhando sobre as águas” (Jo 6,16-21) pode ser interpretado como a superação
da ideologia capitalista do império (romano) que controlava o Mar Mediterrâneo.
O texto disse que os discípulos “ficaram com medo” ao ver Jesus (v.19).
O longo discurso em seguida (Jo 6,22-59) interpreta as obras
de Jesus (neste caso: a multiplicação dos pães e o caminhar sobre as águas)
como sinais. O texto tem uma estrutura dialogal e passo a passo o mestre leva
seus ouvintes progredirem em sua compreensão. O pão que sacia a fome corporal
temporariamente é o símbolo de algo mais profundo. A tese fundamental joanina é
que Jesus é Deus encarnado (cf. Jo 1,14). O caminho para viver a vida plena é
acreditar naquele que Deus enviou. Acreditar nele implica mudança no estilo de
viver, no organizar a sociedade e no regular a distribuição dos recursos disponíveis.
Agora, o deslocamento de foco na pregação dos discípulos,
isto é, falar não de Reino de Deus que Jesus anunciava, mas pedir que acreditem
na pessoa de Jesus é algo que aconteceu bem na aurora do cristianismo. A
linguagem do discurso contém uma mensagem importante também para os nossos
dias. É notável que ao chegar o momento da decisão, o elemento determinante
para o sonho de Reino de Deus tornar-se a realidade, a opção geral foi contra
Jesus (cf. Jo 6,60-71); somente um pequeno grupo deu conta de aderir a
radicalidade das exigências do Nazareno.
Atos 6-9 referem a um momento de aumento dos cristãos o que motivou
uma organização melhor em vista de funcionamento mais eficaz. Diácono Estevão é
um dos que destacam na sua atuação missionária (At 6,8). Seus adversários,
frustrados nas suas tentativas em desbaratá-lo, subornou especialistas que
instituíram um processo no Sinédrio (cf. At 6,11-15). Na sua defesa (At 7,1-53)
Estevão faz uma releitura do AT numa ótica cristológica e condena uso de Templo
e a imagem de Deus para manter o povo submisso. Irados, arrastaram-no para fora
e apedrejaram-no. Aqui entra outro personagem importante no cenário: Saulo de
Tarso. Coordenou o linchamento do Diácono. Assumiu o papel de do verdugo
principal dos cristãos (At 8,1-4), até que ele mesmo fosse convertido num dos
missionários mais zelosos da causa de Jesus (At 9,1-30), pois na sua carreira
de perseguidor chegou a perceber que o Reino de Deus é uma semente que brota e
frutifica toda vez que é enterrada!

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