quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Reino de Deus, uma semente enterrada.

O Reino de Deus, uma semente enterrada.

A casa grande ficou muito satisfeita quando enterraram Jesus de Nazaré, sem saber que tinha plantado uma semente! O Livro dos Atos dos Apóstolos nos contam como essa semente brotou, nasceu, cresce e se espalha por toda parte. Hoje nós vamos comentar resumidamente o capítulo 6 do Evangelho de João e os capítulos 6-9 dos Atos dos Apóstolos para ilustrar o ponto. É necessário dizer, antes de tudo, que a “memória” que se faz na liturgia não é uma simples recordação dos eventos do passado; fazer memória neste contexto ilumina o agir do dia a dia de hoje.

Começamos com o capítulo 6 de João (lido nesta semana), pois este é de capital importância para entender o Reino de Deus que Jesus anunciava. A história do milagre da multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) numa situação em que não tinha como aplicar a solução comercial (capitalista) causou um surto de esquemas políticos de soluções fáceis sem compromisso. Isto fez com que Jesus se distanciasse (v.15). A garantia da dignidade não se encontra no poder de um líder que manda, mas no serviço de cada um e no organizar a comunidade para o bem de todos. O reencontro de Jesus com seus discípulos “caminhando sobre as águas” (Jo 6,16-21) pode ser interpretado como a superação da ideologia capitalista do império (romano) que controlava o Mar Mediterrâneo. O texto disse que os discípulos “ficaram com medo” ao ver Jesus (v.19).

O longo discurso em seguida (Jo 6,22-59) interpreta as obras de Jesus (neste caso: a multiplicação dos pães e o caminhar sobre as águas) como sinais. O texto tem uma estrutura dialogal e passo a passo o mestre leva seus ouvintes progredirem em sua compreensão. O pão que sacia a fome corporal temporariamente é o símbolo de algo mais profundo. A tese fundamental joanina é que Jesus é Deus encarnado (cf. Jo 1,14). O caminho para viver a vida plena é acreditar naquele que Deus enviou. Acreditar nele implica mudança no estilo de viver, no organizar a sociedade e no regular a distribuição dos recursos disponíveis.

Agora, o deslocamento de foco na pregação dos discípulos, isto é, falar não de Reino de Deus que Jesus anunciava, mas pedir que acreditem na pessoa de Jesus é algo que aconteceu bem na aurora do cristianismo. A linguagem do discurso contém uma mensagem importante também para os nossos dias. É notável que ao chegar o momento da decisão, o elemento determinante para o sonho de Reino de Deus tornar-se a realidade, a opção geral foi contra Jesus (cf. Jo 6,60-71); somente um pequeno grupo deu conta de aderir a radicalidade das exigências do Nazareno.

Atos 6-9 referem a um momento de aumento dos cristãos o que motivou uma organização melhor em vista de funcionamento mais eficaz. Diácono Estevão é um dos que destacam na sua atuação missionária (At 6,8). Seus adversários, frustrados nas suas tentativas em desbaratá-lo, subornou especialistas que instituíram um processo no Sinédrio (cf. At 6,11-15). Na sua defesa (At 7,1-53) Estevão faz uma releitura do AT numa ótica cristológica e condena uso de Templo e a imagem de Deus para manter o povo submisso. Irados, arrastaram-no para fora e apedrejaram-no. Aqui entra outro personagem importante no cenário: Saulo de Tarso. Coordenou o linchamento do Diácono. Assumiu o papel de do verdugo principal dos cristãos (At 8,1-4), até que ele mesmo fosse convertido num dos missionários mais zelosos da causa de Jesus (At 9,1-30), pois na sua carreira de perseguidor chegou a perceber que o Reino de Deus é uma semente que brota e frutifica toda vez que é enterrada!




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