A
traição sempre presente na realidade humana!
A
Sexta-feira da Paixão tradicionalmente faz memória de Jesus de Nazaré, o
profeta itinerante da Galileia que o império Romano, obrigado pelos poderosos
da Palestina, crucificou. Embora os judeus tivessem matado muitos por
apedrejamento (cf, At 7,55-8,2), fizeram questão de conseguir a condenação e a
crucificação de Nazareno pelo governador Romano. Vale notar que eliminar
adversários com máxima violência é algo que se repete com frequência na
história humana. No dia 24 março último (ontem) recordava-se o Mártir Oscar
Romero (de El Salvador) que foi morto a tiro em 1980 enquanto celebrava a Missa
por ele se posicionar a favor dos massacrados. De fato não houve nenhum
processo para evidenciar “legalidade”, mas a esquadrão de morte executou o em
prol do império. Entre os numerosos mártires que foram eliminados assim, temos
Chico Mendes, Dorothy Stang, Ezekiel Ramin (Brasil), Martin Luther King (EUA),
Mahatma Gandhi (Índia) cuja memória permanece fresca entre nós. Todos eles
agiram de tal maneira que seus opositores sentiram-se obrigados a reagir com
violência mortal.
Nós
já tivemos oportunidade de analisar a práxis de Jesus em poucos detalhes em
diversos momentos neste mesmo espaço. O evangelista Lucas é que apresenta um
manifesto (Lc 4,16-30) que motivava a práxis jesuânica pondo-o em conflito
direto com interesses imperiais. Todos os evangelhos (principalmente os
sinóticos) nos contam como este pregador itinerante libertou seus conterrâneos
das garras das ideologias escravizantes (exorcismos), efetuou inclusão social
(curas de diversos tipos de doenças), interpretou as leis, tradições e costumes
com autoridade inusitada e contou parábolas que além de questionar as tradições
consideradas inalteráveis abriu novas perspectivas. Sua práxis gerou duas
reações: (1) entre os populares, esperança e expectativas nunca antes vistas;
(2) entre as elites e os poderosos que dominavam o povo, apreensão e temor.
No
domingo de Ramos (20.03.2016) comemoramos a entrada de Jesus em Jerusalém
aclamado rei e profeta pelos seus seguidores. Estando em Jerusalém, ele foi a
templo, observou tudo e organizou um movimento a fim de eliminar as operações
econômico-financeiras sediadas no lugar santo. As autoridades que já estavam de
olho nele desde Galileia, mas sem poder barrá-lo, por ele ter aprovação popular
esmagadora, agora receberam apoio dos hierosolimitanos afetados pela ação
profética de Jesus contra o templo centrado comércio. Além disso, as
autoridades receberam uma oferta extraordinária de traição e entrega, da parte
de um dos seus colaboradores mais íntimos: Judas Iscariotes. A similaridade
entre os elementos do golpe em andamento no Brasil e a eliminação de Jesus de
Nazaré, na forma da lei, é impressionante além de ser muito evidente!
A
decisão de matar Jesus foi tomada bem antes da sua execução (cf. Mc 3,6; Jo
7,1.11,53). Não foram poucas as tentativas para pelo menos sequestrá-lo ou até
mesmo matá-lo (cf. Lc 4,28-30; Jo 7,30.32.44-52; 8,40.59; 11,45-54). Nós já
comentamos sobre a reação que a investida do profeta de Nazaré contra as
atividades comerciais no templo produziu. Pelo fato de todos os quatro
evangelhos reportarem este episódio (Mc 11,15-16; Mt 21,12-17; Lc 19,45-46; Jo
2,13-24) fica claro que foi o momento de virada na perseguição do rabino Jesus.
A entrada de Judas Iscariotes no cenário golpista (Mc 14,1-2; Lc 22,1-7; Jo
13,21-30) facilitou a realização do projeto dos poderosos para acabar com Jesus
de Nazaré.

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