Jesus de Nazaré - o
possuído no Evangelho de João...
O Evangelho de
João tem vocábulos como demônio, satanás, diabo e maligno em comum com os
evangelhos sinóticos na sua demonologia; a estes o autor acrescenta a expressão
“o príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30; 16,11). Depois de falar sobre o que João
tem a nos dizer sobre as forças demoníacas e como as mesmas agiram contra o
próprio Jesus examinaremos a expressão o ‘príncipe deste mundo’.
Na época em que o
Evangelho de João foi redigido (antes do 100 d.C.) o poder imperial (romano) estava
vigorosamente empenhado em aniquilar as comunidades cristãs. Essas ameaçavam os
fundamentos do império, quer dizer, as políticas de: (1) dominação dos povos e (2)
o acumulo de riqueza. É Jesus que é
acusado de estar possesso por demônio. Seus acusadores são os romanos,
autoridades do Sinédrio e o Grande Conselho dos Judeus – estes dois são mercenários
do primeiro. O Nazareno não é considerado possesso por espíritos impuros ou
doenças. De fato, João nem mesmo apresenta nenhum exorcismo. Ele é acusado de
ser possesso por interpretar as Leis e as Escrituras de maneira diferente do
tradicional; ele faz uma experiência com Deus diferente daquela que faziam as
autoridades da sinagoga e do Templo, e finalmente, por ter uma prática
libertadora.
Tal interpretação
e o agir libertador de Jesus de Nazaré ameaça a ordem estabelecida e garantida
pelo sistema de Templo. O capítulo 7 de João ilustra este ponto. Na festa das
tendas em Jerusalém, numa situação hostil e tensa, o Nazareno aparece e ensina
a respeito da Lei e das Escrituras. Uns dizem que ele é bom, enquanto outros
opinam que ele engana o povo (cf. Jo 7, 12-13).
O termo “Judeus” no
Evangelho de João refere às autoridades, e os outros que são contra o profeta
de Nazaré, e não ao povo judeu em sua totalidade. Pressentindo o complô Jesus
pergunta por que eles querem matar-lhe, e a resposta é: “Tu estás possuído por um
demônio” (cf. Jo 12,19-20; 8,48-49; 8,52). Quando o Nazareno se apresenta como
o Bom Pastor que vem para dar a vida digna para todos, há uma cisão: alguns o
vêem como um possuído delirando, enquanto os outros perguntam como um
endemoninhado poderia abrir os olhos de um cego (Jo 10,19-20; cap. 9).
A caça feroz dos
cristãos é o pano de fundo da redação dos escritos joaninos. Jesus foi acusado
de ser possuído por demônio nos sinóticos (Mc 3,22; Mt 12,24; Lc 11,15). A
finalidade desta campanha é de desacreditá-lo e neutralizar sua liderança. O
Evangelho de João fala de uma campanha mais acirrada para a mesma finalidade. A
atual criminalização repugnante de um programa político democrático no Brasil por
elementos obcecados e ‘fora da lei’ de judiciário em conluio com a parte interesseira
da imprensa é mais bem compreendida à luz da campanha contra o Nazareno e seus
seguidores outrora.
As cartas de João aprofundam o significado de ser filho de Deus
e filho de diabo. O Filho de Deus veio para destruir as obras do diabo que é homicida,
pai de mentira e ódio (cf. 1Jo 3,8-10.15). É importante notar que o autor
caracteriza o pecado como: “não praticar a justiça” e “não amar o seu irmão”.
Para vencer o diabólico espírito de mentira, Jesus nos entrega outro Espírito
que vem do Pai (Jo 15,26; cf. 1 Jo 4,6). Ele permanece conosco e está em nós
(Jo 14,16-17) e nos conduz à verdade plena (Jo 16,26). Ao receber este Espírito
nós nos encarregamos a trabalhar pela concretização do “Reinado de Deus” na
história humana (cf. Lc 4,18-19 e também Is 61,1-3).

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