quarta-feira, 5 de outubro de 2016

As forças maléficas nos Evangelhos Sinóticos

As forças maléficas nos Evangelhos Sinóticos

Os Evangelhos Sinóticos (Mc, Mt e Lc) usam termos específicos para falar da presença dos poderes maléficos que atormentam a vida humana. Vamos enumerá-los: (1) SATANÁS (= adversário, inimigo, acusador, promotor (cf. Mc 4,15; Mt 12,26; Lc 11,18 etc.) é usado 36 vezes no NT; (2) DIABO (= o que joga através, atravessa o caminho, separa, divide, faz tropeçar e cair (Mt 4,1.5.8.11; Lc 4,2.3.5.13 etc.); (3) MALIGNO (= diabo e satanás Mt 5,37; Lc 7,21 etc.); (4) BEELZEBU (= divindade da cidade filisteia de Acaron (2Rs 1,2.3.6.16).

É importante notar que a tradição judaica satanizou Beelzebu, a divindade de outro povo e passou a considerá-la como satanás/diabo. Este nome aparece 7 vezes nos sinóticos (Mt 10,25; 12,24.27; Mc 3,22; Lc 11,15.18.19). As elites judaicas (Mc 3,22; Mt 10,25) acusam Jesus de expulsar os demônios em nome de Beelzebu, considerado o príncipe dos demônios naquela época. Foi uma estratégia de desacreditar o Nazareno, neutralizando sua popularidade para eliminar a ameaça que ele era para os detentores de poder. A campanha atual de um discurso moralista hipócrita sobre “corrupção” para anular um programa de governo que ameaçava os privilégios da elite brasileira é uma versão atualizada da mesma estratégia que foi usada contra Jesus de Nazaré.

Para continuar a nossa enumeração: (5) DRAGÃO é a imagem terrível para identificar satanás, o diabo ou a antiga serpente, conforme a interpretação de Sb 2,24 (Ap 12,9; 20,2). Notemos que as limitações humanas não alcançam o mistério da vida em toda sua profundidade, por isso para falar de Deus usamos imagens de nosso cotidiano. É comum transferir nossa experiência antropológica para a esfera divina. Imaginar Deus como Pai é um exemplo de como discursamos sobre Deus a partir da nossa experiência familiar. Da mesma maneira partimos da experiência dos impérios deste mundo para imaginar como seria o governo de Deus, com seus exércitos e serviçais celestes hierarquizados. Nós até passamos a opulência, a grandeza e o poder dos reinos deste mundo para a esfera divina, o que corre o perigo de reduzir o mistério do sagrado aos limites das possibilidades humanas ou até mesmo legitimar em nome de Deus a multifacetada dominação pelos poderosos.

A mesma vale também para o diabo. Os antigos imaginavam que o diabo teria seu reinado com servos, anjos etc. (cf. Mt 24,41; 2Cor 12,7; Jd 6, Ap 12,7.9). A comunidade do Apocalipse contrapõe o trono de Deus (Ap 1,4) e o do satanás encarnado nos imperadores divinizados (Ap 2,13). O confronto entre o trono de Deus e o das bestas que sentam em tronos bem concretos nos palácios império romano (Ap 13,2) é uma interpretação teológica da história humana.

(6) DEMÔNIO (Grego: DAIMONION) aparece 63 vezes no NT. Desde o tempo de Homero (séc. 7 a.C.) os demônios eram tidos como espíritos divinos intermediários entre as divindades e as pessoas. A palavra ‘demônio’ significa gênio, experto etc. É costume referir às pessoas geniais como verdadeiros demônios em suas respectivas artes. Entretanto em Israel o termo assumiu uma conotação somente negativa, como espírito mau contrário a Deus, atormentando as pessoas com males físicos e psíquicos, desgraças e sofrimentos. Ainda há outros termos como: (7) ESPÍRITO MUDO (Mc 9,17.25); (8) ESPÍRITO SURDO E MUDO (Mc 9,25); (9) ESPÍRITO DE DOENÇA (Lc 13,11); (10) ESPÍRITO IMPURO/IMUNDO (Mt 10,1); (11) O ESPÍRITO DE UM DEMÔNIO IMPURO (Lc 4,33) e (12) ESPÍRITO MALIGNO/MAU (Lc 7,21) para falar dos poderes maléficos que atormentam a vida humana.



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