As forças maléficas
nos Evangelhos Sinóticos
Os Evangelhos Sinóticos (Mc, Mt e Lc) usam termos específicos
para falar da presença dos poderes maléficos que atormentam a vida humana. Vamos
enumerá-los: (1) SATANÁS (= adversário, inimigo, acusador, promotor (cf.
Mc 4,15; Mt 12,26; Lc 11,18 etc.) é usado 36 vezes no NT; (2) DIABO (=
o que joga através, atravessa o caminho, separa, divide, faz tropeçar e cair (Mt
4,1.5.8.11; Lc 4,2.3.5.13 etc.); (3) MALIGNO (= diabo e satanás Mt 5,37; Lc 7,21
etc.); (4) BEELZEBU (= divindade da cidade filisteia de Acaron (2Rs 1,2.3.6.16).
É importante notar que a tradição judaica satanizou Beelzebu,
a divindade de outro povo e passou a considerá-la como satanás/diabo. Este nome
aparece 7 vezes nos sinóticos (Mt 10,25; 12,24.27; Mc 3,22; Lc 11,15.18.19). As
elites judaicas (Mc 3,22; Mt 10,25) acusam Jesus de expulsar os demônios em
nome de Beelzebu, considerado o príncipe dos demônios naquela época. Foi uma
estratégia de desacreditar o Nazareno, neutralizando sua popularidade para eliminar
a ameaça que ele era para os detentores de poder. A campanha atual de um discurso
moralista hipócrita sobre “corrupção” para anular um programa de governo que
ameaçava os privilégios da elite brasileira é uma versão atualizada da mesma
estratégia que foi usada contra Jesus de Nazaré.
Para continuar a nossa enumeração: (5) DRAGÃO
é a imagem terrível para identificar satanás, o diabo ou a antiga serpente,
conforme a interpretação de Sb 2,24 (Ap 12,9; 20,2). Notemos que as limitações
humanas não alcançam o mistério da vida em toda sua profundidade, por isso para
falar de Deus usamos imagens de nosso cotidiano. É comum transferir nossa
experiência antropológica para a esfera divina. Imaginar Deus como Pai é um
exemplo de como discursamos sobre Deus a partir da nossa experiência familiar.
Da mesma maneira partimos da experiência dos impérios deste mundo para imaginar
como seria o governo de Deus, com seus exércitos e serviçais celestes hierarquizados.
Nós até passamos a opulência, a grandeza e o poder dos reinos deste mundo para
a esfera divina, o que corre o perigo de reduzir o mistério do sagrado aos
limites das possibilidades humanas ou até mesmo legitimar em nome de Deus a multifacetada
dominação pelos poderosos.
A mesma vale também para o diabo. Os antigos
imaginavam que o diabo teria seu reinado com servos, anjos etc. (cf. Mt 24,41;
2Cor 12,7; Jd 6, Ap 12,7.9). A comunidade do Apocalipse contrapõe o trono de
Deus (Ap 1,4) e o do satanás encarnado nos imperadores divinizados (Ap 2,13). O
confronto entre o trono de Deus e o das bestas que sentam em tronos bem
concretos nos palácios império romano (Ap 13,2) é uma interpretação teológica da história humana.
(6) DEMÔNIO
(Grego: DAIMONION) aparece 63 vezes no NT. Desde o tempo de Homero (séc. 7
a.C.) os demônios eram tidos como espíritos divinos intermediários entre as
divindades e as pessoas. A palavra ‘demônio’ significa gênio, experto etc. É
costume referir às pessoas geniais como verdadeiros demônios em suas
respectivas artes. Entretanto em Israel o termo assumiu uma conotação somente
negativa, como espírito mau contrário a Deus, atormentando as pessoas com males
físicos e psíquicos, desgraças e sofrimentos. Ainda há outros termos como: (7) ESPÍRITO
MUDO (Mc 9,17.25); (8) ESPÍRITO SURDO E MUDO (Mc 9,25); (9) ESPÍRITO DE
DOENÇA (Lc 13,11); (10) ESPÍRITO IMPURO/IMUNDO (Mt 10,1); (11) O ESPÍRITO
DE UM DEMÔNIO IMPURO (Lc 4,33) e (12) ESPÍRITO MALIGNO/MAU (Lc
7,21) para falar dos poderes maléficos que atormentam a vida humana.

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