quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O “príncipe deste mundo” sua identidade e seu poder

O “príncipe deste mundo” sua identidade e seu poder

       Que as forças que molduram a história do Brasil hoje correspondem às mesmas que as linguagens da Bíblia nos revelam é algo que não cessa de fascinar-me. Em nossa série de reflexões sobre a força do mal presente na vida humana, assim como nos fala os sinóticos e o Evangelho de João, nós examinamos rapidamente os termos usados e a realidade a qual que cada conceito referia. Na última, nós vimos os termos que João tem em comum com os sinóticos e mencionamos a sua novidade: “o príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30; 16,11). Os escritos joaninos têm uma análise de conjuntura que não deixa em dúvida a identidade deste “príncipe”. Ficou fácil para nós identificarmos este poder e seus mercenários na história que fazemos hoje.
       A opressão romana (pax romana) e o poder das autoridades do sinédrio estavam massacrando as comunidades nas quais surgiram os escritos joaninos. Os poderes constituídos tradicionais odeiam Jesus e seus seguidores, pois estes desmascaram suas obras, que são más (Jo 7,7) é a nossa experiência hodierna! O mundo rejeita o Espírito de verdade (Jo 14,17). Enquanto a paz que Jesus doa é baseada na solidariedade, no serviço e na partilha, o império domina e escraviza para acumular riqueza (14,27; 16,33) gerando mais tribulações. Os imperialistas odeiam e perseguem Jesus e seus discípulos (Jo 15,18-20; 16,2). Do ponto de vista das comunidades joaninas o império e todo “mundo está sob o poder do maligno” (1Jo 5,19). Não importa esteja ele encarnado no judiciário ou nos partidos comprometidos com o esquema imperialista de recolonização (“A ponte para o futuro”). Pois, na prática libertadora dos seguidores de Jesus, estes veem seus privilégios e interesses ameaçados!
       A comunidade viu o “príncipe deste mundo” chegando na pessoa de traidor Judas, nos soldados e a polícia, destacados por sumos sacerdotes e fariseus para prender Jesus no jardim das oliveiras (Jo 18,2-3). Em relação a traidor, Rabino Jesus já tinha dito: “um de vós é um diabo” (Jo 6,70), uma vez que se comprometeu com o projeto homicida (cf Jo 8,44; 13,2.27; Lc 22,3). Traidor Judas era associada a caixa comum dos discípulos (Jo 13,29; 12,6) e na sua atitude João viu a ação do diabo, de satanás, o príncipe deste mundo, em estreita ligação com o desejo de ter, com a ganância de acumular. Isto nos lembra das tentações de Jesus nos sinóticos (Mc 1,12-13; Mt 4,1-11; Lc 4,1-13). Jesus resistiu. Traidor Judas deixou-se corromper.
       Os soldados romanos e os policiais do sinédrio são serviçais do príncipe deste mundo. De acordo com o texto que temos, Jesus de Nazaré foi para um jardim noutro lado da corrente do Cedron terminada sua ceia de despedida; o traidor tomou um pelotão de soldados e alguns guardas, cedidos pelos sumos sacerdotes e fariseus e dirigiu-se para lá com lanternas, tochas e armas (Jo 18,1-3). A conclusão das comunidades joaninas é: o príncipe deste mundo está por trás da tropa romana e dos guardas (Jo 18,3). Traidor Judas está de mãos dadas com o poder opressor.
       Surpreendente! Na sua releitura pós-pascal destes eventos deprimentes, a comunidade viu a vitória de Deus na aparente derrota da cruz! Em Jo 12,31-32 afirma: “...agora o príncipe deste mundo será lançado fora. E quando eu for levantado da terra atrairei todas as pessoas a mim”. Em João 14,30 afirma que “...ele não tem nenhum poder sobre mim”. Por fim, “...o príncipe deste mundo já está condenado” (Jo 16,11). Portanto, a vitória sobre a morte na cruz é sinal de que as forças diabólicas têm poder limitado e foram exorcizadas por Jesus de Nazaré crucificado e ressuscitado.


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