As forças malignas não são extraterrestres...
Hoje faremos uma reflexão para entender a realidade a qual
apontam os muitos termos que NT usa para falar das forças malignas. Jesus, seus
discípulos, as primeiras comunidades e os autores neotestamentários são todos
inseridos no ambiente judaico, influenciado pela demonologia persa e grega.
Entretanto fizeram sua própria leitura dentro desta cosmovisão.
Eles procuram esclarecer o significado da prática de Jesus em
relação às forças do mal presente na vida dos seus conterrâneos. De um lado,
essas forças seduzem o ser humano ao que escraviza. Até mesmo o Nazareno foi
tentado. De outro lado, há uma relação entre as forças das trevas e a doença
como mostra a cura da mulher curvada, em dia de sábado (Lc 13,10-17). Por fim
comentaremos sobre como fetiches assumem poder diabólico ainda no século 21.
Os resumos magistrais nos evangelhos (Lc 4,1-13; Mt 4,1-11)
evidenciam como Jesus foi tentado para abandonar o projeto de Deus. Diante da
fome ele poderia aplicar uma solução mágica, individualista que independe de
uma sociedade injusta. Porém ele escolha o caminho de solidariedade e da
partilha (cf. Mc 6,30-34). O poder centralizador é a opção normal das figuras
públicas desde sempre, mas na proposta do Nazareno o poder é participativo, é
serviço, é lava-pés (Mc 10,41-45; Jo 13,1-11; Mt 27,42-43). Outra tentação
refere à riqueza acumulada; no projeto de Jesus a riqueza tem sentido quando é
partilhada com os pobres, quando serve a vida (Mc 10,17-22; Lc 19,1-10). A
sedução do pecado do prestígio, da glória; ainda, usar os anjos de Deus (a
religião) para chegar à fama, é praticamente irresistível. No entanto a
proposta de Jesus, o projeto de Deus Pai, há glória quando todos têm dignidade,
são cidadãos, irmãos e irmãs (Mc 3,33-35; Mt 23,8-12).
O episódio da cura mulher encurvada, em dia de sábado (Lc
13,10-17) é exemplo de como o espírito impuro inflige males físicos ou
psíquicos às pessoas por ‘possessão’. O que acontece com a mulher possuída
durante 18 anos merece análise. Aqui o projeto de Jesus enfrenta o espírito de
uma instituição – a doutrina, a mentalidade que a sinagoga favorecia; essa que era
incumbida da função de ensinar a lei e salvaguardar seu cumprimento. Duas vezes
é citada a sinagoga (v.10.14) e uma vez seu chefe “indignado” com Jesus (v.14).
Quatro vezes é lembrado o sábado quando era proibido realizar curas (vv.
10.14.15.16).
É significativo o número 18, pois na Bíblia os números falam
(cf Ap 13,18). No Apocalipse o número é 666; aqui o número é 6+6+6 o que aponta
para o cúmulo da imperfeição. O que é imperfeito? É a lei e todo o espírito de
sua interpretação que escravizam e encurvam as pessoas. A sinagoga, seu chefe e
demais adversários de Jesus (v.17) constituem a estrutura que aprisionava a
mulher (v.16) e a entortava (v.11). Entretanto a lei foi instituída para
promover a liberdade (Ex 20,2; Dt 5,6). Jesus liberta a mulher, exorciza a da
mentalidade, a ideologia de uma instituição religiosa que prefere a mulher (=o
ser humano) prostrada, calada.
Por fim, o dicionário Houaiss define fetiche como: “objeto a
que se atribui poder supernatural ou mágico e a que se presta culto”. A
humanidade vive um momento em que a riqueza acumulada virou fetiche. “Não
podeis servir a Deus e à riqueza” (Mt 6,24; Lc 16,13) disse Jesus que
reconheceu a presença do poder diabólico na riqueza idolatrada (MAMONA, em
aramaico). A invasão do império neoliberal (“A Ponte para o futuro”) o
retrocesso e recolonização subseqüentes no Brasil mostram o poder do fetiche
que promove a traição, desrespeito à cidadania, manipulação e subversão dos processos
jurídicos e legislativos que entortam o povo brasileiro e o deixam aprisionado.

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