sexta-feira, 14 de outubro de 2016

As forças malignas não são extraterrestres...

As forças malignas não são extraterrestres...

Hoje faremos uma reflexão para entender a realidade a qual apontam os muitos termos que NT usa para falar das forças malignas. Jesus, seus discípulos, as primeiras comunidades e os autores neotestamentários são todos inseridos no ambiente judaico, influenciado pela demonologia persa e grega. Entretanto fizeram sua própria leitura dentro desta cosmovisão.

Eles procuram esclarecer o significado da prática de Jesus em relação às forças do mal presente na vida dos seus conterrâneos. De um lado, essas forças seduzem o ser humano ao que escraviza. Até mesmo o Nazareno foi tentado. De outro lado, há uma relação entre as forças das trevas e a doença como mostra a cura da mulher curvada, em dia de sábado (Lc 13,10-17). Por fim comentaremos sobre como fetiches assumem poder diabólico ainda no século 21.
Os resumos magistrais nos evangelhos (Lc 4,1-13; Mt 4,1-11) evidenciam como Jesus foi tentado para abandonar o projeto de Deus. Diante da fome ele poderia aplicar uma solução mágica, individualista que independe de uma sociedade injusta. Porém ele escolha o caminho de solidariedade e da partilha (cf. Mc 6,30-34). O poder centralizador é a opção normal das figuras públicas desde sempre, mas na proposta do Nazareno o poder é participativo, é serviço, é lava-pés (Mc 10,41-45; Jo 13,1-11; Mt 27,42-43). Outra tentação refere à riqueza acumulada; no projeto de Jesus a riqueza tem sentido quando é partilhada com os pobres, quando serve a vida (Mc 10,17-22; Lc 19,1-10). A sedução do pecado do prestígio, da glória; ainda, usar os anjos de Deus (a religião) para chegar à fama, é praticamente irresistível. No entanto a proposta de Jesus, o projeto de Deus Pai, há glória quando todos têm dignidade, são cidadãos, irmãos e irmãs (Mc 3,33-35; Mt 23,8-12).

O episódio da cura mulher encurvada, em dia de sábado (Lc 13,10-17) é exemplo de como o espírito impuro inflige males físicos ou psíquicos às pessoas por ‘possessão’. O que acontece com a mulher possuída durante 18 anos merece análise. Aqui o projeto de Jesus enfrenta o espírito de uma instituição – a doutrina, a mentalidade que a sinagoga favorecia; essa que era incumbida da função de ensinar a lei e salvaguardar seu cumprimento. Duas vezes é citada a sinagoga (v.10.14) e uma vez seu chefe “indignado” com Jesus (v.14). Quatro vezes é lembrado o sábado quando era proibido realizar curas (vv. 10.14.15.16).

É significativo o número 18, pois na Bíblia os números falam (cf Ap 13,18). No Apocalipse o número é 666; aqui o número é 6+6+6 o que aponta para o cúmulo da imperfeição. O que é imperfeito? É a lei e todo o espírito de sua interpretação que escravizam e encurvam as pessoas. A sinagoga, seu chefe e demais adversários de Jesus (v.17) constituem a estrutura que aprisionava a mulher (v.16) e a entortava (v.11). Entretanto a lei foi instituída para promover a liberdade (Ex 20,2; Dt 5,6). Jesus liberta a mulher, exorciza a da mentalidade, a ideologia de uma instituição religiosa que prefere a mulher (=o ser humano) prostrada, calada.

Por fim, o dicionário Houaiss define fetiche como: “objeto a que se atribui poder supernatural ou mágico e a que se presta culto”. A humanidade vive um momento em que a riqueza acumulada virou fetiche. “Não podeis servir a Deus e à riqueza” (Mt 6,24; Lc 16,13) disse Jesus que reconheceu a presença do poder diabólico na riqueza idolatrada (MAMONA, em aramaico). A invasão do império neoliberal (“A Ponte para o futuro”) o retrocesso e recolonização subseqüentes no Brasil mostram o poder do fetiche que promove a traição, desrespeito à cidadania, manipulação e subversão dos processos jurídicos e legislativos que entortam o povo brasileiro e o deixam aprisionado.

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