sábado, 4 de fevereiro de 2017

Buscai primeiro o Reino de Deus

Buscai primeiro o Reino de Deus Mt 6,33

O capítulo 6 faz parte do discurso sobre a promulgação do Reino dos Céus no Evangelho  Mateus. Nós já vimos que este discurso é uma interpretação cristã do decálogo e dos grandes mandamentos tradicionais dos judeus. Os assuntos tratados neste capítulo incluem a questão de esmola, a oração e o jejum (Mt 6,1-18). Em seguida (vv.19-24) se fala sobre o tesouro verdadeiro, o olho como a capacidade de ler os sinais dos tempos e examina a questão de servir a Deus ou ao Dinheiro (Mamon). E na parte final há uma exortação poética a viver abandonando-se a providência divina (Mt 6,25-34).

Praticar as boas obras, de acordo com a religião judaica, é o que torna o ser humano justo diante de Deus. Entre as boas obras as principais eram a esmola (vv.2-4), a oração (vv.5-6), e o jejum (vv.16-18). Mateus usa o epíteto ‘hipócrita’ para designar toda piedade falsa, afetada e ruidosa. Na opinião dos comentaristas da Bíblia de Jerusalém, aplica-se este termo especialmente a seita dos fariseus. Hoje referimos a todo ‘comportamento afetado’ como farisaísmo. Na questão de oração, Jesus ensina seus discípulos a maneira de orar com humildade, de coração mais que com os lábios, confiantes na bondade do Pai e insistentes até a importunidade.

O “Pai-nosso” na redação de Mateus (Mt 6,9-13) reflete a predileção do autor pelo número sete. Aqui é bom recordar: duas vezes set gerações na genealogia (1,17); sete bem aventuranças (5,3ss); sete parábolas (13,3ss); dever de perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes (18,22) e sete maldições dos fariseus (23,13ss). Comentaristas opinam que esta preocupação mateana com o número sete fez com que adições foram feitas a texto básico, do Pai-nosso encontrado em Lc 11,2-4.

Nos próximos versículos (Mt 6,19-24) temos a postura bem definida sobre a questão de uso dos bens materiais, condizente com os valores que o Reino dos céus promove. É uma tensão existente entre a comunidade dos seguidores de Jesus e o “mundo” em que essas são inseridas. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. Trabalhar só para acumular riquezas materiais, riquezas essas perecíveis e que podem ser roubadas, é contrastado com um tesouro maior, melhor, aqui referida como tesouro ajuntado no céu. Da fala sobre os olhos como a lâmpada do corpo (Mt 6,22-23) sabemos que existiam situações nas comunidades primitivas (como também as atuais) em que temos episódios como o de Ananias e Safira (cf. At 5,1-11). O casal procurou dar um jeitinho na questão de desapego aos bens materiais, mas não deu certo naquele momento. Aqui surge a pergunta: será que não se encontra este mesmo jeitinho nos movimentos ou nas comunidades que hoje ‘tomam’ o nome de Jesus?

A parte final deste capítulo (Mt 6,25-34) usa uma linguagem abeirando ao do poético para falar da possibilidade de viver abandonando-se à providência divina. A preocupação doentia com as necessidades básicas da vida, que destitui a alegria da vida da maioria da população mundial, não é uma característica do Reino, que Jesus instaura. O poeta de Nazaré fala disso tirando exemplos de própria natureza: 1) as aves do céu que nunca faltam sua comida; e 2) os lírios do campo que possui a beleza que nem Salomão, considerado o mais bem trajado no mundo bíblico, tinha! Sim, o discurso pode parecer muito idealista e fora da nossa realidade, pois nós nos organizamos de acordo com a lei da selva: o mais forte acumula tudo o que pode e domina os mais fracos. Entretanto, buscar o Reino primeiro, acima de tudo, é ir contra o neoliberalismo patrimonial que prevalece hoje!


Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
;