Buscai primeiro o
Reino de Deus Mt 6,33
O capítulo 6 faz parte do discurso sobre a promulgação do
Reino dos Céus no Evangelho Mateus. Nós
já vimos que este discurso é uma interpretação cristã do decálogo e dos grandes
mandamentos tradicionais dos judeus. Os assuntos tratados neste capítulo
incluem a questão de esmola, a oração e o jejum (Mt 6,1-18). Em seguida (vv.19-24)
se fala sobre o tesouro verdadeiro, o olho como a capacidade de ler os sinais
dos tempos e examina a questão de servir a Deus ou ao Dinheiro (Mamon). E na parte
final há uma exortação poética a viver abandonando-se a providência divina (Mt
6,25-34).
Praticar as boas obras, de acordo com a religião judaica, é
o que torna o ser humano justo diante de Deus. Entre as boas obras as
principais eram a esmola (vv.2-4), a oração (vv.5-6), e o jejum (vv.16-18).
Mateus usa o epíteto ‘hipócrita’ para designar toda piedade falsa, afetada e
ruidosa. Na opinião dos comentaristas da Bíblia de Jerusalém, aplica-se este termo
especialmente a seita dos fariseus. Hoje referimos a todo ‘comportamento
afetado’ como farisaísmo. Na questão de oração, Jesus ensina seus discípulos a
maneira de orar com humildade, de coração mais que com os lábios, confiantes na
bondade do Pai e insistentes até a importunidade.
O “Pai-nosso” na redação de Mateus (Mt 6,9-13) reflete a
predileção do autor pelo número sete. Aqui é bom recordar: duas vezes set
gerações na genealogia (1,17); sete bem aventuranças (5,3ss); sete parábolas
(13,3ss); dever de perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes (18,22)
e sete maldições dos fariseus (23,13ss). Comentaristas opinam que esta
preocupação mateana com o número sete fez com que adições foram feitas a texto
básico, do Pai-nosso encontrado em Lc 11,2-4.
Nos próximos
versículos (Mt 6,19-24) temos a postura bem definida sobre a questão de uso dos
bens materiais, condizente com os valores que o Reino dos céus promove. É uma
tensão existente entre a comunidade dos seguidores de Jesus e o “mundo” em que essas
são inseridas. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. Trabalhar só para
acumular riquezas materiais, riquezas essas perecíveis e que podem ser
roubadas, é contrastado com um tesouro maior, melhor, aqui referida como
tesouro ajuntado no céu. Da fala sobre os olhos como a lâmpada do corpo (Mt
6,22-23) sabemos que existiam situações nas comunidades primitivas (como também
as atuais) em que temos episódios como o de Ananias e Safira (cf. At 5,1-11). O
casal procurou dar um jeitinho na questão de desapego aos bens materiais, mas
não deu certo naquele momento. Aqui surge a pergunta: será que não se encontra
este mesmo jeitinho nos movimentos ou nas comunidades que hoje ‘tomam’ o nome
de Jesus?
A parte final deste capítulo (Mt 6,25-34) usa uma linguagem
abeirando ao do poético para falar da possibilidade de viver abandonando-se à
providência divina. A preocupação doentia com as necessidades básicas da vida,
que destitui a alegria da vida da maioria da população mundial, não é uma característica
do Reino, que Jesus instaura. O poeta de Nazaré fala disso tirando exemplos de própria
natureza: 1) as aves do céu que nunca faltam sua comida; e 2) os lírios do
campo que possui a beleza que nem Salomão, considerado o mais bem trajado no
mundo bíblico, tinha! Sim, o discurso pode parecer muito idealista e fora da
nossa realidade, pois nós nos organizamos de acordo com a lei da selva: o mais
forte acumula tudo o que pode e domina os mais fracos. Entretanto, buscar o
Reino primeiro, acima de tudo, é ir contra o neoliberalismo patrimonial que prevalece
hoje!

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