A cura de um paralítico: início da
inquisição contra Jesus
Lembrando-se de que toda leitura é
uma releitura, quero fazer uma leitura contextualizada do milagre da cura de um
paralítico (Mc 2,1-12) para mostrar que a inquisição contra Jesus de Nazaré
começou aqui. Isto porque nós vivemos um momento histórico em que a inquisição
brasileira procura aniquilar um partido político que ousou ameaçar a hegemonia
da elite tradicional e usar seu sistema iníquo para gerar mobilidade social
para vítimas deste sistem durante quinhentos anos.
Nós já dissemos que os milagres
narrados no início do Evangelho de Marcos, como um bloco, apontam para uma
decisão importante da parte dos poderosos a respeito da práxis de Jesus. As
primeiras reações populares ao que e Jesus fazia, foram de admiração
maravilhada. Entretanto, na medida em que as situações de vida dos beneficiados
dos milagres foram melhorando, as autoridades, sempre atentas para manter os
bons costumes e a ordem tradicional, iniciaram um processo para conter o perigo
que o Nazareno apresentava. Examinando o milagre da cura do paralítico (cf. Mc
2,1-12//Mt 9,1-8//Lc 5,17-26), perceberemos que as perseguições hodiernas atrás
das fachadas hipócritas, como o irrisório combate a corrupção, têm raízes
antigas.
A cura do paralítico acontece
Cafarnaum. Jesus, o famoso taumaturgo, atraiu muita gente a sua volta para a
cidade. Tanta gente reuniu-se para ouvi-lo anunciar a Palavra que nem tinha
espaço na frente da porta da casa onde ele estava. Então quatro homens levaram
um paralítico na maca a Jesus, porém não conseguiram chegar perto dele por
causa da multidão. Nessa situação destelharam a casa em cima do lugar onde o
rabino estava, e o baixaram por este buraco. Vendo a grande fé que este impressionante
empreendimento testificou, Jesus disse ao paralítico: “Filho, teus pecados são
perdoados”.
Os textos de Marcos e Mateus aqui falam
da presença de alguns doutores da Lei no local, porém o texto de Lucas reporta
que os fariseus e mestres da Lei, vindo de todos os vilarejos da Galileia,
Judeia e de Jerusalém estavam presentes. Todos eles começaram “a pensar” do
pecado da blasfêmia Jesus cometeu ao perdoar os pecados do paralítico. Percebendo
o que se passava, Jesus oportunamente demoliu um dos fundamentos do sistema que
os guardiões de bons costumes zelosamente protegiam. O Nazareno anunciou o
poder que todo ser humano tem para proclamar o perdão e a misericórdia de Deus.
Efetivamente, o rito religioso prescrito naquele tempo para o perdão dos
pecados era tão caro que a maioria da população era excluída como “impuros” por
não ter como arcar com as despesas destes ritos. Além disso, a teologia
prevalente naquele tempo ensinava que a doença era um dos castigos de Deus aos
pecadores.
O que os evangelhos nos reportam
nesse episódio efetivamente desmonta também essa crença. Para provar seu ponto,
Jesus disse ao paralítico: “Levante-se, pegue sua maca e vá para casa”.
Imediatamente ele levantou-se, pegou sua maca e saiu diante de todos,
glorificando a Deus. A reação da multidão era uma mistura de medo, pois algo
importante estava modificando-se; ao mesmo tempo entenderam que essa mudança
trazia benefícios ao alcance de todos. Isto causou surpresa alegre, pois
diziam: “Hoje vimos coisas extraordinárias”. O texto de Mateus é mais
explícito: “... as multidões ficaram com medo e glorificavam a Deus por ter
dado às pessoas tão grande autoridade”.
O perdão que Jesus anuncia tinha
implicações profundas para o sistema social daquele tempo. A multidão que
procurava Jesus era vítima de sistema de “meritocracia” reinante. Ao mesmo
tempo, o impressionante é que a multidão ao redor de Jesus, por sua vez, agiu da
mesma maneira dos seus dominadores agiam acumulando tudo o que podiam, deixando
somente as sobras para os outros.
Na pratica isso se evidenciou
quando chegou o paralítico, o morto em vida e dependente de tudo nos outros. Como
cada presente estava a procura de vantagens por si só, o doente nem conseguia
chegar perto de Jesus. Os carregadores tiveram que adotar medidas radicais para
chegar perto do taumaturgo. O perdão dos pecados que Jesus anunciava: é das
culpas pessoais do paralítico ou do sistema que não proporcionava a
oportunidade para quem perdeu a capacidade de viver? O pecado maior é tornar-se indiferente às
necessidades dos mais fracos e necessitados.
Jesus de Nazaré, assim como vimos
acima, desmontou a base do sistema iníquo que protegia seus privilégios sem se
preocupar com a miséria das vítimas que tal sistema produzia. Pela sua práxis
destemida o Nazareno se tornou réu de um processo inquisitório que, mais adiante
veremos, eliminou-o “na forma da lei”. A releitura do milagre da cura do
paralítico apresenta grandes desafios para o discípulo missionário cidadão, que
vive um momento da execução de uma versão atualizada da inquisição na política
brasileira hoje.

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