domingo, 19 de agosto de 2018

A cura de um paralítico: início da inquisição contra Jesus


A cura de um paralítico: início da inquisição contra Jesus


Lembrando-se de que toda leitura é uma releitura, quero fazer uma leitura contextualizada do milagre da cura de um paralítico (Mc 2,1-12) para mostrar que a inquisição contra Jesus de Nazaré começou aqui. Isto porque nós vivemos um momento histórico em que a inquisição brasileira procura aniquilar um partido político que ousou ameaçar a hegemonia da elite tradicional e usar seu sistema iníquo para gerar mobilidade social para vítimas deste sistem durante quinhentos anos.

Nós já dissemos que os milagres narrados no início do Evangelho de Marcos, como um bloco, apontam para uma decisão importante da parte dos poderosos a respeito da práxis de Jesus. As primeiras reações populares ao que e Jesus fazia, foram de admiração maravilhada. Entretanto, na medida em que as situações de vida dos beneficiados dos milagres foram melhorando, as autoridades, sempre atentas para manter os bons costumes e a ordem tradicional, iniciaram um processo para conter o perigo que o Nazareno apresentava. Examinando o milagre da cura do paralítico (cf. Mc 2,1-12//Mt 9,1-8//Lc 5,17-26), perceberemos que as perseguições hodiernas atrás das fachadas hipócritas, como o irrisório combate a corrupção, têm raízes antigas.

A cura do paralítico acontece Cafarnaum. Jesus, o famoso taumaturgo, atraiu muita gente a sua volta para a cidade. Tanta gente reuniu-se para ouvi-lo anunciar a Palavra que nem tinha espaço na frente da porta da casa onde ele estava. Então quatro homens levaram um paralítico na maca a Jesus, porém não conseguiram chegar perto dele por causa da multidão. Nessa situação destelharam a casa em cima do lugar onde o rabino estava, e o baixaram por este buraco. Vendo a grande fé que este impressionante empreendimento testificou, Jesus disse ao paralítico: “Filho, teus pecados são perdoados”.

Os textos de Marcos e Mateus aqui falam da presença de alguns doutores da Lei no local, porém o texto de Lucas reporta que os fariseus e mestres da Lei, vindo de todos os vilarejos da Galileia, Judeia e de Jerusalém estavam presentes. Todos eles começaram “a pensar” do pecado da blasfêmia Jesus cometeu ao perdoar os pecados do paralítico. Percebendo o que se passava, Jesus oportunamente demoliu um dos fundamentos do sistema que os guardiões de bons costumes zelosamente protegiam. O Nazareno anunciou o poder que todo ser humano tem para proclamar o perdão e a misericórdia de Deus. Efetivamente, o rito religioso prescrito naquele tempo para o perdão dos pecados era tão caro que a maioria da população era excluída como “impuros” por não ter como arcar com as despesas destes ritos. Além disso, a teologia prevalente naquele tempo ensinava que a doença era um dos castigos de Deus aos pecadores.

O que os evangelhos nos reportam nesse episódio efetivamente desmonta também essa crença. Para provar seu ponto, Jesus disse ao paralítico: “Levante-se, pegue sua maca e vá para casa”. Imediatamente ele levantou-se, pegou sua maca e saiu diante de todos, glorificando a Deus. A reação da multidão era uma mistura de medo, pois algo importante estava modificando-se; ao mesmo tempo entenderam que essa mudança trazia benefícios ao alcance de todos. Isto causou surpresa alegre, pois diziam: “Hoje vimos coisas extraordinárias”. O texto de Mateus é mais explícito: “... as multidões ficaram com medo e glorificavam a Deus por ter dado às pessoas tão grande autoridade”.

O perdão que Jesus anuncia tinha implicações profundas para o sistema social daquele tempo. A multidão que procurava Jesus era vítima de sistema de “meritocracia” reinante. Ao mesmo tempo, o impressionante é que a multidão ao redor de Jesus, por sua vez, agiu da mesma maneira dos seus dominadores agiam acumulando tudo o que podiam, deixando somente as sobras para os outros.
Na pratica isso se evidenciou quando chegou o paralítico, o morto em vida e dependente de tudo nos outros. Como cada presente estava a procura de vantagens por si só, o doente nem conseguia chegar perto de Jesus. Os carregadores tiveram que adotar medidas radicais para chegar perto do taumaturgo. O perdão dos pecados que Jesus anunciava: é das culpas pessoais do paralítico ou do sistema que não proporcionava a oportunidade para quem perdeu a capacidade de viver?  O pecado maior é tornar-se indiferente às necessidades dos mais fracos e necessitados.

Jesus de Nazaré, assim como vimos acima, desmontou a base do sistema iníquo que protegia seus privilégios sem se preocupar com a miséria das vítimas que tal sistema produzia. Pela sua práxis destemida o Nazareno se tornou réu de um processo inquisitório que, mais adiante veremos, eliminou-o “na forma da lei”. A releitura do milagre da cura do paralítico apresenta grandes desafios para o discípulo missionário cidadão, que vive um momento da execução de uma versão atualizada da inquisição na política brasileira hoje.

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