quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A Boa Notícia é para todos


A Boa Notícia é para todos

De acordo com a narrativa de Marcos, Jesus foi para casa de Pedro com Tiago e João, depois de curar o possuído na sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1,29-34). A sogra de Pedro estava de cama com febre. Contaram a Jesus sobre ela. Jesus aproximou-se dela, tomou-a pela mão e a fez levantar-se. A febre a deixou; restaurada a sua saúde, a sogra de Pedro se pôs a servi-los.

Até o final de tarde aglomerou-se muita gente com doentes e possessos na porta da casa de Pedro; Jesus curou muitos de várias doenças e expulsou muitos demônios. É importante notar que ele não permitiu os demônios gerarem aquele tumulto que queriam fazer sobre a identidade divina de Jesus, ainda desconhecida pelo público.

As curas e os exorcismos que Jesus de Nazaré realiza têm enorme significado na práxis de Jesus, pois sua atuação messiânica visa proporcionar vida livre e abundante para todos. Não se trata apenas de resgatar a saúde, mas restabelecer o bem-estar por inteiro e de criar homens e mulheres novos. “Os demônios”, que sabem quem Jesus é, se sentem ameaçados pelas suas ações libertadoras.
No paralelo deste texto em Mateus (cf. Mt 8,14-17), os detalhes dos acontecimentos são muito parecidos com os de Marcos, com uma diferença: a iniciativa de curar a sogra de Pedro é de Jesus. Ninguém intercede em seu favor. Além disso, o autor interpreta a práxis de Jesus à luz do Profeta Isaías (cf. Is 53,4). Com efeito, os autores do comentário da Bíblia de Jerusalém sobre esta citação, opinam que a interpretação é forçada. Entretanto fica claro que a comunidade primitiva empenhou-se de maneira extraordinária para encontrar o sentido do escândalo da cruz. Afinal Jesus de Nazaré tinha inspirado tantas expectativas! Com essa citação adaptada do texto de Isaías Jesus é apresentado como Servo de Javé, que liberta os homens de tudo aquilo que os aliena e oprime.

O Evangelho de Lucas reporta o episódio (cf. Lc 4,38-41) seguindo a sequência encontrada em Marcos, quer dizer, logo depois da cura do possesso na sinagoga de Cafarnaum, Jesus vai para casa de Pedro. Suplicaram a Jesus pela cura da sogra de Pedro que estava com febre alta. Há alguns verbos a mais aqui, do que nos textos de Marcos ou Mateus, para nos falar da atenção que Jesus dispensava às pessoas que lhe procuravam. O Nazareno inclinou sobre a doente, repreendeu a febre e a febre deixou a doente. Mais adiante, quando se fala dos muitos doentes que foram trazidos a Jesus no mesmo dia, o autor registra que rabino Jesus colocava as mãos sobre cada um deles e os curava.

Contudo, é possível afirmar que Mc 1,29-34 é como um primeiro resumo das atividades de Jesus de Nazaré na região da Galileia. Ao mesmo tempo é necessário incluir nesse resumo o próximo parágrafo, isto é, vv. 35-39 que trata de deixar claros alguns pontos importantes referentes à práxis de Jesus. O primeiro deles é que Jesus se afasta do cenário das suas atividades para estar em comunhão com O Pai em oração. O segundo é que Simão e seus companheiros têm propostas e planos próprios quanto a aproveitar os resultados das atividades de Jesus. Eles foram à procura de Jesus e ao encontra-lo relataram a ele que está todo mundo querendo encontra-lo.

A reação de Jesus a este comunicado aponta para até uma insinuação de que o Nazareno deveria aproveitar da popularidade, entretanto sua resposta é que o foco da sua missão é anunciar essa mesma boa notícia aos que ainda não a ouviram; sem ser desviado ele partiu dali pregando nas sinagogas por toda Galileia e expulsando os demônios.

Enquanto isso, em Lucas (Lc 4,42-44) é a multidão que sai a procura de Jesus e tenta segurá-lo, sem dúvida alguma, para seu próprio benefício. De novo, sua resposta não é diferente daquela que Pedro e seus companheiros receberam nem seu agir em seguida.  

Ficou evidente que as atividades realizadas por Jesus têm o objetivo de formar seres humanos livres e responsáveis que assumem e espalhem a boa notícia aos pobres, isto é, outro mundo é passível. Mais especificamente, a Boa Notícia do Reino é o amor de Deus que provoca a transformação radical das estruturas que escravizam os homens. O ser humano não consegue acolher tal ideologia (programa de ação) facilmente. Por isso, no primeiro diálogo de Jesus com seus discípulos, reportado por Marcos, já se nota a tensão. 

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