Jesus, a Boa Notícia para o século 21 (7)
João Batista anuncia a mudança radical
(1) Depois de examinar a introdução a história de Jesus de Nazaré
nos quatro evangelhos nós passamos agora a averiguar o que os quatro
têm registrado sobre o contexto histórico no qual o Nazareno deu
início a sua atuação libertadora do seu povo. Os versículos 2-8
do primeiro capítulo de Marcos nos falam da pregação do João
Batista que gerou uma expectativa esperançosa na sociedade que
almejava ação direta do próprio Deus, visto que as estruturas
tradicionais e sua maneira de exercer a autoridade, tinham se
manifestado claramente incapazes de corresponder aos anseios do povo.
Para começar, o autor de Marcos introduz a nós João Batista, o
mensageiro de Deus, a voz que clama no deserto pedindo mudança de
vida, como cumprimento das profecias de Malaquias (3,1) e Isaías
(40,3) que assinalavam a ação divina. Em meio a toda frustração
que vivia o povo palestinense, o Profeta João aparece no deserto
pregando a “conversão”, mudança de vida, como preparação para
acolher as transformações radicais que um “enviado” de Deus,
ainda desconhecido, efetuaria em breve.
É necessário enfatizar que João chamou o povo para o deserto, pois
ele defendia um novo começo, para fazer os preparativos a acolher a
nova aliança. Todos da região iam até ele, uma vez que eram
cansados do sistema político-religioso vigente, este que na verdade,
se encontrava bem longe dos ideais da primeira aliança que tinha
constituído a nação, outrora. A primeira aliança entre Javé e o
povo foi concluído no deserto. Agora, na sua incessante busca de
salvação o povo dá ouvido a convocação de João e sai para o
deserto de novo para arrumar o ambiente propício para a tão
almejada redenção, ainda vindoura.
O batismo de água que João administrava, era apenas um rito de
iniciação de todo um processo, que exigia o arrependimento para o
perdão dos pecados. Era a condição que João punha para o povo
poder acolher aquele, o mais forte, ainda por vir depois dele.
Considera-se que João batizava nas cercanias da região por onde
Josué com o povo israelita teria atravessado o Rio Jordão nos
primórdios da história para tomar a cidade de Jericó, dando início
a ocupação da terra prometida.
Profeta João levava uma vida de ascese severa, pelo que o texto nos
conta. Ele batizava com água e se considerava apenas o servo daquele
que, futuramente, batizaria com o Espírito Santo.
(2) No Evangelho de Mateus, temos a narrativa da pregação de João
Batista no capítulo 3, 1-12. Quanto à sua descrição do
personagem, o conteúdo de pregação de João, e a interpretação
do seu ministério profético, os textos de Mateus e de Marcos
concordam entre eles.
Entretanto, há acréscimos interessantes em Mateus. O primeiro deles
que vamos destacar é a crítica do sistema opressora que João faz;
essa crítica vai colorir a sua saudação dos membros da elite. Ao
observar a presença dos fariseus e saduceus no meio da multidão que
lhe procurava, o profeta chamou-os de: “Raça de cobras venenosas”!
(Mt 3, 8). Ademais, ele desmonta a falsa segurança de “ser filhos
de Abraão” em que a oligarquia se fundamentava para poder manter o
sistema iníquo que amparava seus privilégios contra o povo.
Em segundo lugar, João chama o povo de volta para a Aliança, assim
como fizeram todos os profetas “canônicos”. Isto, porque o
momento que se vive tem um elemento de juízo definitivo iminente.
Para ilustrar seu ponto o Profeta usa duas imagens. A do machado que
já está colocado na raiz das árvores que não produzem frutos
desejados a serem jogadas no fogo. A segunda é do pá que está na
mão para começar a limpeza da eira no final da colheita que separa
o trigo de palha. O trigo vai para o celeiro e a palha vai para o
fogo que nunca acaba.
Podemos dizer que a definitividade do momento e radicalidade da
mudança de vida exigida são realçadas com força incomum neste
texto.
(3) Lucas tem um texto ainda mais extenso do que o de Mateus Lc 3,1-,
para nos contar da preparação do ambiente que João Batista faz
para receber o messias tão esperado. O autor contextualiza o
acontecido com referências históricas adequadas. Na sua totalidade
o texto de Lucas concorda com os de Mateus e Marcos no que nos diz
sobre a pregação do Batista.
Enquanto o Batista em Mateus epiteta os membros da oligarquia de
“raça de cobra venenosas”, em Lucas as mesmas palavras são
dirigidas à multidão que ia ao seu encontro. A falsa segurança
baseada no “ser filhos de Abraão” é desconstruída, e as
imagens do machado pronto para derrubar as árvores infrutíferas e o
pá na mão para separar o trigo de palha assinalam a definitividade
da mudança radical iminente.
Além disso, João em Lucas aconselha a multidão que perguntou-lhe
sobre o caminho da conversão, a partilha do que tem, contrariando o
sistema capitalista que praticava o acumulo irrestrito pelos
poderosos, infernizando a vida dos mais fracos e pobres. Aos odiados
e excluídos cobradores de impostos João pediu que não cobrassem
nada mais do que era o estabelecido. Ele orientou os soldados a não
abusassem o poder que tinham a sua disposição.
Aos que, na sua ansiosa busca do salvador tão almejado, imaginavam
que João fosse o Messias, ele assegurou que ele não era o tão
esperado por tantos. Seu batismo era com água enquanto o Messias
prometido batizaria com o Espírito Santo e fogo. Lucas acrescenta a
informação sobre a prisão cautelar que o rei Herodes tinha feito
de João.
(4) Ao passar para falar do que o Evangelho de João nos contra sobre
a fase preparatória que coube a João Batista na apresentação do
Messias tão esperado, algumas observações são necessárias.
Diferente dos sinóticos, que têm narrativas da sua atividade
profética, o autor do Evangelho narra o testemunho que o Profeta no
deserto dá. Em segundo lugar, a expressão “judeus” neste texto
não refere ao povo judeu, mas a parte da população judaica que
combatia ao Jesus. Os “judeus” questionavam sua autoridade para
agir de jeito que ele agia, sua maneira de interpretar as leis e os
costumes, diante das necessidades humanas. A manutenção da ordem
estabelecida não era o critério de Jesus. A elite reconheceu bem
cedo o perigo que Jesus representava ao sistema e trabalhou com
desempenho extraordinário a fim de destruir Jesus e o que ele
representava.
O Evangelho nos apresenta o testemunho de João Batista, nos
versículos 19-28 do seu capítulo primeiro. Este trecho começa com
os enviados de Jerusalém questionando a autoridade do Batista para
começar um movimento com o rito do batismo. O profeta nega ser
aquele, o esperado, e admite ser apenas aquele que aponta para o
envidado de Deus, ainda desconhecido, porém já presente no meio da
multidão que se reunia ao seu redor. Outro ponto de ênfase é que o
Batista admite ser nem digno de desamarrar a correia das sandálias
do messias.
Em conclusão podemos dizer que o ambiente das origens da atividade
messiânica situa-se longe do centro do poder, de qualquer tipo, nas
margens da sociedade que as instituições religiosas e políticas
que procuravam dominar e manter controlado tudo.

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