Jesus de Nazaré diante das tentações (2)
4. Continuamos com o tema das tentações que Jesus de Nazaré
enfrentou durante a sua vida pública. Todos os quatro evangelhos
canônicos falam das tentações que Jesus. Nós já examinamos o que
os evangelhos sinóticos têm a dizer a este respeito. Vimos que
Marcos faz uma simples afirmação que Jesus foi tentado por Satanás,
enquanto Mateus e Lucas nos contam os detalhes das três tentações
de forma esquematizada. Por sua vez, o Evangelho de João nos informa
de uma tentativa por parte dos irmãos de Jesus para persuadi-lo a ir
a Jerusalém e divulgar seu trabalho na ocasião da Festa das Tendas
para ser conhecido (cf. Jo 7,1-5). Argumentaram que quem quisesse ser
conhecido não faz nada às escondidas, e por isso Jesus deve se
mostrar ao mundo. A festa era uma excelente oportunidade. O notável
aqui é que o autor sentiu a necessidade de comentar: “na verdade,
nem os irmãos de Jesus acreditavam nele!”
Ademais, nos sinóticos nós encontramos também outras instâncias
de tentativas de desviar o Nazareno do seu propósito. Pedro, no
episódio da cura da sua sogra (cf. Mc 1,29-34), procura por Jesus
para informá-lo sobre sua popularidade devido as curas realizadas, a
popularidade que poderia ser aproveitada. No entanto, a resposta de
Jesus foi: “Vamos a outros lugares, às aldeias da vizinhança,
para que eu pregue também lá. Porque foi para isso que eu saí”.
De acordo com o texto de Mateus, Jesus, vendo a multidão ao seu
redor mandou que partissem para a outra margem (cf. Mt 8,14-18); aqui
surge uma pergunta sobre o porquê de Jesus querer se afastar da
multidão.
Talvez o que Lucas tem a dizer (cf. Lc 4,38-44) pode nos ajudar
encontrar a resposta a esta pergunta. Não é Pedro apenas, mas a
multidão toda queria segurar Jesus para que ele não fosse embora. A
resposta de Jesus no texto de Lucas é muito parecida com a que Pedro
recebeu, como reporta o texto de Marcos. Transparece em todos os
detalhes narrados, que foi um momento de muita pressão que procurava
desviar o Nazareno do seu caminho; todavia ele segue adiante na sua
missão de passos inabaláveis.
Marcos reporta outra tentativa de Pedro desviar Jesus da sua missão
na ocasião do anúncio da paixão (cf. Mc 8,27-33). Quando Jesus
começou a ensinar aos discípulos que seu caminho não é de um
messias glorioso, mas o do servo sofredor, desencadeou-se um momento
conflituoso, pois Pedro leva Jesus à parte e começou a
repreendê-lo. A reação de Jesus foi de retrucar em linguagem clara
que Pedro tinha prioridades muito contrárias às de Deus. No
paralelo deste episódio em Mateus (cf. Mt 16,23-33) Pedro manifesta
sua intenção de não deixar Jesus seguir seu caminho escolhido, que
produziu severa repreensão da parte de Jesus.
A transfiguração (Mc 9,2-13) é outro momento em que Pedro tomou a
iniciativa e sugeriu a armação de tendas necessárias para
permanecerem onde eles se encontravam. Os paralelos do episódio,
narrados em Mt (Mt 17,1-13) e Lc (Lc 9,28-36) têm os mesmos
detalhes. Mas, todos os três textos nos dão indicações que a cena
refere a desarmonia que existia entre Jesus e seus apóstolos quanto
a finalidade e os métodos de sua práxis. É Pedro, como sempre, que
toma a iniciativa para fazer uma proposta desafinada com a de Jesus;
entretanto é necessário ver na pessoa de Pedro o representante dos
interesses motivadores dos que seguiam Jesus.
Ainda outro momento de tentativa para manipular a práxis de Jesus e
desviar a sua missão, foi na ocasião da multiplicação dos pães.
Todos os quatro evangelhos narram este milagre. No entanto, o
Evangelho de Marcos fala de Jesus, logo que todo mundo comeu e ficou
satisfeito, obrigar os discípulos entrar na barca e seguir adiante
dele para a outra margem. Ele mesmo despediu a multidão e foi à
montanha para rezar (cf. Mc 6,45-47). Mateus narra os mesmos
detalhes, porém acrescenta: “Quando chegou o fim da tarde, ele
estava aí sozinho…” (cf. Mt 14,22-23). No Evangelho de João
afirma-se que houve um plano para fazer Jesus rei, ao perceber o que
ia acontecer, Jesus se afastou, e foi para a montanha sozinho (cf. Jo
6,14-15).
De tudo isso percebemos que Jesus o Nazareno foi tentado
frequentemente e precisou ficar muito atento para que não fosse
desviado de seu propósito missionário.

Nenhum comentário:
Postar um comentário