terça-feira, 17 de julho de 2018

Jesus de Nazaré diante das tentações (2)


Jesus de Nazaré diante das tentações (2)


4. Continuamos com o tema das tentações que Jesus de Nazaré enfrentou durante a sua vida pública. Todos os quatro evangelhos canônicos falam das tentações que Jesus. Nós já examinamos o que os evangelhos sinóticos têm a dizer a este respeito. Vimos que Marcos faz uma simples afirmação que Jesus foi tentado por Satanás, enquanto Mateus e Lucas nos contam os detalhes das três tentações de forma esquematizada. Por sua vez, o Evangelho de João nos informa de uma tentativa por parte dos irmãos de Jesus para persuadi-lo a ir a Jerusalém e divulgar seu trabalho na ocasião da Festa das Tendas para ser conhecido (cf. Jo 7,1-5). Argumentaram que quem quisesse ser conhecido não faz nada às escondidas, e por isso Jesus deve se mostrar ao mundo. A festa era uma excelente oportunidade. O notável aqui é que o autor sentiu a necessidade de comentar: “na verdade, nem os irmãos de Jesus acreditavam nele!”
Ademais, nos sinóticos nós encontramos também outras instâncias de tentativas de desviar o Nazareno do seu propósito. Pedro, no episódio da cura da sua sogra (cf. Mc 1,29-34), procura por Jesus para informá-lo sobre sua popularidade devido as curas realizadas, a popularidade que poderia ser aproveitada. No entanto, a resposta de Jesus foi: “Vamos a outros lugares, às aldeias da vizinhança, para que eu pregue também lá. Porque foi para isso que eu saí”.
De acordo com o texto de Mateus, Jesus, vendo a multidão ao seu redor mandou que partissem para a outra margem (cf. Mt 8,14-18); aqui surge uma pergunta sobre o porquê de Jesus querer se afastar da multidão.
Talvez o que Lucas tem a dizer (cf. Lc 4,38-44) pode nos ajudar encontrar a resposta a esta pergunta. Não é Pedro apenas, mas a multidão toda queria segurar Jesus para que ele não fosse embora. A resposta de Jesus no texto de Lucas é muito parecida com a que Pedro recebeu, como reporta o texto de Marcos. Transparece em todos os detalhes narrados, que foi um momento de muita pressão que procurava desviar o Nazareno do seu caminho; todavia ele segue adiante na sua missão de passos inabaláveis.
Marcos reporta outra tentativa de Pedro desviar Jesus da sua missão na ocasião do anúncio da paixão (cf. Mc 8,27-33). Quando Jesus começou a ensinar aos discípulos que seu caminho não é de um messias glorioso, mas o do servo sofredor, desencadeou-se um momento conflituoso, pois Pedro leva Jesus à parte e começou a repreendê-lo. A reação de Jesus foi de retrucar em linguagem clara que Pedro tinha prioridades muito contrárias às de Deus. No paralelo deste episódio em Mateus (cf. Mt 16,23-33) Pedro manifesta sua intenção de não deixar Jesus seguir seu caminho escolhido, que produziu severa repreensão da parte de Jesus.
A transfiguração (Mc 9,2-13) é outro momento em que Pedro tomou a iniciativa e sugeriu a armação de tendas necessárias para permanecerem onde eles se encontravam. Os paralelos do episódio, narrados em Mt (Mt 17,1-13) e Lc (Lc 9,28-36) têm os mesmos detalhes. Mas, todos os três textos nos dão indicações que a cena refere a desarmonia que existia entre Jesus e seus apóstolos quanto a finalidade e os métodos de sua práxis. É Pedro, como sempre, que toma a iniciativa para fazer uma proposta desafinada com a de Jesus; entretanto é necessário ver na pessoa de Pedro o representante dos interesses motivadores dos que seguiam Jesus.
Ainda outro momento de tentativa para manipular a práxis de Jesus e desviar a sua missão, foi na ocasião da multiplicação dos pães. Todos os quatro evangelhos narram este milagre. No entanto, o Evangelho de Marcos fala de Jesus, logo que todo mundo comeu e ficou satisfeito, obrigar os discípulos entrar na barca e seguir adiante dele para a outra margem. Ele mesmo despediu a multidão e foi à montanha para rezar (cf. Mc 6,45-47). Mateus narra os mesmos detalhes, porém acrescenta: “Quando chegou o fim da tarde, ele estava aí sozinho…” (cf. Mt 14,22-23). No Evangelho de João afirma-se que houve um plano para fazer Jesus rei, ao perceber o que ia acontecer, Jesus se afastou, e foi para a montanha sozinho (cf. Jo 6,14-15).
De tudo isso percebemos que Jesus o Nazareno foi tentado frequentemente e precisou ficar muito atento para que não fosse desviado de seu propósito missionário.



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