Jesus de Nazaré diante das tentações (1)
1. Na sequência dos episódios da vida e práxis de Jesus de Nazaré
que o autor do Evangelho de Marcos nos
narra, vem as tentações que ele enfrentou
logo depois de ser batizado no Rio Jordão. É interessante notar que
o autor faz um resumo de tudo, que não foi pouco mesmo, em apenas
dois versículos (Mc 1, 12-13). Outro ponto curioso é que este
apanhado é nos apresentado, mesmo antes de falar das atividades de
Jesus na região da Galileia, e outros lugares. Nós estamos sendo
preparados para avaliar as narrativas em seguida, a partir de um
ponto de vista específica: a fidelidade inabalável de Jesus de
Nazaré. Isto, porque todos os que seguem a vocação de servir aos
irmãos terão diversas possibilidades de alcançar seus objetivos;
as decisões e escolhas são feitas a partir de critérios
fundamentais da práxis. Qual foi o fundamento da práxis jesuana?
De acordo com o texto (Mc 1,12-13), Jesus de Nazaré, depois de ser
batizado por João Batista, foi conduzido pelo Espírito Santo ao
deserto onde ele passou quarenta dias e noites, tentado por Satanás;
ele vivia entre as feras, mas era servido pelos anjos.
Levando em consideração a natureza simbólica da linguagem da
Sagrada Escritura, é necessário lembrar que no AT “a multidão”
que saia da escravidão do Egito passou “quarenta anos” no
deserto antes que se constituísse um povo (Israel) que tomou posse
da terra prometida. Desde cedo, o significado profundo da vida de
Jesus e sua práxis foi compreendido pela comunidade primitiva à luz
do AT, então este número quarenta refere à sua vida na sua
totalidade.
Por mais breve que seja a descrição das tentações, ela anuncia o
caminho da vida que Jesus de Nazaré trilharia, um caminho que será
marcado por conflitos. Os conflitos serão crescentes, por ele
recusar a se desviar em face de obstáculos de vários tipos:
sugestões vindas de simpatizantes, incompreensão dos mais próximos
ou até mesmo a resistência mortífera da parte dos detentores de
poder e os guardiões de bons costumes (moral tradicional).
Sem embargo, Jesus não está sozinho, pois o texto disse que “os
anjos o serviam”. Veremos posteriormente que havia simpatizantes da
causa que o rabino de Nazaré defendia. Foram muitas as ocasiões em
que ele escapou ileso das situações mortais. Claro, faltam detalhes
de como se desenvolveu a situação de perigo e os meios pelos quais
o Nazareno se salvou; contudo a intenção do autor é nos mostrar
que proteção divina acompanha seu escolhido para que ele cumpra sua
missão na sua totalidade.
2. O Evangelho de Mateus tem detalhes das tentações que Jesus de
Nazaré enfrentou durante os quarenta dias no deserto (Mt 4,1-11). O
pão é uma necessidade básica na vida humana. Jesus jejuou quarenta
dias sentiu fome. O tentador desafia Jesus usar seu privilégio de
ser Filho de Deus para resolver a questão da fome de maneira fácil,
isto é, ordenar as pedras se tornarem pão. Jesus rebate o tentador
citando a Sagrada Escritura que aponta para as necessidades da vida
humana, que vão muito além do pão. Isto porque ‘ser Filho de
Deus’ é construir uma sociedade onde ninguém falte o pão
quotidiano, o que de fato é o sentido último das palavras que vem
da boca de Deus.
O Satanás leva Jesus ao ponto mais alto da
estrutura de Templo e desafia o para jogar-se abaixo. Esta vez o
diabo cita as Escrituras para dizer, se Jesus for Filho de Deus, ele
teria a proteção divina. Na sua refutação Jesus mostra das
próprias Escrituras, que não é certo tentar a Deus. Aqui é bom
lembrar de que Jesus era, na terminologia de hoje, um “leigo”.
Ele não fazia parte da cúpula da organização religiosa. Teria
sido tão fácil se ele fosse um sumo sacerdote do Templo; suas
palavras teriam a autoridade da estrutura tradicional. Olhando ao
nosso redor: são quantos que arrogam a si próprios os títulos como
“Bispo”, “Apóstolo”, entre outros, para tirar vantagens
políticas e pecuniárias! O uso da religião para servir aos fins
nefastos não é coisa de hoje.
Por uma terceira vez o diabo leva Jesus a um monte muito alto de onde
era possível visualizar os reinos do mundo e a grandiosidade deles.
Para adquirir a capacidade para dominar todo aquele poder o preço
era apenas adorar o diabo de joelho. Isto me faz lembrar do partido
político que aderiu a “ponte para o futuro (em 2015)” para poder
substituir o governo legítimo do Brasil (2016). Voltando para a
reação de Jesus à proposta de tornar se um déspota: está escrito
“adorar somente o Senhor, seu Deus e somente a ele prestar culto”.
Neste ponto o diabo deixou Jesus e os anjos aproximaram-se dele e se
puseram a servi-lo.
3. O Evangelho de Lucas fala das tentações de Jesus no deserto no seu capítulo quarto (Lc 4,1-13). Já no primeiro versículo o autor destaca o papel do Espírito Santo na volta de Jesus do Jordão (após seu batismo) e a ser conduzido pelo deserto a ser tentado pelo diabo. São três as tentações, as mesmas que encontramos em Mateus; só há uma diferença: a de ordem. Enquanto a segunda tentação em Mateus refere ao poder religioso, em Lucas a segunda é a grandeza do poder sobre as nações. Como aquele que exerce poder sobre as nações, seria tão fácil impor sua vontade sobre os povos e conseguir o que quiser. É uma proposta muito vantajosa. Mas, para não cair nessa tentação, Jesus se baseia nas Sagradas Escrituras mais uma vez, e continua fiel à sua missão sem ser desviado. E o autor encerra o episódio dizendo que o diabo se afastou de Jesus, para voltar no tempo oportuno.

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