Jesus de Nazaré começa anunciar o Reino de Deus.
1. Até agora nós falamos dos preparativos que precederam o início
da vida pública de Jesus de Nazaré. A nossa intenção aqui é de
examinar os textos nos quatro evangelhos, textos que nos falam sobre
o que pode ser considerado o início da pregação do Nazareno.
Começaremos com o texto de Marcos; o texto é muito breve, começamos
por ele, não por ele ser breve, mas a nossa escolha foi apresentar
Jesus de Nazaré, a boa notícia para o século 21, baseando-nos no
texto de Evangelho de Marcos. Como o leitor já percebeu, fazemos
referências aos paralelos nos outros evangelhos para evidenciar a
riqueza da compreensão da pessoa e a missão de Jesus nos diversos
detalhes encontrados em cada texto.
De fato, Marcos nos informa do início da vida pública de Jesus
apenas em dois versículos (Mc 1,14-15). Depois que João Batista foi
preso, Jesus se dirigiu a Galileia, anunciando a Boa Notícia (o
evangelho) que vem de Deus. O resumo da sua pregação que temos
aqui, nestes versículos, diz que o tempo já se cumpriu; o Reino de
Deus está perto. Neste momento, dizia Jesus, cabe a todos alcançarem
a mudança de vida e acreditar no evangelho, para poder acolher a
ação de Deus. Aqui é necessário afirmar que, embora todos
esperassem a transformação radical na realidade vigente, as
expectativas sobre como seria essa conversão, eram muito diversas.
Que o autor do texto usa poucas palavas aqui não deixa de nos dar
um indício de como era a situação. João está preso. Foi João
que batizou Jesus. A situação é de contestação e perigo, pois a
prisão de João aponta para a preocupação dos detentores de poder,
os vigilantes, que mantêm os bons costumes e a ordem estabelecida
intacta. E nós já vimos que João apontou para Jesus como aquele
mais forte que viria depois dele e batizaria com o Espírito Santo e
fogo. É neste contexto que Jesus começa anunciar que Deus vai
implantar seu reino e que este reino é um movimento transformador.
Aceitar o desafio da mudança que Deus propõe, é a proposta de
Jesus. É esta a Boa Notícia que o Nazareno vai proclamar por suas
palavras e ações.
2. Mateus acrescenta alguns detalhes interessantes a esta informação
sobre o início do trabalho de Jesus em Galileia (cf. Mt 4,12-17).
Jesus voltou para Galileia depois que João foi preso. Na sua volta,
ele foi morar em Cafarnaum. O Evangelho de Mateus tem a intenção
teológica de apresentar Jesus como aquele em quem as promessas de
Deus feitas aos antepassados outrora serão cumpridas. Então ele vê
nessa escolha de Jesus para morar em Cafarnaum, aliás, ele
interpreta esta fato como cumprimento da profecia de Isaías (cf. Is
8,23-9,1).
Paradoxalmente a transformação prometida por Deus inaugura-se em
Galileia, uma região distante do centro de poder, poder religioso
assim como também poder político. A esperança da salvação se
manifesta justamente numa região donde nada de bom é esperado! Que
nada de bom era esperada desta região fica claro no episódio do
chamado de Filipe e Natanael (cf. Jo 1, 43-51). Lemos aqui do Filipe,
que aceitou o chamado de Jesus, foi logo anunciar ao seu irmão
Natanael, que ele tinha encontrado aquele de quem Moisés escreveu na
lei. Natanael, o irmão, fez questão de fazer a pergunta irônica se
algo de bom poderia vir da Galileia!
3. Lucas, no seu texto (Lc 4,14ss) que fala do início da pregação
de Jesus de Nazaré, enfatiza o papel do Espírito Santo. Jesus, na
sua volta para Galileia tornou-se famoso e muito elogiado; ensinava
nas sinagogas da região. No episódio que nos conta a história da
sua visita a sinagoga de Nazaré, o Nazareno lê Is 61,1-2 para
fundamentar sua práxis. De verdade, sua fala é muito parecida com
um manifesto, o plano de ação, de um político que faz campanha em
nossos dias.
Jesus se considera consagrado e ungido pelo Espírito de Deus. Sua
missão é evangelizar aos pobres. A evangelização inclui a
libertação dos presos, a recuperação da vista aos cegos, a
restituição de liberdade aos oprimidos e proclamar o ano da graça
do Senhor.
Aqui é necessário elaborar o quarto item no manifesto de Jesus,
isto é, o ano da graça, o ano do jubilar de AT (cf. Lv
25,1-4.8-10). Era uma maneira de evitar o acumulo desmedido de
riquezas pelos mais poderosos deixando a grande maioria, os mais
fracos e menos astuciosos, em miséria. Essa legislação procurava
assegurar igualitarismo na comunidade israelita, pois ela previa a
restauração de herança, que porventura fosse alienada, a cada
família a cada 50º ano, o ano jubilar. Assim, todos teriam, pelo
menos o mínimo, para começar o primeiro ano após o ano jubilar
Esta é uma proposta assustadora para o mundo de imperialismo
neoliberal hodierno que aniquila com enorme crueldade toda ideologia
e até mesmo as estruturas governamentais que visam promover
igualitarismo, impondo seu patrocinado meritocracia capitalista como
o único modelo de organização social!
Sem demora a parte dos seus ouvintes, enfurecidos com tal proposta
inusitada de mudanças revolucionárias de Jesus, começaram a agir
para eliminar o “falso profeta” que ameaçava seus lucros e
privilégios tão abertamente. Entretanto não tiveram sucesso esta
vez, e ele passou por meio deles para prosseguir seu caminho.
4. Lembrando de que os evangelhos não são crônicas, nem
reportagens, muito menos registros dos eventos que satisfazem os
critérios da historiografia hodierna, passamos para o Evangelho de
João para examinar o texto que poderia ser considerado a narrativa
dos inícios do ministério de Jesus. Refiro me às núpcias de Caná
(Jo 2,1-11).
Diferente dos evangelhos sinóticos, João apresenta sete sinais na
primeira parte da sua obra para alcançar seu propósito teológico:
o de mostrar Jesus de Nazaré como “o verbo encarnado”. O
primeiro destes sete sinais é a transformação de água em vinho na
festa de casamento em Caná. A mãe de Jesus estava lá, assim como
Jesus e seus discípulos. Jesus realiza o milagre empurrado pela sua
mãe, por assim dizer, visto que o versículo 4 refere a dúvida que
ele ainda tinha sobre a conveniência de agir de tal maneira para
manifestar sua glória. Foi o princípio dos sinais e os discípulos
creram nele. Como qualquer ser humano Jesus também precisou de ajuda
da sua família para firmar-se na sua vocação.
5. Na diversidade dos detalhes dos textos evangélicos que nos
contam do início da vida pública de Jesus de Nazaré, fica claro
que Jesus de Nazaré passou por todo um processo de crescimento e
amadurecimento que um ser humano passa para assumir e comprometer-se
com a sua missão na vida. Marcos nos faz uma afirmação branda com
o mínimo de detalhes. Mateus interpreta o início das atividades de
Jesus como cumprimento da profecia antiga que aponta para a
possibilidade de Deus fazer a salvação humana surgir de lugares e
das pessoas de quem menos se espera algo bom!
Para Lucas quem vê em Jesus de Nazaré o salvador de toda a
humanidade, é alguém que tem um manifesto ou um programa de ação
que tem implicações políticas, religiosas, econômicas e sociais
assustadoras para o sistema em vigência. Em João, Jesus é aquela
pessoa que ainda não tem a segurança e precisa o empurrão da sua
própria mãe para começar a agir.

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