A novidade do Reino de Deus e as reações geradas
O Evangelho de Marcos nos apresenta uma série de episódios,
começando com o milagre da cura na sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1,21-28) e vai
até a fala de Jesus sobre a sua nova família (cf. Mc 3,31-35) que nós vamos
tratar como um bloco. Este bloco nos dá uma visão global das mudanças que o
Reino de Deus que Jesus anunciava provoca na sociedade, assim como a reação que
tais mudanças causavam.
A cura na sinagoga de Cafarnaum foi uma ação poderosa que
enfrenta o poder do mal (Mc 1,21-28). Da sinagoga Jesus vai para a casa de
Pedro onde ele cura sua sogra e outros enfermos. Os demônios reconhecem a
identidade de Jesus, mas o Nazareno não permite que essa seja divulgada pelos
espíritos impuros (cf. Mc 1,29-34).
Noutro dia, Jesus se afasta para um lugar deserto pela
madrugada e aí rezava. Pedro e seus companheiros saíram a procura de Jesus,
pois eram ansiosos para aproveitar da popularidade de Jesus ao resgatar a saúde
de tantos. No entanto, contrariando lhes Jesus mostrou a necessidade de
anunciar o Reino nos outros lugares também e partiu dali, pregando nas
sinagogas por toda a Galileia (cf. Mc 1,35-39).
Em seguida, temos a cura do leproso (Mc 1,35-39). O leproso
implorou a cura e, Jesus “irado” tocou nele para efetuar a cura. Ao tocar no
leproso, o próprio Jesus se tornou impuro ritualmente, um excluído. A “ira” de
Jesus é algo que encontramos só neste texto de Marcos, e ela aponta para o desafio que Jesus lança ao sistema político e
religioso que exclui uma porção de gente para se justificar.
O próximo episódio fala da cura do paralítico em Cafarnaum
num dia de sábado (cf. Mc 2,1-12). Movido pela fé extraordinária dos
envolvidos, Jesus, primeiro, perdoa os pecados do paralítico, assim desfazendo
a teologia da retribuição em voga. Isto escandalizou os doutores da lei,
presentes no local. Jesus começou a ser considerado um blasfemador, visto que
só Deus podia perdoar pecados. Para mostrar que todos nós somos autorizados a
anunciar o perdão de Deus, Jesus mandou o paralítico de volta para sua casa
carregando sua maca. O acontecido causou admiração nos presentes e eles
glorificavam a Deus por ter visto algo inusitado.
Os coletores de impostos eram pessoas excluídas pelos
Judeus, porém Jesus chamou um deles, Levi, filho de Alfeu, para ser seu
seguidor (cf. c 2,13-17). Rabino Jesus participou numa refeição com os
“pecadores”, o que levantou questionamento da moral de Jesus da parte dos
doutores da lei do partido dos fariseus. Serviu como ocasião para Jesus
rejeitar os esquemas que descriminam pessoas, tanto do ponto de vista social
como religioso.
A prática de jejum é de tempo de espera dos tempos
messiânicos; agora, é tempo de festa, pois o noivo já está presente. (Mc 2,
18-22). À contestação dos discípulos de João Batista e os fariseus Jesus usa as
metáforas do pano novo, e do vinho novo afirmando a radical novidade que a
presença do Reino faz na vida humana.
Os vigilantes de bons costumes, os fariseus, criticaram os
discípulos de Jesus por violar o dia de sábado (Mc 2,23-28). Rabino Jesus
aproveitou o momento para estabelecer uma perspectiva equilibrada quanto às
leis, a serviço da vida humana, recorrendo a Sagrada Escritura.
A cura de uma mão
paralisada no dia de sábado, que Jesus realiza depois de “lançar um olhar de
indignação” sobre os que tinham preparado uma armadilha (cf. Mc 3,1-6a),
provocou a decisão final da parte das autoridades para mata-lo. Jesus sai com
seus discípulos à procura de refúgio!
Mas, a multidão dos necessitados, oriundos de toda a Palestina,
foi em busca de Jesus. E Jesus fez o necessário para atender bem a todos. Ele constituiu
um grupo (de doze), como agentes multiplicadores, para uma formação mais
intensa, ter autoridade para pregar e expulsar os demônios. Só é que ele não
permitia os demônios fazerem uma divulgação prejudicial a sua causa (Mc 3,
7b-19).
Neste momento Marcos nos dá notícias sobre as dificuldades
que Jesus teve com sua família (Mc 3,2-21). Foi neste momento também que os
poderosos montaram uma campanha contra Jesus, dizendo que ele estaria
expulsando demônios por estar em conluio com o chefe dos demônios. Diante disso
Jesus faz uma reflexão sobre a fraqueza que a divisão causa e o pecado contra o
Espírito Santo que não tem perdão (Mc 3,22-30). Mais uma vez a família procura
Jesus, e o momento Jesus anuncia a nova família no Reino de Deus. Essa é baseada
na abertura da pessoa para fazer a vontade de Deus.

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