Algumas observações iniciais
Antes de começar a examinar o texto do Evangelho de Marcos é
necessário fazer algumas observações iniciais. A ordem normal dos
evangelhos nas Bíblias é: Mateus (Mt), Marcos (Mc), Lucas (Lc) e
João (Jo), porém nós vamos começar o nosso estudo com Marcos, o
texto mais breve entre os quatro. É que à luz das investigações
científicas feitas nos últimos dois séculos, hoje há um consenso
entre os estudiosos que o Evangelho de Marcos foi o primeiro a ser
escrito.
Todos os quatro evangelhos nos contam a história da vida pública de
Jesus de Nazaré, sua paixão, morte e a ressurreição. Cada
evangelho representa a tradição da comunidade onde os episódios da
vida de Jesus foram contados e recontados até adquirir a forma e a
ordem atuais. Até mesmo uma leitura bem rápida mostra que os
primeiros três evangelhos têm uma grande parte de matéria em
comum, enquanto o quarto (o de João) é bem diferente. Este fenômeno
foi minuciosamente investigado como “a questão sinótica”, o que
deu origem a diversas hipóteses sobre o processo da redação final
dos textos evangélicos que temos. E os primeiros três são
conhecidos como “sinóticos”, quer dizer, dá para lê-los “num
olhar só” pela semelhança das narrativas.
Hoje temos quatro os evangelhos “canônicos”, quer dizer, estes
quatro são normativos para a fé dos seguidores de Jesus de Nazaré.
Existe também um grande número de “evangelhos apócrifos” de
origem nos primeiros séculos; a autoria destes foram atribuídos a
pessoas como Pedro, Tomé, Maria Madalena etc., entre outros. Aqui é
necessário mencionar que o processo da formação do Novo Testamento
iniciou-se no ano 150 da Era Comum (E.C.) e completou-se no terceiro
Sínodo de Cartago no ano 397 E.C. O trabalho de determinar “a
canonicidade”, isto é, para a comunidade chegar a decidir se um
escrito poderia ser aceito como normativo para a fé foi um processo
árduo, criterioso e doloroso até.
No passado recente, a renovação da vida cristã que o Concílio
Vaticano II (1962-65) promoveu resultou num desabrochar
extraordinário nos estudos bíblicos que têm beneficiado
imensamente as comunidades cristãs, as da tradição católica
principalmente. O grande número das traduções do texto bíblico
(de original Hebraico, Aramaico e o Grego) que foram feitas nas
últimas décadas são frutos desta renovação eclesial. Entre as
traduções recentes, a Bíblia Pastoral, a tradução da CNBB,
Bíblia de Jerusalém, Bíblia do Peregrino, a Tradução Ecumênica
da Bíblia, etc. merecem menção, pois oferecem ferramentas
excelentes para seus leitores compreenderem melhor a Palavra de Deus.
A Bíblia Pastoral é fruto de um “viver a Palavra de Deus” que
aconteceu aqui no Brasil começando na segunda metade do século
passado. Este “viver a Palavra” transformou a sociedade
brasileira, que se abriu para a democracia participativa e colocou o
país no caminho da construção de uma sociedade igualitária que
corresponde ao “Reino de Deus” que Jesus instaurava, de acordo
com os textos dos evangelhos sinóticos. A Nova Bíblia Pastoral
(2014) passou por uma revisão minuciosa da Edição Pastoral (dos
anos de 1991). A revisão incorporou os frutos das pesquisas bíblicas
que deram passos largos nas últimas décadas, como vemos nas suas
introduções, notas de rodapé, além de usar uma linguagem muito
moderna e acessível.
O autor do Evangelho de Marcos quer nos ajudar a entender a pessoa e
a práxis de Jesus de Nazaré para podermos chegar a tomar uma
decisão quanto a nosso seguir o Filho de Deus (cf. Mc 1,1). Para
alcançar seu objetivo ele conta num primeiro momento, da atividade
de Jesus fez na região de Galileia, e no segundo momento, fala da
sua subida para Jerusalém e o que aconteceu lá com ele. Mesmo na
primeira parte fica evidente que Jesus, o Cristo, não é
compreendido pelas lideranças políticas e religiosas, pelas
multidões, sua própria família ou seus discípulos, porém o final
é paradoxal: na hora da sua morte na cruz o centurião romano que
supervisionou a crucificação, vendo o expirar, proclama: “Realmente
este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Encerra-se o Evangelho
com alguns poucos que acompanharam-no até o fim, recebendo a tarefa
de comunicar essa “Boa Nova” que Jesus de Nazaré é, ao mundo
inteiro.
Aqui é necessário introduzir os outros evangelhos também, porque
nós vamos examinar os paralelos do que Marcos nos conta nos outros
três. O autor do Evangelho de Mateus quer mostrar que Jesus de
Nazaré conduz o povo de Israel ao ponto alto da sua história; este
Jesus surge do povo de Israel; ele é o filho de Davi. Para comunicar
tal novidade Mateus organiza seu texto em cinco blocos, com dois
capítulos introdutórios (caps 1-2) e no final a narrativa da morte
e a ressurreição (caps 26-28). Jesus é o novo Moisés que com
autoridade própria vai muito além na interpretação das leis que
os líderes de Israel faziam. O critério decisivo é a solidariedade
com os pobres (cf. Mt 25,31-46 o juízo final). Ademais, Deus se
torna visível em Jesus. O autor encerra sua obra assegurando-nos de
que no grande trabalho de anunciar ao mundo inteiro as práticas
inspiradas na justiça de Deus, nós podemos contar com a presença
permanente do Ressuscitado (Mt 28,19-20).
O Evangelho de Lucas é a primeira parte de uma obra que quer mostrar
que a salvação que Deus oferece em Jesus é para toda humanidade; a
segunda parte desta é o livro dos Atos dos Apóstolos. Jesus de
Nazaré é o Messias dos pobres; sua práxis é ação política, seu
manifesto político apresentado na sinagoga de Nazaré (Lc 4,18-21) é
a continuação da promessa de Deus que já se encontra no Profeta
Isaías (cf. Is 61,1-2). Por isso mesmo sua atuação gera conflitos
e tensões. O império que se sente ameaçado, assassina o rabino de
Nazaré “na forma da lei”, por uma ação bem coordenada, porém
o “eliminado” ressuscita; hoje seus inúmeros seguidores se
engajam no estabelecimento de uma nova história de novas relações
e organizações em todos os cantos do mundo.
João, no quarto evangelho, apresenta a pessoa de Jesus de Nazaré (o
Verbo de Deus) num momento em que surgiram resistências sobre seu
ser “o Filho de Deus”. O autor usa sete “sinais” para
provocar uma decisão nos seus leitores a favor ou contra o
seguimento de Jesus, o Filho de Deus. Nesta obra “os sinais” são
gestos reveladores da sua filiação do homem Jesus de Nazaré. Não
há parábolas, nem aparece a expressão “Reino de Deus” neste
Evangelho; no seu lugar “a vida” é a palavra-chave que desvenda
o misterioso projeto de Deus para a humanidade revelado no Nazareno.
O autor procura aprofundar a fé já conhecida, celebrada e
vivenciada na certeza de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. É
dele que provém “a vida”.

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