Jesus, a Boa Notícia para o século 21 (4)
Emanuel, Deus conosco.
Vimos que Marcos elaborou um “evangelho” para mostrar como Jesus,
o Filho de Deus, foi mal compreendido, perseguido e eliminado “na
forma da lei”. O pequeno grupo de seguidores que ele tinha
escolhido, os colaboradores que conviviam com ele, mesmo estes
tiveram dificuldades na compreensão e conseguiram superar suas
dúvidas somente após a ressurreição.
O Evangelho de Mateus, em seus dois primeiros capítulos, apresenta
Jesus de Nazaré como Emanuel, que significa Deus conosco; é o rei
messiânico da linha de Davi; é o salvador de toda humanidade. No
entanto, ele é mortalmente perseguido desde seu nascimento. Para
alcançar seu objetivo o autor elabora uma genealogia de Jesus nos
primeiros 17 versículos do seu primeiro capítulo. A árvore
genealógica é uma construção harmoniosa, contém três blocos de
quatorze nomes dos seus antepassados em cada. O messias tem sua
origem no povo que Deus instituiu ao chamar Abraão. O Cristo também
é da linha do Davi, o fundador de uma dinastia real. É
significativo que além da Maria de Nazaré, a esposa de José que é
da linha davídica, quatro outras mães são inseridas nessa lista:
1) Tamar, nora de Judá que o engana e seduz (Gn 38); 2) Raab, a
prostituta que escondeu os espiões (Js 2); 3) Rute a estrangeira
moabita; e 4) Betsabéia, a adultera mãe de Salomão (2 Sm 11). É
interessante comparar essa genealogia com a que Lucas tem (cf. Lc
3,23-38) e notar as diferenças e semelhanças.
A segunda parte do 1º capítulo, isto é, nos vv.18-25 se conta o
drama do nascimento de Jesus. Maria, comprometida em casamento a
José, engravidou-se antes das núpcias. Diante da situação José
vive um momento decisivo. Ele tinha o direito de repudiá-la. Tal
ação da sua parte condenaria sua noiva à morte por apedrejamento,
de acordo com a lei (cf. Dt 22,22-29). Mas, José, um homem “justo”
(Mt 1,19) pensou numa solução menos severa, a de abandona´-la
secretamente. Enquanto isso, eis, um anjo do Senhor aparece-lhe num
sonho com uma mensagem. O anjo explicou-lhe a gravidez da Maria como
parte de um plano que Deus tem para a salvação da humanidade e que
José deve colaborar na realização deste, quer dizer, acolher Maria
como sua esposa sem medo, e assumir a paternidade legal do filho.
José tomou coragem e no tempo certo chegou a realizar tudo o que o
mensageiro de Deus lhe pediu: acolheu Maria na sua casa como sua
esposa, não teve relações com ela até que nascesse o filho; ele
assumiu a paternidade legal do menino que nasceu, dando o nome de
Jesus (=Deus salva), um nome que tem significado muito parecido com o
nome sugerido pelo anjo: Emanuel, Deus conosco. O autor interpreta
esses acontecimentos como cumprimento da profecia de Isaías (cf. Is
7,14).
Na pessoa de José que passa momentos de dúvidas diante da gravidez
precoce da sua noiva, representam-se as pessoas que compreendem a
religião e a vida do ponto de vista legalista e individualista. Que
Deus intervém na história humana a partir dos marginalizados que
têm a vida ameaçada é o significado da situação da vida que o
anjo comunica a José. Percebemos nas escrituras que Deus tem um
plano para o mundo. Adequar-nos e encaixar-nos neste, é custoso; o
sonho de José, a intervenção do anjo e a decisão final que José
chegou a tomar, apontam para a conversão que o sensibilizou para a
necessidade dos outros. José começa agir, a partir de agora,
motivado por uma justiça que supera o que está escrito na lei e
torna possível o nascimento de Messias. Sua denúncia da gravidez
antes da hora, colocava em perigo duas vidas: a da mãe e a do seu
filho!
No seu segundo capítulo o autor nos fala de algumas reações que
este evento causou (cf. Mt 2,1-12). O nascimento do filho de Maria
aconteceu durante o tempo do rei Herodes. De repente, vieram uns
magos do Oriente para Jerusalém a procura do “rei recém-nascido
dos judeus”. Isto porque eles foram motivados encaminhados por um
sinal (a estrela) que assinalava a uma transformação radical na
história humana. Sua chegada “abalou” o rei Herodes,
extremamente ciumento pelo seu poder. Na verdade, ele era um idumeu
escorado pelo império romano. Sua ira ao saber de um rival fez a
cidade também sentir “abalado”. Frustrado na sua tentativa de
identificar daquele que seria seu rival em Jerusalém, Herodes abriu
uma consulta mais abrangente sobre o provável local do nascimento
deste “novo rei”.
Os especialistas nas Sagradas Escrituras indicaram a cidade de Belém
como o local do nascimento do novo rei “pastor” prometido,
baseando-se no profeta Miqueias (Mq 5,1-3). Então Herodes mandou os
magos a Belém instruindo-os a reportar a ele sobre o local onde o
recém-nascido estaria. Viajaram os magos, alegres agora, pois ao
sair de Jerusalém reencontraram sua estrela-guia; chegaram ao
encontro daquele que procuravam, ofereceram suas homenagens e
voltaram para suas terras. Só é que foram avisados em sonho para
não voltarem a Herodes, seguiram outro caminho e foram embora. É
preciso comentar sobre o comportamento dos sacerdotes e doutores da
lei que tinham a informação, mas foram incapazes de ação: a de se
alegrar ao saber do nascimento do salvador, pois eram acomodados sem
querer ler os sinais dos tempos que nos revelam os planos de Deus,
visto que isto implicaria contrariar os esquemas dos atuais
mantenedores do poder. Todavia não basta saber quem é o Messias; é
necessário reconhecê-lo e aceitá-lo.
Na segunda parte deste capítulo o autor nos fala sobre a infância
de Jesus (Mt 2,13-23); essa narrativa pode ser vista como um novo
êxodo que dá início a nova história. Depois que os magos
partiram, o anjo do Senhor apareceu de novo a José em sonho e o pede
para fugir com sua família para o Egito, pois o rei Herodes
procurava matar o menino. José fugiu para o Egito e ali permaneceu
até a morte de Herodes. O autor interpreta o acontecido à luz do
que o profeta Oseias tinha dito: “do Egito eu chamei meu filho”
(Os 11,1).
Voltando um pouco para trás, Herodes, quando percebeu que foi
enganado pelos magos, mandou matar todos os meninos de dois anos para
baixo na região de Belém, imaginando que assim eliminaria seu
rival. A chacina dos inocentes gerou uma situação que o autor
interpreta citando o lamento de Raquel referido no livro do profeta
Jeremias 31,15.
Morreu Herodes. Aparece de novo o anjo do Senhor para orientar José.
Ele volta para sua terra e se estabelece em Nazaré de Galileia, a
periferia de Israel onde Jesus começará sua atuação libertadora.
Percebemos que José é um homem aberto a iluminação divina e
disposto a fazer a vontade de Deus. Nos momentos atordoados essa sua
capacidade fez com que ele tomasse as decisões certas para o plano
de Deus desabrochar na história.
Mostrar que Jesus é o novo Moisés pertence às intenções
teológicas do autor do Evangelho de Mateus como vimos acima.
Enquanto no passado Moisés tinha fugido “do” Egito, agora Jesus
foge “para” o Egito, visto que a terra prometida se tornou
insuportável pela violência e opressão praticadas lá. Jesus dá
início a nova história seguindo um trajeto semelhante ao de Moisés.

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