Da infância de Jesus, o que Evangelista Lucas nos conta
Também o Evangelho de Lucas dedica seus primeiros dois capítulos
para nos falar da infância de Jesus de Nazaré. Nestes dois
capítulos o autor quer nos mostrar que Deus age para realizar seu
projeto, precisamente nas situações consideradas impossíveis para
seres humanos.
Nos quatro versículos iniciais do primeiro capítulo o autor declara
sua intenção de apresentar uma narrativa bem-ordenada depois de ter
investigado tudo cuidadosamente. Ele vê no nascimento de João
Batista e o de Jesus a resposta divina ao povo que ansiava por uma
vida melhor. Essa resposta divina é dada dentro da história humana.
Para evidenciar isto, ele apresenta referências históricas
apropriadas, de acordo com os costumes de seu tempo.
O anúncio do nascimento de João foi feito por um anjo ao seu pai
Zacarias quando exercia sua função sacerdotal no templo. Foi algo
inesperado para ele, que já era um ancião e esposo de uma mulher
que tinha passado o tempo normal de engravidar-se. Zacarias não deu
conta de acreditar naquilo que ele ouvia. Por sua incredulidade ele
ficou mudo. Sua mudez serviu como sinal para a população de que
Zacarias foi escolhido para uma missão extraordinária e tinha
passado por uma experiência inusitada enquanto servia no santuário.
Isabel, a esposa de Zacarias, engravidou-se algum tempo depois que
ele retornou do templo, tendo completado suas funções
ministeriais. Isabel, naturalmente, ficou imensamente grata a Deus
por ter livrado-a da humilhação de ser uma mulher estéril, mas
ocultou sua gravidez durante cinco meses.
No sexto mês da gravidez da Isabel, o anjo Gabriel foi enviado a
Maria, uma jovem de Nazaré, prometida em casamento a José, da casa
de Davi, para anunciar sua gravidez. Surpreendida, a moça faz
perguntas necessárias para esclarecer suas dúvidas sobre este
acontecimento estranho e inesperado. É uma obra de Deus, explicou o
mensageiro de Deus, é a nova criação, que está sendo realizado na
história humana. Ela foi a agraciada para ser a colaboradora na
realização no plano de Deus para a humanidade. Neste contexto sua
gravidez é interpretada como obra do Espírito Santo, assim como foi
na criação (cf. Gn 1,1). Ao ouvir que para Deus nada é impossível,
Maria deu seu consentimento e se tornou a serva do Senhor. Ela também
foi informada que sua parenta Isabel, uma mulher considerada estéril,
estava no sexto mês de gravidez.
Sem demora Maria partiu para a região montanhosa onde morava
Zacarias e Isabel. O momento de encontro dessas duas mães,
testemunhas vivas de que Deus age nas situações impossíveis para o
ser humano, ocasionou uma profissão da fé da igreja (cf. Lc
1,42-43) e um dos belíssimos cânticos neotestamentários: “O
Magnificat” que louva a Deus pela libertação humana que Ele
realiza na história (cf. 1,46-55).
O nascimento de João Batista foi um momento de grande alegria para
os parentes e vizinhos, sem falar da família do recém-nascido. No
entanto, o momento de circuncidar o menino foi um momento de emoções
mistas, até assombroso, pois aconteceu mais uma coisa inesperada:
seu pai recuperou sua capacidade de falar. Temos aqui na boca de
Zacarias outro cântico importante da igreja, “O Benedictus) que
bendiz o Senhor pela libertação que Deus na sua misericórdia cede
a humanidade (cf. Lc 1,68-79).
O segundo capítulo começa narrando o nascimento de Jesus (Mt
2,1-7). De novo, o autor dá as indicações necessárias para
mostrar que este acontecimento que traz radical novidade à história
humana, é histórico. O casal Maria e José tiveram que se deslocar
a Belém para cumprir uma ordem imperial. Resumidamente podemos
afirmar que Maria deu à luz a seu primogênito numa situação de
carência de tudo, o que assemelha à situação dos migrantes que
hoje procuram uma vida melhor fora dos seus países. Assim Jesus
nasceu na cidade de Davi, Belém.
São os humildes pastores da região que receberam a notícia do
nascimento de Jesus. Um anjo anuncia-lhes essa boa notícia; sua
primeira reação é de medo, mas o anjo lhes pediu para tomar
coragem se alegrarem, pois há motivo para isso: o nascimento do
Salvador na cidade de Belém, a cidade de Davi. De repente muitos
outros juntaram-se ao mensageiro de Deus e temos aqui mais um hino da
Igreja– o famosíssimo “Glória a Deus nas alturas, e paz na
terra aos que ele ama!” (Lc 2,14).
Assim que desapareceram os anjos, os pastores foram a procura do
recém-nascido. Eles encontraram tudo de jeito que o anjo tinha
anunciado. Foi um momento em que todos ficarem maravilhados com o que
os pastores contavam. Por sua parte, Maria guardou tudo no seu
coração, meditativamente. Os pastores voltaram da visita
agradecendo a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como tinha
sido dito a eles.
Maria e José levaram o menino para a circuncisão, deu lhe o nome de
Jesus como foram instruídos pelo anjo antes da sua concepção.
Nesta ocasião apareceu Simeão, um homem justo e piedoso que
esperava a consolação de Israel. Movido pelo Espírito Santo ele
tomou a criança nos braços e louvou a Deus com outro hino da igreja
antiga: o “Nunc dimittis” (cf. Lc 2,29-32); e deu uma mensagem
especial para a mãe do menino. Havia também uma profetisa, Ana, que
desde sua juventude não se afastava do Templo, servindo a Deus
piedosamente. Ela chegou neste momento e dando graças a Deus, falava
do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém (cf.
Lc 2,36-38). Terminadas as cerimônias a família voltou para casa em
Nazaré de Galileia. E o menino crescia forte, sábio com a graça de
Deus sobre ele.
No final do segundo capítulo o autor nos conta da peregrinação
anual da família a Templo de Jerusalém. Contudo, esta vez aconteceu
algo diferente, pois Jesus ficou para trás na hora da viagem de
volta. Sentindo sua falta no final da viagem do primeiro dia, Maria e
José voltaram a sua procura e o encontraram no templo no terceiro
dia. O jovem Jesus estava no meio dos doutores, fazendo perguntas e
interagindo com eles de maneira que deixou todos maravilhados com sua
inteligência e suas respostas. À sua mãe que reclamou do seu
comportamento, recebeu uma resposta que nem ele nem seu pai deu conta
de entender. No entanto, ele desceu para Nazaré com os pais e viveu
obediente a eles; crescia em sabedoria, tamanho e graça, diante de
Deus e das pessoas. Mais uma vez, sua mãe guardava todas as coisas
em seu coração.

Nenhum comentário:
Postar um comentário