sexta-feira, 9 de março de 2018

Uma leitura teológica do Neoliberalismo


Uma leitura teológica do Neoliberalismo


A inviabilidade da modernidade e da sua ramificação na economia, o capitalismo, é a tese de não poucos autores hoje. A crítica social do neoliberalismo que apresentamos nas semanas anteriores, apontou para o rompimento do relato da razão neoliberal, apesar da atual vitalidade capitalista que substitui governos legítimos, desvia processos e legislativos e judiciais para estabelecer sua hegemonia, organiza linchamento midiático e jurídico para eliminar seus adversários com considerável sucesso. É evidente que o jogo em percurso no Brasil visa não apenas para o controle do poder político e econômico, mas também comandar a produção de narrativas da realidade. Entretanto, essa realidade excruciante exige que a teologia comprometida com o Reino de Deus não aquiesça a essa brutalidade desumana.

Não é que os autores de tais exercícios estão introduzindo alguma novidade, dado que Jesus de Nazaré fez assim (na sua práxis libertadora) na Província de Palestina, que gemia sob o jugo de imperialismo romano, há vinte séculos. É verdade que ele não nos deixou um relatório, porém a ininterrupta tradição (oral e escrito) que vêm até nós, da atuação dos seus seguidores que continuaram sua obra, tira toda dúvida quanto ao cunho libertador da sua práxis, numa situação muito semelhante a contemporânea. Sua teologia era práxica; ele escolheu os pobres vítimas do sistema vigente como seu lugar teológico. Ele fez uma abordagem fora dos padrões aceitos pelos poderosos do seu dia, escutou “o grito da terra e o clamor dos pobres” do seu tempo. Portanto, a leitura teológica do sistema econômico começa a partir da perspectiva dos empobrecidos de hoje baseando-se nos textos de Lc 4,18-19; Lc 6,20-26 e Mt 25,31-46 que nos contam da opção preferencial do Nazareno pelos pobres e marginalizados.

Um sistema que inviabiliza a civilização fundamentada na fraternidade e traz as marcas da injustiça e da destruição, como ficou claro nas análises que já fizemos do capitalismo transformado em neoliberalismo, pratica violência institucionalizada, consolidando-se sobre a espoliação da mãe terra e a morte dos pobres para que alguns poucos desfrutem da riqueza. Não há como esperar um futuro melhor de tal sistema, nas palavras do Papa Francisco e seu ilustre predecessor, João Paulo II, pois existe o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas neoliberais. O conflito provocado pela ganância irrestrita é estrutural; o potencial de dissolução e de morte norteiam o andamento deste modelo.

Por certo, o mercado existia antes do capitalismo, mas o neoliberalismo, seu novo avatar, alimenta a idolatria do mercado, o que é um pecado fundamental, nas palavras do Papa João Paulo II. Para o Bispo de Roma, decisões aparentemente inspiradas pela economia ou pela política apenas ocultam verdadeiras formas de idolatria: do dinheiro, da ideologia, da classe e da tecnologia. Por sua vez Papa Francisco completou esta avaliação ao dizer: “onde há idolatria, apagam-se Deus e a dignidade do ser humano”.

Já em 2007 o Documento de Aparecida reconhecia a idolatria do dinheiro como a causa primeira da deterioração da vida social e da violência na América Latina e no Caribe (cf. DA nº.78). Aqui o capitalismo é compreendido como um sistema alicerçado no pecado. Por um lado, sua avidez exclusiva pelo lucro e, por outro , sua sede de poder com o objetivo de impor aos outros a própria vontade, “a qualquer preço” é pura absolutização dos comportamentos com todas as consequências funestas possíveis. Ao rejeitar frontalmente tal sistema que alimenta a idolatria, os cristãos estão sendo fiéis a sua tradição anti-idolátrico (cf. Mt 6,24; Lc 16,13). No capitalismo, “a adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-5) encontrou uma versão nova e impiedosa do fetichismo de dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem objetivo verdadeiramente humano” (Papa Francisco, no “Evangelii Gaudium”, nº. 55).

A incompatibilidade da teologia cristã com o capitalismo neoliberal brota do Memorial da Páscoa de Jesus, a Eucaristia, ao passo que nós estamos vivendo um momento de vislumbrar uma razão de mundo pós-capitalista e pós-liberal. Jesus de Nazaré não foi, nem é, um personagem inofensivo, neutro nem mesmo partidário do capital. Ainda que capitalismo continue fazendo adeptos entre os cristãos, o sistema é inviável e abominável aos olhos da fé, nas palavras de Énio Estanislau Gasda, autor do livro: “Economia e bem comum” (SP, Paulus, 2016).

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