Uma leitura teológica do Neoliberalismo
A inviabilidade da modernidade e da sua ramificação na economia, o
capitalismo, é a tese de não poucos autores hoje. A crítica social
do neoliberalismo que apresentamos nas semanas anteriores, apontou
para o rompimento do relato da razão neoliberal, apesar da atual
vitalidade capitalista que substitui governos legítimos, desvia
processos e legislativos e judiciais para estabelecer sua hegemonia,
organiza linchamento midiático e jurídico para eliminar seus
adversários com considerável sucesso. É evidente que o jogo em
percurso no Brasil visa não apenas para o controle do poder político
e econômico, mas também comandar a produção de narrativas da
realidade. Entretanto, essa realidade excruciante exige que a
teologia comprometida com o Reino de Deus não aquiesça a essa
brutalidade desumana.
Não é que os autores de tais exercícios estão introduzindo
alguma novidade, dado que Jesus de Nazaré fez assim (na sua práxis
libertadora) na Província de Palestina, que gemia sob o jugo de
imperialismo romano, há vinte séculos. É verdade que ele não nos
deixou um relatório, porém a ininterrupta tradição (oral e
escrito) que vêm até nós, da atuação dos seus seguidores que
continuaram sua obra, tira toda dúvida quanto ao cunho libertador da
sua práxis, numa situação muito semelhante a contemporânea. Sua
teologia era práxica; ele escolheu os pobres vítimas do sistema
vigente como seu lugar teológico. Ele fez uma abordagem fora dos
padrões aceitos pelos poderosos do seu dia, escutou “o grito da
terra e o clamor dos pobres” do seu tempo. Portanto, a leitura
teológica do sistema econômico começa a partir da perspectiva dos
empobrecidos de hoje baseando-se nos textos de Lc 4,18-19; Lc 6,20-26
e Mt 25,31-46 que nos contam da opção preferencial do Nazareno
pelos pobres e marginalizados.
Um sistema que inviabiliza a civilização fundamentada na
fraternidade e traz as marcas da injustiça e da destruição, como
ficou claro nas análises que já fizemos do capitalismo
transformado em neoliberalismo, pratica violência
institucionalizada, consolidando-se sobre a espoliação da mãe
terra e a morte dos pobres para que alguns poucos desfrutem da
riqueza. Não há como esperar um futuro melhor de tal sistema, nas
palavras do Papa Francisco e seu ilustre predecessor, João Paulo II,
pois existe o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas
neoliberais. O conflito provocado pela ganância irrestrita é
estrutural; o potencial de dissolução e de morte norteiam o
andamento deste modelo.
Por certo, o mercado existia antes do capitalismo, mas o
neoliberalismo, seu novo avatar, alimenta a idolatria do mercado, o
que é um pecado fundamental, nas palavras do Papa João Paulo II.
Para o Bispo de Roma, decisões aparentemente inspiradas pela
economia ou pela política apenas ocultam verdadeiras formas de
idolatria: do dinheiro, da ideologia, da classe e da tecnologia. Por
sua vez Papa Francisco completou esta avaliação ao dizer: “onde
há idolatria, apagam-se Deus e a dignidade do ser humano”.
Já em 2007 o Documento de Aparecida reconhecia a idolatria do
dinheiro como a causa primeira da deterioração da vida social e da
violência na América Latina e no Caribe (cf. DA nº.78). Aqui o
capitalismo é compreendido como um sistema alicerçado no pecado.
Por um lado, sua avidez exclusiva pelo lucro e, por outro , sua sede
de poder com o objetivo de impor aos outros a própria vontade, “a
qualquer preço” é pura absolutização dos comportamentos com
todas as consequências funestas possíveis. Ao rejeitar frontalmente
tal sistema que alimenta a idolatria, os cristãos estão sendo fiéis
a sua tradição anti-idolátrico (cf. Mt 6,24; Lc 16,13). No
capitalismo, “a adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex
32,1-5) encontrou uma versão nova e impiedosa do fetichismo de
dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem objetivo
verdadeiramente humano” (Papa Francisco, no “Evangelii Gaudium”,
nº. 55).
A incompatibilidade da teologia cristã com o capitalismo neoliberal
brota do Memorial da Páscoa de Jesus, a Eucaristia, ao passo que nós
estamos vivendo um momento de vislumbrar uma razão de mundo
pós-capitalista e pós-liberal. Jesus de Nazaré não foi, nem é,
um personagem inofensivo, neutro nem mesmo partidário do capital.
Ainda que capitalismo continue fazendo adeptos entre os cristãos, o
sistema é inviável e abominável aos olhos da fé, nas palavras de
Énio Estanislau Gasda, autor do livro: “Economia e bem comum”
(SP, Paulus, 2016).

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