Neoliberalismo, totalitarismo hipermoderno...
Nas últimas décadas, diante dos avanços da Esquerda, mesmo depois
da queda do Muro de Berlim, a Direita investiu pesadamente, nos
ambientes acadêmicos, para hegemonizar a ideologia neoliberal com
sucesso considerável. Ainda assim há críticos pensadores que
consideram neoliberalismo um perigo para a humanidade, assim como
constatamos no exame sucinto das características do capitalismo e
seu novo avatar, o neoliberalismo. Nós vamos expor aqui muito
resumidamente uma dessas avaliações críticas, com intuito de
contribuir ao diálogo democrático que procura superar o novo
totalitarismo vindouro.
A exposição é feita em três partes: (1) o neoliberalismo; (2)
estado capitalista; e por fim, (3) o capitalismo ou a democracia?
Para começar: o liberalismo é o fundamento teórico do capitalismo
atual, isto é, neoliberalismo. Não são poucos que opinam que
erguer um sistema de mercado (supostamente) autorregulado aniquila a
substância humana e natural e da sociedade. Isto, diante do
individualismo exacerbado que capitalismo prega.
(1) O liberalismo acompanha o capitalismo em todas as suas etapas. É
verdade que o “Keynesianismo” foi defensor de um papel mais ativo
do Estado na economia e priorizar áreas sociais como escolas,
estradas, e hospitais. No entanto, neoliberais da Escola de Chicago e
a da Áustria rejeitaram tal doutrina baseando-se nas antigas ideias
de “laissez faire”, afirmando que há apenas indivíduos e não
uma sociedade, além de eles negarem o conceito de interesse público.
Desde os anos de 1970 vem acontecendo a transição de Estado de
bem-estar social para um o Estado capitalista a mando do capitalismo
financeirizado, o sistema controlado por rentistas, especuladores,
banqueiros e instituições financeiras.
Um dos teóricos desta nova fase, Ludwig Heinrich Edler von Mises
(1881-1973) afirma que só no mercado “não controlado” o ser
humano pode encontrar sua liberdade na competição ilimitada. Sua
versão do neoliberalismo rejeita a ideia de justiça social e afirma
que não há lugar para políticas de redistribuição de riqueza. Os
princípios morais do cristianismo seriam desastrosas para o mercado.
Friedrich August von Hayek (1899-1992), outro teórico, vai bem mais
adiante e opina que políticas sociais fundadas na justiça social
são incompatíveis com o “Estado de Direito”. Reivindicações
igualitárias representam a inveja dos fracassados quanto ao sucesso
de algumas pessoas, um sinal de imaturidade intelectual, assumida
como doutrina social da Igreja Católica e uma fórmula que carece
qualquer significado.
(2) À luz dessas doutrinas, qual é a natureza do Estado
Capitalista? De acordo com Robert Nozick (1938-2002) o estado mínimo,
limitando suas funções a de proteção contra força, o roubo, a
fraude, de fiscalização do cumprimento dos contratos, é o ideal.
Um estado justo é aquele que não interfere nos direitos
fundamentais de liberdade, vida e propriedade.
Foi Milton Friedman (1912-2006) quem ajudou a convencer governos e
políticos a implantar “a agenda neoliberal” de deregulamentar
economias, abrir mercados nacionais para o capital, da austeridade
fiscal e das privatizações.
O Estado, uma instituição imprescindível, tem o papel de se
ajustar à economia para consolidar o capitalismo em seus
territórios. O cenário ideal é: todos os lucros e nenhuma
responsabilidade. O capitalismo controla o governo para garantir sua
sobrevivência e hegemonia. O neoliberalismo, por sua vez, desloca o
foco do poder da política para a economia de maneira radical. A
redução da política à força do dinheiro torna os governos imunes
a participação da sociedade civil. O mercado define as regras do
jogo e sua única ideologia é a acumulação ilimitada da riqueza.
(3) Diante de tudo isso nós somos desafiados a fazer uma escolha: o
capitalismo ou a democracia? Neoliberalismo é o termo que nomeia
perfeitamente a etapa atual do capitalismo. Para os neoliberais a
sociedade é apenas um grande mercado, composto de indivíduos
identificados como consumidores que calculam lucros e prejuízos em
tudo o que fazem. Isto permeia todos os aspectos da sociedade e vida
privada. A concorrência é o modo da organização social.
O mercado é o sujeito político que governa o mundo. Todos os
mecanismos do poder político (eleições, partidos, congresso, poder
executivo etc.) devem ser submetidos ao calculo econômico. Anseios
populares são abaixo dos mecanismos automáticos do mercado. O único
propósito da sociedade é a manutenção do próprio mercado.
Tal sistema produz sujeitos neoliberais que pautam suas relações
sociais segundo a lógica do custo-benefício. Este “neo-sujeito”
tem sua vulnerabilidade exposta de tal forma que, em sua luta
solitária pela sobrevivência, o colapso do seu “eu” pode
ocorrer a qualquer momento: resultam depressão, stress, esgotamento,
angústia e suicídio.
A democracia participativa é incompatível com o capitalismo. Os
ricos têm acesso privilegiado ao poder. As dimensões da vida
humana, consideradas mercadoria, estão fora do alcance das decisões
baseadas em outros critérios a não ser o lucro. Em fim,
democratizar é desmercantilizar a sociedade, o que levaria ao fim o
capitalismo!

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