A onda neoliberal e o Reino de Deus
Faz poucos dias que uma amiga, que passou alguns dias nos EUA em
Janeiro, partilhou comigo sua indignação ao ver a miséria dos
moradores de rua daquele país capitalista neste inverno. Atualmente,
os EUA é força motora maior da onda que forçosamente substitui
governos de tipo bem-estar social pelos que cumprem a “agenda
neoliberal”. No Brasil mesmo essa onda substituiu o governo
legítimo com colaboração do legislativo federal, que agora
desmonta do Estado de bem-estar social em prol de um novo tipo de
colonização ao cumprir a agenda neoliberal!
Essa mesma onda neoliberal conseguiu a quase total adesão do
judiciário brasileiro e a imprensa brasileira à sua cruzada de
criminalização dos seus adversários aplicando vultosas somas de
dinheiro oportunamente na forma de aumento de salários, subvenções
e auxílios etc.. As campanhas midiáticas que visa a eliminação
dos seus oponentes por linchamento judicial está bem avançada.
Diante de tudo isso o povo passa um momento de perplexidade. Essa
campanha também conseguiu reimplantar o sentimento de impotência,
que governo petista tinha alterado, numa boa parte da população
brasileira.
Hoje a crítica do capitalismo está fora de moda e o triunfalismo
neoliberal parece irremediável. Após a queda do Muro de Berlim e a
implosão dos Estados Comunistas, a Esquerda, quando não abraça o
capitalismo, limitou-se a almejar a ser melhor administradora do
mercado fazendo concessões paliativas às mazelas sociais. Neste
contexto é necessário dar início a uma reflexão cristã que
paulatinamente levaria a uma crítica teológica do capitalismo,
baseando-se nos valores do Reino de Deus que Jesus de Nazaré
anunciava. Ao mesmo tempo é preciso ter em mente que o capitalismo
tem sua própria história de, pelo menos, três séculos já.
Neoliberalismo é seu novo avatar iniciando-se nos EUA nos anos de
1930s.
A história mostra que os seguidores de Jesus de Nazaré têm
mostrado sua capacidade de agir como “sal da terra e luz de mundo”
em vários momentos ao longo dos vinte séculos da existência do
movimento cristão. Aqui na América Latina mesmo, aqueles que a
“lawfare neoliberal” hoje peleja eliminar, são frutos de um
momento de releitura das Escrituras e o repensar da vocação cristã,
realizados no contexto latino-americano durante os anos imediatamente
depois do Concílio Vaticano II, caracterizando a recepção
inculturada dos decretos do mesmo Concílio.
Mas, primeiro, é necessário traçar, mesmo muito resumidamente, o
percurso que o capitalismo atravessou desde seu surgimento no início
da modernidade europeia. Como um sistema, o capitalismo é sucessor
do mercantilismo. O capitalismo baseia-se na propriedade privada, a
posse dos meios de produção e de troca. Ele caracteriza-se, desde
cedo, pela sua busca de lucro, pela livre iniciativa individual e
pela concorrência livre. A palavra Capitalismo entrou no vocabulário
econômico e política na revolução industrial, na época em que
Karl Marx publicou sua obra principal “Das Kapital”.
A modernidade foi o resultado de duas revoluções: a revolução
econômica; e a revolução político-ideológica. A primeira
(revolução industrial) começou na Inglaterra no século 18. A
segunda revolução, isto é, a da político-ideológica,
concretizou-se na França (1789-1799). “O triunfo global do
capitalismo é o triunfo de uma sociedade que acreditou que o
progresso econômico repousava na competição da livre iniciativa
privada, de comprar tudo mais barato no mercado e vender mais caro”.
É notável que as mudanças ocorridas nos últimos trezentos anos
não significaram nenhuma ruptura daquele sistema que sucedeu a
cristandade feudal, o mercantilismo.
Aqui é conveniente lembrar do renascimento europeu, que passou
para a esfera econômica como o mercantilismo na época das grandes
navegações espanholas e portuguesas, dos descobrimentos
geográficos, a expansão territorial etc., transformou-se no
capitalismo. Essa transformação foi um evento gigantesco,
provavelmente o evento mais impressionante da história da
humanidade. Entrementes, a civilização baseada no capitalismo está
gerando desequilíbrios fatais e alarmantes no habitat humano. Neste
momento é necessário enumerar e elaborar os elementos essenciais do
capitalismo global, modelador da modernidade que, além da sua
dimensão econômica, tem sua antropologia, sua moral e seus
princípios próprios.

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