Sabedoria e a força
de resistência
O Livro de Sabedoria de Salomão é mais um exemplo de esforço
do povo judeu para resistir ao domínio cultural e econômico-financeiro quase
esmagador dos regimes helênico e romano durante os séculos 1 a.C e 1 d.C. A
obra manifesta capacidades extraordinárias do povo judeu: profundo conhecimento
das tradições judaicas; um notável conhecimento de aprendizado grego, uma
religiosidade e compromisso intenso com o Deus de Israel (cf. 3,9). Diante do avanço
imperialista aniquiladora do judaísmo, o autor procura persuadir seus
companheiros a permanecerem fiéis à sua antiga fé no Deus da revelação, ao
mesmo tempo aproveitarem ao máximo o que o helenismo tinha a oferecer.
Em 331 a.C. Alexandre, o Grande, construiu uma cidade
portuária na costa mediterrânea do Egito a qual deu seu nome. Em pouco tempo
Alexandria se tornou o mais importante centro cultural e educacional do mundo
helênico com uma população judaica numerosa. Embora os judeus fossem permitidos
manter sua identidade e eles participassem na vida cultural efervescente
alexandrina, sua insistência em se apegar a um Deus nacionalista gerou
polêmicas e perseguições. Diante das pressões multifaces aniquiladoras da
identidade judaica, muitos foram seduzidos a abandonar suas tradições. Em
resposta a essa crise é que foi escrito o livro de Sabedoria.
O autor não nos fornece dados biográficos, porém é possível identificá-lo
com um pensador religioso semelhante ao Coélet e ao Sirácida. Ele participa
vivamente nos debates intelectuais do seu dia, baseando-se nas tradições
judaicas para dar sua resposta. Entrementes, ele não se limita ao público
judeu, mas convida a todos para responder ao amor do grandioso e generoso Deus.
Sua estratégia combina a fé tradicional judaica com modos de expressão e
conceitos gregos. Seu sucesso na elaboração dessa extraordinária síntese efetivamente
tem enriquecido a humanidade toda.
O
início do regime romano no Egito (28 a.C.) é apontada como a época da redação do
Livro de Sabedoria de Salomão. Que ele foi composto em grego levou Martinho
Lutero não aceitá-la entre os livros “inspirados” na sua Bíblia, mas o livro é incluído
na Bíblia dos cristãos desde a antiguidade. O Livro é um exemplo de um autor
bíblico que levou a sério a cultura de sua época. Ele usa uma espécie de
exortação que visa convencer as pessoas a seguirem certa linha de conduta.
Outra técnica literária que ele usa é o flashback,
a técnica muito usada nos filmes e a televisão hoje; repetir ou aludir na segunda
parte do livro ao que foi falado na primeira parte do livro. Os estudiosos
chegam a identificar quarenta e cinco exemplos desta, o que afirma tanto a
unidade do livro como o espantoso talento literário do autor.
Outra
técnica de uso comum no livro é a ‘inclusão’. A repetição da mesma
palavra-chave ou expressão chave no começo e no final de uma seção para
demarcar as unidades distintas da estrutura da obra. Um bom exemplo ocorre na
repetição da palavra “justiça” nos VV.1 e 15 do capítulo 1. A técnica literária
de ‘diatribe’, um método de argumentação em que se cria um oponente imaginário
e passa a debater com ele. O capítulo 6, 9-11 apresenta o autor da Sabedoria se
dirigindo a um publico imaginário.
São dois níveis discerníveis da
dimensão libertadora no Livro de Sabedoria de Salomão; diante da hostilidade
dos não judeus e o desânimo e a apostasia dos judeus o livro representa um
exemplo de resistência às pressões imperialistas de domesticar o povo judeu. O
autor escreve com bastante criatividade para defender o valor e a integridade
de sua fé e de suas tradições. Com habilidade ele demonstra a compatibilidade
da religião judaica e da cultura com elementos essenciais da cultura dominante.
Sua insistência em afirmar que a sabedoria é um dom de Deus e não a realização
da inteligência e da razão humana é louvável. A sabedoria autêntica é aquela
que reconhece a soberania divina.
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