Estratégias de sobrevivência.
“Eclesiastico/Sirácida/Sabedoria de Ben Sira” é um dos
livros sapienciais encontrados na Bíblia da tradição católica, assim como os
grupos judeus falantes de grego tinham o incluído em seu cânon de escrituras.
Mesmo não aceitando sua canonicidade, muitas igrejas da tradição de reforma,
valorizam-no como escrito instrutivo e edificante.
Diferente dos outros livros do AT o autor se identifica
especificamente (cf. 50,27). Embora fosse da família de sacerdotes, era um
“escriba” que escolheu prestar alguma espécie de serviço ao governo e/ou
dirigia uma escola para filhos de famílias bastadas e influentes de Jerusalém,
(cf. 51,23). Era um “professor respeitado” da sua comunidade, ao mesmo tempo
seus comentários sobre as mulheres que refletem a mentalidade e a perspectiva
típicas do mundo antigo orientado para os homens, deixam muitos agastados hoje!
Provavelmente ele é o mais frágil autor bíblico, pois é muito criticado por ser
tão sincero e ingênuo; por isso há uma atraente vulnerabilidade humana cercando
o autor. Não há como negar que sua obra contém uma síntese consistente e
coerente dos ensinamentos sapienciais.
Há um consenso entre os estudiosos que a obra foi completada
por volta de 180 a.C. em Jerusalém, em hebraico, porém seu neto traduziu o
livro para o grego no ano 130 a.C. Palestina tinha passado das mãos dos
ptolomeus egípcios às reis seleûcidas de Antioquia. Modificações introduzidas
na economia puseram em perigo a unidade e a identidade da comunidade judaica,
que se mantinha devido ao seu compromisso com a ajuda mútua e as redes de
apoio. Os reis gregos permitiram, a princípio, que os judeus conservassem seus
próprios costumes e sua religião, mas exerciam sutis pressões a favor da adoção
dos hábitos gregos. As reações dos judeus a esse desafio variava entre
aceitação entusiástica ou resistência e rejeição encarniçada.
Sirácida identifica as duas crises enfrentadas pelo seu
povo: destruição dos laços familiares e tribais tradicionais pelas políticas
econômicas predatórias dos gregos; o atrativo dos modos de ser e da cultura
gregas. Frente a primeira ele enfatiza a formação e manutenção de vínculos
familiares e da solidariedade comunitária. Além disso, é imperativo assentar
todos os relacionamentos humanos no nosso relacionamento com Deus por meio da
imagem da Sabedoria (personificada). Diante da segunda ameaça o autor propõe o
uso de recursos e materiais gregos para exprimir ensinamentos judaicos; ademais
ele afirma a soberania divina a fim de se contrapor à ênfase grega na razão
humana: “O princípio da sabedoria é temer ao Senhor”.
A genialidade do Sirácida se revela em sua capacidade de
discernir os perigos que seu povo enfrentava sob a opressão imperialista. Seu
livro é um modelo para todo povo ameaçado por expansionismo capitalista
imperial. Ele propõe estratégias para combater a deterioração da família e os
laços humanos, e demonstra convincentemente a continuidade da viabilidade e da
relevância da cultura e da religião tradicionais de seu povo.
Nos dois movimentos da resposta às crises que seu povo passa
o autor revela uma dimensão libertadora. São estratégias para ajudar seu povo a
sobreviver e reagir às pressões opressivas espoliativas do regime helênico.
Sirácida usa as formas literárias típicas dos sábios como, provérbios, hino de
louvor, discursos, súplicas, listas ou onomásticas e a narrativa didática. O
livro apresenta três grandes divisões: 1,1-23,28; 24,1-43,33; 44,1-50,24 e, um
prefácio, uma conclusão com apêndices (50,25-51,30).
A grande obra de cinquenta e um capítulos recebeu apenas um
“olhar superficial” aqui. O livro aponta para as direções ulteriores que a
religião judaica seguiu, isto é, a sobreposição e fusão das tradições
sacerdotal, sapiencial, e profética etc. O trabalho de Sirácida representa um
esforço ousado e criativo de adaptar a religião e a sabedoria de seus ancestrais
a uma nova situação histórica, suscitando a esperança de libertação e a luta
para alcançá-la.

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