sexta-feira, 14 de julho de 2017

Os pequeninos privilegiados...


Os pequeninos privilegiados...

Hoje as pesquisas sobre a linguagem e suas implicações estão avançando muito e também rapidamente. Neste contexto a Bíblia, o livro sagrado dos Judeus e Cristãos, e a sua linguagem passam por análise minuciosa como uma obra literária. O entendimento e a interpretação da Palavra de Deus nas palavras dos homens têm dado largos passos nos últimos tempos por causa disso. Na sua totalidade este livro pode ser considerado uma meditação bem elaborada sobre a condição humana. Ele contém múltiplos gêneros literários, pois nenhuma situação humana é excluída do horizonte desta ‘contemplação’. Ao mesmo tempo essa reflexão é motivada pela consciência de Deus presente e atuante na história humana e propõe uma ideologia que pode até parecer tolice!

Geralmente a história humana conta a versão dos vencedores poderosos que eliminam forçosamente toda resistência à sua dominação. É paradoxal, dentro desta mesma história atua outra corrente que vai muito além da repressão dos mais fracos. A narrativa desta começa no Gn 12 com a história do chamado de Abraão para sair da sua terra e ir para uma terra prometida, dando início assim a algo novo na história humana. O horizonte dessa nova iniciativa é: “Javé viu que a maldade do ser humano crescia na terra e que todo projeto do coração dele era sempre mau” (Gn 6,5). O último episódio narrado neste respeito é “A Torre de Babel” (cf. Gn 11,1-9), um projeto grandioso que obrigou a Javé “confundir a língua” dos homens. 

Abraão, quando foi chamado para iniciar o novo projeto, já era de idade avançada, porém ele acreditou na promessa de Deus e saiu da sua terra para seguir um caminho desconhecido para o futuro. O resto do livro de Gênesis conta a história dos patriarcas que levaram para frente este novo projeto. O restante dos livros do AT narram os caminhos diversos e diversificados que este projeto novo percorreu ao longo das gerações até chegar “a plenitude do tempo” (Gl 4,4) nas palavras do Paulo Apóstolo.

O Evangelho de Mateus apresenta Jesus de Nazaré como filho de Abraão através da genealogia (cf. MT 1,1-17). Os evangelhos nos contam que este Jesus, além de ser um taumaturgo era um narrador de histórias encantadoras; ele passou sua vida do profeta itinerante, na Galileia, entre os mais fragilizados e os vulneráveis. Com sua práxis ele gerou entusiasmo inusitado no meio dos oprimidos, o que assustou as autoridades que se sentiram obrigados a eliminar este pregador inofensivo (aparentemente) que falava das aves do céu e os lírios do campo. Empregou a máxima violência, o império o crucificou por ser “Rei dos Judeus”.

Entretanto, nós não temos notícias de Jesus organizando ou inspirando uma revolução armada ou até mesmo resistência violenta contra ninguém, mesmo tendo uma representação bastante variada das camadas da sociedade palestinense entre seus seguidores. No que se refere à acusação de ser “rei”, os evangelistas nos informam que ele realizou uma entrada em Jerusalém aclamado rei pela multidão (cf.Jo 12,12-16) e mais adiante ele responde ao governador romano que seu reino não é deste mundo (cf. Jo 18,28-37).

O paradoxal na história da salvação/redenção/libertação está aqui: entrar no Reino de Deus que Jesus de Nazaré anunciava durante sua vida pública e agora no final da vida qualificada como “não é deste mundo”. Como entender este projeto? Na liturgia do domingo passado (09.07.17), na primeira leitura o profeta Zacarias convidava a cidade de Jerusalém a se alegrar pela chegada do seu rei montado num jumento(Zc 9,9-10), ao contrário dos reis que montam no cavalo, o animal da guerra. O trecho do evangelho lido na mesma liturgia apresentou Jesus agradecendo ao Pai por “... (esconder) estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25-30).



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