Os pequeninos privilegiados...
Hoje as pesquisas sobre a linguagem e suas implicações estão
avançando muito e também rapidamente. Neste contexto a Bíblia, o livro sagrado
dos Judeus e Cristãos, e a sua linguagem passam por análise minuciosa como uma
obra literária. O entendimento e a interpretação da Palavra de Deus nas
palavras dos homens têm dado largos passos nos últimos tempos por causa disso.
Na sua totalidade este livro pode ser considerado uma meditação bem elaborada sobre
a condição humana. Ele contém múltiplos gêneros literários, pois nenhuma
situação humana é excluída do horizonte desta ‘contemplação’. Ao mesmo tempo essa
reflexão é motivada pela consciência de Deus presente e atuante na história
humana e propõe uma ideologia que pode até parecer tolice!
Geralmente a história humana conta a versão dos vencedores
poderosos que eliminam forçosamente toda resistência à sua dominação. É
paradoxal, dentro desta mesma história atua outra corrente que vai muito além da
repressão dos mais fracos. A narrativa desta começa no Gn 12 com a história do
chamado de Abraão para sair da sua terra e ir para uma terra prometida, dando
início assim a algo novo na história humana. O horizonte dessa nova iniciativa
é: “Javé viu que a maldade do ser humano crescia na terra e que todo projeto do
coração dele era sempre mau” (Gn 6,5). O último episódio narrado neste respeito
é “A Torre de Babel” (cf. Gn 11,1-9), um projeto grandioso que obrigou a Javé
“confundir a língua” dos homens.
Abraão, quando foi chamado para iniciar o novo projeto, já era
de idade avançada, porém ele acreditou na promessa de Deus e saiu da sua terra para
seguir um caminho desconhecido para o futuro. O resto do livro de Gênesis conta
a história dos patriarcas que levaram para frente este novo projeto. O restante
dos livros do AT narram os caminhos diversos e diversificados que este projeto
novo percorreu ao longo das gerações até chegar “a plenitude do tempo” (Gl 4,4)
nas palavras do Paulo Apóstolo.
O Evangelho de Mateus apresenta Jesus de Nazaré como filho
de Abraão através da genealogia (cf. MT 1,1-17). Os evangelhos nos contam que este
Jesus, além de ser um taumaturgo era um narrador de histórias encantadoras; ele
passou sua vida do profeta itinerante, na Galileia, entre os mais fragilizados
e os vulneráveis. Com sua práxis ele gerou entusiasmo inusitado no meio dos oprimidos,
o que assustou as autoridades que se sentiram obrigados a eliminar este
pregador inofensivo (aparentemente) que falava das aves do céu e os lírios do
campo. Empregou a máxima violência, o império o crucificou por ser “Rei dos
Judeus”.
Entretanto, nós não temos notícias de Jesus organizando ou
inspirando uma revolução armada ou até mesmo resistência violenta contra ninguém,
mesmo tendo uma representação bastante variada das camadas da sociedade palestinense
entre seus seguidores. No que se refere à acusação de ser “rei”, os
evangelistas nos informam que ele realizou uma entrada em Jerusalém aclamado
rei pela multidão (cf.Jo 12,12-16) e mais adiante ele responde ao governador
romano que seu reino não é deste mundo (cf. Jo 18,28-37).
O paradoxal na história da salvação/redenção/libertação está
aqui: entrar no Reino de Deus que Jesus de Nazaré anunciava durante sua vida
pública e agora no final da vida qualificada como “não é deste mundo”. Como
entender este projeto? Na liturgia do domingo passado (09.07.17), na primeira
leitura o profeta Zacarias convidava a cidade de Jerusalém a se alegrar pela
chegada do seu rei montado num jumento(Zc 9,9-10), ao contrário dos reis que
montam no cavalo, o animal da guerra. O trecho do evangelho lido na mesma
liturgia apresentou Jesus agradecendo ao Pai por “... (esconder) estas coisas
aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25-30).

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