quarta-feira, 19 de julho de 2017

O sofrimento dos inocentes...

O sofrimento dos inocentes...

Diante de experiência da dor surge a pergunta: “por quê?”. Ela se torna agudíssima perante os sofrimentos de inocentes. Das civilizações antigas como a egípcia, a mesopotâmica e a indiana, indícios literários de como este, o sofrimento humano, foi captado, têm chegado a nós. Na tradição bíblica nós herdamos o livro de Jó que desenvolve uma reflexão sapiencial sobre o sofrimento de inocente, é disso que nós vamos tratar hoje.

A imagem de Deus pressuposta no livro de Jó é a de alguém que se relaciona com o ser humano, ainda que essa relação não fosse descrita com a palavra aliança. Jó chega a questionar este Deus sobre sua incompreensível experiência de vida que passa por sofrimento injusto. O livro é considerado ‘sapiencial’, pois a história de Jó funciona como uma parábola, uma maneira sapiencial típica, de proceder literário. O texto, em toda sua complexidade, faz com que as perguntas de Jó tornam-se nossas; nós saímos de sua leitura, imersos na perplexidade e na incerteza, de fato!

Embora a história de Jó tivesse sido ocorrido na época pré-mosaica, os estudiosos tendem datar a redação da obra no período exílico (587-559 a.C) ou do começo do período pós-exílico. Este período caracterizou-se por uma severa crise socioeconômica, pelas medidas novas que a administração imperialista persa introduziu na Palestina. Os opulentos agiotas judeus aproveitaram do momento, porém nem todos os ricos aderiram essa lógica cruel e escravizante do novo regime econômico, mesmo sofrendo a bancarrota em razão da sua piedade e da sua fidelidade aos requisitos da aliança.
Numa tal situação perguntas sobre a justiça de Deus e do significado do sofrimento dos inocentes se tornam urgentes. O indivíduo que age com fidelidade a aliança é vítima do infortúnio. Enquanto isso o que segue a lógica do enriquecimento e que explora habilidosamente seus compatriotas em apuros, em seu próprio benefício, fica ainda mais opulento e ocupa lugar de honra na sociedade. Onde está a justiça de Deus e por que “Jó” tem que viver na humilhação?

O autor do livro de Jó pode ser visto a si mesmo e ao seu papel refletido nos três amigos de Jó que vêm ensinar e iluminá-lo. Por pertencer à elite de sua comunidade confere-lhe a vantagem da instrução e tem condições de tratar do que está perturbando sua comunidade. Ele exerce também o papel de pastor, oferecendo consolo e orientação a seu povo, pois acima de tudo, se vive um momento de uma crise espiritual; as convicções tradicionais passam por revisões. Portanto, “Jó, o inabalável”, proporciona um modelo de fé e fidelidade, servindo como um farol de esperança.

Na sua forma literária o livro é considerado “sui generis” (impar em sua própria categoria). O autor se mostra um poeta habilidoso, capaz de usar a seu bel-prazer várias formas literárias a fim de tratar das questões e problemas da vida humana. O hino de louvor, o lamento individual, a linguagem de causas e o discurso, entre outras, destacam-se na obra. Embora o livro parecesse seguir uma clara lógica narrativa, as reviravoltas e mudanças de rumo desconcertantes nele existentes deixam o leitor perplexo. De acordo com um comentarista recente “O livro de Jó é uma sofisticada obra-prima destinada a envolver o leitor nas ambiguidades e incertezas do sofrimento (de Jó)”.

Por não encontrarmos nenhuma resposta clara e inteiramente satisfatória às nossas perguntas no livro, vou concluir com a paráfrase do Salmo 5 que o poeta nicaraguense Ernesto Cardenal fez como um exemplo de lamento dos povos latino-americanos:
“Ouve minhas palavras, Senhor
Ouve meus gritos
Ouve meu protesto
Porque não és um Deus amigo de ditadores,
nem partidário de sua política
a propaganda deles não o influencia
E não dás as mãos ao malfeitor...”.




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