O sofrimento dos inocentes...
Diante de experiência da dor surge a pergunta: “por quê?”. Ela
se torna agudíssima perante os sofrimentos de inocentes. Das civilizações antigas
como a egípcia, a mesopotâmica e a indiana, indícios literários de como este, o
sofrimento humano, foi captado, têm chegado a nós. Na tradição bíblica nós herdamos
o livro de Jó que desenvolve uma reflexão sapiencial sobre o sofrimento de
inocente, é disso que nós vamos tratar hoje.
A imagem de Deus pressuposta no livro de Jó é a de alguém
que se relaciona com o ser humano, ainda que essa relação não fosse descrita
com a palavra aliança. Jó chega a questionar este Deus sobre sua incompreensível
experiência de vida que passa por sofrimento injusto. O livro é considerado
‘sapiencial’, pois a história de Jó funciona como uma parábola, uma maneira
sapiencial típica, de proceder literário. O texto, em toda sua complexidade,
faz com que as perguntas de Jó tornam-se nossas; nós saímos de sua leitura, imersos
na perplexidade e na incerteza, de fato!
Embora a história de Jó tivesse sido ocorrido na época
pré-mosaica, os estudiosos tendem datar a redação da obra no período exílico
(587-559 a.C) ou do começo do período pós-exílico. Este período caracterizou-se
por uma severa crise socioeconômica, pelas medidas novas que a administração imperialista
persa introduziu na Palestina. Os opulentos agiotas judeus aproveitaram do
momento, porém nem todos os ricos aderiram essa lógica cruel e escravizante do
novo regime econômico, mesmo sofrendo a bancarrota em razão da sua piedade e da
sua fidelidade aos requisitos da aliança.
Numa tal situação perguntas sobre a justiça de Deus e do
significado do sofrimento dos inocentes se tornam urgentes. O indivíduo que age
com fidelidade a aliança é vítima do infortúnio. Enquanto isso o que segue a
lógica do enriquecimento e que explora habilidosamente seus compatriotas em apuros,
em seu próprio benefício, fica ainda mais opulento e ocupa lugar de honra na sociedade.
Onde está a justiça de Deus e por que “Jó” tem que viver na humilhação?
O autor do livro de Jó pode ser visto a si mesmo e ao seu
papel refletido nos três amigos de Jó que vêm ensinar e iluminá-lo. Por
pertencer à elite de sua comunidade confere-lhe a vantagem da instrução e tem
condições de tratar do que está perturbando sua comunidade. Ele exerce também o
papel de pastor, oferecendo consolo e orientação a seu povo, pois acima de tudo,
se vive um momento de uma crise espiritual; as convicções tradicionais passam
por revisões. Portanto, “Jó, o inabalável”, proporciona um modelo de fé e
fidelidade, servindo como um farol de esperança.
Na sua forma literária o livro é considerado “sui generis”
(impar em sua própria categoria). O autor se mostra um poeta habilidoso, capaz
de usar a seu bel-prazer várias formas literárias a fim de tratar das questões
e problemas da vida humana. O hino de louvor, o lamento individual, a linguagem
de causas e o discurso, entre outras, destacam-se na obra. Embora o livro parecesse
seguir uma clara lógica narrativa, as reviravoltas e mudanças de rumo desconcertantes
nele existentes deixam o leitor perplexo. De acordo com um comentarista recente
“O livro de Jó é uma sofisticada obra-prima destinada a envolver o leitor nas
ambiguidades e incertezas do sofrimento (de Jó)”.
Por não encontrarmos nenhuma resposta clara e inteiramente satisfatória
às nossas perguntas no livro, vou concluir com a paráfrase do Salmo 5 que o
poeta nicaraguense Ernesto Cardenal fez como um exemplo de lamento dos povos
latino-americanos:
“Ouve minhas palavras, Senhor
Ouve meus gritos
Ouve meu protesto
Porque não és um Deus amigo de ditadores,
nem partidário de sua política
a propaganda deles não o influencia
E não dás as mãos ao malfeitor...”.

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